Ministério das Relações Exteriores.

O renascimento de Lorette Nobécourt

Em doze anos, Lorette Nobécourt conseguiu realizar um exercício acrobático: passar da posição de jovem prodígio torturada à posição de escritora madura e serena.  

Ela estava com vinte e seis anos quando seu primeiro livro, La Démangeaison (A Comichão), foi publicado, em 1994. Esse romance autobiográfico sobre um eczema que a corrói desde a infância fez enorme sucesso com sua linguagem audaciosa e seu tom azedo. Na época, Lorette Nobécurt jogava com seus traumas de infância e brandia seu passado de ex-aluna de colégio de freiras para remoê-lo em seu livro à flor da pele. Apreciando a própria exposição, a autora cultivava uma aparência baudelairiana, muita magra, pálida e com olheiras.

Hoje, ela reivindica uma total metamorfose sem, contudo, negar seu passado: “Tenho muito carinho pela mulher negativa que fui. Ela morreu e já não era sem tempo, mas lutou muito. Fez o que pôde. Sempre digo que a sombra projetada pelos seres mais sombrios é proporcional à luz que virá, luz que não conseguem ver porque sua visão é muito estreita.”



 “Ganhamos sempre, quando podamos”

Sua transformação passou por um exílio na Villa Médicis em Roma e pelas leituras esclarecedoras sobre todas as religiões do mundo. Duas obras marcaram particularmente a autora: O livro Tibetano da Vida e da Morte, de Sogyal Rinpoché, e O Livro dos Segredos, uma reflexão sobre o tantrismo. Lorette Nobécourt também fez um mergulho interno, analisando as razões de seus fracassos pessoais para poder crescer: “O que nos faz buscar algo é o fato de não suportarmos mais. A busca é sempre proporcional à impotência de viver, ao mal-estar.”. Sua escrita está mais calma, ganha uma nova sintaxe, abandonando o estilo sombrio e buscando mais luz e sobriedade: “Renunciei ao júbilo das palavras. Ganhamos sempre, quando podamos, quando nos despojamos.”. Tomar o tempo necessário para “fazer a inteligência trabalhar a serviço do amor e vice-versa”, este é, atualmente, seu novo princípio.

Seu último livro, En Nous la Vie des Morts (Em Nós a Vida dos Mortos), é de uma surpreendente profundidade filosófica. Depois do suicídio de seu melhor amigo, um jovem refugia-se em uma casa isolada. Nesse lugar, ele mergulha na leitura de um livro que relata finais de vida, em uma sequência de narrativas apaziguadoras. Plenitude, distanciamento e lucidez: Lorette Nobércourt traz a marca de uma nova sabedoria. Aquela dos que voltam de bem longe.

En Nous la Vie des Morts, de Lorette Nobécourt, editora Grasset, Paris, 2006.