Ministério das Relações Exteriores.

Sophie Calle
Sua vida: sua obra

Sophie Calle diante da obra criada para ela pelo americano Frank Gehry,
O Telefone (2006), em Paris.

Depois de Annette Messager em 2005, Sophie Calle, cinqüenta e três anos, representa a França na Bienal de Veneza[1], que ocorre na cidade italiana de 10 de junho a 21 de novembro de 2007. Uma artista ímpar que coloca em cena sua intimidade e se imiscui na vida dos outros para fazer dela as obras que ajudam a viver.

Ela já tinha ido a Veneza quase clandestinamente, pois seguia, desde Paris, um homem que ela fotografava sem que ele soubesse (Suite Veneziana, 1980). Em seguida, trabalhou mais um pouco ali, ainda no anonimato, fotografando os quartos e os efeitos produzidos pelos habitantes quando ausentes (O Hotel, 1981). Hoje, Sophie Calle volta à cidade da laguna pela porta da frente, como artista convidada do Pavilhão Francês na Bienal.

Ela escolheu como objeto de sua criação em Veneza um episódio sofrido de sua vida: “Recebi uma mensagem eletrônica anunciando uma ruptura. Não sabia como responder. Era como se não fosse a mim endereçado. E terminava com as seguintes palavras: ‘Cuide de si’. Segui o conselho ao pé da letra. Pedi a 107 mulheres escolhidas por suas profissões, para interpretarem a carta sob um ângulo profissional. Analisá-la, comentá-la, dançá-la, cantá-la. Dissecá-la. Esgotá-la. Compreender por mim. Responder por mim. Um modo de dar um tempo para o fim. No meu ritmo. Cuidar de mim”, escreve em seu Livro de Sophie Calle (Ediora Actes Sud, Arles, 2007).

As fotos e vídeos da instalação Prenez soin de vous (Cuide de si) mostram as 107 mulheres – anônimas ou famosas – trabalhando: latinista, palhaça, dançarina indiana, filósofa, vidente, jogadora de xadrez, atriz, medievalista, policial, exegeta talmúdica, tradutora de surdo-mudos, cantora, diplomata, escritora, etc. Uma criminologista faz um retrato falado do ex-amante, uma estudante faz uma redação, uma caçadora de talentos estuda sua candidatura, uma jornalista redige uma nota para uma agência, etc.

Para exorcizar suas dores de amor, Sophie Calle pediu que 107 mulheres, anônimas ou conhecidas, interpretassem a carta de rompimento que ela recebera de acordo com suas profissões. Ela as filmou ou fotografou. Essa instalação, apresentada na Bienal de Veneza em 2007, foi batizada
de “Cuide de si”. Abaixo: uma comissária, uma dançarina indiana e uma vidente.

Convocar o acaso e espreitar a ausência

Ao expor sua intimidade e imiscuindo-se na dos outros ao mesmo tempo, Sophie Calle começou fotografando pessoas na rua (Filatures parisiennes – Espreitas parisienses, 1978/1979) ou dormindo em sua cama, dentre os quais o ator Fabrice Luchini (Les Dormeurs – Os Dormentes, 1979). Em seguida, ela deixa-se seguir por um detetive, confrontando em seguida o relatório com as notas de seu diário (La Filature – A Espreita, 1981). Desde então, não parou mais de mostrar sua própria vida e a dos outros, convocando o acaso, segundo as regras que ela mesma criou, em uma obra abundante e multiforme, entre o foto-romance, o diário íntimo, confissão e cadernos de viagem.

Quando o escritor americano Paul Auster inspira-se nela para sua personagem Maria em Leviathan (1993), ela duplica o jogo, indo viver em Nova Iorque como Maria, e em seguida, moldando-se às “Instruções pessoais de Sophie Calle a fim de melhorar a vida em Nova Iorque”, redigidas por Auster, a seu pedido (Gotham Handbook, 1994) para que a ficção encontrasse a realidade.

Em 2002, durante a primeira “Virada Cultural” parisiense, ela recebeu, deitada em uma cama no último andar da Torre Eiffel, os visitantes que deviam mantê-la acordada, contando-lhe histórias (Quarto com vista). Em 2006, no trajeto do novo bondinho parisiense, sua performance foi telefonar de vez em quando para um orelhão (O Telefone, obra do arquiteto americano Frank Gehry, uma escultura em forma de flor instalada na ponte Garigliano) e falar com quem atendesse.

A retrospectiva dedicada a ela no Centro Georges-Pompidou em 2003-2004, em Paris, M’as-tu vue (Você me viu – pergunta sem ponto de interrogação) revelou sua constância na espreita da ausência e na busca da catarse pela arte. O filme No Sex Last Night (1992) e o livro Douleur exquise (Dor rara)[2], escrito entre1983-2003, já estavam baseados na narrativa de rupturas ou de decepções amorosas.

Ao mesmo tempo autora e personagem

Precursora da exposição espetacular do íntimo, hoje banalizada nos programas de reality-show ou nos blogs e vinda, segundo a socióloga Anne Sauvageot, da “midiacultura”[3], Sophie Calle embaralha ainda mais as cartas ao integrar a suas obras o próprio processo de sua elaboração. Assim, Prenez soin de vous (Cuide-se) ocupa o espaço graças ao artista plástico francês Daniel Buren, que ela encontrou por meio de um classificado (em que procurava um curador “entusiasmado” e “com referências”).

Ao mesmo tempo sujeito e objeto de sua obra, autora e personagem, Sophie Calle abole as fronteira entre o real, o representado e o ficcional, até provocar uma espécie de vertigem nesse jogo de espelhos que ela mostra a si mesma e a nós: onde está a vida, onde está a encenação, onde está a arte?

Monica Valby, jornalista


Para ir além:

www.labiennale.org

Em Veneza, Sophie Calle apresenta, paralelamente, uma segunda exposição totalmente dedicada a sua mãe, de quem filmou os últimos instantes de vida, e explica: “Mostrar essas imagens para mim é uma homenagem”.

[1]. Grande encontro internacional de arte contemporânea, cada país presente tem seu pavilhão, instalados em jardins próximos à laguna.

[2]. Douleur exquise (Dor rara), que conta uma viagem ao Japão em 1984, foi remontada por Frank Gehry, de 22 de junho a 9 de setembro de 2007, na cidade de Luxemburgo.

[3]. Autora de Sophie Calle. L’Art caméléon, (Sophie Calle. A arte camaleão). Editora PUF, Paris, 2007.