| Rap,
hip-hop, slam: um cenário eclético
Zoom sobre
as grandes famílias do planeta rap

Mesclando
rap, slam e jazz, com referência à
canção francesa, Ab Al Malik
é umas das revelações
de 2006.
Nascido
nos guetos negros americanos nos anos 70,
o rap desembarcou nas ondas francesas em 1984.
Mas foi só no final da década
que um rap especificamente francês surgiu
com as primeiras improvisações
no rádio dos grupos NTM, Assassin e
do cantor MC Solaar, cujas letras engajadas
decodificavam os males da sociedade: racismo,
precariedade e violência.
Nos anos
90, o gênero cindiu-se em várias
vertentes: o rap contrário ao sistema,
com reivindicações por vezes
violentas (NTM, Ministère Amer, etc.);
um rap comercial e dançante (Alliance
Ethnic, Ménélik, etc.), desprezado
pelos puristas; enquanto um rap responsável
e poético (MC Solaar, Iam, etc.) abria
uma terceira via. A partir de 2000, o rap
enriqueceu-se ainda mais com o surgimento
de novos artistas e a democratização
de estilos como o slam, poesia contemporânea
declamada em cena.
Os bem-comportados
Graças
a seu primeiro CD, que vendeu 400.000 exemplares,
Grand Corps Malade transformou um gênero
confidencial – o slam – em um
fenômeno de grande público. No
disco Midi 20 (2006), esse jovem de vinte
e nove anos escande seus poemas urbanos à
capella*, abordando os mais diversos temas,
como a exclusão social, o amor e os
testes a que a vida nos confronta. As palavras
são contundentes, mas o humor não
perde o otimismo. Uma sede de viver que Grand
Corps Malade tira de sua história pessoal:
paralisado durante dois anos em conseqüência
de um acidente esportivo, ele conseguiu voltar
a andar. Completamente conquistado por sua
singularidade, o meio profissional deu a ele
dois prêmios Victoires de la Musique:
melhor artista e melhor álbum do ano
de 2006 na categoria revelação.
Na mesma
linha, Abd Al Malik faz papel de filósofo
dos tempos modernos. Esse artista de origem
congolesa, que pôs um ponto final em
seu passado tumultuoso (na juventude, oscilou
entre a delinqüência e o extremismo
religioso) defende hoje um rap pacifista,
que prega a tolerância e incita ao diálogo
entre os homens. Seu estilo musical mescla
rap, slam e jazz, com referências às
figuras lendárias da canção
francesa, como Jacques Brel. Seu segundo disco,
Gibraltar, foi consagrado como “o melhor
álbum de música urbana”
de 2006, durante o último Victoires
de la Musique.
Menos
presente na mídia, Rocé também
defende um rap dito “consciente”.
Símbolo vivo da mestiçagem cultural
(tendo, ao mesmo tempo, origens argelina,
russa, argentina, judaica e muçulmana),
ele aborda com força, mas cuidadosamente,
seus temas prediletos: passado colonial, imigração
e identidade. No cruzamento entre hip-hop
e jazz, seu último disco, Identité
en Crescendo (2006), inova musicalmente.

Keny
Arkana, Oxmo Puccino e a compilação
Planète Rap
Os provocadores
Encabeçando
a lista dos rappers franceses mais controversos,
está Joey Starr. O grupo NTM, que formou
com Kool Shen em 1989, é emblemático
desse rap contrário ao sistema dos
anos 90. Oito anos depois do fim do grupo,
Joey lançou seu primeiro disco solo,
Gare au Jaguar, em outubro de 2006. Apesar
de seu discurso ser bastante virulento, ele
desenvolveu uma consciência cidadã,
convidando os jovens a votar.
Visto
como “menino mau” na meio do rap
francês, Booba é um dos maiores
vendedores de discos da França. Seu
terceiro álbum, Ouest Side (2006),
vendeu mais de 200.000 cópias. Booba
é freqüentemente associado ao
estereótipo do “rapper bandido”
à americana, fazendo apologia à
violência e ao tráfico. Um discurso
voluntariamente cínico, que acusa a
sociedade de não oferecer, segundo
ele, outra escolha aos excluídos do
sistema.
O
rap no feminino
Famosa
desde o final dos anos 90, Diam’s contribui
para a feminização dos temas
do rap francês. Esta jovem de vinte
e seis anos de origem cipriota conseguiu impor
sua energia e sua escrita incisiva em um meio
dominado por homens. Em Brut de Femmes (sucesso
do ano de 2003), não temeu romper o
tabu da violência conjugal e do sexismo
da periferia. Em 2006, Diam’s engaja-se
de novo, atacando o mal-estar social e acusando
a extrema direita (Dans ma Bulle, melhor venda
de álbuns de 2006, com 600.000 exemplares
vendidos). Personalidade íntegra e
generosa, Diam’s transcendeu as fronteiras
do rap transformando-se em porta-voz de toda
uma geração.
Muitas
vezes comparada a Diam’s por seu temperamento
combativo, Keny Arkana, marselhesa de vinte
e quatro anos, revelada em 2006, define-se
como “uma contestatória que faz
rap”. Em seu primeiro disco oficial,
Entre Ciment et Belle Étoile, esta
militante anti-globalização,
“marcada a ferro quente” por uma
infância difícil, expressa sua
raiva. Ela denuncia as desigualdades em escala
planetária, mas também volta
seu olhar para a juventude dos bairros abandonados.
Uma artista em carne viva, cujo talento promete.
O rap tem…
Versão
jazz: Oxmo Puccino
Figura
de destaque do rap parisiense nos anos 90,
conhecido por seus “freestyles”
(ou improvisações) no rádio,
Oxmo Puccino fez sua grande volta ao cenário
musical em 2006, com o lançamento de
Lipopette Bar. Esse disco jazzístico
foi composto com a colaboração
dos quatro músicos do grupo francês
Jazzbastards. Desenhando um universo metafórico,
Oxmo Puccino mergulha o ouvinte num ambiente
noturno de cabaré. Cada título
conta uma histórica que põe
em cena personagens diretamente saídos
de um filme policial em preto e branco.
Versão
pop: TTC
Depois
de nove anos de existência, o grupo
TTC continua a cultivar um estilo pop de “grande
público”, muito distante dos
discursos engajados. 3615 TTC, lançado
no início de 2007, tem letras leves,
impregnadas de um machismo que adere facilmente
à pele do rap, acompanhadas por ritmos
eletrônicos.
Versão
tecno: DJ Mehdi
Compositor
hip-hop, autor de músicas de grandes
nomes do rap, como Akhenaton ou MC Solaar,
DJ Mehdi orientou-se para a música
eletrônica. Lucky Boy, lançado
em 2006, revela uma música na qual
confluem funk e tecno.
Na Internet:
sites oficiais dos artistas, nos quais há
biografias, fotos, trechos de músicas,
vídeos, fóruns, etc.
Abd
Al Malik:
Diam’s:
Grand Corps
Malade:
Iam:
Keny Arkana:
Oxmo Puccino:
Rocé:
* Sem acompanhamento
de instrumentos.
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