Engajar-se pelos objetivos do milênio
O ano de 2005 é crucial no que diz respeito aos Objetivos do Milênio para o Desenvolvimento (OMD), no programa da reunião de cúpula da ONU em setembro. Os dirigentes do mundo comprometeram-se a atingi-los em 2015 para reduzir à metade a pobreza global, mas, a um terço do percurso, os resultados são poucos expressivos e demandam esforços suplementares.
Fortalecer a pressão sobre os governosA realização
dos OMDs é prioritária para o
Secretário-Geral das Nações
Unidas, no âmbito da reforma para aumentar
a eficiência da ONU. Kofi Annan mobiliza
sua organização em todos os níveis
e ativa suas redes planetárias, no seio
de organizações não-governamentais
(ONGs), do setor privado e da comunidade artística,
com o objetivo de fortalecer a pressão
sobre os governos para que estes cumpram seus
compromissos. Um primeiro exame da implementação
dos OMDs, bastante esperado, deve ser feito
pela cúpula das Nações
Unidas entre14 e 16 de setembro. Esse exame
apóia-se em vários relatórios,
dentre os quais o do Projeto do Milênio,
dirigido por Jeffrey Sachs, que também
é conselheiro especial do Secretário-Geral
para os OMDs.
Progressos muito lentosCinco anos após a Declaração do Milênio, a situação parece, no mínimo, contrastante. Em seu relatório provisório sobre os OMDs, publicado em 9 de junho último, as Nações Unidas observam, do início dos anos 1990 ao início de 2000, “progressos sem precedentes na luta contra a pobreza, principalmente na Ásia, e atrasos inaceitáveis, particularmente na África subsaariana”. Se há progressos,
estes são desesperadamente lentos. Um
bilhão de pessoas vivem na miséria
absoluta; se a proporção desse
grupo baixou de 28% para 21%, no conjunto da
população, seus recursos, entretanto,
passaram de 0,80 para apenas 0,82 dólares
por dia. Insuficiente para comprar antibióticos
que tratem uma pneumonia, vacina contra rubéola
ou soro para curar diarréia. Medicamentos
esses que faltam às 30.000 crianças
(11 milhões por ano) que morrem todo
dia, vítimas de causas evitáveis.
Como escreveu Jeffrey Sachs, “a pobreza
extrema mata”. O número de inscrições na escola primária aumentou. Passou, em uma década, de 80 para 83%. As meninas são maioria entre os 115 milhões de crianças não escolarizadas, apesar do relatório da ONU destacar a importância de sua educação como condição primeira para a igualdade entre os sexos “sem a qual, não se vencerá a fome, nem a pobreza ou a doença”. Na política, as mulheres representam 16% dos parlamentares do planeta. Nenhum avanço foi realizado em termos de saúde materna, com 500.000 mulheres morrendo todo ano durante a gravidez ou ao darem a luz. A AIDS apaga décadas de desenvolvimento nos países mais afetados. Atingindo 39 milhões de pessoas, ela se tornou a quarta causa de morte prematura no mundo e propaga-se a um ritmo alarmante na Comunidade dos Estados Independentes (CEI) e na Ásia. Entretanto, os exemplos da Tailândia e de Uganda mostram que os esforços empreendidos conseguiram reduzir o índice de contaminação. Com relação ao meio-ambiente, o acesso à água potável aumentou 10%, porém, mais de um bilhão de pessoas continuam excluídas. A metade da população não dispõe de saneamento básico. Acumulando retrocessos, a África subsaariana é a grande perdedora da última década. Não só a proporção da população que vive em extrema miséria aumentou, passando de 44% para 46,4%, como também sua renda diminuiu de 0,62 para 0,60 dólares por dia. Assim 34 milhões de pessoas a mais passam fome. A AIDS tornou-se a primeira causa de mortalidade prematura. Em 2004, eram contabilizados 12 milhões de crianças órfãs de pelo menos um dos pais, abandonando as escolas que, por sua vez, perdiam vários professores, vítimas da pandemia. Até o ano 2010, no ritmo atual de contaminação, prevê-se que 18 milhões de crianças ficarão órfãs. Apesar de tudo, o índice de inscrição na ensino fundamental, o menor do mundo, passou de 54% para 62%, ainda de acordo com o relatório provisório da ONU. O desafio dos OMDs é colossal, proporcional aos problemas a serem resolvidos. Uma coisa é certa: sua realização exige mais fundos e novos mecanismos de financiamento. A Ajuda Pública para o Desenvolvimento (APD) é, muitas vezes, a principal fonte de renda dos países em desenvolvimento. Para realizar os OMDs, seria necessário que os países doadores adiantassem no mínimo 50 bilhões a mais por ano. A média atual é de 0,25% da renda nacional bruta (0,34% na Europa, 0,44% na França) para uma APD anual global de 79 bilhões de dólares.
Rever as regras do comércio internacionalÀs vésperas
da cúpula, em setembro de 2005, a mobilização
em favor dos OMDs acelerou-se. Os países
europeus decidiram aumentar coletivamente sua
APD para 0,56% do rendimento interno anual em
2010 e, em 2015, atingir a meta de 0,7%, objetivo
por eles definido em 1970. O G8, por sua vez,
reunido em julho de 2005, na Escócia,
anunciou que a metade dessa ajuda suplementar
em termos de APD beneficiaria a África.
Anunciou, também, o cancelamento de parte
da dívida multilateral de 18 países
muito endividados (40 bilhões de dólares).
Mas, segundo o economista do Togo na ONUDI,
Yves Ekoué Amaïzo, a APD é
apenas “uma alternativa de ajuste para
a falta de solidariedade internacional (...)
A prosperidade funda-se na criação
de riquezas no Norte? O mesmo se dá na
África.” (Libération, 11
de julho de 2005). Ele esclarece que a participação
da África no comércio internacional
não parou de diminuir há vários
anos, para chegar hoje a 2%. “É
necessário repensar as relações
Norte-Sul” conclui esse especialista em
assuntos africanos. A única solução
eficaz e duradoura, segundo os dirigentes dos
países em desenvolvimento e organizações
de solidariedade internacional (OSIs), reside,
com efeito, em uma verdadeira transformação
das regras do comércio. Muitos pedem
a abertura dos mercados dos países ricos
e o abandono de suas subvenções
às exportações agrícolas
(300 bilhões de dólares em 2003,
ou seja, 1,2% do rendimento), assim como o aumento
dos preços das matérias primas
(seu valor caiu 70% em vinte anos). Segundo
relatório da Organização
das Nações Unidas para a Alimentação
e a Agricultura (FAO), publicado em fevereiro
de 2005, se os preços de dez produtos
agrícolas básicos ( café,
açúcar, cacau, algodão,
banana, etc.) exportados por esses países
tivessem aumentado segundo a inflação
desde 1980, eles teriam ganho 110 bilhões
de dólares a mais em 2002, ou seja, o
dobro do montante da ajuda que receberam. Isso
permitiria que sociedades inteiras saíssem
do subdesenvolvimento. A ajuda para o desenvolvimento
continua sendo, principalmente aos olhos da
França, uma condição prévia
para que aos países mais pobres possam
obter os meios necessários a sua integração
à globalização. Monique
Perrot-Lanaud
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