| A
nova era das Ciências Humanas
Entrevista com
Sylvie Mesure e Patrick Savidan

Os
grandes modelos que estruturavam as ciências
humanas nos anos 1970 terminaram. Entre as diferentes
disciplinas, o trabalho de reflexão concentra-se
hoje em torno de temas novos (globalização,
trabalho, mestiçagem cultural, relações
entre os sexos ou as gerações,
educação, etc.) e passa pelo estudo
de campo para se tentar apreender um mundo mais
complexo.
Antropologia,
Economia, Geografia, Filosofia... Como estão
as Ciências Humanas hoje? Algumas respostas
com a socióloga Sylvie Mesure[1]
e o filósofo Patrick Savidan[2],
co-diretores do ambicioso Dicionário
das Ciências Humanas, publicado pela editora
Presses Universitaires de France.
Na introdução
de sua obra, os senhores afirmam que “entramos
completamente em uma nova era das Ciências
Humanas”. Por quê?
Patrick
Savidan: Na França, as Ciências
Humanas viveram um período de fausto
nos anos 70. Nessa época, floresceram
os grandes mestres e os importantes paradigmas
(marxismo, estruturalismo, funcionalismo, etc.).
Acredito que esse tempo está definitivamente
encerrado. Provavelmente, não haverá
mais modelos tão amplos (e tão
arrogantes!) em relação ao real.
Esses modelos, com efeito, não permitiam
discutir o mundo em sua complexidade. O sentido
manifesta-se melhor, hoje, por meio da confrontação
de diferentes perspectivas disciplinares, mais
do que por um esquema com a pretensão
de explicar tudo a partir de um número
limitado de leis.
Sylvie
Mesure: Não existe mais, por sinal,
a grande disciplina, como foram outrora a Lingüística
e a Economia. As disciplinas estão mais
em tensão, em articulação
umas com as outras. Os pesquisadores gastam
menos seu tempo com querelas feudais. Claro,
as dissensões ainda existem, mas o meio
da pesquisa é bem menos reacionário
do que antes. O trabalho de reflexão
libertou-se. Os cientistas voltaram ao trabalho
de campo para tentar apreender um mundo cada
mais complexo.

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Surgiram novos temas
de pesquisa nesse contexto?
S.
M.: Nos anos 80, quem falava
de globalização? Ninguém.
Desde então, os economistas,
os juristas, os geógrafos...
apropriaram-se dessa questão,
pois era necessário pensar essa
evolução e suas conseqüências.
As noções de fronteira,
mestiçagem e identidade cultural
colocam-se, hoje, em termos muito distintos.
A crescente individualização
da sociedade mudou completamente o ponto
de vista sobre o trabalho e a família.
Foi necessário repensar as definições
de classe social, velhice, relações
entre gerações, etc, e
propor novos elementos de análise.
P.
S.: As Ciências Humanas
também estão confrontadas
às descobertas feitas pela biologia,
sobretudo no que diz respeito ao funcionamento
do cérebro. Estas reanimam debates
tão fundamentais quanto a concepção
do homem, a liberdade, a responsabilidade,
a autonomia...
Existe uma especificidade
da pesquisa francesa na área
das Ciências Humanas?
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P.S.: A
pesquisa internacionalizou-se bastante.
Por isso é difícil comparar
os contextos nacionais, pois todo mundo
alimenta-se da pesquisa um do outro. Uma
especificidade talvez manifesta-se ainda
com relação à História,
área em que a escola francesa permanece
muito dinâmica. Ela produz muitas
novidades metodológicas. Nosso
país também tem uma forte
tradição nas Relações
Internacionais e uma Geografia potente
e inovadora. Há, além disso,
uma abordagem especificamente francesa,
multidisciplinar, em torno da noção
de solidariedade. Os trabalhos de Robert
Castel, Serge Paugam e Pierre Rosanvallon
são muito interessantes. Eles permitem,
por exemplo, pensar as transformações
do sistema de proteção social
em um contexto globalizado.
As
Ciências Humanas sempre foram acusadas
de estar fora da realidade. Isso ainda
ocorre?
P.
S.: As
Ciências Humanas compreenderam que
deveriam sair da torre de marfim, de seus
esquemas puramente teóricos. Há
pontos de passagem muito mais fáceis
que outrora no sentido das aplicações
possíveis. A Sociologia da Educação,
por exemplo, alimenta reflexões
que podem inspirar as políticas
públicas. Da mesma forma, os trabalhos
do economista Philippe Askenazy ou do
psiquiatra Christophe Dejours sobre o
sofrimento no trabalho permitiram uma
certa conscientização. Não
podemos esquecer que uma das particularidades
das Ciências Humanas é intervir
nas questões que demandam deliberações
democráticas.
S.
M.: Se
as Ciências Humanas reconhecem as
profundas mudanças da sociedade,
elas também têm influência
sobre essa mesma realidade. Ao trabalhar
sobre a sexualidade, as relações
amorosas, a distância entre a realidade
e o discurso sobre igualdade homem-mulher...,
pesquisadores com grande visibilidade
como os sociólogos Jean-Claude
Kaufman ou François de Singly nos
questionam sobre o modo como nos comportamos
no dia-a-dia, no âmbito do casal
ou em família.
Emmanuel
Thévenon, jornalista
Jean-Pierre Vernant, helenista
resistente
Em 9
de janeiro de 2007, faleceu uma
grande figura das Ciências
Humanas. Nascido em Provins (Seine-et-Marne),
em 1914, Jean-Pierre Vernant era
um jovem professor de Filosofia
quando explodiu a Segunda Guerra
Mundial. Sua coragem e eficiência
levaram-no a assumir responsabilidades
cada vez maiores na Resistência.
Com o nome de coronel Berthier,
dirigiu, em 1944, a região
sudoeste das Forças Francesas
do Interior.
Depois
da guerra, Jean-Pierre Vernant
entrou para o Centro Nacional
da Pesquisa Científica
(CNRS), fundando, em seguida,
o Centro de Estudos Comparados
sobre as Sociedades Antigas, em
1964. De 1974 a 1984, ocupou a
cátedra dos Estudos Comparados
das Religiões Antigas no
Collège de France. Seus
trabalhos transformaram o olhar
sobre o homem e o mundo da Grécia
antiga. Eles trataram principalmente
do mito, da passagem do mito ao
discurso racional, do nascimento
da polis democrática, da
religião como universo
mental, das interpretações
do social e do religioso, etc.
E.
T.
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Um
dicionário-bússola
Cerca
de 350 autores franceses e estrangeiros
foram mobilizados para redigir
essa obra de 1.300 páginas
publicada sob a direção
de Sylvie Mesure e Patrick Savidan.
As 565 entradas refletem as orientações
e questões, além
da fecundidade dos trabalhos realizados
desde os anos 80. Múltiplas
indicações remissivas
e dois catálogos permitem
uma navegação fácil
entre uma noção
e outra, de uma síntese
a um ensaio.
E.
T.
Dictionnaire
des Sciences Humaines (Dicionário
das Ciências Humanas), ed.
PUF, coleção «
Quadrige », Paris, 2006,
35 €.
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Bibliografia
Les
Origines de la pensée grecque [As
origens do pensamento grego](1962); Mythe
et pensée chez les Grecs [Mito
e pensamento nos gregos](1965); Religions,
histoires, raisons [Religiões,
história, razões](1979);
L’Individu, la mort, l’amour.
Soi-même et l’autre en Grèce
ancienne [O indivíduo, a morte,
o amor. Si mesmo e o outro na Grécia
antiga] (1989); Entre mythe et politique
[Entre mito e política] (1996).
[1].
Sylvie Mesure,
socióloga, é diretora de
pesquisa no CNRS. Dirige a revista Comprendre
[Compreender] e publicou várias
obras, sobretudo sobre a obra do filósofo
alemão Wilhelm Dilthey, de quem
é a editora na França.
[2].
Patrick Savidan,
filósofo, professor da Universidade
de Paris-IV Sorbonne, é autor de
vários artigos sobre a justiça
social, as desigualdades, o pluralismo
cultural. Ele é presidente do Observatório
das Desigualdades ().
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