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 Relação dos textos

                                          
                    
Análises e reflexões 

                     A indústria das biotecnologias na França
        
por Alain Hénaut*
                                 
                                      abril de 2002


O termo biotecnologia designa a engenharia genética e, de maneira mais geral, a utilização dos processos que se desenvolvem nas células. Resta no entanto uma certa idéia vaga na definição, o que explica o fato de inúmeras empresas de biotecnologia variarem do simples ao duplo conforme as fontes estatísticas (a diferença entre as fontes é, em média, de 30%).

A saúde é a principal aplicação da biotecnologia. Mais de 130 medicamentos e vacinas surgiram daí. Os primeiros surgiram em 1989, mas três quartos deles só foram lançados no mercado nos últimos seis anos (90% são americanos). Dois terços dos medicamentos e vacinas que receberam autorização da Food and Drug Administration americana em 2000 foram produzidos pela indústria de biotecnologia. Esta deverá obter, nos cinco anos seguintes, a metade das maiores vendas de medicamentos.

A elaboração de novos medicamentos é aleatória, longa, dispendiosa e inúmeras empresas voltaram-se para a produção de kits de diagnóstico. Em agronomia, a biotecnologia é utilizada principalmente para reduzir os acréscimos de pesticidas químicos. Em 2000, as culturas mundiais de plantas transgênicas cobriam uma área equivalente a 80% do território francês. 70% dessas áreas encontravam-se nos Estados Unidos, 23% na Argentina e 6% no Canadá. Ao todo, treze países recorrem pouco ou muito à cultura de plantas transgênicas.

A aplicação da biotecnologia ao meio ambiente visa, acima de tudo, a despoluição e a eliminação dos processos industriais mais poluentes. Ela se baseia na utilização de microorganismo geneticamente modificados.

O tecido industrial
Os principais setores de atividades
Parcerias entre o público e o privado
O apoio público para a inovação
A aceitabilidade social da biotecnologia

 

O tecido industrial

A indústria farmacêutica na França, na Alemanha e no Reino Unido favoreceu durante muito tempo as tecnologias químicas e não suscitou a criação de um tecido de pequenas e médias empresas de biotecnologia. Em compensação, outros países europeus, como a Suécia, assumiram rapidamente o rumo da biotecnologia nos anos 1980. Nessa área, os Estados Unidos dominam o mercado. Eles possuem cerca de 1.300 empresas, 300 das quais com cotação na Bolsa. Em 2001, os outros países com o maior número de empresas de biotecnologia são os seguintes: Reino Unido (280, das quais 36 na Bolsa), Alemanha (340, com 14 na Bolsa) e a França (240, 8 na Bolsa), seguida da Suécia, de Israel e da Suíça. Em compensação, estes últimos ocupam os primeiros lugares se compararmos o número de empresas ao número de habitantes, ou ao PIB.

O crescimento da indústria de biotecnologia na Europa foi traduzido pela criação de 40 empresas por ano entre 1991 e 1995, chegando a mais de 200 empresas por ano desde 1996. A metade das empresas de biotecnologia tem menos de seis anos. Em 60% dos casos, são empresas de menos de vinte pessoas. Nesse aspecto, a França situa-se na média em relação à Europa. Vale notar que 69% das empresas possuem menos de 10 pessoas na Suécia, enquanto que esta possui uma indústria de biotecnologia já antiga (ver quadro 1).

1 – Número total de novas empresas de biotecnologia antes de 1991, de 1991 a 1995 e depois de 1996

 

União européia

Reino-Unido

Alemanha

França

Suécia

Outros*

 

(15 país)

                   

Anos  

Nº

%

Nº

%

Nº

%

Nº

%

Nº

%

Nº

%

<=90

600 

31,09

147

32,81

102

20,24

112

32,18

89

37,87

150

37,9

91-95

487

25,23

113

25,22

114

22,62

86

24,71

61

25,96

113

28,6

>=96

843

43,68

188

41,96

288

57,14

150

43,10

85

36,17

132

33,4

Total

1.930

100,00

448

100,00

504

100,00

348

100,00

235

100,00

395

100,0

*Outros: Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Países-Baixos, Portugal e Espanha.}
Fontes: Pammoli and Riccaboni, 2001; BID, Universidade de Sienna.

Na França, em 2001, uma classificação das regiões de acordo com o número de empresas de biotecnologia situa a região parisiense na liderança, com 30% das empresas, seguida da região Rhône-Alpes e da região Provença Alpes-Côte d’Azur. Por outro lado, com relação ao número de criações de empresas, a região Auvergne situa-se em segundo lugar, depois da região parisiense. Essa região aposta na criação de empresas de biotecnologia, com o objetivo de desenvolver um novo tecido industrial.

 

Os principais setores de atividade

De uma maneira geral, a distribuição das empresas de acordo com a tecnologia predominante pouco mudou ao longo dos dez últimos anos. É importante salientar, no entanto, o surgimento da bioinformática e a queda relativa da criação de empresas que trabalham para as indústrias de fermentação e despoluição. A tipologia na França e na Alemanha é muito parecida, com um número grande de empresas especializadas em genômica e no estudo das fermentações e da despoluição (quadro 2). A França é o país que possui a mais forte proporção de empresas de biotecnologia trabalhando para o setor agro-alimentar (quadro 3).

 

Parcerias entre o público e o privado

Redes de pesquisa e inovação tecnológica reagrupam equipes de pesquisa pública e empresas em torno dos maiores problemas relacionados à biotecnologia. Eles possuem a função de realizar um intercâmbio de informação para a montagem de parcerias e, ao mesmo tempo, o papel de financiador de pesquisas. Em 2001, eles foram beneficiados com cerca de sessenta milhões de euros distribuídos em partes iguais entre os setores público e privado. Praticamente todas as empresas francesas de biotecnologia possuem colaboração com os laboratórios públicos franceses. Em contrapartida, elas possuem poucas parcerias fora da França, o que se traduz principalmente pela fraca proporção de patentes obtidas com outros países (quadro 4).

Essa observação é confirmada pela análise da participação das empresas francesas de biotecnologia no quinto programa-quadro europeu de pesquisa e desenvolvimento tecnológico (1998-2000). O fenômeno é mais ou menos marcado de acordo com os setores; assim, a taxa de participação nos programas europeus é três vezes mais elevada no setor agro-alimentar do que no da saúde para as pequenas e médias empresas francesas de biotecnologia.

 

O apoio público para a inovação

A indústria de biotecnologia tem sido beneficiada pelas recentes medidas tomadas em favor da inovação e que visam atingir dois objetivos principais: promover o espírito empreendedor e desenvolver o capital-investimento.

Promover o espírito empreendedor

A lei sobre a inovação e a pesquisa, de 12 de julho de 1999, tem como objetivo favorecer a parceria entre a pesquisa pública e o mundo socioeconômico. Ela permite, em particular ao pessoal ligado à pesquisa pública, tornar-se membro de um conselho administrativo, ou consultor em tempo parcial numa empresa.

Ela permite também, às universidades e estabelecimentos públicos de pesquisa, criarem incubadoras para receber e acompanhar os projetos de criação de empresas inovadoras, desde a concepção até a primeira rodada de financiamento. Desde o ano de 1999, uma dezena de incubadoras distribuídas por toda a França já adquiriram uma experiência particular em matéria de biotecnologia. Ela ajuda os jovens empreendedores a constituir sua equipe e elaborar seu "business-plan". Ela também oferece um apoio financeiro e logístico. No mesmo espírito, a criação de zonas de acolhimento temporário de empresas nos laboratórios públicos mostra-se particularmente frutuosa, porque permite aos estudantes na fase de tese descobrir "do interior" o mundo das start-ups.

Um concurso nacional de ajuda à criação de empresas de tecnologias inovadoras foi criado na mesma época, sendo dotado de 30 milhões de euros por ano, 6 milhões dos quais para projetos de biotecnologia, oferecendo um primeiro financiamento aos primeiros colocados. Em contrapartida, o período precedente à criação da empresa é mal financiado. Atualmente, apenas as regiões de Île-de-France e Auvergne desenvolveram um instrumento de financiamento para cobrir esse período. Ao todo, as biotecnologias recebem de 20 a 25% das diferentes ajudas públicas à criação de empresas inovadoras.

Desenvolver o capital de investimento

Os esforços foram empreendidos em duas direções: favorecer o financiamento das empresas de tecnologias inovadoras desenvolvendo o capital de investimento e criando um ambiente jurídico e fiscal mais adequado.

Uma primeira série de medidas diz respeito diretamente à empresa:

  • a ampliação do acesso ao crédito de imposto sobre a pesquisa;
  • a criação de bônus de participação na criação de empresas. Eles constituem um meio de atrair colaboradores permitindo-lhes participar do capital de sua empresa a um preço fixo quando de sua contribuição. Contudo, as condições fiscais são menos favoráveis do que em outros países europeus.

Outras medidas visam o desenvolvimento do capital de investimento:

  • instituídos em 1997, os fundos comuns de aplicação na inovação são destinados ao financiamento das empresas inovadoras que não possuem cotação na Bolsa mobilizando capitais privados;
  • a França criou, a partir de 1998, dois fundos públicos de capital de risco em parceria com o Banco Europeu de Investimento;
  • no segundo semestre de 2001, uma nova dotação de 150 milhões de euros, destinada prioritariamente às biotecnologias, foi desbloqueada para aumentar a confiança dos investidores privados. Ela foi distribuída em 90 milhões de euros para as garantias de empréstimos bancários e 60 milhões de euros para um novo fundo de incentivo.

Apesar de tudo, a França ocupa apenas uma posição mediana na Europa, atrás dos Países Baixos, da Bélgica, do Reino Unido e da Suécia e a capitalização das empresas francesas de biotecnologia é quatro vezes mais fraca do que a média européia.

 

2 – Distribuição das empresas por tecnologias dominantes (em %)

Tecnologias

UE 15

Alemanha

Reino-Unido

França

Suécia

Suiça

Itália

Enzimas, anticorpos monoclonais

18,7

14,0

22,9

16,9

26,3

22,3

21,2

Cultura de células e tecidos

8,1

9,1

5,9

8,5

3,9

4,5

14,2

Fermentação, 
despoluição,
etc.

15,0

17,2

11,7

17,6

11,2

9,8

11,5

Genômica, 
engenharia genética

21,6

25,6

17,0

22,1

13,4

15,2

15,9

Microorganismos

9,4

5,7

10,4

12,6

7,8

9,8

14,2

Síntese química

7,6

9,4

6,7

7,4

11,2

3,6

7,1

Bioinformática

5,4

6,6

4,9

6,2

6,7

6,3

2,7

Instrumentação, equipamento médico

10,0

7,5

17,2

5,0

10,6

4,1

12,4

Teste agroalimentar
meio ambiante

4,2

4,8

3,3

3,7

8,9

4,5

0,9


3 -
Distribuição das empresas de biotecnologia por setores econômicos

 

 Saúde  

Agroalimentar 

Meio Ambiente

País

Terapêutica

Diagnóstico

Agricultura

Alimentação

Veterinária

   
 

%

%

%

%

%

%

UE 15

809

40

415

21

282

14

228

11

137

7

150

7

Alemanha

221

45

123

25

63

13

35

7

27

5

27

5

Reino-Unido

185

39

96

20

55

12

45

9

31

7

58

12

França

150

35

68

16

77

18

73

17

39

9

21

5

Suécia

79

49

22

14

21

13

10

6

17

10

13

8

Suiça

35

54

14

22

9

14

4

6

3

5

0

0

Itália

37

35

22

21

18

17

19

18

3

3

8

7

Fonte: BID, Universidade de Sienne.

4 - Relação entre a nacionalidade do inventor e a localização da invenção no período de 1987-1996

Localização da invenção

 País do inventor 

 

Alemanha

Reino-Unido

França

Países-Baixos

Suíça

Itália

O país do 
inventor 

76,2

76,9

81,5

70,7

30,6

73,3

Outro país 
da U.E.

11,2

12,8

4,2

24,8

18,4

21,8

Estados-Unidos

7,6

8,1

11,0

4,4

48,2

4,9


Fonte: Escritório Europeu de Patentes (1998).

 

A aceitabilidade social da biotecnologia

Nos últimos anos, inúmeras instâncias oficiais (Governo, Parlamento, estabelecimentos públicos de pesquisa, etc.) redigiram relatórios, organizaram debates ou colocaram matérias na internet, com o objetivo de enfrentar os problemas éticos apresentados pelo desenvolvimento da biotecnologia.

Aplicações na saúde

Os franceses são globalmente favoráveis à utilização da biotecnologia na área da saúde. A mais importante associação de caridade francesa, que promove a terapia gênica recolhe 80 milhões de euros todos os anos. A legislação, no entanto, permanece menos permissiva do que em outros países da União Européia (Reino Unido e Suécia, principalmente). A revisão das leis relativas à bioética encontra-se em andamento no Parlamento. Ela deverá permitir, sob certas condições, as pesquisas com embriões e as células-troncos embrionárias, proibindo paralelamente a clonagem terapêutica.

Plantas geneticamente modificadas

O milho transgênico ocupava apenas quinze hectares dos 3 milhões de hectares de milho cultivados na França em 2001. Mas, a hostilidade aos OGMs (organismos geneticamente modificados) de uma parcela da opinião pública diz respeito também à pesquisa e um sexto das culturas experimentais foi destruído em 2001 durante manifestações. Os poderes públicos adotaram uma moratória de utilização comercial dos OGMs e criaram um Comitê de Biovigilância encarregado de avaliar os efeitos de sua cultura no meio ambiente.

A patenteabilidade dos seres vivos

A diretriz comunitária 98/44/CE sobre a proteção das invenções biotecnológicas foi objeto de controvérsias na França. O projeto de transposição para o direito francês, aliás, só incorpora uma parte da diretriz. Em contrapartida, as patentes autorizadas pelo Escritório Europeu de Patentes estão em conformidade com a diretriz 98/44/CE.

A experiência americana demonstra que, embora se baseie na perspectiva de longo prazo, a indústria de biotecnologia é uma fonte de empregos (eles passaram de 79.000 em 1993 para 162.000 em 2000). Uma perseverança da qual a França também deveria dar provas.

 

Para mais informações

A.Allansdottir, A. Bonaccorsi, A. Gambardella, M. Mariani, L. Orsenigo, F. Pammolli, M. Riccaboni.
Innovation and Competitiveness in European Biotechnology. Enterprise Papers nº 7. 2002.
Enterprise Directorate-General. European Commission.

http://european.eu.int/comm/enterprise/library/enterprise-papers
 

Relatório intermediário sobre a aplicação do plano de ação referente ao capital de investimento.
Economia Européia – Suplemento A. Análises Econômicas nº 8/9 – 2000. Comissão Européia
Direção Geral dos Assuntos Econômicos e Financeiros.

http://europa.eu.int
(palavra-chave: capital-investissement)

Banco Nacional de Dados sobre a Biotecnologia na França.
http://biotech.education.fr/

Ministério da Pesquisa (para a política de apoio à inovação).
http://www.recherche.gouv.fr/brochure/psi.pdf

Ministério da Economia, das Finanças e da Indústria
(para o relatório Lenoir "Enfrentar o deságio das biotecnologias").

http://www.minefi.gouv.fr/minefi/services/publications

Ministério da Agricultura e da Pesca
(para o debate sobre os OGMs).

http://www.agriculture.gouv.fr
(título OGM)

Ler também o artigo de Images de la France sobre a inovação e a criação de empresas inovadoras.

 

 

Ver também:

*Alain Hénaut é professor de biologia na Universidade de Évry. 
As opiniões expressas neste artigo são da exclusiva responsabilidade do autor
.

 

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