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 Sumário n°60

 Editorial

 Dossiê 60e  aniversário  da ONU: mudanças em  vista

Annette Messager, Leão de Ouro em Veneza

“Cassino”, obra atípica, foi consagra durante a Bienal de Veneza em junho de 2005, marca do reconhecimento no exterior do trabalho singular da artista francesa.

“Sou uma invasora”, ela me disse, um dia de outono em 2002, em sua casa-ateliê de Malakoff, perto de Paris, seu antro onde dormem e esperam suas pelúcias estripadas, seus animais empalhados, seus amontoados de tecidos que formam grande parte de seu universo plástico. Não foi, portanto, por acaso que Annette Messager soube invadir de forma maravilhosa o pavilhão francês da Bienal de Veneza, que soube povoá-lo com seus monstros interiores e compartilhar conosco o tempo de uma visita, o tempo de uma vida, seus medos infantis que se tornaram adultos.

É com uma suntuosa ópera-espetáculo rubro-negra, escuridão e sangue, que Annette Messager, a primeira artista mulher a ser convidada a expor no pavilhão francês dos Giardini, levou este ano o Leão de Ouro da Bienal de Veneza, que acontece de 12 de junho a 6 de novembro de 2005. Três atos, sem palavra nem música, mas com uma cenografia majestosa, inspirada em Pinóquio, meio-fantoche, meio-humano. Pode-se percebê-lo na primeira sala: um boneco de madeira de nariz comprido, adormecido sobre uma almofadinha, estendido no chão em meio a uma floresta de travesseiros habitados por estranhos órgãos e máscaras negras. “Somos todos fantoches, manipulamos e somos manipulados.”


Inspiração livre das
aventuras de Pinóquio,
em que o herói italiano é
visto como um " simulacro de
nós mesmos ", a instalação
de Annette Messager em
Veneza questiona, num
percurso em três atos,
a identidade, a infância,
entre jogos e medos, o parto
ou clonagem - a condição
humana, enfim. Materiais
disparatados e cotidianos,
como travesseiros, pelúcias,
tecidos e sacos plásticos,
constituem a matéria de
sua obra.


Em seguida, a grande cena: na sala principal, em que se evoca a passagem pela barriga da baleia, uma imensa onda de tecido vermelho oscila no espaço, flutua no ar e cai lentamente sobre o solo, onde percebem-se formas brancas que respiram, inflam feito pulmões, corpos tragados, engolidos e, ao mesmo tempo, redivivos.

 

Uma geração de artistas que introduziu o feminino na arte

“Amo essa segunda estação de nossa viagem”, conta a escritora Julia Kristeva no catálogo distribuído no evento. “Para reencarnar, tornar-se humano de carne e osso, Pinóquio necessita passar pelo ventre feminino. Viagem ao coração do útero”. Momento de lembrar que Annette Messager é, desde sua estréia nos anos 70, mais uma artista mulher do que feminista, pertencente a uma geração de criadores que introduziu o feminino na arte. E, certamente, seu Leão de Ouro de Veneza premia também a singularidade e a importância de sua obra, logo defendida pelo curador suíço Harald Szeemann, ou ainda por Suzanne Pagé, diretora do Museu de Arte Moderna de Paris. Representada em Paris e Nova Iorque pela galeria parisiense Marian Goodman, lugar de destaque no mercado internacional de arte, reconhecida como uma das mais importantes artistas de sua geração por duas retrospectivas em 1995, no Museu de Arte Moderna (Moma) de Nova Iorque e no Museu de Arte Moderna de Paris, Annette Messager demonstra, com esse Leão de Ouro, que a limitada visibilidade internacional dos artista franceses não é uma fatalidade e que ela depende também de um apoio constante, maciço e voluntário, a começar pelo nosso país.

 

Viagem coletiva

Última etapa da viagem coletiva que ela propõe em Veneza: um imenso trampolim erguido por fios negros onde pelúcias disformes, corpos deslocados, saltam no ar e recaem em uma atmosfera de circo pontuada por luzes fluorescentes. Pois, se Annette Messager soube construir essa obra feita de trapos bordados ou presos a lanças, pardais mortos e agasalhados, pedaços de corpos fotografados e dispostos em formas circulares ou de púbis, ela reivindica, hoje mais do que nunca, uma ampliação de seu território, uma abertura para o mundo e se distancia das esferas circunscritas ao íntimo e ao Eu feminino, para atingir o humano, os vivos, todas as categorias ao mesmo tempo. “Acredito que quanto mais individuais nós somos, mais nos encontramos na universalidade”, comenta. E é realmente uma metáfora do corpo humano que ela instala no pavilhão francês de Veneza, rebatizado de “Cassino” para o evento: “casinha” em italiano, mas sobretudo sala de jogo, termo que convém tanto a seu trabalho quanto ao contexto da Bienal de Veneza, essa competição internacional onde cada artista mostra todas as suas cartas. Colecionadora de provérbios, ela criou um para melhor mergulhar na aventura: “Quem perde ganha”. No jogo da arte e da vida, Annette Messager sabe quanto o triunfo deve à modéstia.

Jean-Max Colard
jornalista da revista cultural Les Inrockuptibles

Para saber mais...

  • Catálogo Annette Messager, Cassino, ed. Xavier Barral-Paris Museus, Bienal de Veneza, 2005.

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