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"A cultura francesa vai bem, obrigado!"

ARTIGO DO SECRETÁRIO DE ESTADO FRANCÊS
ENCARREGADO DA COOPERAÇÃO E DA FRANCOFONIA,
JEAN-MARIE BOCKEL, PUBLICADO NO JORNAL “LE FIGARO”

Paris, 7 de dezembro de 2007


Para a revista Time, a cultura francesa fora do país está morta ou a ponto de assim ser. Tomando soro, entubada, cortada do mundo, voltada para o próprio umbigo e passadista, a cultura francesa estaria em coma profundo... O diagnóstico é severo. O paciente estaria condenado. Erroneamente. Devemos reconhecer todavia uma virtude ao artigo da Time: ele é bem documentado, pois é alimentado por boas fontes, tendo em vista o grande número de processos em declínio, devidamente instruídos e, em primeiro lugar, por nós mesmos.

Mas, qual é verdadeiramente a sua situação?

As indústrias culturais, em primeiro lugar. Para uma nação de 63 milhões de habitantes, se olharmos de perto os dados, o balanço está longe de ser desastroso.

Contrariamente à maior parte dos países comparáveis, ainda dotados de uma indústria cinematográfica, a França na verdade vem resistindo bem à inundação hollywoodiana. A parcela de mercado dos filmes nacionais na França está estável há cerca de 20 anos: aproximadamente 50 a 60%. Basta compararmos com a Alemanha (menos de 20%), ou ainda a Itália (em torno de 15%). O filme francês também é visto e apreciado fora do território nacional, com 60 milhões de ingressos vendidos no mundo e 300 milhões de euros de receitas anuais em média.

No que se refere à música, a situação francesa é ainda melhor: com 25% de parcelas do mercado mundial, o grupo francês “Universal Music”, filial do grupo Vivendi, é o primeiro dos quatro maiores grupos do mercado fonográfico.

A indústria do livro não fica atrás. Dois grupos franceses são dominantes na França e no exterior: Hachette e Editis. O primeiro viu suas parcelas de mercado dobrarem entre 2002 e 2007, passando de 950 milhões de euros a cerca de 2 bilhões de euros e as vendas na França apresentam nada menos que “apenas” 37%. O segundo, com 750 milhões de euros de faturamento, é um ator maior do universo editorial francófono.

Nos jogos de vídeo, a França também soube tirar o melhor partido de seus talentos e suas criações. A recente compra da Activision pela Vivendi Games confirma a vitalidade de um setor em pleno crescimento e coloca o grupo francês em primeiro lugar na classificação mundial dos dez primeiros grupos, à frente dos americanos, dos japoneses... e dos europeus.

Comparação não é razão. E, felizmente, o campo das indústrias culturais não esgota a questão da projeção das obras francesa ou, segundo as escolas, do suposto declínio da cultura francesa.

É inegável, como lembra a Time, que a praça de Paris não detém mais, desde muito tempo, o monopólio das belas-letras, ou o da arte contemporânea. Isto significaria que o pensamento francês está ausente do debate de idéias internacional? Como lembraram outros antes de mim, Michel Foucault e Jacques Derrida ainda estão entre os escritores mais estudados nos Estados Unidos, e os ensinamentos de Michel Serres e René Girard são seguidos com paixão pelos estudantes americanos.

E, se for verdade que a França não realiza mais do que 8% das vendas de arte contemporânea no mundo, em comparação com os 50% de parcelas de mercado dos Estados Unidos, a criação francesa nem por isso suscita menos interesse, curiosidade... e encomendas. A China e o Brasil não se enganaram ao fazer apelo ao talento de Jean Nouvel para a construção da Ópera de Pequim e do Guggenheim do Rio de Janeiro. Na Bienal de Artes Plásticas de Veneza, Louise Bourgeois, Annette Messager e, mais recentemente, Sophie Calle, também confirmaram a força da criação contemporânea francesa.

Tudo isso, nós devemos à nossa história. Devemo-lo aos talentos deste país, aos artistas, aos criadores e aos produtores. Devemo-lo também ao engajamento irrepreensível dos poderes públicos franceses, tanto de direita quanto de esquerda, em favor da diversidade cultural, que vai bem além da exclusiva defesa da cultura francesa. Mas, como destaca muito justamente a Time, essa base sobre a qual construímos esse sólido consenso, nacional, primeiramente, depois, num segundo tempo, internacional, com a aprovação de uma convenção na UNESCO, não deve servir de pretexto para um fechamento em nós mesmos. Ela deve, ao contrário, incentivar-nos a ser audaciosos, apostando no talento das novas gerações, ampliando ao maior número de pessoas possível o acesso à cultura, abrindo mais amplamente ainda a França às sensibilidades vindas de outros lugares.

Para fazer viver plenamente a nossa cultura no mundo, devemos, é claro, adquirir os meios para isso. Mas devemos também tirar um melhor partido da globalização, mantendo-nos atentos ao desejo da França, que se expressa algumas vezes sem receber retorno, apelando mais para a iniciativa privada, que não é inimiga da criação, acompanhando o sucesso ao invés de depreciá-lo.

Esta é, a meu ver, uma das missões fundamentais da diplomacia cultural de nosso país.

 

 
 

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