Há
dezoito anos, esse antropólogo e farmacólogo
de trinta e quatro anos passa a maior parte
de seu tempo na Índia. De seu escritório
embalado pelas ondas no Instituto Francês
de Pondichéry, o diretor do departamento
de Ciências Sociais retoma seu surpreendente
percurso. Em 1995, acontecem as primeiras temporadas
humanitárias no Camboja com as organizações
francesas Médicos do Mundo e Farmacêuticos
sem Fronteiras. “Cheguei a esse setor
tomado por um ingênuo fervor social”,
explica esse homem que sonha logo em pensar
o desenvolvimento de outra maneira, partindo
de uma abordagem “que se alimenta notadamente
dos recursos da antropologia”. De tanto
estudar as plantas medicinais, o jovem farmacêutico
acabou por interessar-se por aqueles que as
utilizavam.

Jovens habitantes
de vilarejo a caminho da
escola no Ladakh indiano.
Na escola de medicina tradicional
EEm 1997, participa da fundação
da ONG Nomad Pesquisa e Apoio Social (RSI),
criada com o intuito de estudar e revitalizar
a medicina tradicional. Dois anos mais tarde,
segue uma formação em etnologia.
“Depois de oito anos, continuo a compreender
poucas coisas. A complexidade do universo social
nos obriga a lembrar da humildade”. Entretanto,
Pordié sabe o suficiente para lançar
no Ladakh indiano um programa de revitalização
da medicina tibetana – ameaçada
de extinção – e para receber
o prêmio Rolex em 2000. Em alguns anos,
o laureado e suas equipes criaram um centro
de formação e 22 estruturas de
tratamentos tradicionais cobrindo três
quartos dessa distante região das alturas
do norte da Índia . O grande orgulho
de Laurent Pordié? “Nomad RSI passou
o trabalho para uma ONG indiana”. Ele
obtém o certificado do Instituto de Medicina
Tibetana de Dharamsala, na Índia: “Desejava
compartilhar o olhar que os amchis (médicos
tibetanos) têm do corpo humano para entender
melhor seu papel sobre o corpo social”.
Na Europa, ele é professor efetivo em
diversas universidade. Esse partidário
do “engajamento refletido” esclarece
o debate sobre o distanciamento necessário
do pesquisador, argumentando que a neutralidade
absoluta é um ato de fé. Aliás,
uma citação do etnólogo
Michel Perrim, do Collège de France,
assinala no site da associação
que “para se aproximar do outro, quando
ele está tão distante, é
preciso amar sua diferença e admitir
que ele será sempre irredutível.”
Neijma
Hamdaoui
jornalista
“Panser le monde,
penser les médecins” (Tratar o
mundo, pensar os médicos), direção
de Laurent Pordié, ed. Karthala, Paris,
2005.