Ministério das Relações Exteriores

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrevista com a Ministra dos Assuntos Europeus



Catherine Colonna, Ministra dos Assuntos Europeus, em visita oficial à Alemanha
(diante da porta de Brandebourg, em Berlim), em junho de 2006
.

Entrevista com Catherine Colonna, Ministra dos Assuntos Europeus e Secretária-Geral  para a Cooperação Franco-Alemã.

No momento de sua ampliação para 27 países e em um contexto de globalização, qual deve ser a ambição da União Européia? A ministra responsável pelos Assuntos Europeus, Catherine Colonna, apela por um novo vigor político.

O que deve fazer a França, hoje, pela Europa?
Em primeiro lugar, coisas concretas. O que os cidadãos esperam são resultados com relação aos temas que mais os preocupam. Que temas são esses? O emprego, o crescimento, a segurança. A Europa esforça-se para responder a essas questões: ela desenvolveu novos projetos, aumentou o orçamento para a pesquisa e, na área da educação, dobrou as bolsas de estudos. A Europa fez coisas, mas creio que será necessário um salto maior, uma vontade política maior que a atual e, além disso, creio que será necessário, na verdade, uma transformação do projeto europeu. Devemos “ligar os motores” e avançar com convicção! A Europa é um formidável reservatório de crescimento na globalização. A União deve, agora, colocar-se na vanguarda da globalização por vir.  

Como isso seria possível em um contexto no qual cada país busca defender seus interesses nacionais?
É o interesse coletivo europeu que deve prevalecer. Quero explicitar isso: hoje, apenas a Europa pode responder a nosso desejo de conciliar nossos valores e nossa vontade de ação social econômica. Nem o mercado em estado puro, nem os países isoladamente serão capazes de realizar essa síntese. Essa ambição de fazer da Europa um “ator global”, que nos dê orgulho e coragem, que nos ajude e conduza, cabe aos países-membros da União encarnar.

Acredito que a Europa deva ocupar-se menos com as pequenas coisas e mais com as grandes, tais como as migrações originárias dos países do Sul, a definição de uma verdadeira coordenação das políticas econômicas ou, ainda, o lançamento de uma verdadeira política européia para a energia, crucial para nossa independência. Para alcançarmos tudo isso, precisamos ser capazes de nos ajudar mutuamente, como europeus, de forma organizada, coordenada. Para vencer e ser bem sucedida no processo de globalização, a Europa deve jogar mais em equipe.

Um ano e meio depois do “não” no referendo francês de 29 de maio de 2005 sobre o projeto de tratado constitucional europeu, a Europa dispõe de meios institucionais para encarar o desafio da globalização?
Não acredito que a Europa esteja tão mal assim: ela não está em crise aberta, ela funciona. Ela dispõe de instituições, de políticas comuns, de um orçamento. A grandeza da Europa foi ter sabido construir uma verdadeira democracia européia: a Comissão, que expressa o interesse geral europeu, o Conselho, que representa os governos de 27 países e o Parlamento, que representa os cidadãos. A Europa é verdadeiramente uma democracia, que deve ser mais eficiente. O processo decisório, por exemplo, é muito longo; muitas vezes, são necessários anos para a aprovação de um texto.

Hoje, o mundo muda rapidamente, o crescimento internacional é de 5%. Cabe a nós explorar todas as oportunidades graças à Europa. Frente aos países emergentes, às mudanças climáticas, aos movimentos das populações, os desafios são numerosos e novos. A Europa é a melhor resposta, mas devemos agir com maior rapidez.

Cinqüenta anos após a assinatura do Tratado de Roma, quais devem ser, em sua opinião, os novos objetivos da construção européia? 
A Europa continua a preparar o futuro. Mas ela não deve,  jamais, perder de vista qual tem de ser o seu nível de ambição. Atualmente, com a paz e a democracia estabelecidas em todo o continente europeu, é necessário ter um novo projeto, uma nova ambição: a Europa já é protagonista da globalização; ela deve, porém, torna-se um protagonista “global”, presente não apenas nas questões comerciais, como na Organização Mundial do Comércio (OMC), mas também em todas as áreas, em escala mundial, da energia à defesa, passando pelo meio ambiente.  

“A construção européia é o único exemplo de real solidariedade entre Estados independentes”.

Atualmente, o projeto europeu, para mim, é simples e evidente: a Europa, terceiro conjunto do planeta, com mais de 490 milhões de habitantes desde 1o de janeiro de 2007, deve ser uma potência na globalização, um modelo para nosso desenvolvimento econômico e social, enfim, uma ambição que, ao mesmo tempo, nos conduza e nos proteja. Eis o objetivo. Sabemos como fazê-lo, basta dispor dos meios: tudo começa pela vontade política!

A construção européia é um modelo, o mais belo projeto político do início deste século, o único exemplo de real solidariedade entre Estados independentes, mas ela deve adaptar-se às mudanças do planeta. Temos, hoje, de mostrar aos cidadãos que a Europa possui uma capacidade de reação rápida frente aos desafios econômicos e sociais deste início de século XXI. 

Entrevista concedida à redação

Os franceses e a Europa

Chamados a se pronunciar sobre a ratificação do Tratado Constitucional Europeu em 29 de maio de 2005, os franceses, em sua maioria, responderam “não”. Isso significaria que eles são maciçamente hostis à construção européia? 

Muitas pesquisas provam o contrário. Segundo o estudo do Eurobarômetro, realizado na França pela Representação da Comissão Européia e publicado em 15 de março de 2006, 60% dos cidadãos afirmam sentir-se tanto franceses quanto europeus. A cada três franceses, dois acreditam que os países da UE possuem valores comuns, distinguindo-os do resto do mundo. Para 79% deles, a construção européia permite garantir a paz e, para 75%, ela os torna mais forte face ao resto do mundo. Para a maioria dos franceses, a ação da União Européia é positiva nas áreas de segurança aérea, meio ambiente e formação dos jovens, enquanto a cooperação entre os países-membros pode resolver os problemas relacionados à pesquisa e a inovação tecnológicas, à luta contra o terrorismo, à ajuda aos países pobres, à política estrangeira e à defesa, ou ainda relativos à luta contra a imigração clandestina.

Mais de 80% dos franceses, entretanto, estimam que a construção européia está muito distante das preocupações dos cidadãos, ou que não se sentem suficientemente implicados nas decisões da União.

A redação.