Ministério das Relações Exteriores

 

O vinho francês reconquista o mundo

A baga da uva, açucarada e refrescante, é mais ou menos aromática em função do solo, do terreno e da cepa. Ela constitui a base alcoólica do vinho.

País do vinho por excelência, a França continua a ser um sonho para os amantes de grands crus[1]. Diante do crescimento considerável de seus concorrentes, os vinhos franceses também passaram por grandes transformações que já começam a dar seus frutos.

Instalado nos arredores de Marselha por volta de 600 anos a.C., o cultivo da videira espalhou-se por toda a Gália depois da chegada dos romanos. Desde então, a variedade de terroirs[1], a multiplicidade de procedimentos, as infinitas diferenças entre uma encosta[1] e outra, de uma propriedade a outra, fizeram da França a terra ideal para o vinho. Prazer do gastrônomo, bebê-lo é um gesto festivo, convivial e refinado, um ato de civilização. Aliás, para a pergunta “Ser francês para você, é antes de tudo...?” [2], a resposta “Apreciar um bom vinho” vem logo após os óbvios “Ter nascido na França” e “Falar francês”.

Um fato cultural e econômico

A importância desse produto traduz-se também em termos econômicos. As vinículas[1] francesas ocupam 900.000 hectares, ou seja, 11% da superfície das terras ocupadas por vinhedos. E se o vinho francês não ocupa mais o primeiro lugar em volume (48 milhões de hectolitros por ano), ele mantém sua supremacia em valor. Seus reputados grands crus de Bourgogne e Bordeaux são facilmente exportáveis a preços que, por vezes, desafiam a razão. Na região de Bordeaux, o ano de 2005, por exemplo, ficará marcado pela produção de um millésime[1] excepcional. O Château-Ausone, primeiro grand cru a ser classificado como Saint-Émilion, foi colocado no marché primeur[1] a 750 euros a garrafa, alimentando uma especulação desenfreada. Duas semanas mais tarde, sua cotação ultrapassava os 1.000 euros…

A procura pelos grands crus não faz, contudo, com que sejam esquecidas as dificuldades que vive a vinicultura francesa. Enquanto o consumo mundial aumenta a cada ano, na França assiste-se, contrariamente, a uma constante diminuição deste. “Bebe-se menos, mas melhor”, explica o sommelier[1] Emmanuel Delmas. O vinho de mesa, que acompanhava antigamente a refeição diária, não está mais em voga. Foi substituído, em grande medida, por garrafas de qualidade bastante superior, abertas durante as festas familiares ou entre amigos. Trata-se, em geral, de vinhos de appellation d’origine contrôlée (AOC). Uma menção que indica que o produto corresponde a critérios de produção precisos: local de produção, rendimento mínimo, encépagement[1], grau alcoólico mínimo, técnicas de cultivo particulares, etc.

Novos desafios

No mercado exportador, os vinhos franceses sofrem a dura concorrência das garrafas produzidas nos Estados Unidos, na Austrália, na África do Sul, na Argentina, no Chile, etc. Esses países produzem, em milhares de hectares, vinhos padronizados, simples, mas sem erro. Com uma produção industrializada, técnicas enológicas (como lascas de madeira) dão a uma matéria prima sem grande originalidade sabores novos e sedutores (aromas doces e de baunilha, amadeirado, etc.) adaptados a um consumo rápido e frívolo, com uma boa relação qualidade-preço.

Ameaçada em seu próprio território e fora dele, a vinicultura francesa demorou a reagir. As conseqüências foram a superprodução, a queda nas vendas, a destruição de lavouras... Em dez anos, o número de produtores caiu de 197.000 para 103.000.

Entretanto, o ramo começou a se reestruturar e a inovar. Prova são os resultados surpreendentes do champanha. Suas vendas ultrapassaram em 2006 320 milhões de garrafas, com a metade destinada à exportação. Os vinhos tranqüilos (não espumantes) voltam também a reerguer-se. Ao todo, as exportações vinícolas chegaram a 8,7 bilhões de euros em 2006 – o equivalente à venda de 147 Airbus A320 –, com um aumento de 13 % em relação ao ano anterior. Os vinhos franceses chegaram até a recuperar parcelas do mercado norte-americano (que será, no futuro, o maior mercado consumidor) e a França mantém-se como principal fornecedora dos mercados emergentes como Índia, Rússia, China e Coréia.

Para chegar a esses resultados, os vinicultores franceses foram brindados com dois millésimes de grande qualidade em 2005 e 2006. Eles também baixaram os preços, criaram produtos regionais (como o AOC Languedoc) ou vinhos de marca originais. Desse modo, a distribuidora de Gabriel Meffre oferece vinhos de festa especialmente destinados à exportação, com nomes evocadores para os ouvidos anglófonos, como “Marilyn Merlot”. Vinhos nascidos de novas cépages[1] também surgiram – notadamente uma nova categoria chamada de Vignobles de France – que podem ser produzidos a partir do mesmo cépage, vindo de diversas regiões.

Na França, a época das colheitas situa-se entre os meses de setembro e outubro. Trata-se de uma atividade rude e intensa, para a qual os viticultores contratam muitos trabalhadores temporários, mas que acontece freqüentemente em um ambiente festivo.

O gosto do vinho varia infinitamente. Ele é apreciado primeiramente com os olhos, admira-se sua roupagem. Em seguida, sente-se seu aroma com o nariz, antes de levá-lo à boca para ser degustado.

Produto de destaque

“A questão para a França, assinala Gilles Le Blanc, diretor do Centro de Economia Industrial, é adaptar-se a essa dinâmica industrial para se aproveitar dela, preservando ao mesmo tempo seus nichos, suas marcas de prestígio e a diversidade da oferta, pois a procura mundial privilegiará a diferenciação. Essas qualidades serão um enorme trunfo”. O ramo aposta no crescimento do vinho orgânico e na reforma em curso das AOCs (hoje são 470), que deverá exigir mais rigor para a atribuição da menção.

Tantas mudanças levam Philippe Casteja, presidente da Federação dos Exportadores de Vinho e demais bebidas alcóolicas da França, a dizer: “Sou extremamente otimista com relação aos próximos vinte e cinco anos. O vinho será um dos nossos produtos de destaque”.

O crescimento do vinho orgânico

Ainda marginal, o vinho orgânico (sem agrotóxicos), produzido por apenas 1.500 produtores, ocupa menos de 1,5% da superfície das vinícolas francesas. Mas esse mercado está em plena expansão, crescendo 10% ao ano. Exportando 70% de sua produção, o ramo ocupa espaço crescente nos mercados europeu, americano e japonês.

E. T.


Vinho e saúde

Segundo o professor Henri Joyeux (cancerólogo, cirurgião e especialista na relação entre nutrição e câncer), “uma taça de bom vinho (100 ml, de preferência tinto), no meio de cada refeição, é ótima para a saúde, estimulando o apetite, facilitando a digestão, a absorção dos alimentos e evita a constipação; diminui os problemas de memória, fluidifica o sangue e pode prevenir doenças cardiovasculares ou suas recidivas”. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o consumo cotidiano máximo de três taças de vinho para os homens e de duas para as mulheres.

E. T.


Léxico

Cépage (tipo de uva): nome dado aos milhares de variedades da vinha. Cada cépage (chardonnay, merlot, pinot, etc.) possui suas próprias exigências, dando ao vinho características próprias.

Encépagement: tipos de uva que formam uma vinícola.

Grand cru: certificação que os grandes vinhos franceses recebem.

Marché primeur: a compra em “primeur” consiste em adquirir, a um preço reduzido, grands crus classificados dois anos antes de sua entrega. Não confundir com os “vins primeurs”, bebidos algumas semanas após as colheitas, como o Beaujolais Nouveau.

Millésime: ano de colheita da uva, marcado em geral sobre a garrafa.

Terroir: meio ambiente (natureza do solo, condições climáticas, sol, caves, leveduras naturais, etc.) no qual se desenvolve uma vinha.

Vignoble (vinícola): plantação de vinhas.

Sommelier: pessoa encarregada dos vinhos em um restaurante.

[1]. Ver léxico.

[2]. Segundo pesquisa realizada em maio de 1987 sobre “Os franceses e sua história” para o número 100 da revista mensal L’Histoire.