« O sub-desenvolvimento é uma agressão aos direitos humanos »
Entrevista com Stéphane Hessel, ex-embaixador da França, principalmente junto às Nações Unidas, e advogado incansável na área dos direitos humanos.
A ONU foi a primeira organização
internacional que definiu como básico,
não apenas a paz ou a segurança,
mas também o respeito aos direitos humanos.
Mais precisamente, a Carta de São Francisco
(1945) evoca os direitos humanos e as liberdades
fundamentais. Observam-se as contribuições
de duas culturas jurídicas: a anglo-saxã,
em relação às liberdades
fundamentais, e a francesa, com a retomada da
Declaração Universal dos Direitos
do Homem e do Cidadão de 1789 na Declaração
Universal dos Direitos do Homem de 1948. É
necessário lembrar que o adjetivo “universal”
não existe nos tratados ou textos internacionais
precedentes. Foi René Cassin (um dos
principais autores dessa Declaração),
prêmio Nobel da Paz em 1968, que propôs
e impôs seu uso. Isso significa que tais
direitos não são apenas os dos
cidadãos cujos países aceitaram
ou ratificaram esses tratados internacionais.
É um princípio de base para a
humanidade. O que faz com que a comunidade internacional
tenha a obrigação de zelar por
seu respeito no mundo todo, seja qual for o
país em questão.
Por que as Nações
Unidas não põem um termo às
violações dos direitos humanos?
A Carta contém um paradoxo fundamental:
o parágrafo 7 de seu artigo 2 indica
a soberania dos Estados-membros. Conseqüentemente,
seus assuntos internos não dizem respeito
à comunidade internacional. Essa parte
do texto está em posição
diametralmente oposta ao artigo 65, segundo
o qual as Nações Unidas propõem-se
a proteger e promover os direitos humanos em
todo lugar. Qual é o passo a ser dado pela ONU para melhorar a defesa dos direitos humanos? Dentre as grandes nações industrializadas, a França foi a única a defender o direito ao desenvolvimento, sem o qual a democracia não é viável. Para tornar efetivos os direitos humanos, as Nações Unidas devem, imperativamente, pôr um termo ao subdesenvolvimento, à miséria. É por isso que, como Jacques Delors ou Mikhaïl Gorbatchev, proponho a criação de um Conselho de Segurança Econômica, Social e Cultural que teria o mesmo poder de decisão que o Conselho de Segurança atual. Esse organismo seria como um G8, porém ampliado. Ele reuniria os grandes países do Norte e do Sul, assim como os países mais populosos. Ele seria encarregado, principalmente, de promover de forma simultânea, pois estão intimamente ligados, o desenvolvimento, a democracia e os direitos humanos. Ele seria dirigido por um secretário-geral, que funcionaria como um procurador encarregado de destacar os descompassos entre promessas e ações. Seu papel seria fomentar, finalmente, o respeito às normas estabelecidas e zelar pela aplicação dos programas de ação. por Emmanuel Thévenon Para mais informações: “La protection des
droits civils et politiques par l’ONU
: l’oeuvre du Comité des droits
de l’Homme (A proteção dos
direitos civis e políticos pela ONU:
obra do Comitê dos Direitos Humanos),
Négib Bouziri, editora L’Harmattan,
Paris, 2003. |
||||




