Accueil
 
 

 Sumário n°60

 Editorial

 Dossiê 60e  aniversário  da ONU: mudanças em  vista

 

A França e a Alemanha escrevem uma história conjunta


O Presidente da República francesa Charles de Gaulle e o chanceler alemão Konrad Adenauer foram os principais artesãos da reconciliação franco-alemã. Aqui, em Paris,
em 1959.

A partir do início das aulas de 2007, os estudantes dos liceus franceses e alemães descobrirão a história moderna por meio do mesmo manual. Um projeto inédito que cimenta um pouco mais a reconciliação entre a França e a Alemanha no seio da Europa.



Exemplo de ligação franco-alemã
do passado, a amizade entre o filósofo
Voltaire e o rei da Prússia Frederico II
que, durante quinze anos,
trocaram idéias sobre a situação
política européia e filosofia.

A reconciliação franco-alemã acostumou-nos a fortes emoções e a gestos emblemáticos. Menos espetacular, o último e mais recente ato é mais que um símbolo. A realização de um manual franco-alemão sob a responsabilidade das editoras Nathan, em Paris, e Ernst Klett, em Stuttgart, marca uma etapa no trabalho de aprofundamento das relações entre os dois países e, sobretudo, na construção concreta de uma Europa do dia-a-dia e do sentimento de se pertencer a um destino comum. Trata-se, na verdade, de uma novidade no ensino da história que, em um lado e do outro do Reno, consistia, no passado, em despertar um sentimento patriótico. Por “termos conhecido séculos em que a historiografia era um fermento de rancor entre nós, aproveitamos hoje a oportunidade para fazer dela o cimento de nossa união”, afirmava o então ministro francês da Educação Nacional, François Fillon, durante um encontro em Berlim com o ministro-presidente da Sarre, encarregado das relações culturais com a França, em março de 2005, e com Johanna Wanka, presidente da Confederação Permanente dos Ministros da Educação das 16 Länder (regiões).

Olhares cruzados

Foi durante o 40º aniversário do Tratado de Elysée, fundador do processo de reconciliação franco-alemã, dia 23 de janeiro em Berlim, que esse projeto de manual comum de história foi apresentado pelo Parlamento dos Jovens [1]. A primeira obra, redigida “em comum”, será publicada em março de 2006 e compreenderá todas as turmas de terceiro ano do ensino médio. Ela cobrirá a história contemporânea de 1945 aos nossos dias. Dois outros livros previstos para 2008-2009, destinados aos alunos do primeiro e segundo anos do ensino médio, tratarão, respectivamente, do período que vai da Antigüidade ao Romantismo e do século XIX a 1945. Os três volumes serão editados em duas versões, francesa e alemã, com conteúdos e apresentação estritamente idênticos.

Para além do conceito simbólico, trata-se de “construir uma ferramenta científica, um manual utilizável em sala de aula e de acordo tanto com os programas do ensino médio franceses quanto com os programas das 16 Länder alemãs”, informa Jean-Louis Nembrini, assessor do novo ministro francês da Educação Nacional. “Não se trata, de forma alguma, de uma história oficial”, acrescenta o responsável francês pelo grupo de elaboradores, composto por historiadores e professores, e encarregado de formular o caderno do primeiro volume e de validar seu conteúdo.


Durante o 40º aniversário
do Tratado do Elysée,
o Presidente francês Jacques Chirac
e o chanceler alemão Gerhard Schroeder,
cercados por jovens do Parlemento
franco-alemão.

Tornar os alunos aptos a diferentes interpretações

O livro escolar não tratará apenas da história da França e da Alemanha, nem apenas da relação entre os dois países. “A cada cinco capítulos, um será dedicado a esse tema”, observam os editores franceses e alemães de Nathan e Klett. “A intenção não é apagar as diferenças mas, ao contrário, sensibilizá-los a respeito das diferentes perspectivas e interpretações e apresentá-las como um enriquecimento”, explica Delphine Dourlet, responsável pelo manual na editora Nathan. De fato, “há pontos de vista diferentes entre historiadores franceses e alemães, mas, no fundo, não há uma polêmica real”, assinala Guillaume Le Quintrec, que dá como exemplo a ocupação da Ruhr no dia seguinte à Primeira Guerra Mundial, geralmente descrita “de uma maneira mais violenta pelos alemães do que pelos historiadores franceses”. Para esse professor de história, que dirige a equipe de autores, do mesmo modo que para seu homólogo alemão Peter Geiss, as diferenças estão mais ligadas aos temas e a sua importância em cada um dos lados do Reno. Assim, as questões religiosas são importantes para a história alemã, enquanto que, no ensino laico francês, elas não estão em primeiro plano. Do mesmo modo, a descolonização e a guerra da Argélia são praticamente desconhecidas pelos alunos alemães, e a divisão e a unificação alemãs pouco estudadas pelos estudantes franceses.
Quanto à forma, as duas equipes escolheram um manual com apenas 30 % de texto, vastamente ilustrado, contando com o suporte de vários documentos e exercícios a partir dos quais os professores trabalharão para extrair o conhecimento com os alunos. “A concepção francesa foi a adotada. Na Alemanha, os manuais são mais austeros”, observa Jean-Louis Nembrini e acrescenta: “mas essa austeridade dá mais espaço para a autonomia do aluno, enquanto que os manuais franceses são mais modernos, porém mais diretivos”. A aventura franco-alemã poderia dar idéias a outros países que desejem tomar também o caminho da reconciliação.

Mélina Gazsi
jornalista

[1] Constituído por 500 alunos do ensino fundamental e médio alemães e franceses que apresentaram recomendações de reforma para o Tratado de Amizade Franco-Alemão de 1963.


Logo Mariane © Ministério das Relações Exteriores