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Ficha de informação 

                     A reforma da defesa 
         nacional

janeiro de 2001

A política de defesa da França passa atualmente por uma profunda transformação. A evolução do mundo e das relações internacionais levou nosso país a repensar inteiramente os meios e objetivos de suas forças armadas. A construção da União Européia e o compromisso comum e firme da França e da Alemanha neste processo significam, com efeito, que as fronteiras da França já não sofrem ameaça. Por outro lado, tendo em vista a queda do Muro de Berlim e o fim da guerra fria, a França e seus parceiros da Otan deixaram de ter um inimigo designado e qualquer ameaça constante. A hipótese de um conflito global comparável às duas guerras mundiais já não tem sentido. Em compensação, graves conflitos regionais surgem por toda parte no mundo, inclusive na Europa. Membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, a França envolve-se com destaque nas forças de restabelecimento e manutenção da paz às quais a comunidade internacional confia missões como limitar os conflitos, impor o respeito a iniciativas de cessar-fogo e proteger populações civis. Tais operações podem mobilizar as forças armadas muito longe do território nacional, são complexas e exigem uma organização específica. Todos estes fatores levaram à opção pela profissionalização das forças armadas, anunciada em 1996 pelo presidente da República e progressivamente aplicada desde então. Esta reforma do instrumento de defesa, que deverá estar concluída em 1º de janeiro de 2003, tem uma dimensão histórica. Conduzida pelo Governo de acordo com a lei de programação militar de 1997-2002, ela prevê o fim da conscrição, a redução dos efetivos e a reorganização das forças de reserva e da ativa. Paralelamente, afirma-se a construção de uma Europa da defesa. A União Européia estabeleceu objetivos neste terreno durante a reunião de cúpula de Helsínqui em dezembro de 1999. O Conselho Europeu de Nice, em dezembro de 2000, sob a presidência francesa, confirmou definitivamente a arquitetura da Europa da defesa e os objetivos de capacidade militar européia; no plano industrial, as reestruturações de grande envergadura empreendidas pelas empresas européias de armamentos e defesa a partir de 1998 caminham no mesmo sentido. É neste contexto que os diferentes aspectos da reforma da defesa francesa podem ser plenamente entendidos.


 Profissionalização das forças armadas
 Conseqüências da reforma
 O contexto internacional da reforma

 

 

Profissionalização das forças armadas

 A defesa e a Nação: Surgida com a Revolução Francesa, a conscrição assumiu dimensão universal e igualitária em 1905, quando foi definitivamente abolida a designação dos conscritos por sorteio em determinada faixa etária. A lei estabelece então o serviço militar obrigatório e igual para todos, e a França opta por um exército misto composto de profissionais e jovens reservistas. Desde então, sucessivas adaptações foram reduzindo progressivamente sua duração e ampliando o conceito de serviço militar para o de serviço nacional, particularmente com a criação de novas formas de serviço civil.

A profissionalização dos exércitos e a suspensão da conscrição, pondo fim a quase cem anos de serviço nacional universal, colocam em novos termos a questão das relações entre a defesa e a Nação. Assim é que a lei de 28 de outubro de 1997 sobre a reforma do serviço nacional estabelece um percurso de cidadania que se desenrola em três etapas: ensino da defesa na escola; recenseamento e participação dos jovens franceses numa jornada de informação denominada Jornada de Convocação à Preparação para a Defesa (JAPD), desde o dia 3 de outubro de 1998.

O percurso de cidadania é uma demonstração do cultivo, na França, do princípio republicano de associação dos cidadãos à defesa da Nação. Esta preparação obrigatória pode ser prolongada por iniciativa dos jovens num voluntariado civil ou militar, no engajamento nas forças armadas ou na reserva ou ainda no seguimento de uma preparação militar. Desde 8 de abril de 2000, as moças também participam das JAPD, efetuando o mesmo percurso de cidadania que os rapazes.

As transformações de nosso aparelho de defesa também impunham uma profunda reformulação das reservas militares. A lei de 22 de outubro de 1999 sobre a organização da reserva militar e do serviço de defesa estabelece, com esta finalidade, uma reserva operacional e uma reserva cidadã. A reserva operacional (100.000 homens), plenamente integrada às forças armadas, proporciona às forças armadas e à gendarmerie nacional o complemento operacional necessário à execução das missões que lhes são confiadas. A reserva cidadã, composta de homens e mulheres movidos pela mesma dedicação ao serviço de promoção do espírito de defesa, contribui para a renovação do vínculo entre a Nação e seu exército.

• Acompanhamento econômico e social: O considerável impacto das medidas de reestruturação ao mesmo tempo do pessoal militar e nas cidades e regiões onde estavam estacionadas as unidades determinou a criação de um esquema de acompanhamento econômico e social de grande amplitude. O futuro das empresas militares liberadas também exigiu um considerável esforço de reconversão. O prazo transcorrido entre o anúncio das medidas e sua concretização permitiu preparar e organizar iniciativas de acompanhamento e reconversão, de acordo com as realidades locais.

O ano de 1999 foi marcado por importantes reestruturações, envolvendo 160 estabelecimentos de defesa: 88 foram dissolvidos, 72 outros foram transferidos ou reorganizados. Para acompanhar essa transformação, 700 milhões de francos foram destinados à redinamização econômica das zonas de emprego (460 milhões de francos em 1998 e 200 milhões de francos em 1997), contribuindo em especial para a criação de mais de 3.300 empregos.

Entretanto, esta dimensão econômica da reforma não é o único aspecto dos vínculos que sempre uniram as coletividades locais aos estabelecimentos de defesa que abrigavam. Para muitos cidadãos, a presença de militares encarna o espírito de defesa da Nação, representando a garantia de socorro rápido e eficaz sempre que houver necessidade. A ação das forças armadas quando das intempéries que se abateram sobre a França em dezembro de 1999 confirma esta imagem da defesa e a considerável expectativa dos cidadãos a seu respeito. Por outro lado, o sucesso das iniciativas locais de estabelecimento de relações de apadrinhamento e fraternidade entre cidades francesas e unidades operacionais dos diferentes exércitos mostra que, mesmo reestruturadas, as forças armadas continuam presentes no coração da Nação.

• Evolução dos efetivos :

A profissionalização caracteriza-se pela redução do formato dos exércitos (440.000 militares e civis em 2002 contra 573 000 em 1996). Esta diminuição dos efetivos é acompanhada pelo progressivo desaparecimento dos reservistas, que apenas em parte serão substituídos por voluntários (92% de profissionais no conjunto do pessoal civil e militar em 2002, contra 60% em 1996). A profissionalização dos exércitos, que já chegou ao meio do caminho, tem portanto um forte impacto sobre os efetivos. Em 1999, as forças armadas dispõem de mais de 400.000 profissionais; o número de reservistas desce abaixo do limiar de 100.000 (84.255 em 1999, aos quais se somam 7.330 voluntários). Para acompanhar e levar a cabo com êxito estas mudanças, o Ministério da Defesa valeu-se de uma política ativa de comunicação, recrutamento, formação e reconversão, promovendo um intenso diálogo social e dedicando 2,4 bilhões de francos ao esforço social de reconversão dos efetivos, nos termos da lei de programação de 1997-2002.

 
Evolução dos efetivos ao fim da reforma em andamento

 


Evolução dos efetivos por força

 

Conseqüências da reforma

• Preservação das grandes funções estratégicas:

A boa execução das missões confiadas às forças armadas requer o domínio das quatro grandes funções estratégicas: dissuasão, prevenção, projeção e proteção:

- a dissuasão continua sendo um fator essencial na estratégia de defesa da França, mas se adapta ao novo ambiente estratégico internacional, tendo passado a repousar em dois componentes - naval e aéreo -, reduzidos e modernizados. Prossegue, assim, a entrada em serviço dos submarinos nucleares lançadores de armas (SNLE) de nova geração. Depois do "Triomphant" e do "Téméraire", já operacionais, o "Vigilant", cuja construção será concluída em 2004, e o "Terrible", decidido em julho de 2000, completarão a família dos SNLE de última geração. O componente aéreo, por sua vez, está sendo dotado de mísseis solo-ar de alcance médio (ASMP) aperfeiçoados;

- a prevenção é objeto atualmente de prioridade intensificada. O objetivo é impedir o surgimento de situações geradoras de conflitos, e repousa em modalidades de ação militares e políticas, particularmente na luta contra a proliferação de armas de destruição em massa. A França (1) foi um dos primeiros países a adaptar sua força de dissuasão ao novo contexto estratégico derivado da guerra fria. Com o desmantelamento dos locais de experimentação nuclear, ela contribuiu ativamente para as negociações sobre o desarmamento e a não-proliferação (ratificação já em 1998 do Tratado de Proibição Total dos Testes Nucleares). Além disso, a França concluiu em dezembro de 1999 a destruição de seu estoque de minas antipessoais, com mais de três anos de antecipação em relação ao prazo estabelecido pela Convenção de Ottawa (1º de março de 2003) ;

- a projeção continua sendo uma prioridade para nossa estratégia de defesa. Neste contexto, o Exército está em condições de projetar mais de 50.000 homens no exterior do território nacional. No ano de 2000, a entrada para o serviço ativo do porta-aviões "Charles-de-Gaulle" e a confirmação da aquisição do avião de transporte militar europeu deixam clara a vontade da França de preservar esta capacidade;

- a proteção é o complemento indispensável da dissuasão, da prevenção e da projeção. Ela assegura que a França seja capaz de participar da solução de uma crise internacional sem temor de represálias em seu território. A reorganização das forças armadas e da gendarmerie e sua nova distribuição no território dependem de uma maior disponibilidade das forças armadas e da ampliação de sua mobilidade.

• A nova organização territorial das forças armadas:

A grande reforma por que passam atualmente as forças armadas dentro do processo de profissionalização é acompanhada de uma revisão da organização territorial da defesa, para garantir que, em caso de crise e em qualquer ponto do território, haja rápida disponibilidade de recursos humanos e materiais, mas também de estruturas de comando.

O novo dispositivo abrangerá, quando estiver concluído o processo atualmente em andamento, sete zonas militares, em substituição às nove circunscrições militares atuais. Esta nova organização, que será progressivamente instaurada entre 1º de julho de 2000 e 1º de julho de 2003, permitirá otimizar a utilização dos meios militares, tanto no terreno da defesa do território quanto no das missões de serviço público, no duplo empenho de efetivar uma coordenação civil-militar e interarmas. Assim é que foi definida, de acordo com a organização administrativa do Estado, uma estrutura permanente de comando interarmas e de interface civil-militar. No interior de cada uma das sete zonas de defesa, um oficial general de zona de defesa (OGZD), assistido por um estado-maior, cumpre a função de conselheiro militar do prefeito da região. Esta estrutura simplificada, sob a autoridade do chefe do estado-maior dos exércitos (CEMA), ficará com a responsabilidade local da contribuição das forças armadas à proteção do território e das populações.

Em cada departamento, o delegado militar departamental, conselheiro militar do prefeito de departamento, representa o oficial general de zona de defesa.

A organização territorial das diferentes forças armadas respeita este novo panorama. A gendarmerie, que auxilia a autoridade regional no contexto das missões de defesa civil, adaptou suas estruturas a esta nova organização. A Aeronáutica divide a metrópole em duas regiões aéreas (Villacoublay e Bordeaux) desde 1º de julho de 2000, e a Marinha conserva suas duas regiões marítimas (Brest e Toulon). Paralelamente, os limites geográficos das zonas de defesa levam em conta a redução a cinco regiões da estrutura territorial do Exército.

 

O contexto internacional da reforma

• A África é uma prioridade da política externa da França que se inscreve em seu papel de parceiro tradicional e privilegiado. A profissionalização das forças armadas levou à modernização do esquema de cooperação entre os dois conjuntos. A preocupação é, por um lado, evitar qualquer ingerência nos assuntos internos africanos, passando de um papel de intervenção a um papel de assistência, e, por outro, não distanciar-se de um continente ao qual estamos ligados por numerosos acordos.

Nesse contexto, o conceito RECAMP (Reforço da Capacidade Africana de Manutenção da Paz) deve ser considerado como um expediente de prevenção e tratamento de crises eventuais, no respeito da plena responsabilidade dos Estados africanos. A França entende com isto ajudar os que assim desejarem a adquirir e fortalecer uma capacidade de manutenção da paz num contexto sub-regional.

• As lições de Kosovo : A intervenção em Kosovo (2) deixou clara a vontade de agir da comunidade internacional. Pela primeira vez desde o fim da guerra fria, os países europeus intervieram na gestão de uma crise grave, para defender valores comuns com meios decisivos.

A crise de Kosovo confirmou o fundamento das grandes opções de nossa política de defesa e a validade de suas escolhas estratégicas (profissionalização das forças, empenho em relação ao ensino, ênfase nas capacidades e nos meios de projeção, particularmente em termos de comando). As forças armadas francesas, ao mesmo tempo em que devem levar a cabo um processo difícil de adaptação de seu formato e de sua organização, tiveram condições de participar plena e eficazmente da solução de uma crise internacional grave.

Por outro lado, a posição específica da França no contexto da Aliança Atlântica, conjugada à amplitude de sua contribuição nas fases aérea e terrestre, permitiu a nosso país influir no desenrolar das operações, ao mesmo tempo em que preservava, a todo momento, um controle político total sobre o emprego de suas forças.

• A construção da Europa da defesa: A Europa da defesa é um projeto ambicioso que vem ganhando desde 1998 considerável desenvolvimento. A convergência de pontos de vista entre os parceiros europeus, expressa em especial na reunião de cúpula de Helsínque nos dias 9 e 10 de dezembro de 1999, permitiu dar um impulso decisivo a este projeto.

Tal como estabelecida no Conselho Europeu de Nice em dezembro de 2000, a Europa da defesa consiste em:
- adaptação da estrutura institucional;
- constituição de forças multinacionais autônomas e operacionais;
- criação de uma política comum do armamento.

A declaração final adotada em Helsínque reafirma que a União Européia deve dotar-se de meios autônomos de tomada de decisão e de capacidade de efetuar operações militares em crises internacionais nas quais não esteja envolvida a OTAN. Para permitir o encaminhamento do processo decisório, são criados, no Conselho da União, um Comitê Político e de Segurança (COPS) e um Comitê Militar composto dos chefes de estado-maior dos exércitos dos Estados membros. No dia 1º de março de 2000, essas estruturas foram instituídas em caráter provisório.

Em segundo lugar, os Estados-membros decidiram capacitar-se até 2003, mediante cooperação voluntária, para constituir e manter uma força que pode atingir o volume de um corpo de Exército (50 a 60.000 homens), capaz de levar a efeito o conjunto das missões ditas de Petersberg (missões humanitárias, de manutenção ou restabelecimento da paz). Esta força, integralmente mobilizável num prazo de 60 dias, deve ser auto-suficiente e dotada das necessárias capacidades de comando, controle e informação, de logística e outras unidades de apoio ao combate, assim como de formação de elementos aéreos e navais. Este objetivo foi traduzido numa relação precisa de forças e capacidades, cobrindo o conjunto das missões da força de reação. Os Quinze definiram em seguida o nível de comprometimento de cada um dos Estados membros.

Finalmente, a Europa do armamento inscreve-se no contexto da construção de uma identidade européia de defesa. A cooperação em matéria de armamento constitui um dos desdobramentos essenciais de uma política de defesa destinada a dotar a Europa de capacidades tecnológicas indispensáveis para sua autonomia estratégica. A França assinou no dia 27 de julho de 2000 o acordo de harmonização e simplificação aplicável às indústrias de defesa, apoio indispensável às reestruturações realizadas pelas empresas européias. Este tratado aplica a carta de intenções (LOI), assinada a 6 de julho de 1998 por seis ministros (3) da Defesa, que estabelecia o contexto dos trabalhos destinados a facilitar a constituição de empresas integradas, financeiramente sadias, comercialmente fortes e tecnologicamente inovadoras de que precisa a Europa.

Simultaneamente, a criação do OCCAR (4) , no dia 12 de novembro de 1996, e a ratificação da convenção que lhe confere personalidade jurídica marcam um avanço concreto da cooperação européia nos programas de armamento.

Da mesma forma, a constituição da EADS (European Aeronautic Defense and Space Company), a 14 de outubro de 1999, representa a criação da primeira empresa européia e da terceira empresa mundial no terreno da aeronáutica e do espaço.

A meio caminho da profissionalização, vários elementos devem ser levados em consideração nos futuros procedimentos:
- avaliação das ameaças e fatores de crise numa situação internacional complexa;
- incidência das transformações tecnológicas - marcadas pela revolução informática e a dos sistemas de informação e comunicação - sobre os sistemas de armas;
- o que está em jogo na Europa da defesa, com base nas decisões tomadas em Helsínque.

Para abrir seus horizontes para além dos habituais trabalhos de programação e planejamento, e empenhada em ter uma visão estratégica de seu futuro, a defesa reformulou profundamente seus métodos e práticas, para a preparação e a concretização dos equipamentos destinados às forças armadas. Os novos modos de funcionamento que estabeleceu neste sentido repousam na vontade de integrar as decisões a uma visão de longo prazo, baseada num trabalho colegiado e na reunião de todos os atores em equipes integradas para a concepção e a realização dos materiais de armamento. Neste contexto, o plano prospectivo de trinta anos (PP30 (5) ) estrutura, sistema de força por sistema de força, as necessidades potenciais em matéria de capacidades operacionais e tecnológicas pelos próximos 30 anos. Ele contribuirá para a adaptação permanente de nosso aparelho de defesa à evolução do contexto nacional e internacional.

(1) Cf. "Maîtrise des armements, désarmement et non-prolifération : l’action de la France" ; La documentation française, abril de 2000.
(2) Cf. "Les enseignements du Kosovo" ; Ministério da Defesa (DICOD), coleção "Analyse et références", novembro de 1999.
(3) França, Alemanha, Itália, Espanha, Reino Unido e Suécia.
(4) Organismo Conjunto de Cooperação em Matéria de Armamento.
(5) Cf. "Plan prospectif à 30 ans : synthèse" ; La documentation française, julho de 2000.


 

 

 

 

 

 

Sobre o mesmo tema:
(textos em francês)

 Serviço nacional 
 Exército

 

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