COMEMORAÇÃO
DO 250º ANIVERSÁRIO DO
NASCIMENTO DE LAFAYETTE
DISCURSO DO MINISTRO
FRANCÊS DAS RELAÇÕES
EXTERIORES E EUROPÉIAS,
BERNARD KOUCHNER
Chavaniac-Lafayette, 6 de setembro
de 2007
Senhor Embaixador,
Senhora Prefeita,
Senhores Parlamentares,
Senhor Presidente do Conselho-Geral,
Senhoras e Senhores Políticos
Eleitos,
Senhor Préfet da Haute-Loire,
Senhor Préfet de Região,
Senhoras e Senhores,
Caros Amigos,
Não
desejo aplicar-lhes, filhos de Chavaniac
e admiradores de Lafayette, a lição
de uma história que conhecem
melhor que eu. Pois não tenho,
aliás, certeza de que a mensagem
de Lafayette, 250 anos após
seu nascimento, deva ser classificada
apenas entre os livros de história.
Todos
os Senhores conhecem, é claro,
o engajamento do jovem que mal acabara
de sair da adolescência ao sentir
o apelo da América como um
ferimento íntimo: “Desde
o primeiro dia em que ouvi o nome
da América, a única
vontade que tive foi a de derramar
o meu sangue por ela”, disse.
Os
Senhores conhecem a coragem do combatente
e a habilidade do mensageiro da causa
americana.
Os
Senhores conhecem o revolucionário
francês, redator da grande declaração
de 1789, comandante da guarda nacional
e organizador da primeira festa do
14 de Julho, a de 1790.
Os
Senhores conhecem o político
sagaz que trabalhava nos bastidores
da Restauração pelo
advento de uma monarquia constitucional.
Os
Senhores conhecem todos esses momentos
de glória que fizeram a história
da França e a legenda daquele
que celebramos hoje.
Além
do militar impetuoso, além
do herói da independência
americana, além do promotor
dos direitos humanos, além
das mil facetas da vida de Lafayette,
eu gostaria no entanto de destacar
uma prodigiosa capacidade que tinha
de superação de si mesmo,
de invenção permanente
e de projeção em direção
aos outros.
Lafayette
representa, em primeiro lugar, a recusa
de uma vida limitada pelas carreiras
estabelecidas e os horizontes do cotidiano.
Representa o apelo do além-mar,
desse Oeste ainda não-mítico,
mas onde já se inventa a liberdade
do mundo.
Ele
representa também um patriotismo
da liberdade, que reconhece seus irmãos
para além das fronteiras, que
derrama seu sangue numa guerra que
não é motivada pela
defesa do território, pela
expansão nacional, ou pelos
interesses financeiros.
Representa
uma França que cresce ao fazer
crescerem os outros, uma França
capaz de esforços e sacrifícios
além do razoável, desde
que justos – devemos nos lembrar
de que o custo da intervenção
francesa em apoio aos confederados
americanos custou ao Estado dois anos
de seu orçamento!
Lafayette
representa enfim uma França
que fala ao mundo, que não
tem medo do futuro, nem do desconhecido
e se realiza assumindo riscos.
“A
man before his time”, dizem
os americanos ao falar daquele que
consideram como “seu”
marquês. Um homem à frente
do seu tempo. À frente também
do seu país e isso muitas vezes
ainda.
Foi
por isso que fiz questão de
estar aqui entre os Senhores hoje,
para que a França homenageie
solenemente aquele que algumas vezes
mal reconhece como seu. E é
por isso que estou muito honrado e
muito feliz com a presença
entre nós de tantos eleitos
pelo povo e, em particular, o senador
Adrien Gouteyron, Vice-Presidente
do Senado, personagem respeitado de
nossa diplomacia e relator do orçamento
na Alta Assembléia.
Ora,
temos muitas vezes a tendência,
deste lado do Atlântico, de
colocar em dúvida a realidade
ou a sinceridade dos compromissos
de Lafayette. Comprazemo-nos em encontrar
nos episódios complexos, obscuros
ou francamente ambíguos de
sua rica existência motivos
para denegri-lo. Sem contestar a necessidade
ou a pertinência dos trabalhos
históricos que colocam em evidência
os aspectos desiguais de uma personalidade,
lamento não sabermos também,
algumas vezes, lembrarmo-nos do que
constitui a nossa história.
Essa
história, desde que um jovem
de dezenove anos decidiu atravessar
os mares para ajudar um país
que não conhecia, essa história
está intimamente ligada à
do grande povo que o Senhor representa
hoje, Senhor Embaixador, o dos Estados
Unidos da América.
Pois
Lafayette não contribuiu apenas
para a construção da
França moderna, a dos direitos
humanos e da laicidade. Como também
não contribuiu apenas para
a construção da América,
terra de esperança e liberdade.
Lafayette fez muito mais: ele construiu
uma das mais belas amizades que jamais
existiram entre duas nações,
uma amizade fundada em valores compartilhados,
uma fé comum na humanidade
e uma indefectível solidariedade.
Através
de Lafayette, também e sobretudo
é essa amizade que estou feliz
em celebrar hoje. Uma amizade que
foi por duas vezes decisiva nas horas
mais sombrias do século passado.
Uma amizade que devemos sempre conservar
na memória, sobretudo quando
divergências políticas,
legítimas entre dois Estados
soberanos, levam alguns espíritos
apressados a fazer de nós inimigos.
A amizade exige a franqueza e nós
não somos “seguidores”,
somos amigos. Nós manifestamos
nossos desacordos quando eles existem.
Existem
nos Estados Unidos 40 cidades, 7 condados
e uma montanha que levam o nome de
Lafayette. Por meio dessa lembrança
viva, a América nos recorda
nossos próprios compromissos,
ela nos estende esse espelho exigente
de uma França corajosa, guiada
por princípios de generosidade
e solidariedade.
Mas
a recíproca também é
verdadeira. A América, assim
como a França, nunca é
tão grande como quando sabe
aliar ao seu nome os defensores da
liberdade.
Fiéis
ao filho de Chavaniac, a França
e a América permanecerão
fiéis uma à outra, fiéis
sobretudo à sua história
e à sua grandeza.