Ministério das Relações Exteriores.

Christine Angot, a rainha da auto-ficção

Christine Angot fala da mulher apaixonada de seu livro:
"Ela tem toda munição para fazera guerra, mas aceita ser desarmada"

Uma das melhores escritoras francesas da atualidade para alguns, ícone do individualismo contemporâneo para outros, ninguém fica indiferente a Christine Angot. Seu último livro surpreende e emociona por sua humildade e sua fé na escrita.  

Não diga a Christine Angot que ela faz auto-ficção: a expressão lhe dá arrepios. Mas vituperar, vociferar, enfurecer-se  não é a própria razão de ser dessa autora que não respeita as normas, que alfineta a todos os seus com sua pena afiada? Ao longo de livros impulsivos, Christine Angot conta a sua vida na primeira pessoa sem qualquer pudor, com um estilo lancinante, cheio de frases que se entredevoram e se repetem: o incesto que sofreu na adolescência (L’Inseste/ O Incesto), as brigas sentimentais (Pourquoi le Brésil?/ Por que o Brasil?), a crueldade do mundo com relação a ela (Quitter la Ville/ Deixar a Cidade), a loucura da comunicação do casal (Les Désaxés/Os Desequilibrados)... Ela própria dedicou uma obra ao estudo de sua personalidade, principal fonte de inspiração da autora, com o simples título de Sujet Angot (Assunto Angot).

Classificada na categoria das mulheres provocadoras, ao lado de Catherine Millet e Virginie Despentes, ela gosta de eleger alguém para o papel de antagonista, sem no entanto se proteger. Ela não teme a exposição e, sim, o amor dos outros. A tal ponto que elogios e críticas favoráveis fazem-na estremecer. Assim, não gosta quando lhe dizem que sabe declamar divinamente seus textos nas leituras públicas feitas no Teatro da Colina, em Paris. Nem que seu estilo literário, exasperante para alguns, inebriante para outros, é ímpar.

Christine Angot fotografada por Nan Goldin, outra artista que faz da vida de seus próximos tema central de sua obra.

Novo pudor

Hoje, ela parece desejar mais calma: seu último romance, Rendez-Vous (Encontro), chama a atenção pelo romantismo e pela humildade. Narrativa desesperada de uma história de amor vivida pela autora em sentido único com um ator de teatro que já admirava seus livros antes de tentar uma aventura sexual com ela, o livro coloca-a em posição de inferioridade. Apesar de ter-se colocado sempre nas nuvens, Christine Angot fala agora de seus desencantos com surpreendente pudor.

Seus tormentos permanecem os mesmos desde o início: o pai, um animal destruidor, o telefone, a sala do tempo perdido, o amor, um objetivo inatingível. Nesse novo livro, mais soberana do que nunca, ela se agarra à única bóia de salvação segura: suas palavras. Sua escrita torna-se então mais límpida, mais pura. Com um tema obsessivo: o corpo que ela ausculta com ardor cada vez mais poético.

Rendez-Vous, de Christine Angot, ed. Flammarion, Paris, 2006.

Marine Landrot,
jornalista da revista semanal de cultura Télérama