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Análises e reflexões
A
agricultura francesa na Europa
por
Bernard Vial*
maio de 2001
Amparada desde o século
XIX por uma rigorosa proteção nas fronteiras, a evolução da agricultura
francesa vem sendo
estreitamente vinculada desde os anos 60 a uma política agrícola comum (PAC)
que vem a ser a mais completa e integrada das políticas européias.
Neste contexto, a agricultura francesa
evoluiu de maneira muito semelhante à das agriculturas dos outros países da
União Européia, particularmente de seus membros
mais antigos. Mas ela apresenta certas características mais específicas,
decorrentes sobretudo das condições naturais: as superfícies de que dispõe
fazem dela a agricultura mais importante da Europa, tendo
permitido à França tornar-se exportadora de produtos agroalimentares já no
fim dos anos 60. A diversidade de solos e climas permite-lhe produzir
em quantidade considerável a quase totalidade dos diversos tipos de produtos
da zona européia, desde os produtos de policultura e da pecuária
aos das regiões mediterrâneas. Por outro lado, os departamentos e
territórios de ultramar também fornecem quantidades consideráveis de
produtos da zona tropical: açúcar de cana, banana, frutos e flores.
Situação
atual: dados e estatísticas
Propriedades
agrícolas
A
população agrícola ativa
A
produção agrícola
O
comércio exterior
Evolução
da agricultura francesa
A
criação do mercado agrícola europeu
O
futuro da PAC
Situação atual: dados e
estatísticas
A superfície agrícola total
da França metropolitana é de cerca de 33 milhões de hectares, o equivalente
a 60% da superfície do país, dividindo-se o resto entre bosques e
florestas (15 milhões de hectares) e o território não agrícola (7 milhões).
Esa superfície vem diminuindo lentamente há muitos anos, em benefício das
duas outras utilizações. Parte dessas terras não é cultivada; depois das
grandes operações de arroteamento, saneamento e restabelecimento para
cultivo empreendidas até a década de 70, ela se encontra atualmente
estabilizada em torno de 3 milhões de hectares. A superfície agrícola
utilizada é portanto de cerca de 30 milhões de hectares, ou meio hectare por
habitante e aproximadamente 23% da superfície agrícola total dos quinze
países da União Européia.
A maior parte dessa superfície
(mais de 61%, contra 55% em 1950) é ocupada por terras aráveis; as
superfícies ainda por utilizar representam pouco menos de 35% do total,
contra 38% em 1950; os vinhedos e pomares já não ocupam mais que 4%
aproximadamente dessa superfície, ou um pouco mais de um milhão de hectares,
contra 2 milhões em 1950, em conseqüência da concentração da produção
de frutas em empreendimentos altamente especializados e da supressão de parte
dos vinhedos de vinhos comuns, sobretudo a partir de 1980.
As superfícies ocupadas por
cereais (cerca de 9 milhões de hectares) e beterrabas (aproximadamente 450.000
hectares) mantêm-se estáveis há 40 anos. As superfícies de oleaginosos e
proteaginosos tiveram um pronunciado crescimento, passando de 250.000 hectares
em 1960 a mais de 2,7 milhões atualmente. No total, as superfícies de
grandes culturas aumentaram mais de 2,3 milhões de hectares. Em contrapartida,
as superfícies destinadas à alimentação do gado (superfície ainda por
utilizar e culturas de forragem) reduziram-se muito, passando em 40 anos de 20
a 14,6 milhões de hectares : foi sobretudo em seu detrimento que se efetuou a
diminuição da superfície agrícola e o aumento das superfícies de grandes
culturas. Mas essa tendência não tem sido homogênea, compreendendo
movimentos extremamente complexos de especialização entre as regiões,
algumas das quais transformam em terras aráveis seus prados permanentes, ao
passo que outras substituem suas culturas vegetais ou uma parte de seus prados
por culturas intensivas de forragem, sobretudo de milho.
Propriedades agrícolas
Seu número tem diminuído
constantemente, a um ritmo que varia, de acordo com os períodos, entre 3% e
mais de 5% por ano, basicamente em função do número de suspensão de
atividade dos proprietários mais idosos, número por sua vez influenciado
pelas medidas tomadas em nível europeu ou nacional para estimular a
suspensão de atividades (indenizações de encerramento de atividades,
pré-aposentadoria, aposentadoria aos 60 anos). Em 1997, eles eram 680.000 (contra
1,6 milhão em 1970), dos quais 424.000 com atividade em tempo
integral.
A
superfície média dessas propriedades aproxima-se portanto, atualmente, de 42
hectares, ou mais que o dobro da média dos quinze países da União. Essa
média abrange, naturalmente, situações as mais diversas: cerca de 70.000
propriedades, ou 11% do total, têm superfície superior a 100 hectares,
representando 43% da superfície total. Em sentido inverso, 244.000
propriedades de menos de 10 hectares (muitos dos quais em tempo parcial)
representam apenas 3% dessa superfície.
Tamanho das propriedades em 1997 - Fonte:
AGRESTE – Pesquisa Estrutural.
A atividade dessas
propriedades está diretamente ligada a sua superfície, e mais
especificamente à superfície disponível por ativo. A policultura-pecuária,
que chegou a ser o modelo dominante de atividade, regrediu progressivamente,
dando lugar a tipos mais especializados de empreendimentos. Se as maiores
propriedades podem ocupar e remunerar sua mão-de-obra dedicando-se quase
exclusivamente às grandes culturas, as
de nível médio concentram-se em sua maioria na pecuária, especialmente na
produção leiteira e a produção intensiva de carne bovina em granjas de
engorda. Os menores especializam-se em tipos de produção que rendem um
produto bruto por hectare de pecuária: viticultura, horticultura, produções
animais especializadas (porcos e aves).
A população agrícola ativa
Da
mesma forma que as propriedades agrícolas, ela tem evoluído, porém com
maior rapidez. Os membros ativos da família que
não sejam os proprietários e seus cônjuges tendem a desaparecer (não
passavam de 24.000 em 1997). O número de empregados agrícolas permanentes na
agricultura também reduziu-se muito; mas esta diminuição é em parte
compensada pelo recurso ao trabalho temporário. Finalmente, é cada vez menor
o número das próprias esposas dos proprietários que trabalham no
empreendimento: 55% em 1997, contra três quartos em 1979. No total, os
empreendimentos agrícolas ocupavam em 1997 1.260.000 ativos familiares,
473.000 dos quais em tempo integral, e 140.000 empregados
permanentes. Esses ativos representam cerca de
4% da população ativa total (contra 8% há vinte anos), nível próximo da
média européia, ao qual cabe acrescentar o emprego nas indústrias
agroalimentares, igualmente bastante estável, ao redor de 2,7% da população
ativa total.
Resultado agrícola médio por ativo
(média anual no período 1996-1998)- Fonte
: AGRESTE.
A produção agrícola
Atinge atualmente, em valores, cerca de 63 bilhões
de euros, percentual da produção total da União Européia (23%) perto do
percentual das superfícies. O percentual do valor agregado da agricultura
no Produto Interno Bruto é hoje de aproximadamente 2,3%, equivalente ao
das indústrias agroalimentares.
A diminuição constante desse percentual durante
períodos de forte crescimento econômico deveu-se a um aumento da produção
sensivelmente inferior ao ritmo geral de crescimento, ao passo que os preços
agrícolas na produção evoluíam conforme a média dos preços do PIB. Nos
últimos vinte anos, em compensação, o crescimento da produção agrícola
em volume ficou próximo ao crescimento geral. O fato de sua participação no
PIB continuar diminuindo explica-se sobretudo pela degradação constante dos
preços relativos agrícolas por causa da saturação do mercado interno
europeu e das adaptações da PAC.
Essa produção distribui-se heterogeneamente pelo
território nacional. As regiões Norte
e Oeste concentram a maior parte das terras cultivadas, dos maiores
empreendimentos e da produção, enfrentando atualmente, por esta razão, os
mesmos problemas de gestão do meio ambiente que outras regiões do Norte da
Europa. Em sentido inverso, a metade Sul/Sudeste do território concentra a
maior parte das zonas montanhosas e das zonas desfavorecidas, com suas
dificuldades específicas em termos de rendas agrícolas e ocupação do
espaço.
A produção nacional atende amplamente
às
necessidades do consumo interno francês no que diz respeito aos principais
produtos, à
exceção, basicamente, de
certos cereais oleaginosos e de preparados para a alimentação animal, de
determinados legumes e frutas, de certas carnes (sobretudo carne ovina), de
diversos produtos tropicais e de produtos da pesca.
O comércio exterior
O saldo do
comércio exterior agroalimentar da França, que se tornou positivo pela
primeira vez em 1969, vem crescendo acentuadamente desde então, e
atualmente supera constantemente
os 9 bilhões de euros. Ele agora
contribui apenas parcialmente para o excedente das trocas externas, mas sua
contribuição foi muitas vezes
decisiva no passado, sobretudo numa época
em que o saldo externo desempenhava um papel essencial na gestão das
paridades monetárias.
O comércio exterior francês com a União Européia (França,
incluindo os DOM, a partir de 1997) - Fonte : Alfândega.
Esse saldo resulta de trocas
muito mais intensas: mais de 35 bilhões de euros de exportações e cerca de
26 bilhões de euros de importações. A França tornou-se, assim, o
segundo exportador mundial de produtos agroalimentares. Essas trocas
ocorrem sobretudo no contexto europeu: cerca de 70 % das exportações e
importações de produtos agroalimentares, e 75% do saldo, dizem respeito a
trocas com os demais países da União Européia.
Por
ordem decrescente de importância, os principais itens excedentários são:
vinhos e bebidas, em avanço acentuado e regular desde 1970, e cujo saldo é
por si só equivalente a mais de 90% do excedente total; cereais, cujo saldo
atingiu o máximo em 1985 e atualmente flutua ao redor de 4 bilhões de euros;
laticínios, animais vivos, açúcar e derivados do açúcar. Os principais
itens deficitários são produtos da pesca e da aqüicultura, tabaco (em
conseqüência do desenvolvimento do consumo do tabacos branco), frutas e
preparados naturais (café, chá, temperos, cacau).
O comércio exterior francês com países terceiros (França, incluindo os
departamentos ultramarinos, a partir de 1997) - Fonte : Alfândega.
Evolução da agricultura
francesa
Essa situação decorre de uma tendência de longo
prazo, que certamente não chegou ao fim, muito embora prossiga já agora em
outras condições.
Apesar das superfícies de que dispõe, a agricultura
francesa não conseguia, antes dos anos 30 e compreensivelmente em 1945,
atender à totalidade das necessidades alimentares do país. As modalidades
específicas do desenvolvimento econômico da França haviam feito dela um
setor "à parte", nitidamente atrasado do ponto de vista da
produtividade, em relação a outros países. A partir de 1945, essa
situação mudou radicalmente. Defrontando-se com a dupla necessidade de
resolver com rapidez os problemas de alimentação da população e limitar o
percentual da mão-de-obra dedicado à produção agrícola, para atender às
necessidades da reconstrução e do desenvolvimento industrial, o poder
público empenhou-se com afinco em favor do desenvolvimento da produção e da
produtividade: as máquinas agrícolas e os adubos estavam entre os
setores prioritários do primeiro plano de modernização. Esse empenho
não demoraria a dar frutos, de tal modo que já em
meados dos anos 50
manifestaram-se certos desequilíbrios em mercados nos quais a produção
crescia mais rapidamente que a demanda interna (leite e carne bovina), levando
à criação dos primeiros órgãos nacionais
de intervenção.
A criação do mercado
agrícola europeu
Nesse contexto, a abertura do mercado comum agrícola
foi encarada pelos agricultores ao mesmo tempo como uma oportunidade e como um
risco. Oportunidade porque o mercado dos seis países fundadores ainda era
nitidamente deficitário nos principais produtos; mas risco em razão das
defasagens de produtividade em relação às agriculturas de outros países,
pelo menos nas produções animais e em certas produções vegetais intensivas.
Foi dentro dessa perspectiva
que os jovens agricultores obtiveram do poder público,
no início dos anos 60, o estabelecimento de uma política de "estruturas",
visando favorecer o crescimento dos empreendimentos e sua modernização,
estimulando a aposentadoria dos proprietários
idosos e controlando a
distribuição das terras liberadas. Os instrumentos e orientações dessa
política foram em grande parte incorporados, a partir de 1972, à política
"sócio-estrutural " da Comunidade Econômica Européia (CEE).
Esses receios, na realidade, revelaram-se
injustificados. Defrontando-se com os mesmos problemas que a França, os
demais países fundadores da Europa haviam recorrido a políticas comparáveis,
cujas principais orientações vieram a ser prolongadas na Política Agrícola
Comum (PAC). A proteção do mercado interno e os mecanismos de
intervenção nesse mercado permitiram dar prosseguimento à regularização
dos preços dos produtos agrícolas, estimulando fortemente os
investimentos nas propriedades
e o desenvolvimento da produtividade do
trabalho, da terra e dos animais _ tanto mais que os preços comuns foram
ajustados perto dos níveis mais elevados preexistentes nos países-membros, o
que acarretou, por exemplo, uma alta sensível dos preços dos cereais na
França.
A criação do mercado comum agrícola não se
traduziu, portanto, em forte concorrência entre agriculturas, mas numa expansão
geral, inicialmente no mercado interno, e logo nos mercados internacionais.
Nesse contexto, a necessária reestruturação da
agricultura pôde ser efetuada sem grandes problemas. O crescimento da
produtividade do trabalho, muito rápido (mais de 8 % ao ano), deu-se sem
maiores problemas sociais, resultando o encerramento de atividades de
empreendimentos agrícolas quase sempre da aposentadoria de agricultures
idosos.
A estabilidade dos preços relativos agrícolas
na fase de produção permitiu que os ativos agrícolas desfrutassem de seus ganhos de
produtividade: os rendimentos das propriedades
aumentaram no mesmo ritmo que o
salário médio por assalariado no resto da economia. Esta situação
favorável foi sendo progressivamente alterada a partir dos anos 80, em
conseqüência da saturação do mercado europeu e das sucessivas
adaptações da PAC impostas pelas conseqüências orçamentárias e
internacionais dessa saturação. Os rendimentos
agrícolas sofreram então uma
degradação pronunciada, em conseqüência da diminuição dos preços
relativos, e as sucessivas crises que se abateram sobre os setores de
produção intensiva e da pecuária revelaram a crescente fragilidade
financeira de muitas propriedades. As situações de falência, até então
praticamente desconhecidas, tornaram-se cada vez mais freqüentes.
Se as últimas reformas da PAC permitiram conter a
degradação média doos rendimentos, substituindo uma parte da sustentação dos
preços por subvenções fixas, não puderam resolver de maneira permanente a
questão do contexto econômico geral da atividade agrícola. Hoje a PAC
defronta-se, por um lado, com a pressão da globalização, através
das diferentes negociações multilaterais ou bilaterais de que a Europa
participa; por outro, com as novas preocupações dos consumidores, que
há muito esqueceram as dificuldades resultantes de problemas de abastecimento
ou de flutuações brutais dos preços dos alimentos, preocupando-se com a
qualidade dos produtos que lhes são oferecidos; e também com a necessidade de
corrigir os desequilíbrios e as agressões ao meio ambiente decorrentes dos
modos de desenvolvimento anteriores da agricultura.
Quaisquer que sejam os caminhos
a serem finalmente adotados,
a agricultura francesa preservará os trunfos que lhe são proporcionados por
seus terrenos agrícolas, suas condições naturais, a diversidade e a qualidade de
sua produção. Mas as modalidades de seu aproveitamento dependerão em grande
medida da política de acompanhamento da atividade agrícola.
A preocupação com a qualidade dos produtos, a
proteção do meio ambiente e o equilíbrio das zonas rurais é cada vez mais
levada em conta na PAC, com as
políticas de identificação dos produtos, a valorização da política de
desenvolvimento rural e a introdução de condições destinadas a conter a
intensificação e a melhorar o respeito do meio ambiente nos critérios de
concessão de subvenções. Essa preocupação é igualmente encontrada nas
políticas nacionais: a França desenvolve atualmente, através dos Contratos
Territoriais de Empreendimento (CTE), uma abordagem nova, que tem por objetivo
reorientar uma parte das subvenções aos produtos para iniciativas adaptadas
aos problemas específicos das diferentes regiões do território. Isso é
feito de forma contratual, visando assegurar ao mesmo tempo que os
financiamentos sejam orientados com precisão e que seus beneficiários
respeitem os objetivos estabelecidos.
O futuro da PAC
É grande a incerteza, em compensação, no que diz
respeito à maneira como serão tratadas no futuro as questões essenciais a
que a PAC vem tentando dar respostas desde sua criação: a regularização da
produção e a produtividade. O funcionamento do setor agrícola é complexo,
e só lentamente pode ser redirecionado. E sua evolução espontânea, na
ausência de interferências públicas, procede mediante crises sucessivas de
superprodução e déficit, das quais até agora a PAC felizmente foi capaz de
proteger a Europa. É bem verdade que pôde fazê-lo regularizando os preços
em níveis que tiveram de ser adaptados a partir dos anos 80, mas a questão
da regularização em si subsiste, qualquer que seja o nível em que opere.
Por outro lado, nenhum setor é capaz de garantir permanentemente uma
remuneração satisfatória do trabalho se a produtividade média do trabalho
em sua esfera distancia-se demais da tendência geral. O aumento da produção
por trabalhador tem-se escorado muito, até o momento, no aumento da
produtividade do solo e dos animais. Se esse caminho já vem sendo questionado,
tendo em vista suas diversas conseqüências (riscos para o meio ambiente, por
exemplo), outros métodos terão de ser buscados para aumentar a produtividade
do trabalho agrícola ou alterar as condições de sua remuneração.
Aprofunde sua pesquisa :
www.agriculture.gouv.fr
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Ver também:
*Bernard
Vial, inspetor
geral da agricultura, foi Secretário Geral do Comitê Interministerial
para as questões de cooperação econômica européia
(SGCI).
As opiniões expressas neste
artigo são da exclusiva responsabilidade do autor.
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Sobre o mesmo tema:
(textos em francês)
PAC
Europe
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