| O
rock enfim francês

“Folk-rock
com inspiração americana no
tocante às músicas e loucura
poética francesa no tocante às
letras, a banda Dionysos é inigualável
nos palcos.”
Com o sucesso
de Noir Désir e Louise Attaque, o rock
francês acabou encontrando sua cara.
Desde o início de 2000, várias
e inusitadas experiências renovam sem
parar um cenário em plena ebulição.
Há muito tempo, John Lennon resumiu
a questão com a fórmula mortal:
“O rock francês é como
o vinho inglês”. Quarenta anos
depois do lançamento de Sgt Pepper’s,
dos Beatles, a França pode parecer
ainda estar no primeiro estágio do
rock, com o surgimento de um rock de subúrbio
chique criado por grupos adolescentes como
Naast, Second Sex, Les Plastiscines, que procuram
combinar o espírito altivo dos jovens
parisienses arrogantes dos anos 60 com o vigor
elétrico do rock anglo-americano da
mesma época.
Os observadores
mais críticos avaliam que, mesmo depois
de ter conseguido importantes conquistas territoriais
graças à música eletrônica
e à famosa “French Touch”
[ver artigo sobre a música eletrônica],
a França voltou aos seus eternos complexos
em relação ao rock ao invés
de explorar sua diferença.
Lá
onde menos se esperava
A menos
que se considere o rock, como em todo o mundo,
como um termo genérico ao qual agreguem-se
todas as formas de música popular.
Nesse caso, o melhor do rock francês
estaria lá onde menos se esperava:
na famosa música eletrônica,
hoje mais aberta, graças a bandas como
Phoenix ou Air. Os primeiros, autores de três
álbuns que oscilam entre o pop ultra-melódico
inspirado pelos anos 70 americanos e um rock
diferente no estilo de The Strokes, conseguem
ocupar um espaço no cenário
internacional, onde suas origens francesas
encontram-se totalmente dissipadas.
Idem para
o duo Air, que pertence à mesma turma
e cujos álbuns e diversos projetos
paralelos (músicas, filmes ou balés)
chegam a uma espécie de universalismo
que faz deles os herdeiros de Serge Gainsbourg
– ainda mais depois de terem composto
e produzido um álbum com sua filha,
Charlotte, em 2006 [] – e de Pink
Floyd.
Em menor
medida, um outro duo, batizado de Aaron, que
acaba de lançar seu primeiro álbum
na esteira de um inesperado sucesso, o single
U-Turn (Lili), também faz um tipo de
mistura de identidade ao flertar com o trip-hop.
Outro
duo, desta vez misto, o Cocoon propõe
um folk-pop despojado, também em inglês,
que o levou a conquistar o cobiçado
prêmio do concurso “Aqueles que
precisamos descobrir” (Ceux qu’il
faut découvrir – CQFD) organizado
todo ano pela revista Les Inrockuptibles.

A dupla AaRON
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Lirismo
literário e rock visceral
A
mais sólida e duradoura tendência
do rock francês continua sendo
a que deve seu surgimento à banda
Noir Désir, ou seja, o encontro,
ou até mesmo colisão,
de um certo fraseado literário
e lírico com as energias renováveis
do rock, do folk e do punk.
A
banda Luke, com seu segundo álbum
(La Tête en Arrière, 2004),
que vendeu na França 200.000
cópias, inscreve-se nessa linha,
com os amplificadores no volume máximo
e as vozes rasgadas. Em turnê
com a banda amiga, o Deportivo, cujo
primeiro trabalho também fez
muito sucesso, comprovaram juntos, em
2006, a possibilidade de existência
de um rock visceral francês, livre
das revoltas pós-adolescentes
e cuja verdade sem máscara está
no palco.
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Os tablados
nos quais saltam feito um exército
de molas enlouquecidas também
é o lugar preferido do Dionysos
– banda francesa inigualável
no palco– para dar destaque
às canções já
turbulentas de seus CDs, esse folk-rock
de inspiração americana,
mas alimentado pela loucura poética
francesa à Raymond Queneau.
Mais realistas
e ao mesmo tempo utópicos,
os textos de Mickey 3D são
de uma dinâmica musical em que
se combinam com muita habilidade de
maneira um tanto astuta o nervosismo
do rock e as luzes do pop com o rigor
tradicional da canção
francesa.
Quanto às
mulheres, enquanto a Rita Mitsouko,
banda de referência dos anos
80 liderada por Catherine Ringer,
volta à cena, a emancipação
do rock revela-se, com a radiante
Grande Sophie (Et Si C’était
Moi, 2004) e a nervosa Mademoiselle
K (Ça Me Vexe, 2006). Duas
alforriadas, mais mandonas do que
obedientes, respectivamente inspiradas
em Chrissie Hynde (The Pretenders)
e PJ Harvey.
No setor
dos solitários, Benjamin Biolay,
que foi precipitadamente identificado
como parte da nova canção
francesa (por causa de suas inspiradas
colaborações com Keren
Ann, Henri Salvador e Françoise
Hardy), cria, por sua vez, um rock
sofisticado que se inspira tanto em
Gainsbourg quanto na new wave sintética
de Taxi-Girl, pioneira do gênero
na França. Em seus dois últimos
trabalhos (À l’Origine,
2005, e o próximo Trash Yéyé,
a ser lançado em setembro de
2007) encontram-se alguns toques hip-hop
perfeitamente integrados aos seus
textos. Por si só, ele já
bastaria para desmentir hoje John
Lennon.
Christophe Conte,
jornalista da revista semanal Les
Inrockuptibles
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Mademoiselle
K
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As
bandas Luke e Deportivo juntas no palco
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