CARTA DE ATRIBUIÇÃO
DE MISSÃO
DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA
FRANCESA, NICOLAS SARKOZY,
ENDEREÇADA AO MINISTRO FRANCÊS
DAS RELAÇÕES EXTERIORES
E EUROPÉIAS, BERNARD KOUCHNER
Paris, 27 de agosto de 2007
Senhor Ministro,
Os
resultados das eleições
presidenciais e legislativas mostraram
a amplitude da expectativa de mudança
manifestada pelos franceses. Ao eleger
para o Parlamento uma ampla maioria
presidencial, eles quiseram dar ao
governo, sem qualquer possível
ambigüidade, todos os instrumentos
necessários ao sucesso de sua
missão. Este governo, ao qual
o Senhor pertence, tem um só
dever: o de implementar o programa
presidencial e, além disso,
reconciliar nossos compatriotas com
a ação política
provando que ela ainda pode mudar
as coisas e devolver ao nosso país
o domínio sobre seu destino.
Ao
longo da campanha presidencial, compromissos
foram assumidos no campo de suas competências
ministeriais. Assim sendo, esperamos
do Senhor que os cumpra. O objetivo
desta carta de missão é
precisar-lhe os pontos que, entre
esses compromissos, parecem-nos prioritários
e sobre os quais pedimo-lhe que obtenha
resultados rapidamente.
O
discurso perante os Embaixadores traçou
as principais orientações
de nossa política externa e
européia. Contamos com sua
energia e sua determinação
para dar corpo a essas orientações
e levar ao mais elevado nível
nossas ambições com
relação ao lugar que
deve ocupar nosso país na Europa
e no mundo.
A
implementação dessa
política externa e européia
exige que nosso dispositivo de ação
externa seja dotado da organização
e dos meios que nos possibilitem concretizar
as ambições que nos
animam e devolver ao nosso país
o seu verdadeiro lugar no mundo e
na Europa. É definitivamente
rumo a um “ministério
da globalização”
que lhe pedimos para fazer evoluir
nosso instrumento diplomático.
Urge
também, respeitando-se os princípios
diplomáticos e critérios
previamente definidos, lançar
uma reflexão a respeito das
nossas prioridades de política
externa e a adequação
de nossos meios à mesma. O
Senhor nos apresentará portanto
um “Livro Branco” sobre
a política externa e européia
da França. Esse documento deverá
identificar de modo operacional:
-
as missões prioritárias
de nosso aparelho diplomático
no contexto de um mundo em plena evolução;
-
as transformações a
serem operadas na organização
e nas estruturas do Ministério
das Relações Exteriores
e Européias, para que ele se
concentre nessas missões;
²
- as conseqüências a serem
inferidas das atividades específicas
desse ministério, tanto no
âmbito do recrutamento, da formação
profissional e do desenrolar das carreiras,
quanto da abertura para o exterior.
O
Senhor nos apresentará esse
Livro Branco, que deverá ser
objeto de uma ampla discussão,
antes do final do mês de junho
de 2008, acompanhado dos projetos
de dispositivos legislativos e regulamentares
que lhe pareçam necessários
à adaptação da
organização administrativa
e os estatutos dos funcionários
do Ministério das Relações
Exteriores e Européias às
novas exigências de suas missões.
Um
contrato qüinqüenal de modernização,
que preparará juntamente com
o ministro do Orçamento, das
Contas e da Função Públicas,
dará por sua vez à nossa
ação externa a dupla
garantia de uma previsibilidade de
seus meios e do retorno dos ganhos
de produtividade que as reorganizações
que lhe pedimos implementar tornarão
possíveis.
No
que se refere à defesa e da
segurança nacional, nós
pedimos a preparação
de um Livro Branco que defina nossas
prioridades e objetivos e contenha
uma forte dimensão internacional.
O Ministério das Relações
Exteriores extrairá daí,
no que lhe diz respeito, as conseqüências
necessárias.
Uma
resposta eficaz às crises de
toda natureza pressupõe também
que o Ministério das Relações
Exteriores e Européias seja
dotado de uma capacidade de gestão
das crises que lhe permita cumprir
plenamente com seu papel de coordenação
da ação externa. O Senhor
nos proporá um dispositivo
que concilie as exigências de
uma atenção permanente
com as necessidades de uma reação
imediata em caso de crise.
Desejamos
que o Senhor faça propostas
a respeito das medidas a serem tomadas
no intuito de melhorar a condução
da política externa do Estado,
o que exige uma reflexão a
respeito da natureza e da amplitude
de nossas implantações
no exterior, além da coerência
das redes internacionais dos diferentes
ministérios, num contexto de
integração européia
cada vez mais forte e de vontade de
criação de uma rede
consular européia única.
Essa
iniciativa voluntarista e interministerial
de tornar coerentes os meios do Estado
no Exterior será baseada numa
lógica de qualidade e bons
resultados do serviço prestado
pelos serviços do Estado.
O
Senhor zelará, em particular,
pela modernização dos
serviços prestados aos franceses
do exterior, que têm um papel
cada vez mais importante na coletividade
nacional.
O
Senhor zelará, de modo mais
geral, pela abertura de nossa ação
internacional e a de seu departamento
aos agentes da economia e da sociedade
civil francesa e fará, quanto
a isso, as propostas que considerar
úteis.
Suas
propostas, elaboradas especialmente
em ligação com o ministro
da Economia, das Finanças e
do Emprego, deverão igualmente
ter como objetivo reforçar
as contribuições que
deve dar à nossa rede diplomática
nas áreas da análise
dos riscos, da luta contra a falsificação
e a corrupção, da inteligência
econômica, do apoio ao desenvolvimento
internacional de nossas empresas.
É
fundamental que se dê um novo
impulso a nossa política de
ajuda para o desenvolvimento. Esta
deve ser mais eficaz, mais clara,
mais estratégica. Ela deve
buscar e atingir resultados concretos
e visíveis.
Com
esse fim, o Senhor nos proporá
uma nova política de cooperação
e ajuda para o desenvolvimento fundada
nos seguintes princípios essenciais:
-
evitar a dispersão de nossos
meios e, ao contrário, concentrá-los
em prioridades geográficas
setoriais. Entre estas deverão
figurar naturalmente a África
e, no plano setorial, a saúde,
a educação e a formação,
o desenvolvimento sustentável;
-
definir a ajuda para o desenvolvimento
levando-se em conta o respeito à
democracia e à regra do direito,
bem como a luta contra a corrupção
nos países parceiros, privilegiar
a ajuda para a criação
de projetos concretos, visíveis
em campo e diretamente úteis
aos homens e mulheres que habitam
os territórios que auxiliamos;
-
dotar nossa diplomacia dos instrumentos
e meios que lhe faltam hoje para contribuir
de modo eficaz para o tratamento bilateral
e multilateral das saídas de
crises;
-
controlar a utilização
dos fundos e avaliar os resultados
alcançados.
O
Senhor nos proporá uma reorganização
de nosso dispositivo de cooperação
que nos permita alcançar esses
objetivos. O Senhor aproveitará
a oportunidade para criar um serviço
cívico obrigatório para
renovar uma dimensão ambiciosa
porém dentro de um contexto
profundamente renovado à rede
de cooperantes franceses no exterior
e estudará uma reforma de nosso
sistema de assistência técnica.
Nós
damos a maior importância ao
desenvolvimento de nossa influência
cultural no exterior. Nosso papel
no mundo, o futuro de nossas indústrias
culturais e a diversidade cultural
dependem disso.
Tudo
isso passa, primeiramente, pelo desenvolvimento
da língua francesa e do ensino
francês no exterior. Nossos
estabelecimentos escolares através
do mundo, animados pela Agência
para o Ensino do Francês no
Exterior (AEFE), constituem um trunfo
insubstituível para nosso país,
para nossas empresas, para nossas
comunidades que vivem no exterior,
mas também para a formação
em francês das elites estrangeiras.
Pedimo-lhe que nos apresente um plano
de desenvolvimento dessa rede, levando-se
em conta essa prioridade e o compromisso
assumido durante a campanha presidencial
de uma participação
maior da coletividade nacional no
financiamento dos estudos das crianças
francesas de nossos liceus no exterior.
Isso
passa em seguida por uma política
de atratividade da França voltada
para as elites estrangeiras, para
que venham particularmente formar-se
em nosso país. Juntamente com
o ministro da Imigração,
da Integração, da Identidade
Nacional e do Co-Desenvolvimento e
a ministra do Ensino Superior e da
Pesquisa, o Senhor nos apresentará
suas propostas para que a França
acolha mais estudantes, mais professores
e mais pesquisadores estrangeiros,
que sua origem seja mais diversificada
e que acolha os melhores. No que diz
respeito aos nossos parceiros em desenvolvimento,
especialmente na África, o
objetivo é contribuir, através
da formação, para o
reforço de suas capacidades
econômicas, administrativas
e tecnológicas. Do mesmo modo,
em ligação com o ministro
da Cultura, o Senhor se mobilizará
para que a França acolha em
seu território as futuras elites
artísticas e culturais estrangeiras.
Nossa
política audiovisual externa,
pela qual o Senhor é o responsável,
é de uma importância
fundamental para a influência
da França e para a divulgação
de sua língua. A BBC possui
tantos meios quanto o setor audiovisual
francês para uma visibilidade
e uma influência bem fortes.
Não se trata de copiar um modelo,
mas de criar condições
para uma condução coordenada
e eficaz de nossa política
audiovisual externa (rádio,
televisão e Internet) e de
proceder às necessárias
reorganizações com base
nas primeiras propostas que o Senhor
já formulou e por cuja implementação
zelará, em colaboração
com o ministro da Cultura.
Por
fim, o Senhor nos proporá uma
reorganização de nossa
rede cultural e de nossa diplomacia
de influência no exterior que
nos permita ser mais eficientes e
estar mais presentes nos novos centros
de profusão cultural, em particular
na Ásia e na América.
Naturalmente,
o Senhor contribuirá, em ligação
com os outros ministros diretamente
envolvidos, para a ação
da França em prol de uma política
mundial de luta contra a mudança
climática e de proteção
do meio ambiente, e de uma política
de estão internacional concertada
dos fluxos migratórios.
Nossos
esforços para devolver à
França seu papel como país
motor da Europa deverão, enfim,
levar-nos a uma preparação
intensiva da presidência francesa
da União Européia no
segundo semestre de 2008. Pedimos
ao Senhor que coordene, juntamente
com o Secretário de Estado
encarregado dos Assuntos Europeus,
a mobilização de todos
os setores administrativos envolvidos
para realizarmos com sucesso essa
tarefa de grande importância
para nossa diplomacia.
O
Senhor cuidará em particular
de nos propor, além dos temas
da imigração, da energia,
do meio ambiente e da defesa, das
prioridades bem identificadas, centradas
na Europa do crescimento e do emprego,
sobre a Europa que protege os cidadãos,
sobre a Europa que se volta para o
futuro graças a uma política
da indústria e da pesquisa
voluntarista e, por fim, sobre a Europa
que age mais fortemente no cenário
internacional. O desenrolar dessa
presidência deverá contribuir
para a aproximação de
nossos concidadãos da idéia
européia.
Como
o Senhor sabe, o programa presidencial
deverá ser implementado respeitando-se
escrupulosamente uma gestão
rigorosa das finanças públicas,
de acordo com nossos compromissos
europeus.
Realizar
com êxito as reformas esperadas
pelos franceses e fazer cessar a espiral
do endividamento não são
absolutamente coisas inconciliáveis,
mas representam, ao contrário,
dois objetivos complementares. Se
queremos modificar em profundidade
as estruturas e os modos de intervenção
das administrações públicas,
é para que cada euro gasto
seja um euro útil e que o potencial
humano de nossa administração
seja mais valorizado.
Já
a partir deste verão, uma revisão
geral das políticas públicas,
a exemplo da que foi realizada pelo
Canadá em meados dos anos 90,
está sendo empreendida. Ela
é conduzida, sob nossa autoridade,
pelo Secretário-Geral da Presidência
da República, pelo diretor
de gabinete do Primeiro-Ministro,
pelo ministro do Orçamento,
das Contas e da Função
Públicas, pelo Secretário
de Estado encarregado da Prospectiva
e da Avaliação das Políticas
Públicas, bem como personalidades
qualificadas oriundas do setor público
e do setor privado, além de
parlamentares. O objetivo dessa revisão
geral das políticas públicas
é passar em revista, naturalmente
com a colaboração dos
ministros envolvidos, cada uma das
políticas públicas e
intervenções implementadas
pelos órgãos da administração
pública, avaliar seus resultados
e decidir a respeito das reformas
necessárias para melhorar a
qualidade do serviço prestado
aos franceses, torná-lo mais
eficaz e menos oneroso e, sobretudo,
realocar os recursos públicos
das políticas inúteis
ou ineficientes em benefício
das políticas que são
necessárias e que queremos
empreender e aprofundar. É
no âmbito dessa revisão
geral que será implementado
o compromisso presidencial de contratar
um funcionário a cada dois
que se aposentem e que nossos objetivos
de finanças públicas
em cinco anos serão perseguidos
e atingidos (redução
da dívida pública a
menos de 60% do PIB, equilíbrio
orçamentário, queda
tão rápida quanto possível
dos recolhimentos obrigatórios
com o objetivo de redução
de quatro pontos em dez anos).
Nós
lhe pedimos que se envolva pessoalmente
e sem reservas nesse exercício
que não poderia absolutamente
colocar em questão a missão
que a presente carta lhe confia e
que, ao contrário, será
realizada, no que lhe diz respeito,
em coerência com a elaboração
do Livro Branco acima evocado. As
primeiras grandes reformas oriundas
da revisão geral das políticas
públicas intervêm no
âmbito da preparação
dos orçamentos para 2008.
Sobre
todos os pontos da presente carta
de missão, pedimo-lhe que nos
proponha indicadores de resultados.
Desejamos que figurem particularmente
entre eles indicadores de resultados
relativos à racionalização
de todos os meios do Estado no exterior,
à eficácia de nossa
ajuda para o desenvolvimento, ao desenvolvimento
do francês e freqüentação
dos estabelecimentos culturais franceses
no exterior, ao aumento da audiência
e da expansão de nosso audiovisual
externo, ao fortalecimento de nossa
influência na Europa.
Dentro
de um ano, faremos um balanço
do progresso de sua missão
e dos ajustes que porventura seja
conveniente fazer.
Reiterando-lhe
nossa confiança, apresentamo-lhe,
Senhor Ministro, os protestos de nossa
elevada consideração.