Senhora Ministra,
Caros Amigos,
Dizer que estamos felizes,
minha mulher e eu, em recebê-la na Residência
da França é dizer pouco; nós
estamos encantados.
Encantados com seus amigos
do primeiro escalão, dentre os quais
quero saudar a Senhora Marisa Letícia
LULA DA SILVA, Primeira Dama, que nos honra
com sua presença. Queira receber, Senhora,
as minhas mais sinceras homenagens e sinta-se
à vontade nesta embaixada como em sua
casa.
Encantados também
com a circunstância, visto que a inclusão
na Ordem Nacional da Legião de Honra
é reservada, na França, àquelas
e àqueles que dão provas das
mais eminentes qualidades cívicas.
A Legião de Honra foi criada, como
se sabe, por Napoleão Bonaparte, em
mil oitocentos e dois e, desde então,
ela permanece como a mais alta distinção
civil e militar francesa. Entre os membros
da Ordem, encontramos militares, cientistas,
artistas, empresários, intelectuais...
Encontramos homens, mas também mulheres,
embora isso seja mais recente. Para dizer-lhes
tudo, o Presidente SARKOZY acaba de se recusar
a assinar a última lista de promoção
da Legião de Honra por achar que não
havia nela um número suficiente de
mulheres: obrigado portanto por me ajudar
esta noite a me destacar diante dele... Encontramos
por fim franceses, bem entendido, mas também
estrangeiros ou - para ser mais exato - amigos
da França: quando se é amigo
da França, nunca se é estrangeiro.
A esse respeito, eu não
poderia ocultar-lhes a emoção
que sentimos, minha mulher e eu, ao condecorar,
na semana passada, o ilustre arquiteto Oscar
NIEMEYER, a apenas três dias do seu
aniversário de cem anos. Essa condecoração
foi a mais bela homenagem da França
àquele que ela acolheu, como tantos
outros, nas horas negras da ditadura.
Por fim e sobretudo, estamos
encantados porque a pessoa que homenageamos
esta noite é de uma personalidade cativante
e eu gostaria de dizer-lhes por quê
em francês.
Senhora Ministra,
A Senhora é uma mulher
– o que todos podem constatar –
mas uma mulher que sempre soube voltar a mesma
exigência à sua feminilidade
e ao seu feminismo: duas qualidades que nada
têm de oposto, embora os misóginos
atribuam sempre mais importância à
beleza de uma inteligência reservada
e ao militantismo de uma feiúra devotada.
A Senhora foi diplomada
pelas melhores universidades de psicologia,
psicanálise e sexologia, áreas
estas que geralmente fazem rir aqueles mesmos
que delas, sem dúvida, teriam mais
necessidade e que comprovam o quanto seu olhar
sobre o mundo é livre e consciente:
livre de preconceitos, mas consciente da complexidade
dos recônditos da consciência
humana.
A Senhora é engajada,
ou, para ser mais exato, a Senhora dá
a impressão de que a vida não
vale ser vivida senão a serviço
de um engajamento: pela liberdade, pela igualdade,
pela justiça, pela fraternidade...
extraindo ao mesmo tempo desse engajamento
a força de seu impulso, a determinação
de sua ação e a energia de seu
destino.
A Senhora já assumiu
e está assumindo responsabilidades
que não são das menores: responsabilidades
no Congresso, que a reconheceu como uma parlamentar
entre os mais atuantes; responsabilidades
locais como prefeita de São Paulo –
mas, diante de uma megalópole tão
vasta, tão poderosa e ativa, será
que podemos falar ainda de responsabilidades
locais? - ; responsabilidades nacionais no
seio de seu partido político, de cuja
criação participou, bem como
à frente do Ministério do Turismo,
área na qual temos o prazer de trabalhar
juntos, já que o Brasil e a França
estão entre os países cuja indústria
turística é a mais ativa; responsabilidades
internacionais, enfim, posto que representa
muitas vezes seu país em instâncias
multilaterais, onde a voz do Brasil é
esperada e ouvida. Responsabilidades públicas,
mas também privadas: penso em sua família
e em todos os seus jardins secretos, que são
tão indispensáveis, com a condição
de permanecerem secretos, para o desabrochar
da intimidade do ser.
Por fim, a Senhora é
alguém que dá a impressão
de que, aconteça o que acontecer, o
amanhã conta mais do que o ontem. E
o amanhã são certamente ainda
mais combates políticos, debates de
sociedade, compromissos nacionais e locais.
Uma tal projeção no cerne da
ação fornece-lhe essa inesgotável
energia graças à qual a Senhora
defende suas convicções sem
compromisso, o que não significa sem
questionamento ou dúvida.
Caros Amigos,
Estas são algumas
das razões pelas quais pude dizer,
há pouco, que a sua personalidade era
cativante. Essas razões foram consideradas
suficientemente convincentes para que a França
sinta-se feliz em acolhê-la na mais
importante de suas ordens nacionais.
Permita-me portanto dirigir-lhe
agora a consagrada fórmula: Marta SUPLICY,
em nome do Presidente da República
Francesa, nós a nomeamos cavaleiro
da Legião de Honra.
Antoine
POUILLIEUTE
Embaixador da França