Ministério das
Relações Exteriores

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Canção francesa: a "Nouvelle Vague"

Acima, o tórrido Cali, à esquerda, o descolado Katerine e à direita, a petulante Olívia Ruiz,
três revelações da música francesa

Em contínua renovação, a canção francesa dos anos 2000 é a metamorfose do vocabulário herdado de seus precursores e inscreve-se em uma perspectiva contemporânea, tanto do ponto de vista das letras, quanto das músicas.

Foi necessário esperar por muito tempo para que as inovações da Nouvelle Vague do cinema francês dos anos 60 chegassem à canção. Tanto pela leveza das técnicas empregadas, quanto pelos temas – que capturam a emoção íntima, assim como a anormalidade do cotidiano –, pode-se facilmente relacionar esses dois pólos criativos e libertadores da cultura francesa. Dessa forma, fala-se, hoje, da “Nova Canção”, mas seria possível propor o termo “canção de autor”, em comparação com a sétima arte.

Com Dominique A, Miossec ou Katerine, todos ainda muito ativos depois de seu início nos anos 90, François Truffaut, Agnès Varda ou Eric Rohmer serviram sem dúvida de referência para uma canção de vocabulário renovado e uma simplicidade redescoberta, abandonando a canção de grandes letras de Léo Ferré e Jacques Brel, ou a música popular de Michel Sardou e Claude François.

Brechas abertas

 

Esta “canção de autor” perdura, ficando mais bela e rica a cada dia com o aparecimento de novos nomes, novos ângulos, vozes e escritas – sempre singulares. Os padrinhos chamam-se Jean-Louis Murat e Alain Bashung e beneficiam-se, em contrapartida, das brechas abertas pelos afilhados. Françoise Hardy e Brigitte Fontaine, entre as mulheres, continuam a ser referências muito importantes – inclusive para alguns rapazes. A doce loucura de Katerine, grande campeão das últimas temporadas com seu disco Robot après tout (2005), remete a Fontaine e seus delírios nunca gratuitos e sempre acompanhados de grande exigência musical.

Quanto à “Nouvelle Vague”, voltemos a ela por um momento para evocar Florent Marchet, cujo magnífico disco Rio Baril (2007) – construído como algo romanesco, tendo como pano de fundo a França de raiz e o descontrole social, evoca claramente a atmosfera à moda de Claude Chabrol. Com sua primeira obra, Gargilesse (2005), Marchet acompanha sua narrativa sórdida com um tratamento musical que reúne cordas clássicas e ornamentos pop.

Albin de La Simone e seus dois discos lançados até agora, encarnariam, por sua vez, uma mistura bastante pessoal de Boris Vian com Jacques Tati, em razão de seu pronunciado gosto pelo humor negro e a leveza do tratamento musical – disfarce para uma verdadeira ciência da orquestração.

Herdeiro direto do Dominique A minimalista do início, com uma personalidade, entretanto, bastante marcante, Bertrand Betsch gosta das misturas abrasivas do rock com a canção. Mais extrovertido, propondo universos onde se cruzam o cabaré e a canção rock dos anos 70, Arthur H (filho de Jacques Higelin) e Thomas Fersen manejam com muita habilidade a língua francesa, insuflando nela um pouco da herança dos poetas surrealistas, enquanto Cali, fera dos palcos, prefere se inscrever na tradição realista da crônica social e conjugal à moda de Miossec.


Com um primeiro álbum produzido por ela mesma e gravado ao vivo, The Cheap Show, Anaïs, trinta anos, vendeu alguns milhares de discos: um sucesso que se espalhou de boca em boca. Mesclando os gêneros - rock, pop, soul, metal, canção realista - ela fala de instantes da vida e de personagens frágeis com um humor suave, embora picante.

Gosto pelo risco

Os temas das mulheres da canção atual distinguem-se claramente dos temas masculinos. No caminho aberto por Camille, Émilie Simon e Pauline Croze [ver Label France n° 63] diferenciam-se por gostar de correr riscos, do ponto de vista musical, e pelas letras, bastante poéticas e inovadoras.

Se Coralie Clément e Valérie Leulliot (ex-cantora do grupo Autour de Lucie, hoje em carreira solo) inscrevem-se na herança sombria e sofisticada de Françoise Hardy, muitas são as que preferem a luz crua e a extravagância léxica. Citamos, primeiramente, Anaïs, cujo disco, The Cheap Show, fez um enorme sucesso, apesar de ter sido gravado ao vivo, por falta de recursos financeiros. Mesclando paródias e crônicas pérfidas, com poucos instrumentos e muita habilidde, seu humor áspero solta faíscas.

Olívia Ruiz é outro peso-pesado dessa nova geração, semelhante a uma Catherine Ringer (Rita Mitsouko) ou uma atual Piaf, que teria crescido mais ao som do rock do que da valsa. Jeanne Cherhal transformou-se, em seu terceiro disco (L’Eau), em sereia pop, ziguezagueando nos belos arranjos de seu companheiro Albin de La Simone.

Outra história de casal é a que une Franck Monnet, um dos melhores compositores franceses atuais, a sua mulher, a franco-americana Emily Loizeau, descendente das cantoras folks originais, das quais soube traduzir tanto o lirismo, quanto a delicadeza.

Em 2007, Babet, a violinista do grupo Dyonysos, também lança um disco de folk acidulado que soa como uma versão feminina e light de seu grupo [ver artigo sobre o rock]. Finalmente, depois de Camille, um novo nome encanta a canção francesa: Daphné. Após ter lançado um disco bem-comportado demais, lança o tórrido e refinado Carmin, em que sua voz rouca flutua de maneira admirável em orquestrações barrocas dignas de Barbara: esplendor a ser descoberto.

Christophe Conte, jornalista


A maioria dos artistas tem sites oficiais na Internet com biografias, trechos de músicas, vídeos, calendários de turnês, etc.