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A República francesa e seus símbolos por Maurice Agulhon* abril de 2001 A velha nação chamada França é hoje oficialmente designada pela expressão "República Francesa ". Daí deriva o uso freqüente das iniciais RF, empregadas como uma espécie de logotipo. A vigência do regime republicano merece hoje praticamente a unanimidade da opinião pública, mas nem sempre foi assim. No século XIX, como herança da Revolução Francesa, os símbolos da República que serão aqui brevemente enumerados e comentados eram os da França revolucionária e depois liberal (ou, se quisermos, da França de esquerda) contra a França monárquica e conservadora. Foi no século XX que eles se tornaram os símbolos da República Francesa aceita, consensual e, em suma, os da França simplesmente.
A bandeira tremulando sob o Arco de Triunfo em Paris (Agência Keystone) Verifica-se uma certa tendência a relativizá-lo, elevando quase ao mesmo nível as bandeiras de outros conjuntos territoriais. Já não é difícil encontrar no frontispício de uma prefeitura um mesmo brasão sustentando três bandeiras, a tricolor no centro, a bandeira (oficiosa) da região de um lado e o azul estrelado da Europa do outro.
A estátua da República e a bandeira, prefeitura de Saint-Pons-de-Thomières, Hérault. Foto : Patrice Piacenza (Dexia – Imprensa Nacional).
Hoje A Marselhesa continua sendo oficial nas comemorações nacionais e militares, mas sua popularidade não é mais a mesma, vítima do pacifismo difuso e do antinacionalismo implícito de uma sociedade que tenta encontrar novos referenciais. E por sinal termina aqui o paralelismo com a história da bandeira: se, como já se disse, a bandeira européia tornou-se conhecida e popularizada, ela não tem um equivalente em música, pelo menos não no mesmo grau de notoriedade.
A representação da República Francesa por uma figura alegórica, a de uma mulher, geralmente usando um gorro frígio, não consta da Constituição, mas não pode ser negado seu caráter oficial, pois ela figura no selo do Estado, assim como nas moedas e nos selos postais, outros símbolos de atividade e responsabilidade públicas. Também aqui, tudo tem origem na Revolução, que, tendo rejeitado a Monarquia, suas armas e emblemas com a flor-de-lis, não podia deixar de substituí-los. O selo do Estado – decretou a Convenção no fim de setembro de 1792 – apresentaria uma "figura da Liberdade". Sabe-se que há vários séculos os tratados clássicos de iconologia apresentavam o gorro frígio como atributo característico da Liberdade. Pela decisão de 1792, portanto, este boné tornava-se o principal emblema da República Francesa, entrando para a história da França para nela ficar. Tendo a República vencido e tendendo a identificar-se com a França, a alegoria da França usa um gorro frígio, e o gorro de certa forma afranceza-se. Esta nacionalização francesa do gorro frígio já era suficientemente patente no fim do século XIX para que a Liberdade universal se visse na contingência de encontrar outras maneiras de cobrir a cabeça (sendo a mais famosa a da estátua da Liberdade do escultor Bartholdi, em Nova York). Ao longo da complicada
história do século XIX, contudo, houve republicanos que consideraram o
gorro frígio revolucionário demais, e que uma República
legalista e pacífica devia ser representada com outro acessório (lauréis,
por exemplo). De qualquer maneira, é a este parêntese logo fechado de
nossa história que o simbolismo republicano deve certas criações ainda
conhecidas e mesmo bastante visíveis: o primeiro selo postal francês,
conhecido como o da Cérès, de 1849, ou a República sentada e coroada de
sol no selo do Estado e os escudos de armas dos tabeliães, ou
ainda a cabeça que figura na medalha da Legião de Honra. O selo do Estado (Agência Keystone). Com ou sem gorro, mas na maioria das vezes com ele, os tipos de República Francesa alegórica que se tornaram oficiais pelas moedas e selos sucederam-se em grande número. O mais célebre, por sua originalidade (figura em pé em formato pequeno), seu peso simbólico e simplesmente seu encanto é o da Semeadora (criação de O. Roty em 1897). A representação feminina da República revolucionária, e mais adiante da bem comportada "República Francesa" e da França teve muitas outras utilizações e veículos além dos símbolos do Estado que acabamos de enumerar: estátuas de praças públicas, bustos para ornar o interior de edifícios diversos, obras livres de pintores, escultores ou gravadores, alegorias vivas em cena ou na rua, bibelôs para coleções e domicílios privados, enfim e sobretudo caricaturas de imprensa. Tudo isto livre, oficioso e/ou contestador. A mesma liberdade, isenta de qualquer delimitação legal, encontra-se no uso - documentado desde 1792 - do nome próprio "Marianne" para designar a República. Hoje em dia, parece que o uso do busto da República na forma de mulher com gorro frígio e o nome de "Marianne" tornou-se uma especialidade da instituição municipal (mais que da política de Estado), prestando-se às vezes a utilizações folclóricas e de comunicação bastante afastadas da gravidade republicana oficial.
Mais recentemente, entretanto, uma Marianne serena casou-se oficialmente às três cores da bandeira francesa, tornando-se a marca que identifica visualmente a Função Pública de Estado. Criada em 1999, ela está hoje presente em papéis timbrados, brochuras, formulários, cartazes e embalagens de ministérios, prefeituras ou embaixadas. A mesma ambigüidade envolvia há muito tempo o Galo. Símbolo cristão da vigilância desde a narrativa da Paixão, o Galo fora há muito tempo afrancezado na cultura nacional, pela proximidade latina do Galo com o gaulês (Gallus gallicus). Para não mencionar sua lisonjeira reputação de combatividade e valentia: virtudes do Galo, virtudes consideradas bem francesas. Apesar disto, a
transformação do Galo em símbolo nacional oficial nunca deixou de ser
um projeto, em que pesem tentativas efetuadas na época da Revolução, da
monarquia de Julho e da Terceira República. Tudo indica que o Galo foi
rejeitado por duas razões: por um lado, a escolha de um animal como
símbolo teria em si mesma algo de heráldico, logo de "feudal"
e mau; por outro, o Galo, animal de quintal, nunca poderia de qualquer
maneira ser alçado ao nível dos leões e das águias. O Galo desenhado por Decaris, num selo de 1962. O Galo viu-se portanto reduzido a duas utilizações, não negligenciáveis mas sem alcançar a dignidade política do Estado: a simbolização de nossa excelência esportiva e – às vezes – a do destemor militar, em determinados monumentos aos mortos da Grande Guerra. A Segunda Guerra Mundial foi combatida e vencida (pelo menos no que diz respeito à contribuição francesa) sob o signo da Cruz da Lorena, emblema escolhido pela França livre e depois pela Resistência para distinguir sua bandeira da bandeira tricolor, mantida por Vichy. A Cruz da Lorena é portanto habitualmente usada para marcar os monumentos relativos à época de 1940-1945, do monte Valeriano aos mais humildes e rústicos locais de combates dos maquis. Mas a Quinta República fez ainda mais por ela, valorizando a função presidencial e dando-lhe como primeiro titular em 1958-59 o general de Gaulle. Foi ele o primeiro a substituir a imagem da República como mulher, na medalha comemorativa de sua chegada ao Eliseu, pela da Cruz da Lorena sobre um V. A inovação era mesmo dupla: exaltação do sentido da Cruz da Lorena e obrigação de que os sucessores do General escolhessem por sua vez algo parecido com armas pessoais.
Existiriam, finalmente, símbolos em forma de monumentos ? A Terceira República desistiu em 1882 de mandar reconstruir as Tulherias, incendiadas em 1871, optando por manter a sede dos poderes públicos em palácios herdados de séculos anteriores (Luxemburgo, Palácio Bourbon, Eliseu, etc.). Paris não oferece, portanto, nada comparável ao gigantesco Capitólio de Washington, ao mesmo tempo sede de assembléias, museu e marca simbólica republicana. O que mais se aproxima de um símbolo monumental da República em Paris é o Panteão, construído na época de Luís XV como Igreja de Santa Genoveva e laicizado-nacionalizado em 1791 como sepultura dos "Grandes Homens". No século XIX, o Panteão praticamente polarizou a hostilidade das forças de direita em relação à República: foi devolvido à Igreja de 1814 a 1830, mais adiante de 1851 a 1885, ou então foi desprezado, tantas eram as celebridades incômodas que abrigava (Voltaire e Rousseau, Victor Hugo e Émile Zola, Marcelin Berthelot e Jean Jaurès, etc.). Quase não seria exagero afirmar que no meado do século XIX o Panteão só era um panteão para a Esquerda, e que a Direita tinha seu verdadeiro panteão nos Inválidos (Turenne e Vauban, Napoleão e o marechal Foch, etc.). Mas a França de Direita teria de acabar reverenciando o Panteão, como tivera de aceitar a própria República. Foi sem dúvida decisivo para isto o ano de 1964, em que o general de Gaulle, ao fazer repousarem no Panteão os restos de Jean Moulin, reconhecia ipso facto o grande templo do Quartier Latin como nacional aos olhos dos dois campos, e portanto tão unificador da França política quanto haviam sido em sua época a República, sua bandeira e seu gorro frígio. Bibliografia Agulhon (Maurice), Marianne
au combat, l'imagerie Agulhon (Maurice), Marianne
au pouvoir, l'imagerie Agulhon (Maurice), Métamorphoses
de Marianne, Agulhon (Maurice) e Bonte
(Pierre), Agulhon (Maurice) e Bonte
(Pierre), Marianne, visages Nora (Pierre), Les lieux
de mémoire, tomo 1, Pastoureau (Michel), Les
emblèmes de la France,
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Ver também: *Maurice Agulhon, professor
honorário de história contemporânea no Colégio de França, membro do
Alto Comitê das Comemorações Nacionais, é autor de numerosas obras
sobre a França dos séculos XIX e XX.
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