Ministério das Relações Exteriores

Gilles Jacob: “Cidadão Cannes”

Um olhar curioso e audacioso:
Gilles Jacob diante do cartaz do 60º Festival de Cannes, que reúne alguns dos artistas mais marcantes do cinema mundial: da esquerda para a direita, Penélope Cruz, Wong Kar-Waï, Souleyman Cissé, Jane Campion, Pedro Almodóvar e Gérard Depardieu.

É cada vez maior o número de esportistas franceses que se tornam conhecidos em esportes considerados até então inatingíveis, a começar pelo basquete, onde a classe de Tony Parker e seus colegas impressiona.

Gilles Jacob é considerado há cerca de 30 anos a alma do festival de Cannes, do qual foi eleito presidente em 2001. Retrato de um homem que passou mais de meio século a sorver com paixão os ares do cinema mundial.

“O cinema diverte. Ele também faz refletir sobre o mundo. Cannes é um equilíbrio frágil entre estas duas realidades.” Foi assim que, no dia 27 de maio de 2007, Jane Fonda concluiu a sexagésima edição do Festival Internacional de Cinema de Cannes. Na platéia, Gilles Jacob, o maior responsável por esse “frágil equilíbrio”, encarnava a discrição, como é de seu feitio. Em breve, ele festejará 30 anos de bons e leais serviços prestados ao “maior festival do mundo”. Trinta anos de uma paixão saudada pela imprensa, que lhe deu diferentes epítetos: “Senhor Cinema”, “Mister Cannes” ou, melhor ainda: “Cidadão Cannes”.

Quando nasceu o festival, em setembro de 1946, Gilles Jacob tinha 16 anos e estudava literatura no famoso colégio parisiense Louis-le-Grand. A tradição exigiria que sucedesse a seu pai em uma empresa familiar de pesos e medidas; o amor pelo cinema o fez mudar de caminho. Assíduo espectador dos cineclubes[1] que floresciam na França nessa época, aos 19 anos fundou uma revista de cinema.

Aproveitou uma viagem aos Estados Unidos para encontrar cineastas e publicou, em seguida, Le Cinéma Moderne[2], livro que lhe deu reconhecimento, permitindo que iniciasse uma carreira como crítico de cinema. Assistiu pela primeira vez, em 1964, ao festival de Cannes. Em 1976, fez parte da equipe do festival na qualidade de assessor do organizador geral do Festival, Maurice Bessy, a quem sucedeu nesse posto chave em 1978.

Testemunha e apoio ao cinema do mundo inteiro

Tornou-se, então, responsável pela seleção oficial. Um trabalho titânico cuja oportunidade soube aproveitar imediatamente para continuar sua obra como crítico. A princípio, como descobridor de talentos: em 1978 criou o prêmio da Câmera de Ouro, que recompensava um primeiro filme. Todos os anos, sem deixar de lado as grandes tendências do cinema mundial, esforçava-se para integrar à competição o maior número possível de países.

Em seguida, para defender a liberdade de expressão, criou o “filme surpresa”. A primeira obra selecionada foi, na primeira seleção, em 1978, o filme de Andrej Wajda, O Homem de Mármore que, na época, fora proibido pelas autoridades polonesas, tendo sido exibido na França em velhas "latas enferrujadas" e sob um falso título... Sob a direção de Gilles Jacob, o Festival libertou-se de toda e qualquer consideração diplomática, ganhando verdadeira independência.

A seleção, entretanto, não é tudo: sempre em busca de novas idéias, Gilles Jacob preocupou-se com a dimensão pedagógica do Festival, organizando homenagens e retrospectivas. O Festival tornou-se assim um trampolim para autores desconhecidos e um apoio inestimável para autores em dificuldades, seja por razões políticas ou financeiras.

Desde 2001, Thierry Frémaux é encarregado da seleção, pois Gilles Jacob foi nomeado presidente do Festival. Mantém, no entanto, um papel proeminente no planeta cinema. Sabendo, sempre, encontrar o equilíbrio entre audácia e tradição, divertimento e cultura, utilizando seus já famosos dotes diplomáticos com flexibilidade, elegância... e firmeza. Seu mandato termina dentro de dois anos, mas ninguém consegue imaginar seu adeus ao Festival.

[1]. Clube de apreciadores de cinema

[2]. Le Cinéma Moderne (O Cinema Moderno), de Gilles Jacob, editora Serdoc, Lyon, 1964.