“Não carregue muita água.
Vou lhe mostrar as fontes onde a água brota
o ano inteiro no alto dos planaltos”. Esse
conselho precioso é de Loïc Bonnel,
guia de montanha, que tem um conhecimento inesgotável
da fauna e flora locais. Ele e sua mulher Sylvie,
guia cultural, gostam de receber viajantes que,
como nós, fazem uma parada, por uma semana
ou mais, em uma de suas pousadas rurais, em busca
de paisagens verdes e tranqüilidade. O casal
tem duas, em construções reformadas,
vizinhas à casa onde moram, uma antiga
fazenda perdida no verde, em Saint-Agnan-en-Vercors
(Drôme). Aqui, como em outros lugares na
França, a pousada rural ou o quarto de
hóspedes têm uma história
singular. Deles emanam uma acolhida e uma atmosfera
únicas, o que certamente explica o incrível
sucesso das Pousadas da França, cuja Federação
(FNGF) comemora este ano, seu qüinquagésimo
aniversário. Na classificação
européia, ela é a maior rede de
turismo “verde” com hospedagem familiar.
Um sucesso sem igual
A história das Pousadas
da França começa no início
dos anos 50. Nessa época, as pessoas
que moravam nas cidades queriam desfrutar das
férias remuneradas que lhes haviam sido
atribuídas antes da guerra, mas não
dispunham de recursos suficientes. Nesse mesmo
momento, o êxodo rural despovoava o campo.
A idéia de receber pessoas em férias
nas fazendas foi de Émile Aubert, senador
dos Alpes-de-Haute-Provence. Seu desejo? Que
a fórmula correspondesse às necessidades
dos turistas, trazendo, ao mesmo tempo, uma
fonte de renda extra a um mundo rural em crise.
Em 1951, é aberta a primeira pousada
rural. Um ano mais tarde, o ministério
da Agricultura cria subvenções
aos agricultores que se lançarem na aventura
das pousadas, enquanto o Crédit Agricole
e o Crédit Hôtelier lhes concediam
empréstimos com taxas convidativas. Finalmente,
em 1955, é fundada a Federação
Nacional de Pousadas da França. Seu primeiro
guia registra 146 endereços. Em cinco
décadas, as Pousadas da França
conheceram um sucesso único. A Federação
emprega hoje 600 empregados responsáveis
pelo controle de aproximadamente 56.000 hospedarias
em meio rural e pela comercialização
desses lugares junto aos dois milhões
de adeptos desse tipo de turismo. A FNGF também
edita quinze guias. Ela está na Internet,
onde é possível fazer reservas
em alguns “clics”. As milhares de
hospedagens são descritas com precisão
e sua qualidade é controlada de maneira
rígida e regular. A marca “Pousadas
da França” obriga os proprietários
a cumprirem várias exigências (área,
equipamentos, limpeza, meio-ambiente, etc.),
garantias de seu sucesso.

Aninhado no coração da
Drôme provençal,
uma pousada rural calma
e ensolarada
Mãos na massa
Em cinqüenta anos,
as Pousadas da França se tornaram mais
chiques. Os agricultores representam, atualmente,
apenas um quarto dos proprietários. Profissionais
de outras áreas instalaram-se nesse nicho.
Vários deles abandonaram as cidades para
vir morar no campo em busca de uma vida mais
agradável. Eles podem ser beneficiados
por auxílios para a renovação
do patrimônio rural, atribuídos
pelas coletividades territoriais, em troca do
compromisso de alugarem as pousadas pelo período
mínimo de dez anos. Alguns proprietários
com poucos recursos não demoram muito
para arregaçar as mangas e pôr
mãos à massa. Em Saint-Agnan-en-Vercors,
na casa dos Bonnel, um álbum de fotos
conta, de forma mais eloqüente do que um
longo discurso, os gigantescos trabalhos que
Loïc teve de realizar para transformar
uma imponente granja abandonada em uma pousada
confortável com capacidade para dez hóspedes.
Ele chegou até a produzir todos os móveis
de madeira!
“Quantas fazendas,
granjas, pombais ficariam em ruínas sem
as Pousadas da França! Em cinqüenta
anos, contribuímos para a proteção
de mais de 100.000 construções”
confirma Pascal Boulet-Gercourt, diretor-geral
da FNG. Nada menos do que 18 milhões
de euros são empregados anualmente em
toda França para a reforma das construções,
o que significa em média 50.000 euros
por pousada. Ao valorizar seu patrimônio
imobiliário, os proprietários
de pousada ou de quarto de hóspede não
buscam rentabilidade a curto prazo. No turismo,
o retorno dos investimentos não são
imediatos e o faturamento, muitas vezes, não
muito alto. O eventual lucro que um proprietário
de pousada pode obter nessa atividade representa,
normalmente, apenas um complemento financeiro,
muito raramente a fonte principal de renda.
Na verdade, além dos aspectos econômicos
e patrimoniais, “a vontade de receber
gente”, explica Sylvie Bonnel, continua
a ser a verdadeira razão do compromisso
nas Pousadas da França.

Rústicos ou refinados,
os quartos das pousadas
garantem qualidades
e conforto.
Desenvolvimento internacional
Os clientes, por sua vez,
têm hoje maior poder aquisitivo do que
os de dez anos atrás. Os executivos e
os profissionais liberais representam quase
a metade dos freqüentadores, contra apenas
18% de trabalhadores de padrão médio.
Nas pousadas rurais, a freqüência
maior é de uma clientela familiar, que
gosta de conhecer um lugar novo todo ano. Os
quartos de hóspede são mais procurados
por casais sem filhos.
A oferta de hospedagem,
bastante diversificada, responde à demanda
desses novos adeptos: vai da simples fazendinha
ao quarto de hóspedes reformado com estilo
em uma ala de uma castelo renascentista... Tendência
atual: o crescimento muito rápido do
número de quarto de hóspedes.
No Norte, por exemplo, esse tipo de hospedagem
quase quintuplicou desde 2001! Última
novidade: a primeira edição do
guia Pousadas charmosas que registra quase 500
na região. Instaladas em quintas, sedes
de fazendas ou pombais, com móveis rústicos,
de época ou contemporâneos, todas
elas oferecem um grande conforto.
A escala de preços
acompanha o padrão da pousada e varia
de acordo com a categoria (de uma a cinco espigas,
sistema equivalente ao das estrelas para os
hotéis), a região e a estação.
Única regra fixa: os preços, livres,
são definidos pelos proprietários.
Nascidas no interior da França no final
da guerra, as Pousadas da França conquistaram
há muito tempo o público internacional.
A organização está presente
nos principais mercados europeus, em colaboração
com vários operadores de turismo. Resultado:
quase 20% dos clientes vêm do exterior,
principalmente de países vizinhos. Aliás,
hoje à noite, em Saint-Agnan-en-Vercors,
fomos convidados para tomar um aperitivo com
a jovem família belga que ocupa a outra
pousada dos Bonnel. Entre amigos...
Emmanuel Thévenon
jornalista
Panda,
a pousada natureza
Duzentas
e oitenta pousadas rurais filiadas à
rede Pousadas da França ostentam
a marca “Panda”. Atribuída
desde de 1993, juntamente com à
WWF (Fundo Mundial para a Natureza), essa
marca designa uma hospedagem rural situada
em plena natureza em um meio preservado
(parque nacional, por exemplo). Seus proprietários
comprometem-se a disponibilizar para os
clientes binóculos e material de
consulta sobre a natureza (guia de fauna
e flora). Eles também têm
de administrar sua pousada conscientes
da responsabilidade de preservação
do meio ambiente.
E. T. |