Annette Messager, Leão de Ouro em Veneza
![]() “Cassino”, obra atípica, foi consagra durante a Bienal de Veneza em junho de 2005, marca do reconhecimento no exterior do trabalho singular da artista francesa. ![]() É com uma suntuosa ópera-espetáculo rubro-negra, escuridão e sangue, que Annette Messager, a primeira artista mulher a ser convidada a expor no pavilhão francês dos Giardini, levou este ano o Leão de Ouro da Bienal de Veneza, que acontece de 12 de junho a 6 de novembro de 2005. Três atos, sem palavra nem música, mas com uma cenografia majestosa, inspirada em Pinóquio, meio-fantoche, meio-humano. Pode-se percebê-lo na primeira sala: um boneco de madeira de nariz comprido, adormecido sobre uma almofadinha, estendido no chão em meio a uma floresta de travesseiros habitados por estranhos órgãos e máscaras negras. “Somos todos fantoches, manipulamos e somos manipulados.”
Em seguida, a grande cena: na sala principal, em que se evoca a passagem pela barriga da baleia, uma imensa onda de tecido vermelho oscila no espaço, flutua no ar e cai lentamente sobre o solo, onde percebem-se formas brancas que respiram, inflam feito pulmões, corpos tragados, engolidos e, ao mesmo tempo, redivivos.
Uma geração de artistas que introduziu o feminino na arte
“Amo essa segunda
estação de nossa viagem”,
conta a escritora Julia Kristeva no catálogo
distribuído no evento. “Para reencarnar,
tornar-se humano de carne e osso, Pinóquio
necessita passar pelo ventre feminino. Viagem
ao coração do útero”.
Momento de lembrar que Annette Messager é,
desde sua estréia nos anos 70, mais uma
artista mulher do que feminista, pertencente
a uma geração de criadores que
introduziu o feminino na arte. E, certamente,
seu Leão de Ouro de Veneza premia também
a singularidade e a importância de sua
obra, logo defendida pelo curador suíço
Harald Szeemann, ou ainda por Suzanne Pagé,
diretora do Museu de Arte Moderna de Paris.
Representada em Paris e Nova Iorque pela galeria
parisiense Marian Goodman, lugar de destaque
no mercado internacional de arte, reconhecida
como uma das mais importantes artistas de sua
geração por duas retrospectivas
em 1995, no Museu de Arte Moderna (Moma) de
Nova Iorque e no Museu de Arte Moderna de Paris,
Annette Messager demonstra, com esse Leão
de Ouro, que a limitada visibilidade internacional
dos artista franceses não é uma
fatalidade e que ela depende também de
um apoio constante, maciço e voluntário,
a começar pelo nosso país.
Viagem coletivaÚltima etapa da viagem coletiva que ela propõe em Veneza: um imenso trampolim erguido por fios negros onde pelúcias disformes, corpos deslocados, saltam no ar e recaem em uma atmosfera de circo pontuada por luzes fluorescentes. Pois, se Annette Messager soube construir essa obra feita de trapos bordados ou presos a lanças, pardais mortos e agasalhados, pedaços de corpos fotografados e dispostos em formas circulares ou de púbis, ela reivindica, hoje mais do que nunca, uma ampliação de seu território, uma abertura para o mundo e se distancia das esferas circunscritas ao íntimo e ao Eu feminino, para atingir o humano, os vivos, todas as categorias ao mesmo tempo. “Acredito que quanto mais individuais nós somos, mais nos encontramos na universalidade”, comenta. E é realmente uma metáfora do corpo humano que ela instala no pavilhão francês de Veneza, rebatizado de “Cassino” para o evento: “casinha” em italiano, mas sobretudo sala de jogo, termo que convém tanto a seu trabalho quanto ao contexto da Bienal de Veneza, essa competição internacional onde cada artista mostra todas as suas cartas. Colecionadora de provérbios, ela criou um para melhor mergulhar na aventura: “Quem perde ganha”. No jogo da arte e da vida, Annette Messager sabe quanto o triunfo deve à modéstia. Jean-Max Colard
|
|||||




