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 Relação dos textos

                                          
                     Análises e reflexões 

                     Os investimentos estrangeiros 
         na França

        
por Lionel Fontagnè*                                                       novembro
de 2001

 

A abertura das economias caracteriza-se em geral pelo forte aumento das trocas internacionais que a acompanha. E é precisamente a produção no exterior das empresas multinacionais que mais ativamente participa hoje em dia da globalização das economias. As vendas efetuadas no exterior pelas filiais dessas empresas representam o dobro do valor do comércio mundial de bens e serviços; sua produção no exterior representa a metade do comércio mundial. Hoje, 40 milhões de pessoas são empregadas em todo o mundo por 50.000 multinacionais que têm 100.000 filiais, contra 23 milhões no início da década de 1980. Os investimentos diretos estrangeiros, que constituem uma introdução à atividade no país de hospedagem, podem em contrapartida ter um impacto considerável nas trocas, na atividade e nos níveis de emprego do país investidor. A França está em terceiro lugar entre todos os países que investem no exterior, e no quinto lugar mundial dos países receptores: trata-se por isso mesmo de questões que adquirem uma especial relevância.


 
Algumas definições
 
Um forte aumento dos fluxos de entrada
 
Duplicação do total de investimentos estrangeiros em oito anos
 
A questão do poder de atração
 
A criação de empregos
  Aprofunde sua pesquisa

 

Algumas definições

O investimento direto estrangeiro (IDE) é definido pelo interesse manifestado pelo investidor na empresa-alvo. Por convenção, prevalece o limiar de 10% de controle direto. Aquém desse limiar, fala-se de investimento de carteira. O IDE pode ser contabilizado em fluxo (valor das operações registradas em balança de pagamentos ao longo do ano) ou em estoque total. No segundo caso, impõe-se a necessidade de uma convenção de contabilização, valor contábil ou valor de mercado. Os fluxos financeiros contabilizados dizem respeito a:

- operações com fundos próprios (criação de empresa, aquisição ou ampliação de uma empresa existente, compra de obrigações conversíveis em ações, subvenções, financiamento de déficits operacionais, consolidação de empréstimos, imóveis) ;

- lucros reinvestidos in loco (resultados diminuídos dos dividendos distribuídos) ;

- empréstimos a longo prazo (mais de um ano) entre matrizes e filiais;

- fluxos financeiros a curto prazo entre filiais, resultantes da gestão centralizada das tesourarias no interior dos grupos.

Desse modo, uma vez atingido o teto de 10% de participação, as operações de tesouraria ou os empréstimos entre empresas são considerados como investimento direto.

 

Um forte aumento dos fluxos de entrada

Os fluxos de investimentos estrangeiros na França aumentaram 78% em três anos, chegando a 37 bilhões de euros em 1999, o que corresponde a 2,7% do PIB da França (equivalendo a uma duplicação no período). Esse rápido aumento dos IDEs que entram na França (não se comparando, entretanto, com o dos IDEs de saída) tem várias explicações. A primeira delas relaciona-se, especialmente em fim de período, às operações de tesouraria (num total de 15 bilhões de euros em 1999). O gráfico 1, situando essa tendência numa perspectiva decenal, deixa clara essa contribuição crescente das operações de curto prazo, passando de 4% a 40% do total do IDE de entrada. O forte avanço registrado recentemente é portanto em parte o reflexo de uma gestão centralizada das tesourarias, e não de um investimento no sentido comum da palavra.

O dinamismo das fusões-aquisições (ver gráfico 2) também contribuiu para acelerar as entradas de IDEs, especialmente a partir de 1996. Uma conjuntura mais favorável e a busca de eficácia e de poder de mercado num mercado integrado explicam em grande parte essa onda de operações. Os principais países de origem dos IDEs de entrada refletem essa lógica: Holanda, 30%; Bélgica, 15%; Espanha, 14%; Alemanha, 8%; Reino Unido, 7%; Estados Unidos, 7%; Suíça, 6%. As respectivas operações são do conhecimento geral: Aventis no que diz respeito ao investimento alemão, Artemis e Primagaz em investimento holandês, Seita em investimento espanhol, Dunlop no caso do Japão, BSN embalagens do Reino Unido, etc.

 

Duplicação do total de investimentos estrangeiros em oito anos

Estimado por seu valor contábil corrente, o total de investimentos estrangeiros na França passou de 77 bilhões de euros em 1991 para 144 bilhões em 1998.

Duas características do investimento estrangeiro na França devem ser destacadas: em primeiro lugar, a parcela limitada da indústria nesse total, dado importante para a análise das conseqüências possíveis do IDE nas trocas e nos índices de atividade e emprego. A repartição setorial dos setores que receberam esses investimentos é estável no tempo: a indústria representa 35% do total, o crédito, os outros serviços mercantes e as holdings, entre 16% e 19% cada (ver gráfico 3).

 

- a outra característica é o caráter acentuadamente europeu desse IDE. Dois terços do IDE de entrada provêm de outro país da União Européia de 15 membros (UE15). Fora da UE15, os dois principais investidores são os Estados Unidos (um quinto do estoque total) e a Suíça (um décimo). A participação do Japão é secundária. Sendo a União Européia uma economia integrada, é difícil falar de investimentos estrangeiros numa proporção importante do total de IDEs, o que é coerente com o fato de uma proporção semelhante das trocas ser feita entre países europeus. O total de investimento estrangeiro representa 8,8% do PNB americano (em valor contábil), contra 15,5% do PIB francês. Limitando-se a comparação aos investimentos não-comunitários na França, entretanto, o percentual é de 5,4% do PIB francês. Esta análise em termos de estoque total de IDE oculta, além disso, uma nítida reorientação geográfica dos fluxos, reforçando a observação anterior: em 1999, os Estados Unidos e a Suíça representaram apenas 6,6% e 5,6% das entradas (à parte lucros reinvestidos), respondendo a UE15 por 83% dessas entradas (ver gráfico 4). O maior investidor na França em 1999 é a Holanda, com 30% das entradas, em virtude de importantes operações na área da química (6,9 bilhões de euros de investimentos), e por outro lado da localização de numerosas holdings nesse país (1,8 bilhão de euros de investimentos).


A questão do poder de atração

Com a concretização do mercado único, o espaço comunitário tornou-se um espaço de livre circulação de bens, pessoas e capitais. Desse modo, assim como as regiões no interior de um país, ou as comunas numa mesma região, os diferentes países europeus constituem localizações concorrentes das atividades econômicas destinadas a esse grande mercado. As distorções fiscalo-sociais costumam ser mencionadas como principal motivo das escolhas de localização, como frisaram certos exemplos amplamente divulgados pelos meios de comunicação. Mas nada justifica uma estrita padronização da política fiscal que incide sobre as empresas: a qualidade das infra-estruturas, a disponibilidade de capital humano, a existência de competências específicas, a localização no coração do grande mercado europeu ou a existência de empresas similares já instaladas constituem trunfos a serem levados em conta pelas empresas em processo de escolha de uma localização. Assim, as localizações que proporcionam um "rendimento de situação ", em virtude de sua situação central no mercado, de um meio ambiente favorável ou de uma prévia aglomeração de empresas podem impor uma política fiscal mais elevada que as zonas periféricas. As defasagens fiscais só contam quando todos os demais parâmetros são equivalentes. Desse modo, o poder de atração de um território, que depende de múltiplos fatores, resulta ao mesmo tempo das políticas econômicas, da geografia e da história. O poder de atração do território francês é satisfatório, pois a França situa-se no quinto lugar mundial e no terceiro lugar europeu, depois do Reino Unido e da Suécia e antes da Alemanha. É preciso ter em mente, no entanto, que o Reino Unido atrai duas vezes mais IDE que a França. Como vimos, um terço apenas desses investimentos são direcionados para a indústria. E o investimento na indústria não raro apóia-se numa operação de fusão-aquisição. É portanto difícil extrair conclusões definitivas sobre o impacto para a atividade e o emprego.

 

A criação de empregos

Os exemplos emblemáticos de criação ex nihilo costumam ser considerados puras criações de empregos. Mas também aqui uma análise das interdependências de mercado mostra que não é assim. Em escala européia, um investimento suplementar no setor automobilístico, que funciona acima da capacidade, não deve criar muitos empregos suplementares: a redistribuição das parcelas de mercado entre fabricantes que se seguirá a essa instalação fará com que diminua a atividade em outras unidades de produção, ao passo que o choque de oferta positivo fará com que aumente ligeiramente o tamanho do mercado automobilístico. Só o país receptor desse investimento poderá esperar benefícios substanciais em termos de atividade e emprego, ao preço de efeitos cumulativos em matéria de polarização da atividade a nível regional. Tendo em mente essas reservas metodológicas, podemos tentar contabilizar quantos empregos são "afetados" pelo investimento estrangeiro na França. A Delegação para o Desenvolvimento Territorial e a Ação Regional (DATAR), que fala a esse respeito de "empregos criados ou mantidos ", adianta cifras de 24 mil empregos em 1997, 29 mil em 1998, 31 mil em 1999, 35 mil em 2000. Face às criações recentes de empregos na economia francesa, a ordem de grandeza do efeito suposto é portanto bastante limitada. Um terço dos empregos em questão estão vinculados a investimentos americanos, derivando o resto basicamente de investidores europeus. Com base nesse critério, a Alemanha é o segundo investidor, depois dos Estados Unidos. O Japão vem em sexto lugar, com 23 projetos apenas em 2000, contra 178 projetos americanos e 102 projetos alemães. Os setores mais beneficiados são a eletrônica e a informática, os serviços e a indústria automobilística. Em 2000, a parcela dos empregos afetados correspondendo à criação de empregos em novas filiais aumentou muito, passando de 33% a 44%. Como a parcela das extensões manteve-se globalmente inalterada, isso traduziu-se num quase desaparecimento das retomadas de empresas existentes (2% contra 20  no ano anterior). À parte a Ilha de França, onde se encontra a região parisiense, as regiões no coração da Europa, ou seja, próximas do eixo renano, são as mais atraentes: Norte-Pas-de-Calais, Lorena, Ródano-Alpes, Provença-Alpes-Côte d’Azur. As regiões periféricas ou em enclaves atraem menos atividade estrangeira: Limousin, Auvergne, Aquitânia. Em 2000, os empregos afetados elevaram-se a 4.700 na Provença-Alpes-Côte d’Azur; 4.100 na Lorena; 3.800 na Ilha de França; 3.000 em Norte-Pas-de-Calais; 2.900 em Ródano-Alpes e 2.300 na Alsácia. No outro extremo, a Auvergne, com 70 empregos, a Baixa-Normandia e a Aquitânia, com 400 empregos, mantiveram-se à margem do fenômeno.

No total, mais da metade dos projetos situam-se na indústria, o que é um percentual elevado, tendo-se em conta o peso dos serviços na economia francesa. Dentre os muitos projetos marcantes de 2000, cabe mencionar o caso de um grupo farmacêutico americano, o 10º do setor no mundo, cuja principal unidade de produção está localizada na Alsácia e que investirá 120 milhões de euros em 4 anos, criando 500 empregos nessa fábrica. Essa unidade exporta 90% de sua produção. As motivações dessa escolha de localização resumem a questão do poder de atração: localização no coração do mercado europeu, qualidade da mão-de-obra, potencial universitário e científico próximo.

Aprofunde sua pesquisa:

www.datar.gouv.fr/ 
www.investinfrance.org

 

 

 

Ver também:

*Lionel Fontagné é diretor do Centro de Estudos Prospectivos e Informações Internacionais (CEPII) e professor de Economia na Universidade de Paris I.
As opiniões expressas neste artigo são da exclusiva responsabilidade do autor
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