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                     Análises e reflexões 

                     Os franceses e sua alimentação
        
por Marion Guillou*                                                                               agosto de 2001

 

O paradoxo francês, apontado por um pesquisador americano, consiste no bom estado de saúde da população francesa e dos países do Sul da Europa não obstante (ou graças a?) uma alimentação que pode parecer demasiado rica e acompanhada de vinhos. Mas a alimentação na França é marcada por outros paradoxos: o de uma exigência máxima de segurança dos alimentos convivendo com o respeito pelos produtos "vivos", como os queijos feitos com leite cru, e o de uma longa tradição gastronômica que coexiste com o aumento dos "alimentos-serviços" e dos "alimentos servidos" coletivamente.

 

 A urbanização da sociedade e a ampliação dos circuitos
 
Segurança dos alimentos: uma exigência fundamental
 
O lento desaparecimento do modelo alimentar tradicional
 
O país "dos quatrocentos queijos"
 
Aprofunde sua pesquisa

 

A urbanização da sociedade e a ampliação dos circuitos

A alimentação é extremamente diversificada na França, seja nas faixas etárias ou nas categorias sócio-profissionais, seja para cada um de nós, ao sabor dos acontecimentos da vida: a refeição cotidiana na empresa nada tem a ver com a que fazemos numa ocasião festiva entre amigos.

Mas ela experimentou algumas mudanças importantes durante a segunda metade do século XX. De um modelo quase "autárquico", a agricultura contemporânea passou a um modelo comercial mais intensivo. Derivada anteriormente do domicílio ou da vizinhança, a produção de alimentos passou a ser uma produção artesanal e mais adiante uma produção de massa para consumo alargado no tempo e no espaço.

A produção agrícola foi alterada com freqüência por esta ou aquela descoberta, este ou aquele avanço do maquinário. No setor alimentar, embora certas técnicas tenham revolucionado os prazos de conservação e as possibilidades de transporte, a demanda é que vem a ser a principal fonte das recentes modificações da oferta.

Outros fatores de mudança são a urbanização da sociedade e o fato de que mais de três quartos dos franceses vivem em cidades ou em seu entorno. A população concentrou-se fora das zonas de produção agrícola, o que acarretou uma ampliação dos circuitos de transformação e distribuição.

O setor alimentar é o maior setor industrial francês, por seu volume de negócios. Mais significativo ainda é o fato de ser ele hoje em dia responsável pela transformação de 70% da produção agrícola. Isto significa que o grosso da produção agrícola passa atualmente por um processo de transformação. 

As indústrias alimentares são na França um setor pouco concentrado: 90% das 3.000 empresas francesas do setor com mais de 20 empregados têm menos de 200 empregados. Esta situação é peculiar, pois a Grã-Bretanha e outros países europeus apresentam uma proporção muito menor de pequenas e médias empresas no setor. Paralelamente, a evolução dos clientes, ou seja da outra ponta da linha, evidencia uma acentuada concentração da distribuição de alimentos. Assim, em 1988 os hipermercados e os supermercados respondiam por 48% das compras de alimentos na França, contra 60% em 1996, 8 anos depois. Estes dados refletem um movimento extremamente rápido e ininterrupto de concentração das formas de distribuição alimentar. 

Trocas agroalimentares da França (em milhões de francos)

 
 

1970

1980

1990

2000

         

Exportações

15.977

77.532

185.091

242.500

Expot. para a U.E.

10.876

44.657

132.326

170.500

Importações

16.389

61.666

132.922

181.200

Impot. proveninetes da U.E.

  5.837

29.289

 86.781

126.800

Fonte : Graphagri 2001.


A concentração da distribuição e seu desempenho organizacional têm como conseqüência uma pressão eficiente sobre os preços. Com efeito, observando os preços ao consumidor de janeiro de 1994 a março de 1998, constatamos que os preços dos produtos alimentícios evoluem menos rapidamente que o conjunto dos outros preços.

Estamos assistindo a mudanças nas exigências do consumidor. Da mesma forma, o consumo evolui em suas características. O elemento mais marcante dos últimos anos, à parte o aumento da expectativa de vida dos franceses, é a importância recentemente adquirida pela refeição fora de casa.

As refeições coletivas:
volume por setor em número de refeições (1997)

Escolar e universitário: 1,242 bilhão

Empresas e administrações: 555 milhões

Hospitais e asilos (ou abrigos) de idosos: 1,490 bilhão

Outros setores (creches, etc.): 420 milhões

Fonte: DGAL (Direction Générale de l’Alimentation), 2000.


Cabe observar que essa evolução é ainda mais acentuada no que diz respeito às pessoas frágeis, pois o número de refeições distribuídas a hospitais e asilos de idosos quase dobrou entre 1981 e 1997. Globalmente, 1,5 bilhão de refeições são servidas por ano nos hospitais e asilos de idosos, contra apenas 790 milhões em 1981.

Esse extraordinário crescimento do número de refeições servidas a uma população mais frágil e concentrada que a média é acompanhado, naturalmente, de um nível mais elevado de risco. Outro elemento digno de nota na "paisagem alimentar francesa" é a importância dos intercâmbios. Ao contrário do que freqüentemente se pensa no exterior, a França faz muitas trocas em matéria alimentar.

Nós exportamos muito (21% da produção alimentar) mas também importamos muito. As importações aumentam com grande rapidez, ao passo que o consumo mantém-se praticamente estável, em comparação com as trocas, e a produção aumenta.

A globalização dos intercâmbios que se verifica no setor alimentar tem conseqüências tanto na qualidade e na garantia que devemos oferecer nos produtos exportados quanto no rigor dos controles que devemos exercer nos postos de inspeção fronteiriça, para fiscalizar o nível sanitário dos produtos importados.

 

Segurança dos alimentos: uma exigência fundamental

Uma pesquisa realizada em 1999 pela SOFRES define as prioridades dos franceses: "Em sua opinião, a qualidade dos produtos alimentícios é antes de mais nada:

- a garantia de que não oferecem riscos para a saúde?

- o respeito às normas de higiene durante a fabricação e o transporte?

  • o sabor dos alimentos? 
  • a qualidade nutritiva? 
  • o baixo teor de produtos químicos?"

A metade dos consultados optou pela primeira resposta, 38% pela segunda, 34% pela terceira (uma característica bem francesa), 25% pela quarta e 25% pela quinta.

A segurança dos consumidores depende tanto da organização coletiva quanto do operador privado desde a Idade Média, através dos regulamentos das cidades e corporações. Foi a peste bovina de 1881 que deu origem às iniciativas de organização agrícola da parte do governo e à criação dos serviços veterinários.

A identificação das doenças humanas geradas pelos alimentos é um indicador do nível de segurança alcançado: o controle da tuberculose de origem animal está plenamente assegurado na França; os casos de listeriose, mais controlados desde que se tornou obrigatória a declaração dessa patologia humana, parecem diminuir. Mas o risco alimentar tornou-se tema de grande preocupação para os franceses. Vários fatores explicam essa maior sensibilidade à questão. Adquirindo alimentos produzidos longe, transformados longe, vendidos na maioria das vezes em supermercados, os consumidores vêem-se diante de autênticos "OCNI" – objetos comestíveis não identificados, segundo a expressão do sociólogo Claude Fischler. Além disso, a crescente concentração da produção e da distribuição aumenta a escala de potenciais incidentes. Os produtos afetados são vendidos a milhares de pessoas ao mesmo tempo. Isso vem somar-se a um contexto cultural preocupado com o meio ambiente e hostil aos alimentos "industrializados". Finalmente, a evolução das técnicas de análise permite hoje em dia a detecção de quantidades ínfimas de substâncias proibidas. Isso multiplica o número de produtos incompatíveis, fazendo crer que a "qualidade" dos produtos alimentícios está diminuindo.

Assim, o sistema estatal de vigilância sanitária, regulamentação e controle evoluiu significativamente em 1998 e 1999, com a adoção de duas leis: uma criando a Agência Francesa de Segurança Sanitária dos Alimentos, a outra reforçando os meios jurídicos de intervenção dos serviços estatais. Graças a seus sites na internet, é possível compreender e avaliar o alcance de ambas.

Por outro lado, a fabricação e a comercialização dos gêneros alimentícios estão submetidas ao princípio de segurança prévia (segurança geral dos produtos, regida pelo artigo 221-1 do Código de Consumo) e ao princípio de responsabilidade por produtos defeituosos (lei 98-389 de 19 de maio de 1998), aos quais devem obedecer os agentes econômicos.

O princípio de segurança prévia baseia-se antes de mais nada nos conhecimentos científicos adquiridos, especialmente no que diz respeito aos perigos e a sua probabilidade de manifestação, que define o risco. As empresas de produção alimentar dotam-se de competências que lhes permitem assegurar aos consumidores a aplicação desse princípio de segurança prévia.

Sua responsabilidade no que diz respeito a sua práticas e às conseqüências destas traduz-se na obrigação de estabelecimento de autocontroles.

A ausência ou a ineficácia dos autocontroles pode acarretar sanções administrativas graves, indo da apreensão dos gêneros produzidos até o fechamento do estabelecimento, medidas essas de caráter preventivo. 

Um novo pólo de perícia dos riscos sanitários e nutricionais

Em 1998, foi criada por lei uma estrutura independente, a Agência Francesa de Segurança Sanitária dos Alimentos (AFSSA), com a finalidade de centralizar os trabalhos de perícia. Subordinada ao mesmo tempo aos ministérios da Saúde, da Agricultura e do Consumo, esta agência é um "elemento-chave " do novo sistema de vigilância, avaliação e perícia dos riscos sanitários e nutricionais dos alimentos. Consultada obrigatoriamente sobre qualquer mudança nas disposições regulamentares ligadas à segurança sanitária dos alimentos, a AFSSA tem poderes para propor qualquer medida que considere oportuna para resguardar a saúde pública. Ela publica pareceres e recomendações; conta com a contribuição de especialistas e dos laboratórios dos serviços estatais encarregados da segurança sanitária dos alimentos; e contribui para garantir a segurança sanitária no terreno da alimentação, desde a produção das matérias-primas até a distribuição ao consumidor final.

A segurança alimentar decorre portanto de um esforço coletivo: dos profissionais envolvidos nos procedimentos de fiscalização da qualidade, dos consumidores e suas organizações, e, naturalmente, dos serviços públicos.

 

O lento desaparecimento do modelo alimentar tradicional

Embora desde o fim do século XIX a ração calórica global continue suficiente, a estrutura desta ração _ entre alimentos, lipídios, glicídios e proteínas _ foi evoluindo até a década de 1980. Hoje em dia os glicídios e os lipídios respondem cada qual por 45% da ração alimentar.

Evolução dos principais grupos de alimentos

Em kg ou litro por ano e por habitante

1950

1980

1996

       

Pão

121,7

  70,6

  60,0

Batata

152,7

  89,0

  64,5

Frutas

  37,7

  67,0

  65,0

Legumes

  59,5

107,9

115,7

Carnes

  44,4

  86,0

  84,6

Leites (líquidos)

  77,6

  74,0

  66,2

Peixes

  10,5

  18,1

  25,4

Gorduras

  11,8

  22,6

  23,6

Bebidas gasosas/sucos

    8,4

  26,3

  48,7

Vinhos

123,4

  93,7

~68,0

Fonte : Anuário Estatístico da França, 1999.


Sendo relativamente menos importantes os limites de preços e rendas, podemos hoje constatar comportamentos alimentares mais diferenciados por idade ou sexo. E as preocupações de saúde desempenham um papel determinante nas escolhas alimentares.

Principais riscos associados à alimentação (em % das respostas, com acúmulo de citações)
 

Excesso de peso, obesidade

32 %

Riscos cardiovasculares

22 %

Colesterol

20 %

Contaminação

14 %

Diabetes

11 %

Problemas de saúde

10 %

Alimento não fresco

  5 %

Fonte: CREDOC, pesquisa INCA 1999.


O apego às tradições _ e particularmente às três refeições por dia, que continuam sendo feitas regularmente pela grande maioria dos adultos e das crianças _ retarda uma eventual desestruturação alimentar.

Em média, as contribuições alimentares atendem às necessidades, exceto no que diz respeito ao ferro no caso das mulheres grávidas e das crianças pequenas, e aos minerais e vitaminas no caso de idosos que vivem em instituições.

Enquanto por um lado o modelo alimentar francês e os comportamentos tradicionais a ele associados vão lentamente perdendo terreno, por outro a demanda dos consumidores aumenta em matéria de informação e controles públicos, assim como em matéria de pesquisa científica sobre a segurança dos alimentos e da nutrição.

 

O país "dos quatrocentos queijos "

Essas mudanças profundas não impedem que os franceses continuem ciosos de suas tradições gastronômicas e da preservação da possibilidade de escolha, da diversidade e dos produtos específicos. Existe de sua parte uma dupla rejeição: do risco alimentar e das práticas agrícolas consideradas perigosas para a saúde e o meio ambiente, por um lado, e por outro de uma alimentação asseptizada e do desaparecimento dos "produtos locais" da terra. 

Os serviços estatais encarregados da gestão dos riscos e da vigilância sanitária

No terreno da alimentação, eles se organizam em dois pólos: uma administração central sob a autoridade dos ministros da Agricultura, da Saúde e do Consumo. Cabem-lhe particularmente a negociação da regulamentação a nível comunitário europeu ou internacional, a elaboração da regulamentação a nível nacional e a avaliação de sua aplicação.

A segurança do setor agrícola e alimentar está a cargo da Direção Geral da Alimentação (DGAL) e, sob certos aspectos, da Direção Geral da Concorrência, do Consumo e da Repressão às Fraudes (DGCCRF), igualmente incumbida da honestidade dos produtos e da informação ao consumidor. As águas potáveis e as investigações determinadas por casos de intoxicação alimentar humana incumbem à Direção Geral da Saúde (DGS). Serviços descentralizados (serviços veterinários, Direção Departamental da Concorrência, do Consumo e da Repressão às Fraudes, Direção Departamental de Questões Sanitárias e Sociais), submetidos em cada departamento à autoridade do "préfet", têm como missão essencial controlar a aplicação da regulamentação e a realização de pesquisas solicitadas pela administração central e os "préfets". Eles mobilizam cerca de 8.000 agentes em todo o território nacional. Os serviços encarregados do controle de campo contam com o apoio dos laboratórios públicos nacionais ou dependentes das coletividades territoriais, oficialmente autorizados a realizar análises.

Há vários séculos cultura e gastronomia são realidades ligadas na França. Nos últimos vinte anos, a nostalgia da autenticidade resgatou a importância desse fenômeno, e embora a ligação do consumidor com a terra seja muito menos forte, a demanda de produtos tradicionais ou de origem conhecida aumenta. Assim, os certificados oficiais de qualidade agrupam garantias diferentes: características próprias e únicas dos produtos com denominação de origem (vinhos, queijos, etc.); qualidade superior dos produtos dotados de selo vermelho (aves, carnes, etc.); conformidade a uma determinada característica no caso dos produtos dotados de certificados ou respeito de um tipo de produção no caso dos produtos da agricultura org^zanica.

Embora existam como elementos de uma tradição agrícola, turística e gastronômica regional, esses certificados não raro surgiram ou se desenvolveram em conseqüência de crises: crises vitícolas do início do século XX, crítica da qualidade das aves industrializadas nos anos 70-80, exigência de transparência nos últimos anos. Se as iniciativas de identificação da origem são mais desenvolvidas no Sul da Europa, a demanda de produtos "ecológicos" desenvolveu-se em toda a União Européia no fim do século XX.

 

Aprofunde sua pesquisa:

Ler os folhetos A indústria agroalimentar francesa e Os vinhos da França

www.agriculture.gouv.fr
www.afssa.fr

www.inra.fr

 

 

 

Ver também:

*Marion Guillou é diretora geral do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (INRA). As opiniões expressas neste artigo são da exclusiva responsabilidade do autor.