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Discurso do Embaixador da França no Brasil, Antoine Pouillieute,
por ocasião da entrega das insígnias de
Comendador da Legião de Honra à Senhora Lily Marinho

Rio de Janeiro, 24 de novembro de 2006


Cara Senhora Lily Marinho,
Caro Cônsul Geral,
Senhoras e Senhores,
Caros Amigos,

Esta é a primeira vez que minha esposa e eu temos a oportunidade de vir ao Rio de Janeiro desde que fui encarregado da missão diplomática francesa no Brasil. E essa oportunidade, a Senhora nos oferece com graça, talento e brilho para proceder - eu ia dizer celebrar - em sua casa a um ritual ao qual nos convida um apreço comum aos valores da República, seja ela a Federativa do Brasil, ou a francesa.

Aqui estamos reunidos, com efeito, porque o Senhor Presidente da República decidiu promovê-la ao grau de comendador dessa cavalaria de excelência que Napoleão Bonaparte criou em 19 de maio de 1802, sob a surpreendente designação de Legião de Honra.

Legião por ser destinada a distinguir aquelas e aqueles que demonstraram virtudes civis ou militares excepcionais. De honra porque enaltece aquele que serviu, aquele que ultrapassou, segundo uma alquimia entre a cabeça e o braço cara ao Imperador, a inteligência e a bravura, o campo de batalha e o do conhecimento, a clarividência da visão e a vontade de realizá-la.

*

Senhora,

Não há necessidade de lhe explicar o que representa a Legião de Honra, da qual foi, com efeito, seguidamente, cavaleiro e oficial. Sobretudo, a Senhora quis presidir a Associação Brasileira da Legião de Honra, que saúdo aqui fraternalmente e à qual dirijo meus sentimentos de estima e consideração.

A Senhora conhece portanto tudo a respeito dos valores que essa Ordem encarna. A Snhora sabe que seus primeiros Grandes Chanceleres foram sábios, antes de serem soldados; que o escarlate do mohair - devido à ordem de São Luiz - sobreviveu a todas as mudanças de regime, e estes foram muitos em dois séculos; que a “cruz dos bravos” deve a um rei - Luiz Felipe - e não a um presidente, o fato de ser a mais alta distinção civil e militar da França.

A Senhora sabe que uma promoção na Legião de Honra exige mais do que oferece. Evidentemente, ela consagra um sucesso e constitui, por essa razão, um reconhecimento. Mas ela é, sobretudo, um reconhecimento a serviço de uma nova exigência. Os louros fenecem rapidamente quando honram apenas um percurso feito; em compensação, sua coroa é de esperança quando obriga o recipiendário a ser ainda mais, amanhã, o que justificou ter sido distinguido ontem.

Erigir como regra de vida o resplandecer dos direitos humanos e do cidadão proclamados pela declaração de agosto de 1789 e encontrar no espetáculo do mundo o entusiasmo de um engajamento a serviço de uma humanidade mais elevada: este é o dever ao qual apela também a Legião de Honra.

Esse apelo, a Senhora sempre soube ouvir e sempre decidiu atender.

*

Senhora,

Eu não vou - embora seja o costume - narrar a sua vida. Seria inconveniente, já que ela lhe pertence e à Senhora somente. Seria também presunção, já que outros já o fizeram com mais talento, a começar pela Senhora mesma. Li vários livros e folheei várias revistas: eles são todos elogiosos e até lisonjeiros. Mas não duvido que, no fundo de si mesma, a Senhora os considere pelo que são realmente: bons companheiros que crêem tudo saber sem, nem por isso, saber tudo o que acreditam.

Na verdade, eu gostaria mais simplesmente de evocar na Senhora a amiga da França, do francês e da cultura.

Amiga da França? Isto é evidente por sua juventude passada entre o Quai d’Orsay e a Rua Erlanger; seu amor por Paris como rascunho das pequenas cenas cotidianas e das grandes mesas; seu gosto pela brilhante Paris da costura, da fragrância e das artes. Em suma, uma França de distinção, sabedoria de vida e sentimentos elevados. Mas também uma França ativa, audaciosa e generosa; a que se tem por arrogante, quando não é senão exigente. A França não poderia ser o que é sem dizer o que pensa, o que crê e o que faz. Saibamos portanto quem somos e saberemos o que temos a fazer; isto também é a identidade francesa. E é também o que a inspirou quando a Senhora decidiu, sem que a sua vontade duvidasse um só instante, apoiar os estudantes brasileiros do professor francês Jean-Yves Neveux para ajudar nos progressos da cirurgia cardíaca infantil.

Amiga do francês? O que é uma língua: é, ao mesmo tempo, a expressão de um patrimônio no qual uma comunidade se reconhece e a de um projeto graças ao qual ela navega rumo ao horizonte de seu destino. O francês é apenas uma gramática a serviço de um vocabulário, é também saberes singulares no coração de uma comunidade universal do conhecimento. O francês não é um vestígio a ser preservado: é uma abertura, uma perspectiva, um futuro. Nossa língua não reivindica o lugar das outras, ela pretende apenas ocupar o seu em um todo que, de outra forma, seria diferente e, para dizer tudo, um pouco mais pobre. Foi essa convicção que a animou, Senhora, para garantir a presença de um canal francófono na paisagem audiovisual brasileira e para vir em apoio ao ensino de nossa bela língua em seu belo país: nós lhe agradecemos por isso.

Amiga da cultura? Suas ações, nesse aspecto, são muito numerosas para evocarmos todas. Rodin, Monet, Bourdelle, Picasso, Braque, Claudel - Camille, a irmã, é claro - devem ser mais conhecidos aqui graças à Senhora; e ainda tantos outros. O ano do Brasil na França foi de um sucesso excepcional, que lhe deve muito. E duvido que o ano da França no Brasil - em 2008 e 2009 - possa dispensar seu engajamento, sua inteligência e seu entusiasmo. A Senhora compartilha com a arte o que escreveu Oscar Wilde: “não se pode ver algo senão quando se vê a sua beleza.” Mas, para isso, é preciso ainda perceber essa beleza aceitando que o artista nos mostre. O mestre do azul, Paul Klee, afirmava, justamente, que a ambição do pintor “não era a de reproduzir o visível, mas de torná-la visível.” Foi essa disposição de espírito que a fez aceitar, em 1999, o cargo de Embaixadora da Boa-Vontade da UNESCO, a fim de empreender os combates pela criação, pela diversidade e pelo respeito mútuo. A Senhora é uma amiga da cultura no sentido de estar convencida, parafraseando o ilustre Michel de Montaigne, de que a cultura “não é um vaso que se preenche, mas um fogo que se acende.”

*

Senhora,

A evocação que acabo de fazer mostra que sua existência sempre foi guiada pela exigência. Eu não acredito que um destino - a fortiori quando é bem-sucedido - seja fortuito. Também não acredito que sua vida tenha sido fácil: ela foi vivida sobretudo de forma resoluta.

O brilho da liberdade parece ser necessário ao fôlego de sua energia. Ora, a liberdade não se disputa: é por inteiro que ela a ilumina com seu brilho. Mas a Senhora sabe que luz também desenha uma sombra na qual surgem as dificuldades da vida. Essas dificuldades - as da mulher, esposa e mãe - não a pouparam absolutamente. A Senhora as superou juntamente com os seus - com seus filhos e netos, com um dos quais compartilho o nome - já que, na provação, não é mais a liberdade do indivíduo que importa, mas a fraternidade dos homens que os une em uma humanidade maior.

Ao sobrevoar sua vida sem pretender conhecê-la, poderíamos facilmente tomar de empréstimo a Francis Scott Fitzgerald o título de sua obra-prima e transformá-la em uma “A Grande Lily”, cujo sucesso, sem dúvida, seria igual ao do célebre Gatsby.

Em sua pessoa, Senhora, tudo é distinção; tudo é, desde sempre, distinção.

O quê poderia portanto acrescentar a França? Primeiramente, o reconhecimento, distinguindo-a com a primeira de suas ordens nacionais. Em seguida, sua gratidão promovendo-a ao prestigiado grau de comendador. Por fim, sua afeição, ao lhe permitir estar mais próxima ainda de um outro comendador para quem se voltam nossos pensamentos: Roberto.

Entre cerca de 110.000 legionários, existem menos de 3.500 comendadores: tanto na França quanto no exterior, homens ou mulheres, civis ou militares. A homenagem que lhe é portanto prestada esta noite, Senhora, ultrapassa a amizade excepcional entre o Brasil e a França atingindo o coração e o espírito de dois grandes povos personificados neste exato momento por sua única pessoa.

Tudo isso explica a alegria muito sincera do Embaixador da França no Brasil de lhe entregar agora as insígnias de seu grau.

Antoine Pouillieute
Embaixador da França



 
 

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