Ministério das Relações Exteriores

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Piaf para sempre

Uma atriz (Marion Cotillard) habitada por sua personagem inteiramente artística e incandescente

Uma figura fascinante, mortificada, genial e extremamente humana, Édith Piaf está de volta à cena com o filme La Môme (A Menina), de Olivier Dahan e não pára de iluminar a história da canção francesa.

A vida de Édith Piaf é um verdadeiro romance. Uma história digna de Émile Zola, mistura de sombras e luzes, alegrias e lágrimas. Drama pleno de impulsividade apaixonada e histórias de corações despedaçados. Aquela que era chamada de La Môme” [a menina] é uma personagem única. Faltava ainda o filme que recuperaria sua essência: não falta mais. Com La Môme, o diretor Olivier Dahan finalmente dá vida ao mito. O mito imortal de uma intérprete integralmente personificada em suas músicas, que são ouvidas até hoje e que continuam a irradiar para além de nossas fronteiras.

Édith Piaf nasceu em 1915, nas ruas de Belleville, bairro popular de Paris, filha de um contorcionista de circo, convocado para o front da Primeira Guerra Mundial, e de uma cantora de rua. Jogada de lá para cá entre os pais, criada durante um tempo pela avó, dona de um prostíbulo, Piaf conheceu a miséria e a infelicidade desde a infância. O filme parte desse período inicial feito de abandonos e rupturas e narra como, aos dezoito anos, ela foi descoberta por um diretor de cabaré que a viu cantando em uma esquina.

Cartaz do filme La Môme, lançado no início de
2007 na França

Entrega em cena

Sua ascensão foi irresistível, das ruas parisienses às prestigiadas salas de espetáculo de Nova Iorque, onde triunfou no final dos anos 40. Inveteradamente apaixonada por homens e pela vida, teve que absorver os golpes do destino, entre eles a perda do amor de sua vida, o campeão de boxe Marcel Cerdan, morto em um acidente de avião em 1949. Morrendo com apenas 47 anos, desgastada pelos excessos, pelas drogas, pelo álcool e por sua entrega em cena, exaurida como uma anciã.

“Édith Piaf fascina porque sua música é tão emocionante quanto sua vida foi apaixonante, explica Philippe Crocq, co-autor de La Vie pas toujours rose d’Édith Piaf [A vida nem sempre cor-de-rosa de Édith Piaf] (ed. Du Rocher, Paris, 2007). Ela é o símbolo de uma época, de uma idade de ouro e sua vida é um verdadeiro drama. Ela cantava aquilo que vivia.” Suas músicas mais famosas deram a volta ao mundo: La Vie en Rose e Hymne à l’Amour (que ela mesma escreveu com sua amiga e pianista de sempre, Marguerite Monnot), além de Padam… Padam…, Mon Manège à Moi, Milord ou Non, Je Ne Regrette Rien, que refletem sua vontade de viver a vida, apesar de tudo, a cada instante, a qualquer preço. Seu grande talento, segundo Philippe Crocq, também foi “ter reconhecido as grandes canções que lhe ofereciam os autores, por vezes até desconhecidos”. E ter lançado jovens artistas como Yves Montand, Charles Aznavour e Georges Moustaki.

O “fenômeno Piaf”

Para encarnar Édith Piaf, Olivier Dahan escolheu Marion Cotillard (ver Label France n° 61), imensa pelo talento que empregou para “tornar-se” a intérprete de Mon Dieu. “Estrei em osmose com Piaf, adorei ser ela, explica a atriz. Li muito, vi os filmes em que Piaf trabalhou, as entrevistas na televisão, suas apresentações... Também fiz aulas de canto para compreender sua técnica de respiração, de movimentação. Impregnei-me de Édith Piaf.” O resultado, unanimemente aplaudido pela crítica e com mais de três milhões de espectadores na França, é surpreendente. Olivier Dahan, que optou pela subjetividade, faz um retrato da artista muito humano e moderno.

Muito esperado, o lançamento de La Môme, no início de 2007, é seguido por um verdadeiro “fenômeno Piaf”, marcado sobretudo pela publicação de novas biografias, entre elas uma assinada por Ginou Richier, amiga e confidente da artista (Piaf, Minha Amiga, ed. Denoël, Paris, 2007)e o lançamento de vários CDs, dentre os quais a trilha sonora do filme (pela EMI). Um roteiro turístico especial seguindo os passos de Piaf também foi criado pela prefeitura de Paris (consultar o site: www.cinema.paris.fr). Um entusiasmo que reacende a chama transmitida de geração em geração, pois, lembra Philippe Crocq, “ela viverá tanto quanto as suas músicas.”

Pierre Langlais, jornalista

No caminho aberto por La Môme..

Na trilha de La Môme, um outro gênero ainda mais dançante e cantado volta às telas de cinema francesas este ano: a comédia musical. Christophe Honoré, diretor de Dans Paris [Em Paris] (com Romain Duris), resolveu, assim, contar uma história de amor entre Ludivine Sagnier (8 Mulheres) e Louis Garrel (Os Sonhadores) em quatorze músicas, marcando sucessivamente encontro, paixão e brigas. Les Chansons d’Amour (As Canções de Amor) inscreve-se na tradição dos filmes de Jacques Demy que, de Guarda-Chuvas do Amor a Une Chambre de Ville [Um Quarto na Cidade], passando por Les Demoiselles de Rochefort [As Senhoritas de Rochefort], inventou a comédia musical à francesa.

Outro projeto bastante musical, J’Aurais Voulu Être un Danseur [Gostaria de ser dançarino], terá Vincent Elbaz (Ma Vie en l’Air) [Minha Vida no Ar], gerente de uma videoteca, lançando-se no mundo dos espetáculos depois de ter assistido a Cantando na Chuva...

P. L.