A necessidade de reformas
Apesar do freqüente imobilismo a ela atribuído, a ONU deu início em 1997 a um processo de adaptação de suas instituições, com o objetivo corresponder às evoluções do mundo. Na reunião de cúpula mundial das Nações Unidas (Nova Iorque, 14-16 de setembro de 2005), os países-membros devem pronunciar-se a respeito de uma série de reformas propostas por Kofi Annan em 21 de março de 2005. O texto do secretário-geral da ONU – Em maior liberdade – visa fortalecer a legitimidade, a eficácia e o dinamismo da instituição no término de um processo de reformas administrativas e financeiras. Esse texto inspira-se, em grande parte, nas conclusões dos dois relatórios anteriores. O primeiro, apresentado em dezembro de 2004 por um grupo de dezesseis especialistas de alto nível, presidido por Anand Panyarachun, definiu as reformas necessárias para melhorar a resposta coletiva às ameaças, aos desafios e às mudanças. O segundo, entregue em março de 2005 por Jeffrey Sachs, fazia o balanço, a um terço do percurso, da implementação dos objetivos do milênio para o desenvolvimento (OMD: 2000-2015) e fazia propostas em termos numéricos para manter o compromisso assumido pela comunidade internacional. Protegidos contra o medo, mas também contra a necessidade“Viver protegido contra a necessidade” é a primeira entre as prioridades de Kofi Annan. Nessa perspectiva, os países mais ricos são exortados a aumentar sua contribuição pública para o desenvolvimento com a finalidade de destinar-lhe no mínimo 0,7% de seu produto interno bruto a partir de 2015. A França pretende alcançar essa meta em 2012. No contexto de uma melhor governança, ela apóia também o projeto de revitalização do Conselho Econômico e Social, particularmente responsável por coordenar as atividades das agências especializadas da ONU. É necessário, em seguida, “viver protegido contra o medo”. Os países-membros são chamados a adotar uma estratégia global contra o terrorismo e a proliferação nuclear. O objetivo é prevenir conflitos, mas também resolver os já existentes. Com efeito, a metade dos países que saem de uma guerra, vivem uma realidade de violência nos cinco anos seguintes. Para sair desse impasse, Kofi Annan propõe a criação de uma Comissão de Consolidação da Paz, sob a tutela do Conselho de Segurança, que mobilizaria as principais instituições das Nações Unidas (Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, etc.) a fim de que trabalhem em melhor sinergia. Finalmente, para que os homens possam “viver dignamente”, a Organização deve assumir sua “responsabilidade pela proteção” e definir meios de agir coletivamente para impedir os genocídios, as purificações étnicas e os crimes contra a humanidade. De forma que os massacres de Ruanda nunca mais se reproduzam. Preocupada em fortalecer
o dispositivo da ONU com relação
aos direitos humanos, a França aprova
a substituição do título
Comissão de Direitos Humanos por Conselho
de Direitos Humanos, uma vez que hoje ela vem
sendo duramente criticada. O Alto Comissariado
dos Direitos Humanos seria, aliás, dotado
de recursos financeiros e humanos suplementares. Um programa ambicioso e realistaA França estima que a maiorias das evoluções apresentadas por Kofi Annan formam uma base ambiciosa e realista. A seu favor há propostas inovadoras, como a transformação do Programa das Nações Unidas para o Meio-Ambiente (PNUE) em verdadeira instituição especializada (ONUE) e o projeto de financiamento da luta contra a AIDS por meio de tributação solidária sobre as passagens aéreas. O Reino Unido, por sua vez, propôs a criação de uma Iniciativa de Financiamento Internacional (IFI), baseada nos empréstimos, para enfrentar as necessidades mais urgentes. Finalmente, a França é favorável à ampliação do Conselho de Segurança em benefício dos países desenvolvidos e em desenvolvimento, bem como à racionalização dos trabalhos da Assembléia Geral e a busca pelo aperfeiçoamento da gestão do secretário-geral, para que este possa exercer seu mandato de maneira mais eficiente. Espera-se da reunião
da cúpula mundial que essas propostas
avancem, tendo em mente que o status quo ante
seria a pior solução possível
para o futuro da ONU e, sobretudo, para o futuro
do multilateralismo. Emmanuel
Thévenon
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