
As desigualdades entre o
norte e o sul e nas sociedades,
assim como a degradação do
meio ambiente, fazem pesar
novas ameaças sobre
a segurança internacional
A dupla transformação
dos desafios
As Nações
Unidas levam em consideração a
dupla transformação dos desafios,
que vêm mudando de natureza. Esses desafios
afetam todos os aspectos da vida em sociedade.
Eles não colocam mais em oposição
apenas as Nações; mas afetam cada
indivíduo, apesar das barreiras instituídas
pelos governos. O caso clássico que previa
a Carta era o da guerra frontal: um país
invade outro, a Coréia do Norte contra
a Coréia do Sul, o Iraque contra o Kuwait.
No entanto, em sessenta anos, os perigos assumiram
mil outras formas, tais como:
-
o acúmulo de armas
de destruição em massa. Todo
um conjunto de resoluções
visa impedir essa proliferação
(nuclear, biológica ou química).
Durante mais de dez anos, um pesado aparato
de inspeção foi empregado
no Iraque para impedir seu acesso às
armas mais destrutivas. Finalmente, esse
sistema típico da ONU revelou-se
eficaz;
-
o terrorismo. A ONU tomou
as decisões necessárias. Ao
classificar como “agressão
armada” o atentado de setembro de
2001, o Conselho de Segurança reconheceu
o direito dos Estados Unidos de se defenderem
e legitimou a ação militar
contra o regime talibã (Afeganistão),
país que hospeda a organização
terrorista. Mais recentes, no entanto, são
as ameaças causadas pelo desequilíbrio
econômico entre o Norte e o Sul, as
epidemias, os danos causados ao meio ambiente.
A pobreza destrói as relações
humanas nas zonas desfavorecidas da África
ou da Ásia Central, a aids leva países
ao caos, o descaso para com o meio ambiente
arruína ex-repúblicas soviéticas.
As Nações Unidas estão
conscientes de que a paz do mundo depende
também de seu equilíbrio.
Para manter sua credibilidade,
essa concepção excessivamente
extensa de segurança deve ser redimensionada.
Ao se tratar tudo sob o ângulo da segurança,
corre-se o risco de esquecer que os imperativos
do desenvolvimento são primordialmente
questões de justiça e de igualdade.
Kofi Annan compreendeu isso e fala não
de segurança, mas sim do “dever”
de fazer com que o mundo esteja protegido contra
as necessidades e as epidemias.

A ONU vai implementar uma
" estratégia mundial" para
lutar com eficácia contra o
terrorismo que atinge cegamente
civis ao redor do mundo.
Londres (Inglaterra), depois
dos atentados em julho de 2005.
A questão dos assuntos “internos”
A segunda transformação
é menos ambígua: a predominância
dos problemas nacionais. Os conflitos atuais
raramente são de choques entre dois países.
Eles nascem dos excessos de um Estado que caminha
ou para uma ditadura (como na Etiópia,
na Libéria, na América Central
ou nos Bálcãs), ou, ao contrário,
da dissolução de seu governo.
Frente a essas ameaças, a ONU aparentemente
estaria impedida de agir, pois o artigo 2 de
sua Carta proíbe a intervenção
nos assuntos internos de um Estado. A resposta
foi bastante pragmática. Argumentando
que uma perturbação sempre representa
um risco para a segurança local e, em
pouco tempo, internacional, a ONU rapidamente
interveio nos conflitos internos dos países.
O Conselho de Segurança concentra a maior
parte de suas atividades nesses conflitos. A
noção de bom senso desenvolve-se
e são criadas obrigações
para os Estados, entre as quais a primeira é
proteger sua população. Caso essa
obrigação não seja cumprida,
a comunidade das Nações o fará.
Não há necessidade alguma de modificar
a Carta. Uma resolução que codifique
essa responsabilidade é suficiente e
a cúpula de setembro ratificará
esse progresso.

Sob a égide das Nações
Unidas,
o Camboja realizou,
em maio de 1993, suas
primeiras eleições livres
em vinte e cinco anos.
Uma área de intervenção
ampliada
A ONU ampliou sua área
e suas modalidades de intervenção.
A Carta regulamentava o caso de conflitos clássicos
cuja solução era, em último
caso, a aplicação das medidas
coercitivas previstas no capítulo 7 que
implicam sanções ou o uso de força
militar. Mas a multiplicidade das formas de
insegurança levou a que se imaginassem
novas práticas.
Evidentemente, o objetivo
de uma organização internacional
é erigir normas que disciplinem os Estados.
Isso faz com que haja uma incessante atividade
na área dos acordos, reformulando o direito
marítimo, espacial, tentando ao menos
refrear a corrida armamentista. Pelo fato de
não dispor de tribunal, a ONU é
mais lenta ao fazer com que os direitos humanos
sejam respeitados. O Tribunal Penal Internacional
impedirá novos crimes contra a humanidade?
É cedo para dizer.
As Nações
Unidas praticam desde sempre a diplomacia preventiva,
antecipando os conflitos. O Conselho de Segurança
vem tendo um papel ativo, agindo localmente,
no Timor, em 1999 e na África várias
vezes.
Mas é o papel do
secretário-geral que deve ser ressaltado.
Sua força é sua independência.
Solitário, ele pode lançar idéias,
como fizeram Dag Hammarskjöld em relação
a Suez em 1956 ou ao Congo em 1960, U Thant
em relação à Indochina,
Pérez de Cuéllar em relação
à América Central e à guerra
do Golfo, Boutros Boutros-Ghali e Kofi Annan
em relação à África,
à ex-Iugoslávia e ao Oriente-Médio.
Bem ou mal, a opinião
pública guarda, sobretudo em matéria
de conflitos, as operações de
manutenção da paz. Estas não
estão previstas na Carta, uma prova,
se necessário for, de que as Nações
Unidas evoluem e inovam. A ação
dos Capacetes Azuis foi ironizada e seus fracassos
comentados exaustivamente. Isso significa esquecer
que, a cada crise, a ONU solicitou recursos
suplementares que os países-membros,
responsáveis em última instância,
recusaram. Existe uma razão para se esperarem
mandatos mais claros e mais precisos. Mas, no
contexto atual, quantos cessar-fogo, quantas
zonas incandescentes não explodem porque
um pequeno grupo de homens em uniformes azuis
preserva uma trégua que, apesar de frágil,
dura e vale mais do que uma guerra!
Os conflitos atuais entretanto
são, em sua maioria, antigas lutas que
ressurgiram. Não basta restabelecer a
paz. É necessário ainda consolidá-la,
desarmar, mas também desenvolver. Rapidamente,
os secretários-gerais enviaram aos locais
“representantes especiais” para
coordenar os esforços de reconstrução.
Uma comissão de consolidação
da paz reunirá, em Nova Iorque, as energias
do Conselho de Segurança, do Conselho
Econômico e Social, dos países
que contribuem com tropas ou financiamento.
O traço comum dessas evoluções
é que elas acontecem sem que sejam necessários
exaustivos debates institucionais. O mérito
da Carta é ser um texto simples, que
permite adaptações. A principal
autoridade – personificada pelo Conselho
de Segurança – deve ser modificada?
O problema não é a “legitimidade”
do Conselho tal como ele é. A questão
é a ambição de vários
países, bastante compreensível,
de assumirem um lugar nele. O debate sobre a
reforma nada mais é do que a ilustração
do valor atribuído ao papel das Nações
Unidas. Por que tanto interesse? Porque ao reclamar
uma maior participação nas decisões
do Conselho de Segurança, os Estados
comprovam a vitalidade do princípio cardinal
da Carta, o do caráter “coletivo”
das deliberações e ações.
Nesse capítulo essencial, a cúpula
consagra a vitória da sabedoria. Por
mais poderoso e inspirado que seja, um país
não pode policiar o mundo. As Nações
Unidas são a escuta permanente, o respeito
à opinião do outro. O espírito
da Carta, que obriga a esse constante debate
permanece vivo. A ONU continua sendo útil.
Alain
Dejammet
ex-embaixador da França, notadamente
junto à ONU