A França e a Alemanha escrevem uma história conjunta
A partir do início das aulas de 2007, os estudantes dos liceus franceses e alemães descobrirão a história moderna por meio do mesmo manual. Um projeto inédito que cimenta um pouco mais a reconciliação entre a França e a Alemanha no seio da Europa.
Olhares cruzadosFoi durante o 40º aniversário do Tratado de Elysée, fundador do processo de reconciliação franco-alemã, dia 23 de janeiro em Berlim, que esse projeto de manual comum de história foi apresentado pelo Parlamento dos Jovens [1]. A primeira obra, redigida “em comum”, será publicada em março de 2006 e compreenderá todas as turmas de terceiro ano do ensino médio. Ela cobrirá a história contemporânea de 1945 aos nossos dias. Dois outros livros previstos para 2008-2009, destinados aos alunos do primeiro e segundo anos do ensino médio, tratarão, respectivamente, do período que vai da Antigüidade ao Romantismo e do século XIX a 1945. Os três volumes serão editados em duas versões, francesa e alemã, com conteúdos e apresentação estritamente idênticos. Para além do conceito simbólico, trata-se de “construir uma ferramenta científica, um manual utilizável em sala de aula e de acordo tanto com os programas do ensino médio franceses quanto com os programas das 16 Länder alemãs”, informa Jean-Louis Nembrini, assessor do novo ministro francês da Educação Nacional. “Não se trata, de forma alguma, de uma história oficial”, acrescenta o responsável francês pelo grupo de elaboradores, composto por historiadores e professores, e encarregado de formular o caderno do primeiro volume e de validar seu conteúdo.
Tornar os alunos aptos a diferentes interpretaçõesO livro escolar não
tratará apenas da história da
França e da Alemanha, nem apenas da relação
entre os dois países. “A cada cinco
capítulos, um será dedicado a
esse tema”, observam os editores franceses
e alemães de Nathan e Klett. “A
intenção não é apagar
as diferenças mas, ao contrário,
sensibilizá-los a respeito das diferentes
perspectivas e interpretações
e apresentá-las como um enriquecimento”,
explica Delphine Dourlet, responsável
pelo manual na editora Nathan. De fato, “há
pontos de vista diferentes entre historiadores
franceses e alemães, mas, no fundo, não
há uma polêmica real”, assinala
Guillaume Le Quintrec, que dá como exemplo
a ocupação da Ruhr no dia seguinte
à Primeira Guerra Mundial, geralmente
descrita “de uma maneira mais violenta
pelos alemães do que pelos historiadores
franceses”. Para esse professor de história,
que dirige a equipe de autores, do mesmo modo
que para seu homólogo alemão Peter
Geiss, as diferenças estão mais
ligadas aos temas e a sua importância
em cada um dos lados do Reno. Assim, as questões
religiosas são importantes para a história
alemã, enquanto que, no ensino laico
francês, elas não estão
em primeiro plano. Do mesmo modo, a descolonização
e a guerra da Argélia são praticamente
desconhecidas pelos alunos alemães, e
a divisão e a unificação
alemãs pouco estudadas pelos estudantes
franceses. Mélina
Gazsi
[1] Constituído por 500 alunos do ensino fundamental e médio alemães e franceses que apresentaram recomendações de reforma para o Tratado de Amizade Franco-Alemão de 1963. |
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