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DISCURSO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA FRANCESA, NICOLAS SARKOZY,
POR OCASIÃO DA CONFERÊNCIA DOS EMBAIXADORES

Paris, 27 de agosto de 2007


Senhor Primeiro-Ministro,
Senhor Presidente do Senado,
Senhor Presidente da Assembléia Nacional,
Senhor Ministro das Relações Exteriores e Européias,
Senhoras e Senhores Ministros,
Senhoras e Senhores Parlamentares,
Senhoras e Senhores Embaixadores,

O debate internacional não é abstrato ou está distante: as ameaças de hoje – terrorismo, proliferação de armas, criminalidade – ignoram as fronteiras; as evoluções na área do meio ambiente e da economia mundial afetam nossas vidas cotidianas; os direitos humanos são achincalhados diante de nossos olhos. Guiada por nossos valores, nossa política externa deve apoiar-se em uma visão clara do mundo e dos interesses que defendemos. Através dela, é nossa identidade como nação que expressamos.

Ora, os franceses lançam um olhar inquieto sobre a situação do mundo, o papel da Europa e o lugar da França. Eles haviam recebido com esperança a queda do muro de Berlim e o desmoronamento da ordem injusta de Yalta; os progressos relativos aos direitos humanos e à democracia; as promessas de uma globalização que, desde 1990, possibilitou a multiplicação por dois do PIB mundial e o aumento de 50% no nível de vida médio.

Eles constatam hoje que, diferentemente dos anos que se seguiram à segunda guerra mundial, os dirigentes dos últimos vinte anos não conseguiram criar uma nova ordem planetária, nem mesmo adaptar de modo eficaz a precedente. Com exceção dos raros momentos de unidade da primeira guerra do Golfo ou do 11 de setembro de 2001, predomina um sentimento geral e justificado de divisão e perda de controle, em um mundo global e ao mesmo tempo disperso, feito de interdependências descontroladas.

Enquanto os Estados permanecem no cerne do sistema internacional, sua capacidade de ação encontra-se agora confrontada à potência dos agentes econômicos, da mídia ou, o que é pior, das redes criminosas e terroristas; confrontada também aos riscos deste início de século XXI: fluxos migratórios cada vez menos controlados; uma desordem nos sistemas econômicos mundiais que aumenta a desconfiança para com a globalização à medida que os deslocamentos de empresas acaparam, um a um, todos os setores de atividades; ou ainda crises financeiras, como a que acabamos de absorver e que poderiam ter se reproduzido se os dirigentes dos grandes países não tivessem decidido empreender uma ação resoluta e concertada em prol da transparência e da regulação dos mercados internacionais.

Diante de crises internacionais como a do Iraque, ficou estabelecido hoje que o recurso unilateral à força leva ao fracasso; mas as instituições multilaterais, sejam elas universais, como a ONU, ou regionais, como a OTAN, mal conseguem convencer quanto à sua eficácia, do Darfur ao Afeganistão.

Na própria Europa, são grandes as interrogações, especialmente depois da última ampliação: onde se encontram as fronteiras da União? Novas ampliações seriam compatíveis com o prosseguimento necessário da integração? De forma mais ampla: a Europa não teria se tornado a correia de transmissão dos excessos da globalização, enquanto que deveria, ao contrário, amortecer seus choques e permitir aos nossos povos aproveitar todas as oportunidades?

Sobre esse fundo de inquietação e desilusão, os franceses perguntam-se o que a França pode fazer diante dos principais desafios aos quais o mundo está confrontado neste início de século XXI. Vejo três deles, dos quais depende o resto:

- Primeiro desafio: como prevenir um confronto entre o mundo islâmico e o Ocidente, desejado por grupos extremistas, como a Al Qaeda, que sonham em instaurar, da Indonésia à Nigéria, um califado que rejeite toda e qualquer abertura, toda e qualquer modernidade, até mesmo toda e qualquer idéia de diversidade. Se essas forças alcançarem seu sinistro objetivo, ninguém tem dúvida de que este século será ainda pior do que o anterior, que, no entanto, foi marcado por um confronto sem trégua entre ideologias.

- Segundo desafio: como integrar a uma nova ordem global os gigantes emergentes que são a China, a Índia ou o Brasil? Motores do crescimento mundial, eles também são fatores de graves desequilíbrios; gigantes de amanhã, eles querem que seu novo status seja reconhecido, sem estar sempre prontos a respeitar regras que, no entanto, são do interesse de todos.

- Terceiro desafio: como enfrentar riscos fundamentais que, na história da humanidade, somos a primeira geração a identificar cientificamente e a poder tratar globalmente, seja em se tratando do aquecimento climático, das novas pandemias ou da perenidade dos abastecimentos energéticos?

A essas questões, permitam-me dar a minha resposta em nome da França e, em primeiro lugar, dizer-lhes qual é a minha abordagem das questões internacionais.

Sou daqueles que pensam que a marca de um estadista é a vontade de mudar o curso das coisas. Para isso, é necessária uma vontade inabalável; é preciso também compartilhar seus sonhos, suas ambições e seus objetivos.

Sou daqueles que pensam que a França ainda tem muito a dar ao mundo, porque ela possui um dos povos mais dinâmicos e mais bem-formados, uma das mais fortes economias, uma diplomacia e forças armadas entre as melhores. Mas, nosso país não é o único a possuir esses trunfos e só poderá mantê-los se conseguir empreender numerosas e ambiciosas reformas. Propus essas reformas ao povo francês; todas elas serão implementadas com determinação, dentro de um espírito de diálogo e abertura.

Sou daqueles que acham que a França é grande e ouvida quando está unida por trás de uma visão e uma vontade. Os franceses elegeram-me com base em um programa claro e detalhado. Eles querem um presidente que aja e obtenha resultados. Isto é verdade internamente e é verdade em matéria de política externa. Essas duas dimensões de minha ação são, aliás, inseparáveis: a França, não mais do que qualquer outra nação, não possui direitos adquiridos em seu status internacional; sua mensagem ao mundo só será ouvida se for transmitida por um povo ambicioso e confiante, uma sociedade reconciliada consigo mesma e uma economia forte. As reformas que pretendo conduzir internamente para devolver aos franceses a fé no futuro, modernizar nossa economia e adequar nossas instituições, fazem parte de minha visão da França no mundo. Quero uma França mais forte em casa, pois esta é a condição para sua influência para além de nossas fronteiras. É aí também que reside a coerência de meu projeto.

Sou daqueles que pensam que não existe França forte sem a Europa, como não há Europa forte sem a França.

Sou daqueles que acham que o surgimento de uma Europa forte, como um ator fundamental no cenário internacional, pode contribuir de modo decisivo para a reconstrução dessa ordem mundial mais eficaz, mais justa, mais harmoniosa que nossos povos reivindicam.

Sou daqueles que acreditam que a amizade entre os Estados Unidos e a França é tão importante hoje quanto foi ao longo dos séculos passados. Sermos aliados não significa sermos alinhados e sinto-me perfeitamente livre para expressar nossos acordos e desacordos, sem complacência ou tabu.

Sou daqueles que pensam que os antigos vínculos de toda espécie que nos unem aos povos do Mediterrâneo e, para além dele, à África, são um trunfo, uma oportunidade, desde que tenhamos a ambição e a vontade de organizá-las e reforçá-las, rompendo definitivamente com antigas práticas.

Sou daqueles que acham que nosso idioma está no coração de nossa identidade e é parte de nossa alma; que a Francofonia e suas solidariedades são um trunfo fundamental para todos os que têm o francês como língua comum.

Sou, enfim, daqueles que pensam que a França continua sendo portadora de uma mensagem e valores que ressoam pelo mundo, os da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, do humanismo, mas também, mais recentemente, do humanitarismo e do dever de proteger personificados por homens como Bernard Kouchner, que fiquei feliz em acolher no governo e colocar à frente de nossa diplomacia.

Senhoras e Senhores Embaixadores,

A construção da Europa permanecerá como a prioridade absoluta de nossa política externa. Sem uma União Européia forte e atuante, a França não poderia dar uma resposta eficaz aos três desafios de nosso tempo. Sem uma Europa que assumisse seu papel de potência, o mundo seria privado de um pólo de equilíbrio necessário.

Foi por esta razão que eu quis prioritariamente recolocar a Europa em marcha propondo o tratado simplificado; o sucesso estava longe de ser garantido; ele foi obtido graças a um perfeito entendimento franco-alemão, motor essencial da União Européia. Quero prestar aqui uma homenagem muito particular a minha amiga Angela Merkel. O sucesso também deve muito à Comissão [Européia] e a seu admirável presidente, José Manuel Barroso. Na realidade, a boa-vontade de todos foi reunida, pois havíamos proposto um roteiro de saída para a crise suficientemente claro e agregador. Trata-se de uma lição para o futuro.

A aprovação pelo Conselho Europeu de junho de um mandato político bastante preciso abriu o caminho para uma conferência intergovernamental técnica, que se limitará a transcrever em forma jurídica nosso acordo político, o que em nada diminui a amplidão da tarefa da presidência portuguesa, na qual temos total confiança. Nosso desejo é que ela encerre seus trabalhos para o Conselho Europeu de outubro, a fim de possibilitar a entrada em vigor do novo tratado antes das eleições européias da primavera de 2009.

Agora que a Europa saiu do bloqueio da construção institucional que já durava 10 anos, chegou o momento de se colocar a questão do futuro do projeto europeu. Desejo que, até o fim do ano, seja criado pelos 27 [países-membros] um comitê de dez a doze sábios de altíssimo nível, a exemplo dos que presidiram Werner, Davidson e Westendorp, ou do comitê Delors, para realizar uma reflexão a respeito desta questão simples mas essencial: “que Europa [teremos] em 2020-2030 e para que missões?”. Os sábios deverão entregar suas conclusões e suas propostas antes das eleições européias de junho de 2009, para permitir ao Parlamento recém-eleito e à próxima Comissão disporem do fruto de seus trabalhos, como complemento ao tratado simplificado e ao trabalho de renovação das políticas da União e de seu quadro financeiro.

Se essa reflexão essencial sobre o futuro de nossa União for lançada pelos 27, a França não se oporá a que novos capítulos da negociação entre a União e a Turquia sejam abertos nos próximos meses e anos, desde que esses capítulos sejam compatíveis com as duas visões possíveis do futuro de suas relações: seja a adesão, seja uma associação tão estreita quanto possível sem que se chegue à adesão. Todos sabem que esta segunda fórmula é a que defendi durante toda a minha campanha eleitoral. Não mudei de idéia e acho que ela será reconhecida um dia por todos como a mais razoável. Nesse meio-tempo, assim como o Primeiro-Ministro Erdogan, desejo que a Turquia e a França reatem os laços privilegiados que teceram com o fio de uma longa história compartilhada.

A presidência francesa da União, dentro de apenas seis meses, deve desde já mobilizar todas as nossas energias. Para termos sucesso, teremos que jogar coletivamente, colocarmo-nos à escuta de nossos parceiros, todos os nossos parceiros. Cada uma das capitais da União receberá, antes de 1º de julho, a minha visita ou a do Primeiro-Ministro. Certamente teremos prioridades a lhes propor para fazer a Europa progredir nas áreas chaves da imigração, da energia e do meio ambiente. Três áreas onde as expectativas dos europeus são fortes e sobre as quais terei a oportunidade de voltar a falar.

Desejo dar ênfase hoje à questão da Europa da Defesa. Com o acordo de Saint-Malo completando em breve dez anos, chegou o momento de lhe dar um novo impulso.

O que foi realizado nos últimos anos está longe de ser desprezado, posto que a União conduziu uma dezena de operações em nosso continente, na África, no Oriente Médio e na Ásia. Essas intervenções demonstram, como se necessário fosse, que não há competição, mas complementaridade, entre a OTAN e a União. Diante da multiplicação das crises, não há excesso, mas déficit de capacidades na Europa.

Desejo que os europeus assumam plenamente sua responsabilidade e seu papel a serviço de sua segurança e da segurança do mundo. Para isso precisamos, como prioridade, reforçar nossas capacidades de planejamento e de condução das operações; desenvolver a Europa do armamento com novos programas e racionalizar os já existentes; garantir a interoperabilidade de nossas forças; e que cada um na Europa assuma a sua parcela da segurança comum. Porém, além dos instrumentos, também precisamos de uma visão conjunta das ameaças que pesam sobre nós e de meios para responder a isso: temos que elaborar juntos uma nova “estratégia européia de segurança”, prolongando a que foi adotada em 2003 sob a égide de Javier Solana. Poderíamos aprovar esse novo texto durante a presidência francesa, em 2008. Nosso Livro Branco sobre a defesa e a segurança nacional, cuja elaboração pedi para os próximos meses, será a contribuição da França para esse trabalho necessário.

Nessa iniciativa européia, a França e a Alemanha fincaram as fundações: a brigada franco-alemã e em seguida o Corpo Europeu. Em Saint-Malo, a França e o Reino Unido deram prosseguimento a essa construção, como é natural, já que, juntos, nossos dois orçamentos de defesa representam dois terços do total dos 25 outros países da União e nossos orçamentos de pesquisa e defesa, o dobro. Mas a Itália, a Espanha, a Polônia, os Países Baixos e todos os nossos outros parceiros têm por vocação participar desse esforço comum que nos permitirá incrementar ao máximo nossos trunfos: a União dispõe de toda uma variedade de instrumentos de intervenção nas crises: militares, humanitários e financeiros. Ela deve afirmar-se progressivamente como um ator de primeiro plano da paz e da segurança no mundo, em cooperação com as Nações Unidas, a Aliança Atlântica e a União Africana. Ela deverá também ter a vontade de lançar uma verdadeira política de cooperação e assistência em matéria de segurança com os outros países, particularmente na África.

Esses progressos da Europa da defesa não fazem absolutamente parte de uma competição com a OTAN. Essa Aliança Atlântica, vale lembrar, é nossa: nós a fundamos e somos hoje um de seus principais contribuintes. Dos 26 membros, 21 também são da União. Colocar em oposição a União e a OTAN não faz sentido: nós precisamos dos dois. Ou melhor, estou convencido de que é do interesse, evidentemente, dos Estados Unidos que a União Européia reúna suas forças, racionalize suas capacidades, em suma, organize a sua defesa. Devemos progredir com pragmatismo, com ambição, sem a priori ideológico, tendo como principal preocupação a segurança do mundo ocidental. Por serem esses dois movimentos complementares, espero que, nos próximos meses, avancemos resolutamente rumo ao fortalecimento da Europa da defesa e à renovação da OTAN e de sua relação com a França.

Aliás, já é o que se passa em campo: no Afeganistão, segundo mandato da ONU, a força da OTAN era dirigida antigamente pelo Corpo Europeu da União, sob as ordens de um general francês.

O Kosovo oferece outra ilustração dessa complementaridade, já que a União e a OTAN, sob mandato da ONU, cooperam estreitamente nesse país. Essa operação terá uma importância crucial ao longo dos próximos meses. Por iniciativa da França, o Grupo de Contato prossegue em seus esforços para restabelecer o diálogo entre sérvios e kosovares. Nós defendemos o princípio de uma independência supervisionada pela comunidade internacional, garante dos direitos das minorias e acompanhada pela União Européia. A França defenderá toda e qualquer solução aceita pelas duas partes. Desejo lançar hoje um tríplice apelo: aos sérvios e aos kosovares, para que dêem provas de realismo e prestem-se de boa-fé a esse derradeiro esforço, com o objetivo de se chegar a uma solução mutuamente aceita; aos russos e americanos, para que compreendam que essa questão tão difícil é, em primeiro lugar, uma questão européia; e aos europeus, que devem demonstrar sua unidade, visto que são países da União que deverão assumir a parte essencial das responsabilidades e dos custos e que é na União que se situa o futuro, a longo prazo, do espaço balcânico.

Senhoras e Senhores Embaixadores,

Dotada em breve de instituições eficientes, de um presidente estável do Conselho Europeu, de um Alto Representante encarregado da política externa que substituirá os três responsáveis atuais e de um verdadeiro serviço diplomático europeu, a União estará em condições de afirmar melhor, no cenário mundial, a visão e os valores que compartilhamos. Para a França, esse surgimento da Europa como ator político global corresponde a uma necessidade, diante dos três desafios do século XXI que evoquei há pouco: que respostas nós somos, juntos, capazes de lhes dar?

A ameaça de um confronto entre o mundo islâmico e o Ocidente, em primeiro lugar. Seria um erro subestimarmos essa possibilidade: o caso das caricaturas foi um prenúncio disso.

Nossos países, todos os nossos países, inclusive os do mundo muçulmano, estão hoje sob a ameaça de atentados criminosos como os que atingiram Nova York, Bali, Madri, Bombaim, Istambul, Londres e Casablanca. Imaginemos o que aconteceria amanhã se os terroristas utilizassem meios nucleares, biológicos ou químicos. O primeiro dever de nossos países é organizar-se em cooperação total entre serviços de segurança de todos os países envolvidos.

Nosso dever, o dever da Aliança Atlântica, também é acentuar nossos esforços no Afeganistão. Decidi reforçar a presença de nossos formadores no seio do exército afegão, pois é ele que deve, em primeiro lugar, desencadear e ganhar o combate contra os talibãs. Decidi intensificar nossa ação de ajuda para a reconstrução [do país], pois não poderá haver sucesso duradouro se o povo afegão não colher os frutos tangíveis de um retorno à segurança e à paz. Não haverá também sucesso na luta contra as drogas. Sem dúvida, chegou o momento de nomearmos, sob a autoridade do Presidente Karzai, uma personalidade de primeiro plano capaz de garantir uma coordenação maior entre ações militares e iniciativas civis.

Mas as nossas ações no Afeganistão seriam vãs se, do outro lado da fronteira, o Paquistão permanecesse como refúgio dos talibãs e da Al Qaeda, antes de se tornar, talvez, sua vítima. Estou convencido de que uma política resoluta por parte de todas as autoridades paquistanesas é possível e que ela é de seu interesse a longo prazo. Estamos prontos a ajudá-los nisso.

Prevenir um confronto entre o Islã e o Ocidente também é encorajar, ajudar em cada país muçulmano as forças de moderação e de modernidade a fazer prevalecer um Islã aberto e tolerante, que aceite a diversidade como um enriquecimento. Nesse campo, não há receita milagrosa, única. Mas a evolução de países como o Marrocos, a Argélia, a Tunísia, a Jordânia e a Indonésia demonstra, apesar das grandes diferenças, a existência de um movimento das sociedades, estimulado pelos governos. Desejo que nossa cooperação reforce os programas voltados para a abertura e o diálogo entre as sociedades, em ligação, por que não dizer, com os representantes do Islã na França.

Prevenir um confronto entre o Islã e o Ocidente também é ajudar os países muçulmanos, como propõe a França, a ter acesso à energia do futuro: a eletricidade nuclear, dentro do respeito aos tratados e em plena cooperação com os países que já dominam essa tecnologia.

Prevenir um confronto entre o Islã e o Ocidente é, por fim, tratar as crises do Oriente Médio. Há cinco anos apenas, a região só conhecia uma crise. Hoje, ela passa por quatro, muito diferentes, porém cada dia mais ligadas entre si.

Tudo já foi dito e muito já foi tentado a respeito do conflito israelense-palestino. O paradoxo da situação é que nós sabemos qual será a sua solução: dois Estados, ou talvez devêssemos dizer dois Estados-Nações vivendo lado a lado em paz e com segurança no interior de fronteiras seguras e reconhecidas. Nós conhecemos o conteúdo detalhado dessa solução através dos parâmetros Clinton e o legado de Taba. Nós tínhamos uma idéia do caminho a ser percorrido: o “roteiro”, que precisa certamente ser revisitado. Nós conhecemos enfim os padrinhos da paz: os membros do Quarteto, agora representados por uma personalidade de primeiro plano: Tony Blair e os países árabes moderados.

Apesar de tudo isso, todos têm a sensação desesperadora de que a paz não está progredindo. Pior ainda: que ela está recuando nos espíritos e nos corações. Eu tenho a reputação de ser amigo de Israel e é verdade. Nunca transigirei no que diz respeito à segurança de Israel. Mas, todos os dirigentes dos países árabes, a começar pelo presidente Mahmoud Abbas, que vieram em grande número a Paris desde a minha eleição, conhecem meus sentimentos de amizade e respeito para com seus povos. Que essa amizade me autorize a dizer aos dirigentes israelenses e palestinos que a França está determinada a tomar e defender toda iniciativa que possa ser útil. Mas ela tem uma convicção: a paz será negociada em primeiro lugar entre israelenses e palestinos.

De imediato, nossos esforços, do Quarteto e dos países árabes moderados, devem voltar-se para a reconstrução da Autoridade Palestina, sob a autoridade de seu presidente. Porém, também é indispensável que seja relançada sem demora uma autêntica dinâmica de paz que leve à criação de um Estado palestino. As partes envolvidas e a comunidade internacional furtarem-se uma vez mais a essa ambição e a criação de um “Hamastan” na faixa de Gaza pode parecer retrospectivamente como a primeira etapa da tomada de controle de todos os territórios palestinos pelos islamistas radicais. Não podemos nos resignar a essa perspectiva. A França não se resigna a isso.

O Líbano, há séculos, é caro ao coração dos franceses. Essa amizade não é dirigida a um grupo ou clã: a França é amiga de todos os libaneses. Ela tem um apaixonado apreço pela liberdade plena, pela independência e pela soberania do Líbano, conforme exigem as resoluções 1559 e 1701 do Conselho de Segurança. Foi essa amizade que encorajou Bernard Kouchner a convidar todos os atores da vida política para a Celle Saint-Cloud e depois encontrar-se com eles em Beirute. O diálogo que foi retomado nessas ocasiões deve prosseguir, para resultar em uma saída para a crise pelo alto: um Presidente eleito dentro dos prazos e de acordo com a constituição, em quem todos os libaneses se reconheçam e que seja capaz de trabalhar com todos; tanto no interior, com todas as comunidades, quanto no exterior, com todos os grandes parceiros do Líbano. Todos os atores regionais, inclusive a Síria, devem agir no intuito de favorecer uma tal solução. Se Damasco comprometer-se claramente nesse sentido, então as condições para um diálogo franco-sírio estarão reunidas.

A tragédia iraquiana não pode nos deixar indiferentes. A França era e continua sendo hostil a essa guerra. O fato de a história nos haver dado razão não nos isenta de avaliar as suas conseqüências: uma nação que se desfaz em uma guerra civil sem trégua; um enfrentamento entre xiitas e sunitas que pode incendiar todo o Oriente Médio; grupos terroristas que se instalam de forma duradoura, que desenvolvem resistências antes de atacar novos alvos pelo mundo inteiro; uma economia mundial à mercê da menor fagulha nos campos petrolíferos.

Não haverá outra solução senão política: ela implica na marginalização dos grupos extremistas e em um processo sincero de reconciliação nacional, ao final do qual cada segmento da sociedade iraquiana, cada iraquiano deverá ter assegurado um acesso eqüitativo às instituições e aos recursos de seu país; ela implica também em que seja definido um horizonte claro com relação à retirada das tropas estrangeiras. Porque é essa aguardada decisão a respeito dessa questão que obrigará todos os atores a avaliar as suas responsabilidades e conseqüentemente organizar-se. Só então e apenas então somente é que a comunidade internacional, a começar pelos países da região, poderá agir de forma mais útil. A França, por sua vez, está disposta a isso. É esa a mensagem que Bernard Kouchner acaba de levar a Bagdá, mensagem essa de solidariedade e disponibilidade.

Quarta crise, na confluência das outras três: o Irã. A França mantém com seus dirigentes um diálogo sem complacência, que se mostrou útil em várias ocasiões. Ela tomou a iniciativa, juntamente com a Alemanha e o Reino Unido, de uma negociação na qual a Europa tem um papel central, seguida pelos Estados Unidos, a Rússia e a China. Seus parâmetros são conhecidos; não vou voltar a isso senão para reafirmar que um Irã dotado de armas nucleares é inaceitável para mim e destacar a total determinação da França na atual iniciativa de aliar sanções maiores, mas também abertura, se o Irã decidir respeitar suas obrigações. Esa iniciativa é a única capaz de nos permitir escapar a uma alternativa catastrófica: a bomba iraniana ou o bombardeio do Irã. Esta quarta crise é, sem dúvida, a mais grave a pesar hoje sobre a ordem internacional.

As soluções que surgem lentamente do outro processo de negociação “a seis” e que levaram a Coréia do Norte a aceitar, sob o controle da AIEA, a renúncia à energia nuclear com fins militares e o fechamento do reator de Yongbyon demonstram, após a renúncia da Líbia às armas de destruição em massa, que existe um caminho, desde que haja vontade. O povo iraniano, que é um grande povo e merece respeito, não aspira ao isolamento nem ao confronto.

A França não poupará esforços para convencer o Irã de que haveria muito a ganhar ao iniciar uma negociação séria com os europeus, americanos, chineses e russos.

Em um espaço preciso, mas tão emblemático, desejei dar a minha resposta ao risco de confronto entre o Islã e o Ocidente: refiro-me ao projeto de União do Mediterrâneo. Assim como a história da Europa é feita de séculos de enfrentamentos e guerras, a história dos povos do Mediterrâneo é feita de conquistas e invasões. Assim como na Europa, laços muito fortes foram tecidos e nossas culturas enriqueceram-se mutuamente. É o caso, particularmente, entre a França e os países do Magreb. Chegou a hora de darmos mais um passo, o que pode ser decisivo, e demonstrar através de nossos atos, ao invés de discursos, a força dessa amizade.

Não se trata de ignorarmos o que já foi realizado: o processo de Barcelona, o 5 + 5, ou o Fórum Mediterrâneo. Trata-se, ao contrário, de ir além, entre países banhados por nosso mar comum, partindo da iniciativa de Jean Monnet com relação à Europa: a das solidariedades concretas. Devemos construir em torno de quatro pilares: o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável; o diálogo entre as culturas; o crescimento econômico e o desenvolvimento social; o espaço de segurança mediterrâneo. Imaginemos juntos, em cada uma dessas áreas, alguns projetos ambiciosos porém realistas, que mobilizem países, empresas, associações, todos os que desejarem participar desse grande projeto. Mostremos dessa forma aos nossos povos que, juntos, podemos construir para nossos filhos um futuro compartilhado de prosperidade e segurança!

Naturalmente, a União Européia, através de suas instituições, em particular a Comissão, deverá ser um ator de pleno direito da União Mediterrânea. Um diálogo informal já foi iniciado com os países mediterrâneos, inclusive a Líbia, que espero estimular a se unir ao concerto das nações, agora que a questão da equipe médica já foi resolvida.

Precisamos agora preparar uma primeira reunião de Chefes de Estado e de governo, que deverá ser realizada no primeiro semestre de 2008.

Senhoras e Senhores Embaixadores,

Os dois últimos desafios aos quais nosso mundo encontra-se hoje confrontado não podem ser tratados separadamente: de nossa capacidade para construir com os gigantes emergentes uma nova ordem mundial eficaz e justa dependerá diretamente nossa capacidade para responder às ameaças do século XXI, que são, especialmente, o aquecimento climático, as novas pandemias e as ameaças sobre a perenidade de nosso abastecimento energético. Até o momento, devemos reconhecer que a resposta da comunidade internacional às transformações iniciadas há 17 anos não esteve à altura dos desafios.

Desde 1990, o enfrentamento bipolar desapareceu; as próprias noções de Terceiro Mundo e de não-alinhamento não fazem mais sentido. A liberalização econômica, comercial e financeira, a revolução das tecnologias da informação e da comunicação e sua extensão fulgurante no mundo inteiro, os progressos dos transportes criaram um planeta no qual reina a interdependência, colocando em um contexto comum as oportunidades, os riscos e as crises.

Ao mesmo tempo e em reação ao que foi vivido muitas vezes como uma ocidentalização do mundo, surgiram reações de recusa, reflexos identitários, tentações nacionais ou religiosas de retorno à pureza de míticas eras de ouro, por meio da violência. Essas reações à globalização poderiam levar a um mundo desestruturado e desestabilizado. Essas evoluções são acompanhadas de uma segunda realidade, que não é menos preocupante: o mundo tornou-se multipolar, mas essa multipolaridade, que poderia anunciar um novo concerto das grandes potências, deriva mais para o choque entre políticas de poder. Os Estados Unidos não souberam resistir à tentação do recurso unilateral à força e infelizmente não demonstram, na proteção do meio ambiente, essa capacidade de liderança que, por outro lado, reivindicam.

A Rússia impõe sua volta ao cenário mundial jogando com uma certa brutalidade com seus trunfos, especialmente o petróleo e o gás, enquanto que o mundo, e a Europa em particular, esperam dela uma contribuição importante e positiva para a resolução dos problemas de nosso tempo que seu status recuperado justifica.

A China, engajada no mais impressionante renascimento da história da humanidade, transforma sua busca insaciável por matérias-primas em estratégia de controle, particularmente na África. A própria moeda, longe das leis de mercado, torna-se um instrumento a serviço de políticas pelo poder. As regras progressivamente negociadas e adotadas pelos países são muito freqüentemente achincalhadas, seja em se tratando das normas sociais, da propriedade intelectual ou do meio ambiente.

Diante dos excessos de uma globalização mal controlada, diante dos riscos de um mundo multipolar antagonista, estou convencido de que a União Européia pode dar uma contribuição importante para o surgimento de um multilateralismo eficaz fundado no respeito por todos às regras comuns e à reciprocidade.

Desde 1990, a Europa unida reencontrou, após cinco décadas de divisão e dependência, a responsabilidade plena e total sobre seu destino e a capacidade de voltar a ter um peso decisivo nas questões do mundo. Por si só ela acumulou, através do longo processo de sua construção comunitária, a experiência prática de uma soberania compartilhada que corresponde realmente às exigências de nosso tempo.

Neste início de século XXI, o mundo não precisa fazer tábula rasa. As instituições já existem. As reformas iniciadas em 2005 no sistema das Nações Unidas caminham na direção certa. O que faltou até o momento foi vontade política para levá-las a bom termo, especialmente a ampliação necessária do Conselho de Segurança, nas duas categorias de membros, tendo como novos membros permanentes a Alemanha, o Japão, a Índia, o Brasil e uma justa representação da África.

O Fundo Monetário Internacional também deve realizar reformas indispensáveis para refletir melhor as realidades de hoje e agir com base nelas: é precisamente isto que propõe Dominique Strauss-Kahn, candidato da União Européia ao cargo de diretor-geral.

Por fim, o G-8 deve dar prosseguimento a sua lenta transformação. O diálogo conduzido durante recentes reuniões de cúpula com os mais altos dirigentes da China, da Índia, do Brasil, do México e da África do Sul deverá ser institucionalizado e durar toda uma jornada. Pouco a pouco, o G-8 deve tornar-se o G-13. Tanto quanto o diálogo econômico, a necessidade de uma estreita cooperação entre os países mais industrializados e os grandes países emergentes para lutar contra a mudança climática justifica essa evolução. A proteção de nosso planeta torna de fato indispensável o reconhecimento de responsabilidades comuns, porém diferenciadas, pelas principais potências desse novo mundo. A França estará no centro desse grande debate, que terá um caráter estruturante para as relações internacionais.

Esse novo conceito das grandes potências, do Conselho de Segurança ampliado ao G-8 transformado, não poderia deixar de lado a defesa e a promoção dos direitos humanos e da democracia. Bem ao contrário: a globalização contribuiu – e felicito-me por isso – para o surgimento de uma opinião pública mundial cada vez mais bem informada, cada vez mais reativa. Através dos órgãos de imprensa e dos movimentos associativos, ela afirma-se como um ator por inteiro da vida internacional. Na luta pela promoção dos valores fundadores de nossa República, uma luta mais preocupada com resultados tangíveis do que com efeitos declaratórios, pretendo manter um diálogo regular com nossas principais ONGs. Uma primeira seção será realizada no Eliseu em junho; outras virão em seguida, especialmente sobre a problemática do desenvolvimento da África.

À escuta de nossas associações, desejo também estar à escuta dos povos africanos: o que esperam eles hoje da França? Peço-lhes, Senhoras e Senhores Embaixadores, que vão ao encontro das forças vivas do continente e especialmente de seus jovens. Apresentei a esses jovens, em Dakar, com amizade e franqueza, a minha análise. Desejo tomar conhecimento, com o mesmo espírito de amizade e franqueza, das expectativas da juventude africana com relação a nosso país antes de minha próxima viagem a esse continente.

A África continuará sendo uma prioridade essencial de nossa política externa e o eixo central da política de cooperação da União Européia. Ela não é o doente do mundo de hoje. Ela não precisa de nossa caridade. Há vários anos ela vem apresentando um crescimento médio de 5% e poderia fazer mais ainda se os produtores locais de determinados produtos básicos, como o algodão, fossem pagos ao preço justo.

A África tem tudo para ser bem-sucedida na globalização e a França quer ajudá-la a isso. Trata-se de acelerar seu desenvolvimento. Apesar dos progressos, a África ainda permanece à margem da prosperidade mundial. Ela não pode tirar o melhor partido de suas imensas riquezas naturais, muito freqüentemente ameaçadas de pilhagem, e sofre mais do que outros as conseqüências das mudanças climáticas. A meio caminho do calendário dos objetivos do milênio, convém portanto darmos prosseguimento ao nosso empenho em ajudar.

Não se trata apenas de volumes financeiros, embora não haja dúvida de que nosso compromisso deve ser mantido a despeito das dificuldades que pesarão no orçamento de 2008. Precisamos visar também melhores resultados. Mais ajuda deve significar mais eficiência e, portanto, uma gestão em constante progresso. Mas, não pode haver desenvolvimento nem prosperidade sem segurança. Também nesse aspecto, a África tem feito progressos. Das numerosas crises que debilitam o continente, muitas estão em fase de reabsorção, tanto na região dos Grandes Lagos, quanto na África Ocidental.

A mais trágica delas hoje é a do Darfur. O sofrimento das populações exige de nós uma ação. Foi por esta razão que desejei o pleno envolvimento da França. É reconfortante que, em decorrência da reunião em Paris do grupo de contato ampliado, em 25 de junho, a comunidade internacional tenha demonstrado sua vontade de agir. A aprovação da resolução criando a operação híbrida das Nações Unidas e da União Africana representa um primeiro sucesso. A força deve agora ser instalada o mais rapidamente possível. O encontro de Arusha entre as facções rebeldes, no início desde mês, abre as perspectivas para uma solução política que, por si só, possibilitará uma solução duradoura para essa crise.

Para mobilizar ainda mais a comunidade internacional diante dos desafios da paz e da segurança na África, tomei a iniciativa de pedir uma reunião do Conselho de Segurança, que se realizará em 25 de setembro, em Nova York, em nível de Chefes de Estado e de Governo e que eu presidirei.

Senhoras e Senhores Embaixadores,

Os Senhores compreenderão: faço uma idéia da França e de seu papel no mundo de hoje; tenho grandes ambições para a União Européia, seu lugar natural no coração de um sistema multilateral eficaz e justo.

Para implementar essa política externa ambiciosa, a França tem a oportunidade de ter à frente do Ministério das Relações Exteriores e Européias quatro personalidades admiráveis: Bernard Kouchner e, ao seu lado, Jean-Pierre Jouyet, Jean-Marie Bockel e Rama Yade. Ela tem a sorte de dispor de um corpo diplomático de altíssima qualidade. Ao recebê-los hoje pela primeira vez, quero dizer-lhes o quanto o trabalho que realizam com competência e talento, algumas vezes arriscando a própria vida, como em Beirute ou Bagdá, honra a nossa República.

É preciso ainda que seu ministério possua os meios para realizar a sua missão e tenha o seu papel interministerial reconhecido no centro de nossa estratégia nacional pelo sucesso da França na globalização. Chegou o momento, portanto, de darmos início a uma nova etapa de sua modernização. Este é o sentido da carta que, juntamente com o Primeiro-Ministro, enderecei esta manhã mesmo ao Ministro das Relações Exteriores e Européias. Ele poderá particularmente basear-se no relatório que me encaminhará nas próximas horas Hubert Védrine, bem como em um amplo diálogo, para conduzir a sua reflexão e preparar seu “Livro Branco”. Sei que posso contar com Bernard Kouchner e com todos os Senhores para conduzir essas reformas e implementar nossa política externa com determinação e imaginação. Obrigado por levar alto e longe a mensagem da França!


 
 

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