| Aquecimento
climático. Reagir antes que seja tarde
demais

Em
2100, a temperatura da superfície do
globo deve aumentar entre 2 e 4oC, provocando
desequilíbrios climáticos que
combinarão inundações
com secas. Aqui, na Índia.
Batizada
de “Cidadãos da Terra”,
a Conferência de Paris, iniciativa do
presidente francês Jacques Chirac, reuniu
150 participantes de 60 países nos
dias 2 e 3 de fevereiro de 2007. Ela foi concluída
com um apelo à criação
de uma verdadeira organização
internacional na área do meio ambiente.
Uma decisão ainda mais urgente face
à publicação de um relatório
que não deixa dúvidas, em 1o
de fevereiro de 2007, realizado pelo grupo
mundial de peritos – Giec[1]
– sobre o aquecimento climático.
Após
a primeira parte do quarto relatório
do Giec, não há mais dúvida
quanto à existência do aquecimento
climático, nem quanto à responsibilidade
das atividades humanas. A comunidade científica
– 500 peritos mundiais concluíram
o texto – calculou o aquecimento climático
na superfície da Terra entre 1906 e
2005, confirmando sua amplitude: uma elevação
de 0,74 graus. Algo nunca visto antes em toda
a história do clima!
Uma constatação
alarmante
A
temperatura na superfície do globo
deve aumentar, até 2100, entre 2 e
4°C e o nível dos mares elevar-se-á
entre 28 e 43 centímetros. Todos os
peritos prevêem eventos cada vez mais
extremos, como a multiplicação
das ondas de calor e das precipitações
no hemisfério Norte e o agravamento
das secas no Sul. Entre 1 e 3 bilhões
de indivíduos poderão ser atingidos
pela falta de água. Quanto à
intensidade dos ciclones – as duas próximas
partes do relatório Giec[2]
deverão trazer mais informações
a esse respeito –, teme-se que ela aumente
e, então, segundo Jean Jouzel, um dos
membros do Giec, “dois milhões
de pessoas terão de mudar-se”.
Por uma
governança ecológica mundial
A
Conferência de Paris pediu que “o
Programa das Nações Unidas para
o meio ambiente (PNUE) seja transformado em
uma verdadeira organização internacional”[3].
“Assim como existe uma para a educação,
a ciência e a cultura, com a Unesco,
para a saúde, com a OMS e para o comércio,
com a OMC”, explica Laurent Contini,
subdiretor da Direção das Nações
Unidas no Ministério das Relações
Exteriores.
Com
500 acordos, 18 agências, programas
ou instituições, pois, o meio
ambiente sofre com a fragmentação
dos centros de decisão, com a ausência
de uma política forte e coerente e
com as fraquezas estruturais do PNUE[3].
Este representa apenas 58 países e
seu orçamento – 130 milhões
de dólares – é insuficiente
para financiar seus programas, que dependem
de contribuições voluntárias.
Daí a idéia promovida pelo presidente
Jacques Chirac desde 2003 de se criar uma
governança mundial e anunciar, em setembro
de 2006, a realização de uma
conferência para pô-la em funcionamento.
“Um
evento bastante estimulado, certamente, pelos
previsíveis resultados dos trabalhos
do Giec e o alerta lançado pelo economista
britânico Nicholas Stern em outubro
de 2006, que, em seu trabalho, avalia em 5.500
bilhões de euros o custo da inação
na luta contra o aquecimento climático”,
ressalta Laurent Contini.
E
depois da conferência? “Mobilizamos
aqueles que se convenceram, por volta de cinqüenta
países, para constituir um “grupo
de Amigos” informal que se reunirá
em breve no Marrocos, com o objetivo de se
tornar um grupo de trabalho formal dentro
das Nações Unidas. Mas, para
isso, será necessária a adesão
de uma centena de países para que tenhamos
maior peso, e possamos propor uma recomendação
à Assembléia Geral, chegando,
assim, a uma resolução”.
Um verdadeiro combate conduzido pela França
com entusiasmo e convicção tendo
a esperança de mobilizar sobretudo
os Estados Unidos e a Austrália.
Compromisso
ecológico
“Nós
inscrevemos, desde julho de 2005, a redução
das emissões de CO2 por quatro em uma
lei sobre a energia, o que equivale a uma
redução de 75% até 2050”,
explica-se na Subdireção do
Meio Ambiente do Ministério das Relações
Exteriores.
A
França, aliás, está envolvida
em várias campanhas de sensibilização
do grande público e tomou medidas incitativas,
sobretudo em favor das energias renováveis.
A luta contra o aquecimento climático
também está no centro das prioridades
da Europa (ver quadro).
Quanto
aos países em desenvolvimento, consciente
de que eles não têm condições
de fornecer os mesmos recursos, a França
estimula todas as medidas de ajuda e adaptação
às mudanças climáticas:
programas de investimento, sobretudo subsaarianos,
mecanismos de desenvolvimento limpo (MDP),
que permitem a um país industrializado
investir em uma solução energética
limpa em um país em desenvolvimento.
A luta contra o aquecimento climático
não se limita às fronteiras.
Mélina
Gazsi, jornalista
A Europa na
vanguarda
Desde a entrada
em vigor do protocolo de Kyoto, em
fevereiro de 2005 – que pede
aos países desenvolvidos que
reduzam a emissão de gases
responsáveis pelo efeito estufa
em uma média de 5,2% ao longo
do período de 2008-2012, a
França esclarecia: “Kyoto
é apenas um primeiro passo.”
Dois anos mais tarde, os 27 países
da União Européia vão,
concretamente, mais longe. Em 9 de
março de 2007, em Bruxelas,
eles definiram a política de
clima/energia posterior a 2012, estabelecendo
a redução das emissões
de gases de efeito estufa a, no mínimo,
20% e fixando em 20% o índice
das energias renováveis de
hoje a 2020.
“O
acordo de Bruxelas, ressalta um diplomata
francês, é uma forte
mensagem às indústrias,
a fim de incitá-los a continuar
modificando sua atitude e suas escolhas
em favor de investimentos ecológicos.”
M.
G.
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[1].
Giec é o Grupo
Intergovernamental de Peritos sobre a Evolução
do Clima. Essa organização foi
implantada em 1988, a pedido do G7 (grupo
dos 7 países mais ricos: Estados Unidos,
Japão, Alemanha, França, Reino-Unido,
Canadá, Itália), pela Organização
Meteorológica Mundial e pelo Programa
das Nações Unidas para o Meio
Ambiente (PNUE).
[2].
A primeira parte é
relativa à constatação
científica do aquecimento climático,
a segunda, ao impacto deste e a terceira,
às perspectivas. Estas últimas
foram publicadas respectivamente em abril
e maio de 2007.
[3].
A Organização
das Nações Unidas (ONU) dispõe
atualmente apenas do PNUE, criado em 1972,
com sede em Nairóbi (Quênia).
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