Cem anos de laicidade à francesa
Desde fevereiro de 2005, a França comemora o centenário da lei de 1905 que instaurou a separação entre Igreja e Estado. Bom momento para reafirmar os três princípios fundadores do pacto republicano: a liberdade de consciência, a igualdade entre os cidadãos e a fraternidade. Esses três valores indissociáveis formam a base do “convívio” à francesa. A laicidade na França comemora cem anos. A Academia das Ciências Morais e Políticas é a responsável, ao longo deste ano, pela comemoração oficial do centenário da lei de 1905. Fazem parte das comemorações vários colóquios, com a presença de especialistas e representantes de diferentes correntes de pensamento e religiões, o lançamento de um site na Internet, de um livro destinado ao grande público, além de uma coletânea de estudos escritos pelos maiores historiadores franceses sobre as relações entre o poder político e o religioso, desde a Antigüidade até hoje. Uma celebração que se dedicou a uma profunda reflexão e a um esforço pedagógico com o intuito de esclarecer uma movimentada história. Em 9 de dezembro de 1905, o deputado socialista Aristide Briand fez com que fosse votada a lei de separação entre a Igreja e do Estado, pondo um fim a séculos de confrontos entre a Igreja Católica e o poder político na França. O fim da religião de Estado
De fato, desde a Idade Média,
a Igreja Católica exercia um poder doutrinal,
notadamente na França, não só
sobre os poderes constituídos [1], mas também sobre as consciências,
os costumes e as artes. Com o Renascimento Humanista
(século XVI) e a filosofia das Luzes
(século XVIII), afirma-se uma vontade
de libertar-se do domínio do clero nas
esferas da política, do saber, da criação
e da vida privada. Se a laicidade enraizou-se nas instituições francesas com a lei de 1905, ela baseia-se, sobretudo, nos princípios humanistas e universalistas das Luzes. Aliás, a laicidade já se encontra claramente enunciada no artigo 10 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, que proclama: “Ninguém deve ser molestado por suas opiniões, mesmo religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei.” Em seguida, antes mesmo de que a lei de 1905 fizesse da laicidade um dos princípios republicanos, ainda hoje veementemente defendidos pelos franceses, as leis de Jules Ferry, sobretudo a de 1881 sobre a laicização do ensino, acabam com a tutela da Igreja Católica sobre a educação e instauram uma mudança importante na paisagem da França e de sua instituições. Garantir a liberdade de consciência e de pensamento. Jules Ferry escreveu aos professores em 1883: “A instrução religiosa é de responsabilidade da família e da Igreja. A instrução moral, da escola. A lei tem por objetivo primeiro separar escola e Igreja, garantir a liberdade de consciência de professores e alunos, estabelecer a distinção entre duas áreas confundidas por demasiado tempo: a das crenças, que são pessoais e a dos conhecimentos, comuns e indispensáveis a todos.” O princípio da liberdade de consciência e de pensamento afirma-se por força da lei no seio da escola pública. A emancipação das mentes como fundamento da República é, dessa maneira, colocada. Mais tarde, outros textos farão referência à laicidade, entre eles as Constituições de 1946 (4ª República) e de 1958 (5ª República) cujo artigo 2 coloca: “A França é uma República indivisível, laica, democrática e social. Ela assegura perante a lei a igualdade de todos os cidadãos sem distinção de origem, raça ou religião e respeita todas as crenças.” A laicidade é, acima de tudo, um quadro jurídico que garante a liberdade de consciência e a igualdade entre todos os cidadãos, sejam eles crentes, ateus ou agnósticos. Uma liberdade de consciência inscrita no artigo 1º da lei de 9 de dezembro de 1905: “A República garante a liberdade de consciência. Ela garante o livre exercício dos cultos.” Longe de ser uma arma contra as religiões, ela permite a coexistência pacífica entre as diferentes convicções espirituais...
A garantia do pluralismo religiosoQuanto ao artigo 2 da lei de 1905, segundo o qual: “A República não reconhece, não remunera e nem subvenciona qualquer culto (...)”, ele afirma que, perante a República, as religiões são iguais e que a ausência de uma religião oficial faz com que o Estado não seja mais o árbitro das crenças e se abstenha de privilegiar qualquer uma. Ele é “neutro” e se as autoridades religiosas têm o direito de exprimir seu ponto de vista sobre as leis, por outro lado elas não têm o direito de interferir em sua elaboração nem tampouco pesar, a favor ou contra, no momento de sua aplicação. Diante das infinitas guerras feitas em nome de Deus, dos confrontos passados[2] e presentes entre grupos religiosos, assim como as perseguições de que são vítimas, ainda hoje, milhões de pessoas no norte e no sul do planeta, seria bom, como assinala Guy Coq, professor de filosofia: “mostrar o alcance democrático e universal da laicidade (...) e os recursos para a paz de que ainda dispõe.” Foi exatamente a “unidade do povo” (laos em grego), para além das diferenças, que a laicidade francesa desejou construir. “A laicidade é, para cada cidadão, uma proteção fundamental, a garantia, não apenas de que suas próprias convicções sejam respeitadas, mas de que as convicções alheias nunca lhe sejam impostas.” Assim manifestou-se o presidente da República, Jacques Chirac, em outubro de 2003 no momento em que confirmava a criação de uma autoridade independente, responsável pela luta contra todas as formas de discriminação [3] e lembrava que é “o papel essencial da laicidade em nossa República”, que “determina nossa capacidade de conviver, homens e mulheres, iguais e diferentes, todos livres e solidários.” “Cimento capaz de unir homens contra as barreiras ideológicas que poderiam separá-los”, a laicidade organiza a paz social e opõe-se ao que chamamos hoje de “comunitarismo”, que pode conduzir à exaltação das diferenças entre os indivíduos e aos conflitos entre as identidades. A laicidade visa assegurar a cada pessoa a liberdade de escolher, sem ser obrigado a nenhum juramento de obediência, sobretudo no espaço reservado à formação do espírito crítico e aos valores comuns, que é a escola pública. Esta é, assim, “universalizável, pois todos os homens ganham com ela”, como observa o filósofo Henri Pena-Ruiz. O cimento da sociedade francesa
Foi com esse espírito que foi adotada a lei de 15 de março de 2004 que proíbe o uso de símbolos religiosos ostensivos na escola, após o trabalho de consulta e de análise realizado por uma comissão formada para essa finalidade (ver quadro). Apresentada por alguns como uma disposição contra o uso do véu pelas meninas, que corria o risco de estigmatizar os muçulmanos franceses, essa lei estipula que “nas escolas de ensino fundamental e médio, o uso de símbolos religiosos ou de vestimentas que sirvam de manifestação ostensiva de pertencimento a uma religião são proibidos.” É interessante notar que o balanço dessa lei, freqüentemente atacada e mal interpretada, notadamente no exterior, é extremamente positivo. Segundo os últimos dados divulgados pelo Ministério da Educação Nacional, ela foi aplicada a 639 alunos em 2005, contra 1.500 em 2004. “Mais de 550 desses casos foram resolvidos com o diálogo” – preconizado pela lei –, precisou em março de 2005 o então ministro François Fillon. O que comprova a necessidade de se defender sempre o princípio da laicidade e reafirmar que a cidadania francesa não se baseia no fato de se pertencer a um determinado grupo cultural, étnico ou religioso, mas na adesão a princípios comumente aceitos. E de que a escola pública é um lugar de transmissão do saber onde a neutralidade deve ser preservada e onde a igualdade entre todos, meninos e meninas, deve ser totalmente assegurada. De forma alguma dirigida
contra uma população ou uma religião,
essa lei é apenas a afirmação
do princípio de laicidade na República
Francesa, que garante a todos a liberdade de
praticar a religião de sua escolha. Mélina
Gazsi
[1] Apoiando particularmente as monarquias ditas “de direito divino”, na defesa de interesses mútuos. [2] As guerras de religião, entre católicos e protestantes, ensangüentaram principalmente a França durante todo o século XVI. [3] Alta Autoridade na Luta contra a Discriminação e pela Igualdade (Halde), 11-15, rua Saint-Georges, 75009 Paris. |
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