| Pierre
Michon, ou a escrita redentora

Considerado,
de maneira unânime, como um dos autores
mais importantes da literatura francesa contemporânea,
Pierre Michon conta, através de uma dezena
de livros de fraseado denso e lírico,
sua luta para se tornar escritor, o processo
de criação e a infinita graça
recebida de seus mestres cujos nomes são
Faulkner, Beckett, Rimbaud, Balzac, Hugo e Flaubert.
Por
muito tempo, Pierre Michon definiu-se como “o
escritor que não escreve”, tamanho
era seu encantamento pelo esplendor da escrita,
paralisado pelo medo de nunca poder se igualar
à perfeição das obras que
tanto admira; sobretudo à perfeição
do homem “das solas de vento” (Rimbaud),
cuja obra Michon descobrira na escola, em uma
cidade da Creuse (centro da França),
nos anos 60. “Foi na época em que
comecei a pensar como um poeta maldito: queria
escrever, tinha a certeza de que não
poderia fazer qualquer outra coisa, mas não
conseguia”, relembra o autor àqueles
que o questionam sobre seu percurso de escritor
atípico.
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Busca do sentido
estético e do sentido, simplesmente.
Depois, aconteceu
o milagre das Vidas Minúsculas
que publicou aos trinta e nove anos,
em 1984. Michon inteiro está
nessa obra, nesse primeiro livro, nessa
linguagem luminosa de fraseado compacto
e denso, que serve para restituir a
vida arrancada a sua insignificância.
Narrativa quase autobiográfica,
Vidas Minúsculas retrata, nos
interstícios de oito quadros,
a pequena gente do campo, onde Michon
cresceu, e a inesperada realização
do destino de escritor do autor. É
uma obra-prima que se inscreve na linhagem
dos maiores, em particular de Beckett
e Faulkner, que ajudaram Michon a salvar-se
das alienações e abrir
seu caminho através de uma escrita
exigente, obcecada pelas misteriosas
correspondências entre a vida
e a arte.
Essa busca
pelo sentido estético –
e pelo sentido, simplesmente –
atravessa a dezena de obras que foram
publicadas por Pierre Michon desde 1984.
Textos em parte ficcionais, em parte
históricos, dedicados aos pintores
(Goya, Watteau, Van Gogh) e aos escritores
(Balzac, Faulkner, Rimbaud) que ele
venera e cujos percursos individuais
ajudam a explorar os temas importantes
para o autor: a vaidade e a necessidade
da representação, os mistérios
da criação. A obra desse
escritor atípico também
tem fragmentos de romances (La Grande
Beune – A Grande Beune –
e Le Roi du Bois – O Rei do Bosque)
que são narrativas curtas do
universo rural e do campo.
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Em 2002, recebeu
o prestigiado prêmio Dezembro
por Abbés (Padres) e Corps du
Roi (Corpo do Rei), dois textos breves,
como são todas as obras de Pierre
Michon, surpreendentes pelas afetação
e concisão. Dedicado aos autores
fetiches do autor, Corps du Roi volta
a tratar do processo da escrita, sob
o prisma do mito do corpo duplo do rei,
um sagrado e eterno, outro físico
e destinado à decomposição.
Da mesma forma, o sentido da verdadeira
obra literária sobrevive às
contingências históricas
e temporais em que, entretanto, está
a sua fonte, parece sugerir Michon,
leitor dos grandes mestres da literatura,
que são verdadeiros protagonistas
desta fábula.
L’Empereur
d’Occident (O Imperador do Ocidente),
publicado em 1989 e que acaba de ser
lançado em edição
de bolso, leva-nos ao século
V dC, seguindo os passos de um imperador
romano fantoche. Através da história
trágica desse personagem que
não soube ser imperador e assumir
seu destino, Michon transforma seus
próprios medos do fracasso e
da inconcludência, dos quais a
escrita o salvou, em uma metáfora
obsessiva de nossa condição
humana.
Ler
Pierre Michon
Pela editora Gallimard (Paris): Vies Minuscules
(1984) e Rimbaud le fils [Rimbaud, o filho](1991).
Pela
editora Verdier (Lagrasse): Vie de Joseph
Roulin [Vida de Joseph Roulin](1988),
Maîtres et serviteurs [Senhores
e Serviçais] (1990), La Grande
Beune (1996), Le Roi du Bois (1996), Mythologies
d’Hiver [Mitologias de Inverno](1997),
Trois Auteurs [Três Autores] (1997),
Corps du Roi (2002), Abbés (2002),
L’Empereur d’Occident (2007).
Tirthankar
Chanda, professor universitário
e jornalista
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