 |
 |
Jean Malaurie, aventureiro de
uma terra humana
Incansável
defensor dos Inuit e de outros esquecidos da História,
o pesquisador e antropo-geógrafo Jean Malaurie
fundou, há cinqüenta anos, a renomada
coleção “Terra Humana”.
E a França aproveita a oportunidade para
homenageá-lo.
Há personalidades
únicas, homens que forçam o destino
impondo pensamentos e ações fora
dos caminhos já traçados. Jean
Malaurie, hoje com oitenta e três anos
de idade, é um deles. Pensador radicalmente
independente, ele subverteu, tanto com suas
pesquisas científicas quanto com seu
projeto editorial, a maneira de se considerar
a diversidade das terras e dos povos. Cruzando
a geografia física, a etnologia e a história,
ele erigiu uma nova abordagem interdisciplinar
do estudo do homem.
Este ano, para comemorar
o qüinquagésimo aniversário
de “Terra Humana”, a França
dedicou a Malaurie quatro livros, cinco documentários
para a televisão, um colóquio
e uma grande exposição na Biblioteca
Nacional da França (BNF), intitulada
“Terra Humana, louvemos agora os grandes
homens”. Na inauguração
dessa manifestação, o presidente
da República, Jacques Chirac, felicitou
seu fundador pela criação dessa
“formidável e exaltadora aventura
editorial”.
Nascido em 1922 em Mayenne,
Jean Malaurie fica órfão de pai
aos dezessete anos e de mãe aos vinte
e um. Ele é estudante em Paris quando,
em 1943, entra para a Resistência. Depois
da guerra, o futuro pesquisador inscreve-se
em geografia e ciências. Ele empregará
ao todo quatorze anos na preparação
de uma tese principal em geomorfologia e de
uma tese complementar em etno-história.

Encontro de Jean Malaurie
com uma evena da Iakútia
Central, em julho de 1973.
O irresistível chamado do
Norte
Em 1948 e em 1949, esse
apaixonado pelo Grande Norte participa, como
geógrafo, de duas expedições
francesas à Groelândia, dirigidas
pelo explorador Paul-Émile Victor. Entretanto,
logo se desvia dessas viagens de exploração,
que não colocam suficientemente o homem
no centro de suas preocupações,
e passa a integrar o Centro Nacional da Pesquisa
Científica (CNRS). De 1948 a 1950, ele
visita regularmente os Tuaregs, no Saara, para
realizar pesquisas geomorfológicas. O
momento decisivo de sua carreira – seu
encontro com os Inuits, os esquimós polares
da Groenlândia – ocorre em 1950,
durante sua primeira viagem solitária
em missão geográfica a Thulé.
Em seu livro Jean Malaurie, um homem singular,
seu biógrafo, Jan Borm, cita-o: “Desembarquei
no dia 23 de julho de 1950 em Thulé (...)
depois de 23 dias de navegação.
Decidi logo passar o inverno 150 quilômetros
mais ao norte, em Siorapaluk: 32 habitantes,
6 iglus (…). Meu equipamento? Não
tinha. Foi lá mesmo que arranquei das
autoridades dinamarquesas a autorização
para invernar por um ano.” Ao longo do
tempo, Malaurie, alma solitária, fará
uma profunda amizade com os Inuits, que ele
admira por seu extraordinário conhecimento
da natureza e pelos elos íntimos que
mantêm com ela. Para prestar um serviço
a esse povo de cultura oral, propõe criar
um mapa genealógico, o primeiro de sua
história. Ele sai, assim, em um trenó
puxado por cães, em plena noite polar,
sob uma temperatura de -30°C, para visitar
cada um dos 11vilarejos espalhados por 300 quilômetros
quadrados. De iglu em iglu ele colherá
o testemunho de 302 habitantes.

« Visceralmente nômade
»
Em 1951, na companhia de
dois casais Inuits, ele percorre em dois meses
1.500 quilômetros, sob um frio de -45°C,
com o intuito de estabelecer um mapa geográfico
da região. É durante essa missão
que ele descobre uma base nuclear ultra-secreta
da US Air Force em Thulé, no coração
de um território habitado por 302 esquimós.
Para protestar contra a base, decide escrever
Os últimos reis de Thulé, uma
coletânea de descrições,
etno-história, dados, desenhos e fotos.
“Tentei traduzir a vida excepcionalíssima
que vivi em Thulé. Acho que não
ocultei o que devo a esses homens exemplares
que me obrigaram a chegar ao limite de minha
identidade”, dirá ele sobre esse
livro que deu a volta ao mundo. Outras obras
e nove filmes sobre o Ártico vieram em
seguida.
O ano de 1951 também
é o ano de seu encontro com Monique Laporte,
a filha do célebre professor e físico
Marcel Laporte. Malaurie decide casar-se com
ela antes mesmo de vê-la, apenas pela
sua voz, que escutou por trás de uma
porta! Sendo “visceralmente nômade”,
ele continua viajando (realizará ao todo
31 missões científicas, na maioria
das vezes sozinho). Em 1954, de volta a Paris
após uma missão de quatorze meses
no Ártico, ele passeava com sua mulher
e seu bebê quando decidiu espontaneamente
bater à porta da editora Plon. Ele propõe
não apenas a publicação
de Os últimos reis de Thulé, mas
também a criação de uma
coleção que seria a ponte entre
as ciências humanas e o grande público.
Em cinqüenta anos,
o método interdisciplinar de Malaurie
fez de “Terra Humana” um fenômeno
editorial único no mundo. Esse gosto
pelo cruzamento de pensamentos encontra também
partidários na Escola de Altos Estudos
em Ciências Sociais (EHESS), em Paris,
da qual é eleito diretor de pesquisa
em 1957. No ano seguinte, funda um Centro de
Estudos Árticos, que ainda hoje dirige.
Em 1997, a pedido das autoridades russas, torna-se
um dos fundadores e presidente de honra vitalício
da Academia Polar de São Petersburgo,
que forma as futuras elites autóctones
siberianas.
Em entrevista a Jan Borm,
Malaurie resume assim seu destino: “Tenho,
é verdade, uma devoção
especial por aqueles que, em qualquer nível
e por qualquer razão que seja, têm
caráter. Os mais pobres, os mais sofredores,
aqueles que a vida põe permanentemente
à prova ou que escolhem os mais difíceis
combates. (...) Sim, essa idéia excepcional
está na base de tudo o que realizei ao
longo de minha vida, tanto no Ártico
(...) como na criação da coleção
‘Terra Humana’.”
Barbara
Oudiz
journaliste
..........
Uma entrevista exclusiva com Jean
Malaurie,
Jean Malaurie é
um dos maiores exploradores e antropólogos
do século. Ele partiu em 1948 para o
Grande Norte onde viveu entre os inuits e realizou
mais de trinta missões da Groenlândia
à Sibéria. Foi o primeiro europeu
e o segundo homem a chegar ao pólo Norte
em trenós puxados por cachorros, em 1951.
Outra façanha deste cientista fora do
comum foi a criação de “Terra
Humana”, da editora Plon, em 1955, a única
coleção editorial no mundo que
conseguiu a inimaginável proeza de popularizar
a etnologia e de permitir ao grande público
a descoberta dos povos do mundo inteiro.
Como o senhor recebeu o chamado do Grande
Norte?
Minhas origens fazem de
mim um homem do Norte. Do lado de meu pai, sou
de uma família de armadores de Fecamp
[na França, à beira do canal da
Mancha] e, do lado de minha mãe, de origem
escocesa. Nasci na Alemanha e fui muito influenciado
pela educação romântica
alemã. Aos seis anos, atravessei o Reno
congelado. Pode-se assim dizer que recebi o
chamado do Norte sobre o Reno! Concretamente,
tenho uma formação de geomorfólogo.
Vivi a época das ideologias dramáticas,
o fascismo e o comunismo stalinista, às
quais muitos intelectuais aderiram. Para que
servem as ciências sociais? Para que serve
a filosofia, é para se chegar a tais
desastres? Esta é uma das razões
pelas quais parti, ainda jovem, para o Grande
Norte. Pensava que a idade de ouro do Ocidente
já tinha passado.
O senhor pode explicar?
Esse grande foco de civilização
que foi o Ocidente não irradia mais,
acredito. É uma sociedade de consumo,
uma sociedade em envelhecimento, que vive de
seus dividendos e descobre que o mundo exterior
afirma-se, que grandes impérios estão
sendo construídos, como a China, a Índia,
a América do Sul, o Brasil. Ela não
tem muito mais a dizer sobre o destino do homem.
O que os inuits
lhe ensinaram?
A coragem e o horror à
mentira. Essa sociedade de combate e de perigo,
igualitária, anarco-comunitarista, não
pode sobreviver com a mentira. Eles me ensinaram
também o perigo da palavra. Quando eu
lhes mostrava uma gravação com
o que tinham acabo de me dizer, eles diziam:
“Mas não foi isso o que eu disse!”.
Os inuits sentem antes de pensar. Temem as palavras.
Eles têm uma comunicação,
como em outros povos, que passa muito pelo olhar
e pelo gesto. Para eles, há uma língua
verbalizante, que trai a sensibilidade, e há
também o não-dito, que é
mais importante. Para tudo o que é essencial,
ou seja, a religião – as relações
com a morte – eles se comunicam por meio
de um tambor sagrado e por meio da dança.
Refiro-me aos esquimós da tradição,
pois hoje eles estão mudados.
O que seu trabalho sobre os inuits trouxe
de mudança para eles?
Meus livros são bastante
conhecidos por lá. Todos leram Les Derniers
Rois de Thulé (Os Últimos Reis
de Thulé), em dinamarquês ou em
inglês. Alguns tentam constituir uma intelligentsia
tão necessária para eles. O grande
perigo é o neocolonialismo. Lutei por
sua autonomia, numa primeira etapa, mas é
preciso estar preparado para a autonomia, caso
contrário, a porta estará aberta
para a dominação neocolonial.
A televisão, o álcool, a droga,
os contatos com as sociedades petrolíferas
ou de mineração os tornam dependentes
de forças maiores do que eles.
Em Les Derniers
Rois de Thulé o senhor lançava
um grito de alerta contra o rolo compressor
da civilização moderna e fazia
várias recomendações em
matéria de desenvolvimento sustentável.
Elas foram seguidas?
O perigo com o acesso à sociedade moderna, é
que, rapidamente, os políticos tomam
o lugar dos sábios, que tomavam as decisões
de acordo com o interesse coletivo. A abertura
ao liberalismo é o atestado de óbito
das sociedades tradicionais, assim como dos
povos do Norte. É necessário,
para eles, uma economia protegida em que os
preços de compra e venda sejam controlados
e que garantam uma renda aos produtores. Desenvolvi
essas idéias quando fui conselheiro de
diferentes governos: dinamarquês, em 1967;
canadense, entre 1960-1968, americano em 1973,
e, hoje, como presidente da Academia Polar do
Estado de São Petersburgo, que forma
os quadros de toda a Sibéria. Elas estão
em prática na região de Nunavik,
no Quebec, onde fui conselheiro a pedido do
general de Gaulle, em 1964. A construção
de uma grande represa foi autorizada pela população
inuit, com a condição de que seus
rendimentos sejam revertidos para a cooperativa
local. Esta paga o salário de uma dezena
de caçadores-pescadores que, em seguida,
distribuem seus produtos gratuitamente entre
a população. Hoje, eles têm
escolas, sua companhia de aviação,
a Air Inuit, e desenvolveram o turismo. É
essa mesma política que preconizo no
Norte russo, que ocupa o lugar de novo Far West,
com seus recursos de petróleo e de gás.
Finalmente, o senhor
é otimista ou pessimista em relação
ao futuro da humanidade?
Sou pessimista em relação ao futuro do homem
branco. Ele não acredita em quase mais
nada. Não tem mais a virtude do trabalho.
Sua capacidade de invenção não
é mais a mesma, emburguesou-se. Por outro
lado, os povos emergentes, esses são
o futuro. Têm a seiva do homem que se
constrói, caso não sejam destruídos.
A verdadeira força do amanhã encontra-se
nos primeiros povos e também nas periferias
multiculturais das cidades do Ocidente.
Entrevista por Nadia
Khouri-Dagher,
antropóloga e jornalista especializada
Para saber mais
- Jean Malaurie, um homem
singular, de Jan Borm, editora du Chêne,
Paris, 2005.
- Terra humana, 50 anos de
uma coleção, Entrevista
com Jean Malaurie, editora BNF, Paris,
2005.
- Terre humana, uma antologia,
textos reunidos e apresentados por Pierre
Chalmin, editora Pocket, Paris, 2005.
|
| “Terra Humana”:
relatos cruzados
Fundada
em 1955, esta coleção reúne
testemunhos tão diversos quanto
o de um índio hopi, um menino de
Auvergne, uma camponesa japonesa, pessoas
sem-teto...
A
coleção inclui 85 títulos,
dos quais 40% são de autores estrangeiros.
Mais de 10 milhões de exemplares
vendidos, fora as edições
de bolso, foram vendidos no mundo.
Títulos
de referência na editora Plon:
•
Os últimos reis de Thulé,
de Jean Malaurie, entre os Inuit da Groenlândia,
traduzido para 16 línguas, Paris,
1955.
•
Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss,
no meio de sociedades indígenas
do Brasil, traduzido para vinte e sete
línguas, Paris, 1955.
•
Louvemos agora os grandes homens, de James
Agee (texto) e Walker Evans (fotos), traduzido
do inglês, o destino de três
famílias de meeiros em 1936 no
Alabama, Paris, 1972.
•
O Cavalo de orgulho, Memórias de
um bretão da região ‘bigouden’,
de Pierre Jakez Hélias, traduzido
do bretão para o francês
pelo autor, venda recorde da coleção,
traduzido para quatro línguas,
Paris, 1975.
B. O.
|
“Terra
humana: compreender os povos do mundo”.
A “Terra Humana” publicou
85 livros em 50 anos, o que representa
de 11 a 12 milhões de títulos
vendidos em francês, traduções
em várias línguas (como
o albanês, o basco, o búlgaro,
o chinês, o coreano, o estoniano,
o húngaro, o servo-croata, o sueco,
o turco, etc.). Podemos citar: Tristes
Trópicos, de Claude Lévi-Strauss
(1 milhão de exemplares), As Veias
Abertas da América Latina, de Eduardo
Galeano, Un substitut de campagne en Egypte
(Um Substituto de Campanha no Egito),
de Tewfik El Hakim, ou Le Cheval d’orgueil
(O Cavalo de Orgulho), de Pierre-Jakez
Hélias (1,3 milhão de exemplares). |
|
 |
 |