| Rougui
Dia: sua culinária é “uma
história de integração”

Aos
trinta e um anos, Rougui Dia é uma das
poucas mulheres chefs de cozinha de um grande
restaurante francês: restaurante gastronômico
Petrossian, inaugurado em 1999, em cima da célebre
e sofisticada loja.
De porte altivo
e silhueta delicada de dançarina, a jovem
prodígio pode orgulhar-se de seu percurso
incomum: francesa de origem senegalesa, essa
filha de um operário vindo à França
nos anos 1960 para trabalhar em uma usina de
Neuilly-Plaisance foi iniciada ainda bem cedo
nas sutilezas dos sabores: “ Todas as
noites minha mãe cozinhava pratos tradicionais
franceses e especialidades africanas, nunca
congelados!”, lembra, com uma pitada de
nostalgia.
Rougui começou
sua aventura culinária aos treze anos,
dia em que substituiu sua mãe no forno
para preparar para seus sete irmãos o
“latiéré khako”, um
prato peul (da África Ocidental) feito
com sêmola e espinafre. Essa primeira
tentativa foi um verdadeiro sucesso: “Meus
irmãos me cumprimentaram. Me dei conta
de que a cozinha não era necessariamente
um fardo”, confessa a moça, que
logo abandonou a idéia de se tornar estilista
para se dedicar à culinária.
Um percurso
impecável, mas não sem armadilhas
Depois de
concluir um curso profissionalizante com bons
resultados, ela se depara com a dificuldade
de encontrar onde estagiar e com a rivalidade
de alguns colegas que usaram de todos os meios
para desestabilizá-la, em um meio machista
no qual poucas mulheres são aceitas.
Obstáculos que ultrapassou graças
a sua determinação e seu temperamento
forte. Graças também a algumas
pessoas que encontrou: o chef pâtissier
Philippe Conticini e o chef Sébastien
Faré, que lhe deu um emprego em seu restaurante
antes de levá-la para o Petrossian, em
2001. Lá, ela passa por todos os serviços,
do salão à cozinha. Foi em 2005
que se consagrou: Armen Petrossian – atual
dono russo-armênio do restaurante fundado
por seu pai em 1920 –, a nomeia chef e
lhe passa as rédeas de uma equipe de
dez pessoas. Ela recebe carta branca para reinventar
o menu.
No início
um pouco hesitante, Rougui Dia encara o desafio.
Inspirando-se nas cozinhas senegalesa, indiana,
antilhesa e nas tradições culinárias
caucasianas, ela mistura sabores e temperos
e cria novos sabores: “ Minha culinária
é uma história de integração.
Misturo as comidas com meu gosto e minha cultura,
cavando em minhas lembranças de infância”,
confessa. No prato, os resultados são
surpreendentemente imaginativos: camarões
do Irã ao curry acompanhados
de espinafre e de kacha[1],
risoto ao caranguejo e à poutargue[2]...
Aquele que
lhe deu a oportunidade não se arrepende:
“Quis quebrar com a tradição
que pressupõe que um chef deve ser um
homem nascido em berço de ouro, dando
a oportunidade de alcançar o sucesso
a uma moça que não é uma
herdeira como são Hélène
Daroze e Anne-Sophie Pic”.
Grande admiradora
do célebre chef Bernard Loiseau, falecido
em 2003, e que veio cumprimentá-la na
cozinha, Rougui Dia gostaria de ministrar cursos
para abrir as portas a outras mulheres e, quem
sabe, abrir um dia seu próprio restaurante.
Audrey Levy,
jornalista
[1].
trigo grelhado e defumado.
[2].
produto à base de ovas de peixe salgadas
e secas.
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