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Análises e reflexões 

                     A França e a sociedade da
         informação

        
por
Daniel Kaplan
*
                                      
                                                                                    maio de 2001

Assim como a expressão "sociedade industrial ", a expressão "sociedade da informação" designa inicialmente uma forma de organização da economia e da produção. Do ponto de vista econômico, o surgimento da sociedade da informação caracteriza-se pela posição central ocupada pela informação e as tecnologias que servem para produzi-la, explorá-la e transmiti-la – como fatores de produção e ao mesmo tempo como produtos em si mesmos.

Assim como a revolução industrial, a "revolução informacional" que vivemos é, ao mesmo tempo, produto e catalisador de mudanças profundas que afetam nosso modo de vida, nossa organização social, nossos hábitos culturais e nossa relação com o mundo.

A França tem todos os requisitos necessários para ser um dos atores principais dessa transformação, muito embora, no início dos anos 90, tenha evidenciado certo atraso em algumas áreas decisivas, especialmente no uso da internet. Há vários anos o poder público vem procurando criar a dinâmica necessária, ao mesmo tempo em que tenta evitar o aprofundamento de um "fosso digital" preservando os princípios a que lhe são caros. Essa ação desenrola-se no contexto da construção européia, conjugando-se com a mobilização do setor privado, das associações e das coletividades locais.


 
Balanço da sociedade da informação: situação de contrastes, mas real dinâmica
 
A ação do poder público: por uma "sociedade solidária da informação"
 
Preparar o futuro: pesquisa e inovação
 
Uma sociedade da informação multicultural
 
Algumas fontes essenciais de informação na web

Balanço da sociedade da informação: situação de contrastes, mas real dinâmica

Zonas de força …

Historicamente, a França soube ocupar uma posição de destaque nos setores da sociedade da informação: informática, telecomunicações e audiovisual. Sua rede telefônica foi uma das primeiras a ser inteiramente digitalizada. A partir do início da década de 80, o Minitel (ainda utilizado por 15 milhões de franceses) habituou as empresas e os lares à interatividade. Seus engenheiros e centros de pesquisa são responsáveis por várias inovações importantes, entre as quais a invenção do micro-computador.

Atualmente, as empresas francesas estão entre as mais destacadas do mundo em setores como telecomunicações (France Télécom), engenharia informática e programas de computação (Cap Gemini Ernst & Young, Atos, Ilog, Business Objects), eletrônica (Alcatel, Thales, Thomson Multimedia, Schneider, ST Microelectronics…), edição eletrônica e multimídia (Vivendi Universal, Infogames, Ubisoft…). A produção audiovisual francesa continua sendo uma das mais dinâmicas do mundo, desenvolvendo-se em matéria de exportação. As empresas desses setores representam atualmente 5% do PIB, 4% dos empregos, e contribuíram para cerca de um quinto do crescimento nos últimos anos.

A França chegou com atraso à microinformática, e mais ainda à internet, mas a recuperação já está em andamento. Em meados de 2001, 30% dos lares estavam equipados com microcomputadores e 17% estavam ligados à internet. Todas as grandes empresas francesas e cerca de três quartos das pequenas e médias empresas estão ligadas à internet ; metade dos assalariados franceses trabalham pelo menos de vez em quando num computador. Finalmente, metade dos franceses possui atualmente um telefone celular.

A Internet originou uma formidável dinâmica de criação. Para começar, criação de empresas: no primeiro semestre de 2000, 5 400 empresas (5,7% do total das criações, contra 3,9% em 1996) foram criadas nos "setores inovadores", principalmente na área das TIC (tecnologias da informação e da comunicação). Esta dinâmica não diz respeito apenas às "start-up", que hoje sofrem, como em todos os países, as conseqüências da debilidade dos mercados financeiros. Todas as empresas viram-se afetadas: en maio de 2001, a França dispunha de cerca de 300.000 web sites criados por empresas e organizações, aos quais se somam aproximadamente 2 milhões de "sites pessoais" criados por indivíduos. Cerca de 40% das pequenas e médias empresas francesas de 6 a 200 empregados dispõem de seu site na web.

O comércio eletrônico, finalmente, permanece pouco desenvolvido na internet, o que em parte se explica pela existência na França de outros canais eletrônicos: desse modo, se as compras de particulares na internet não superaram 200 milhões de euros em 2000, não devemos esquecer cerca de um bilhão de euros em compras realizadas através do Minitel. Da mesma forma, a incipiência do comércio eletrônico entre as empresas ("B to B") na internet não deve ser motivo para esquecer que cerca de 10% das transações entre empresas realizam-se atualmente em redes TDI (troca de dados informatizados), que aos poucos vão migrando para a internet. Os setores de distribuição, automóveis, transportes e bancos estão na vanguarda desse terreno, e várias grandes empresas francesas (Carrefour, Auchan, Casino, Renault, Air France, Danone, Michelin, Usinor…) estão entre os criadores das principais "praças de mercado" eletrônicas mundiais.


A ação do poder público: por uma "sociedade solidária da informação"

Com o Plano de Ação Governamental para a Sociedade da Informação (PAGSI), adotado em 1997 e desde então revisto periodicamente, o governo definiu um contexto de ação a serviço do desenvolvimento de uma "sociedade solidária da informação". A iniciativa eEurope da União Européia, adotada em 2000, aponta no mesmo sentido.

Um contexto jurídico favorável ao desenvolvimento da internet e do comércio eletrônico

A abertura do mercado das telecomunicações à concorrência está concluída. No que diz respeito ao acesso à internet de alta velocidade e à internet por telefonia celular, já foram concedidas as primeiras licenças de operadores UMTS ou de rádio local, ao passo que o "desagrupamento" favorece a concorrência a nível local. As licenças para a televisão digital serão por sua vez concedidas em 2001, permitindo, entre outras coisas, o desenvolvimento de serviços de dados.

O contexto jurídico do comércio eletrônico já está estabelecido, com a liberalização da criptografia, o reconhecimento jurídico da assinatura eletrônica e as disposições destinadas a proteger os consumidores e assegurar sua confiança.

A adaptação do contexto jurídico teve prosseguimento em outras áreas, com o objetivo de conciliar o princípio de liberdade de comunicação e os imperativos de segurança jurídica. A proteção dos dados pessoais, a definição das responsabilidades na edição de conteúdos na internet, a proteção da propriedade industrial e intelectual, a luta contra a utilização prejudicial ou criminosa das redes são setores sobre os quais a França vem agindo em seu território, tanto no contexto da União Européia quanto nas das negociações internacionais. Essas questões são complexas e não podem ser tratadas num contexto estritamente nacional nem sem que haja estreita colaboração com o conjunto dos agentes das redes: a criação do Fórum de Direitos na Internet permitirá dispor de um ponto de observação, informação e debate aberto.

A internet para todos

O acesso à informática e à internet continua muito desigual, beneficiando os lares mais favorecidos economicamente e sobretudo os que dispõem de maior acesso à educação. O fosso digital entre os países do Norte e os do Sul, é também geográfico e aprofunda-se igualmente na própria França, onde as transmissões em alta velocidade atingem de maneira muito desigual as zonas de inrensa atividade e de grande densidade habitacional e as outras.

Um esforço considerável tem sido feito nas áreas do ensino e da formação profissional. No final do ano 2000, todos os estabelecimentos secundários estavam conectados à internet, e todas as escolas o serão até o fim de 2002. Numa iniciativa conjunta com os Correios, todos os alunos e professores passarão a dispor em 2001 de um endereço eletrônico gratuito e vitalício. Um certificado para operar em informática e na Internet será aplicado de maneira generalizada até o final do 1° Grau em 2003. Finalmente, até o final de 2002, 1,2 milhão de demandantes de emprego disporão de módulos de formação que lhes permitirão familiarizar-se com as TIC.

Até 2003, 7.000 acessos públicos serão criados nas bibliotecas, agências de correios e de emprego e nos centros de informação para a juventude, assim como nas prefeituras e associações. Entre eles, 2.500 espaços públicos digitalizados permitirão associar à descoberta desse instrumento uma iniciação gratuita à multimídia, sob a forma de um "passaporte para a internet e a multimídia ". As associações, por sua vez, disporão de um apoio específico para completar seu equipamento.

Rumo à e-administração

A administração pública explora as TICs para melhorar sua organização interna e voltar-se decididamente para os interesses do usuário. A maioria dos úrgãos da administração dispõe de seu intranet, estando em processo de criação uma intranet para funcionar entre os diferentes órgãos. Cada ministério dispõe de seu site na web, e um "portal de serviços públicos" põe à disposição dos usuários um pronto atendimento à maioria de suas necessidades.

A internet é posta a serviço, ante de mais nada, de uma maior transparência e mais acessibilidade às informações públicas. Estas (inclusive os bancos de dados jurídicos e a jurisprudência, a partir de 2002) estão à disposição dos cidadãos, gratuitamente, na web. Estão sendo criadas estruturas de atendimento a solicitações individuais, por telefone ou correio eletrônico.

A digitalização dos formulários administrativos (quase concluída) e o desenvolvimento dos teleprocedimentos constituem uma outra etapa no processo de aperfeiçoamento dos serviços de atendimento aos usuários. Atualmente, as declarações sociais e fiscais de pessoas físicas e jurídicas, assim como a maioria dos pagamentos, podem ser feitos na rede. Em breve o contribuinte terá acesso on-line a seu dossiê fiscal pessoal.

O debate público também se beneficia com a internet. O Jornal Oficial, os relatórios públicos e as concorrências estão integralmente disponíveis on line. O debate sobre determinadas reformas é ampliado aos cidadãos em vários fóruns. Uma comissão parlamentar estuda no momento a questão do voto eletrônico.

Preparar o futuro: pesquisa e inovação

A sociedade da informação ainda está sendo implantada. Avanços consideráveis ainda terão de ser conquistados no terreno das tecnologias e de seu uso. As transmissões em alta velocidade, a internet móvel, as nano-tecnologias, os dados inteligentes, a multimídia, a realidade virtual e as interfaces "naturais" estão entre os terrenos de pesquisa essenciais nos quais os laboratórios públicos e privados franceses encontram-se entre os melhores do mundo.

As empresas e os empresários mobilizaram-se consideravelmente nos últimos anos. Os recursos investidos em capital de risco multiplicaram-se por 7 entre 1997 e 2000, chegando a mais de um bilhão de euros. Apoiando o capital de risco, simplificando o processo de criação de empresas, facilitando a multiplicação de centros públicos de pesquisa e melhorando o funcionamento dos carnês de assinatura de fundadores de empresas, o poder público favoreceu a dinâmica de criação de empresas no setor das TICs.

O investimento em pesquisa é considerável (o setor representa cerca de 2,2% do PNB, sendo metade na pesquisa privada e metade na pública), mas ainda precisa de apoio na área das TICs, na qual a França dispõe de oito vezes menos pesquisadores que os Estados Unidos. As patentes registradas por empresas francesas avançam (5.135 no primeiro semestre de 2000, ou + 1,5%), mas de forma insuficiente. O estabelecimento de "redes de pesquisa " em telecomunicações (RNRT), tecnologias de software (RNTL), audiovisual e multimídia (RIAM) permite associar de maneira original as iniciativas públicas e privadas. A Agência Nacional da Inovação (Anvar) também reforça sua competência em matéria de TIC e desenvolve formas de apoio às inovações "de serviços", não se limitando à tecnologia. Esses organismos formulam numerosas solicitações de projetos, apóiam financeiramente os projetos inovadores e ajudam as empresas francesas a tirar mais partido dos programas europeus de ajuda. As iniciativas públicas de pesquisa também foram reforçadas através da ampliação dos recursos do INRIA e da criação de um departamento de "tecnologias da informação" no Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS). Nascida no setor privado, a Fundação Internet Nova Geração (FING) congrega por sua vez as empresas atuantes em matéria de novas formas de utilização da internet, sendo apoiada pelo poder público.

Uma sociedade da informação multicultural

A sociedade da informação só poderá desenvolver-se plenamente respeitando as culturas e as línguas de cada povo. O compromisso da França com o plurilingüismo e com a ajuda ao desenvolvimento encontra um prolongamento natural na internet.

Mais de metade dos internautas têm acesso à rede em línguas diferentes do inglês (principalmente japonês, alemão, francês, espanhol e italiano). É necessário portanto que as normas técnicas aplicadas ao material informático, aos programas de computação e às redes levem em conta a diversidade de línguas (caracteres, indexação de dados, localização da informação, teclados e interfaces...). A Delegação Geral da Língua Francesa apóia as iniciativas da Associação Francesa de Normatização (AFNOR ) e do Grupo Francês para a Padronização da Internet (GFSI), assim como a Associação francesa dos Profissionais de Informática de Língua Francesa (AILF), no que diz respeito à tradução dos programas para o francês e sua adaptação. Ela apoia igualmente as pesquisas em matéria de tradução automática ou assistida e formação e difusão de recursos plurilíngües que têm o francês como uma de suas línguas. Finalmente, o Fundo Francófono de Infovias contribui para numerosos projetos em países em desenvolvimento.

Para estimular a criação de conteúdos francófonos de multimídia e on-line, foram estabelecidos mecanismos de ajuda aos editores e criadores multimídia. O fundo de ajuda administrado pelo Centro Nacional da Cinematografia favorece a criação e a adptação em várias línguas de produtos multimídia franceses. O Ministério da Educação Nacional criou um guichê único para as empresas de conteúdos multimídia educativos, assim como um procedimento de identificação com a marca "de interesse pedagógico ". A digitalização dos fundos patrimoniais também é uma prioridade. O Ministério da Cultura e da Comunicação apóia a digitalização dos fundos patrimoniais, iconográficos e sonoros no interior do país. Por sua vez o servidor internet da Biblioteca Nacional da França, Gallica, que dá acesso a cerca de dois milhões de páginas digitalizadas, foi enriquecido em 1999 com o Gallica Classique, dedicado às obras clássicas da literatura francesa, da Idade Média ao século XIX.

Algumas fontes essenciais de informação na web

Os dois painéis produzidos pelo Ministério da Economia, das Finanças e da Indústria:
Painel da inovação:
www.industrie.gouv.fr/observat/innov/so_tbi.htm

Painel do comércio eletrônico:
www.minefi.gouv.fr/entreprise/nouvelles_technologies/index-b.htm 

Acompanhamento permanente do desenvolvimento da sociedade da informação e das iniciativas do poder público:
www.internet.gouv.fr

Portal dos serviços públicos:
www.service-public.fr
(francês-inglês)

Ministério de Relações Exteriores:
www.diplomatie.gouv.fr
(francês-alemão-inglês-espanhol)

Pesquisa em informática e telecomunicações:
www.recherche.gouv.fr/technologie/infotel/default.htm
(francês-inglês)

Fundação Internet Nova Geração:
www.fing.org
(francês-inglês)

Portal da internet cultural :
www.portail.culture.fr 

O francês e o plurilingüismo na sociedade da informação (DGLF):
www.culture.fr/culture/dglf

 

 

 

Ver também:

*Daniel Kaplan é delegado geral da Fundação Internet Nova Geração (FING). 
As opiniões expressas neste artigo são da exclusiva responsabilidade do autor
.

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