Ariane Mnouchkine ou a aventura teatral
![]() Depois de três anos em cartaz em Paris, A última estalagem, de Ariane Mnouchkine, foi apresentada em julho, em Nova Iorque [1] e o será também em outubro, em Melbourne (Austrália), depois dos estágios oferecidos pela trupe do Théâtre du Soleil no mês de junho, em Cabul (Afeganistão). Uma boa oportunidade para lembrar uma artista fora dos padrões. Perfil. Nos poucos momentos de cansaço, ela confessa sorrindo ser um dinossauro à espera do meteorito exterminador que se aproxima... Há mais de quarenta anos, Ariane Mnouchkine, junto com alguns colegas da Universidade de Sorbonne, fundava o Théâtre du Soleil. Desde então, a trupe luminosa não parou de produzir um teatro que fala da atualidade, seja por meio de Shakespeare, Ésquilo, Eurípedes ou Molière. Uma grande arte histórica que nos conta, do Camboja à Índia, a formidável e terrível história dos homens. Desde o início, aquela que sempre afirma “Estou no presente e só ele me importa”, apaixonou-se pelas grandes questões de seu tempo: a exploração do trabalho em A Cozinha (1967); o risco das revoluções confiscadas (os eventos de maio de 68?) em 1789 (1970); os perigos da extrema esquerda em 1793 (1972); a dificuldade de se viver hoje em A idade de ouro (1975); a dificuldade de um intelectual engajado em Mephisto (1978). Sem esquecer o episódio do sangue contaminado em A Cidade do perjúrio ou o despertar de Érinyes (1994), o escândalo dos imigrantes ilegais em E de repente, noites de despertar (1997) e dos refugiados em A última estalagem (2003). Ariane Mnouchkine tem uma visão ampla, determinada e de longo alcance. Talvez ela deva isso a suas origens cosmopolitas, russa e inglesa. A seu pai, produtor de cinema – Alexandre Mnouchkine – que a levava desde a infância aos sets de filmagem, definindo a seu modo o imaginário da filha? A seu longo périplo iniciático pela Ásia em 1963, antes mesmo que a aventura do Soleil começasse? Foi lá que ela descobriu, como fizeram antes dela Antonin Artaud, Jacques Copeau, Paul Claudel ou Bertold Brecht, que a arte do ator é “oriental”; que, há séculos, os melhores artistas japoneses, chineses, indianos, balineses já sabiam estilizar magistralmente todas as emoções possíveis. O teatro nasce dessa ancestral e magnífica transposição...
O culto a um teatro que eleva a alma e o coração
Um modelo, uma referência
para qual a trupe volta sempre. Se as questões
da cidade estão sempre presentes no Théâtre
du Soleil, não há lugar para um
realismo raso nos espetáculos. Há
lugar, sim, para o épico, o majestoso
simples, o realmente mágico. Nada é
excessivamente belo para levar os espectadores
à reflexão e ao devaneio, aos
combates e sonhos. Herdeira de Jean Vilar, ardente
militante do serviço público,
Ariane Mnouchkine mantém o culto a um
teatro que eleva a alma e o coração,
que educa pelo encantamento. A vibração da criação coletivaComment fait-elle pour maintenir si haut, depuis plus de quarante ans, l’exigence artistique, esthétique ? Les membres du Soleil sont peu payés et tous - techniciens, administratifs, comédiens, auteur ou metteur en scène - ont le même salaire : 1 677 euros net par mois. Et ils travaillent des journées entières, et restent astreints, aussi, à diverses tâches ménagères et à l’entretien de la Cartoucherie, ce palais géant au fond du bois de Vincennes que le Théâtre du Soleil occupe depuis 1970... Ariane Mnouchkine est un peu sorcière. Elle sait en grande prêtresse attirer les enthousiasmes, fédérer les énergies, unir au nom du théâtre. À moins qu’elle ne soit simplement une grande artiste. Charismatique par son talent même, la puissance de son imaginaire, sa haute idée de la scène. C’est pour cela que ses spectacles dégagent toujours on ne sait quelle irrésistible ferveur, par- delà les mots, par-delà les décors, par-delà la musique omniprésente, " opératique ", de Jean-Jacques Lemêtre. Ils sont de plus en plus simples, ses spectacles, d’ailleurs... Alors que dans 1789, 1793, L’Âge d’or ou Méphisto, Ariane Mnouchkine catapultait l’espace scénique, promenait le spectateur aux quatre coins, elle se contente dorénavant d’une scène frontale et d’une sage scénographie. Plus besoin d’effets, rien que le jeu des acteurs, la stricte splendeur d’un maquillage, d’une étoffe, d’une lumière... Celle qui porta si haut les frémissements de la création collective, puis se remit humblement à l’école de quelques grands classiques touche maintenant à l’humanité première. Et nous fait découvrir l’essentiel. Fabienne
Pascaud
[1] No contexto do programa Act French, a temporada do teatro francês contemporâneo em Nova Iorque (15 de julho-15 de dezembro de 2005) organizada pela Associação Francesa de Ação Artística (AFAA). Site Internet : www.actfrench.org |
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