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ARTIGO
DO MINISTRO FRANCÊS DA IMIGRAÇÃO,
DA INTEGRAÇÃO, DA IDENTIDADE
NACIONAL
E DO CO-DESENVOLVIMENTO, BRICE HORTEFEUX,
PUBLICADO NO JORNAL “LE FIGARO”
Paris, 1º de junho
de 2007
"Imigração, identidade,
desenvolvimento: três missões
estreitamente ligadas"
Há
mais de vinte anos, pronunciar a palavra
“imigração”
havia se tornado, na França,
uma manifestação de extremismo,
xenofobia e até racismo. Entretanto,
o problema não era a imigração,
mas a ausência de uma política
de imigração. Era preciso
levar a sério uma questão
fundamental para nosso destino coletivo.
Por que criar um ministério “ad
hoc”? A criação
de uma entidade única pelo governo
de François Fillon é salutar
na medida em que as diferentes etapas
da política de imigração
estavam até o momento dispersas
por vários ministérios.
Por razões de simplificação
administrativa e eficiência política,
a constituição de um ministério
específico é uma feliz
notícia. Qual será a nossa
política no seio desse ministério?
Firmes e humanos, desenvolveremos os
interesses econômicos de nosso
país preservando ao mesmo tempo
as nossas convicções humanitárias.
Teremos que alcançar quatro metas:
controlar os fluxos migratórios,
favorecer a integração,
promover a identidade francesa e estimular
o co-desenvolvimento.
1.
Em matéria de fluxos migratórios,
a luta contra a imigração
desigual permanecerá como uma
prioridade absoluta. Graças à
política pragmática empreendida
pelo governo precedente, sob a condução
do Ministro do Interior, Nicolas Sarkozy,
os reencaminhamentos efetivos à
fronteira aumentaram 140% entre 2002
e 2006. Permaneceremos muito firmes:
em 2007, o objetivo é realizarmos
25.000 reconduções. Os
estrangeiros “sem documentos”
não devem permanecer na França,
mas ser reencaminhados aos seus países
de origem, de modo voluntário
ou obrigatório.
Sei
que os estrangeiros que devem ser reconduzidos
aos seus países de origem possuem
algumas vezes filhos escolarizados.
A minha posição é
clara: se é normal que as crianças
presentes no território sejam
escolarizadas, isso não significa
que os pais devam ser automaticamente
beneficiados com documentos. O direito
à instrução de
uma criança pode ser também
satisfeito em seu país de origem;
ele jamais gerou o direito de estada
dos pais. Alegar o contrário
seria criar uma nova onda de imigrações.
Ao
mesmo tempo, o direito de asilo político,
que consiste em oferecer uma proteção
a pessoas estrangeiras perseguidas,
continuará sendo para nosso país
uma exigência moral. Em 2005,
a França concedeu a 14.000 pessoas
o status de refugiado. Para melhorar
o processo, nós encurtaremos
os prazos de instrução
que, já ampliados de dois a doze
meses, deveriam ser estabelecidos em
não mais do que seis meses. Controlar
a imigração não
significa apenas regulá-la, mas
também escolhê-la. Atualmente,
apenas 7% dos títulos de estada
concedidos o são por razões
profissionais. Cabe-nos selecionar melhor
os migrantes e estimular a imigração
por razões profissionais.
Para
isso, devemos levar em conta nossas
necessidades econômicas e demográficas,
que estão em evolução.
Estas últimas são menos
elevadas do que as de nossos vizinhos.
A França possui uma taxa de natalidade
de aproximadamente duas crianças
por mulher em idade de procriação,
o que assegura a renovação
das gerações, enquanto
que na Espanha, na Itália e na
Alemanha essa taxa oscila entre 1,3
e 1,35, provocando uma diminuição
da população ativa.
Em
compensação, vários
setores de atividade na França,
como a construção civil,
a hotelaria, a restauração,
o trabalho temporário agrícola,
os serviços à pessoa e
ainda a atividade científica
precisam de uma mão de obra e
de talentos de origem estrangeira. Sem
praticar uma pilhagem de cérebros,
devemos favorecer a circulação.
Nós sabemos que a imigração
zero não só não
é possível, como também
não é desejável.
Embora
o respeito à vida de família
seja um de nossos valores fundamentais,
a parcela preponderante da imigração
familiar em nosso país não
é satisfatória. Com o
objetivo de trazer a família,
o estrangeiro deve provar que pode sustentá-la
com a renda de seu trabalho, que dispõe
de uma moradia decente e que respeita
os princípios republicanos. Implementaremos
essa reforma localmente. E, de acordo
com os compromissos do Presidente da
República [Nicolas Sarkozy],
estamos analisando a idéia de
submeter um candidato ao reagrupamento
familiar a um teste de domínio
mínimo de nosso idioma e de conhecimento
de nossa cultura. A integração
deve ser preparada desde o país
de origem.
2.
Favorecer a integração
é o segundo desafio deste ministério.
Desde 2006, um estrangeiro admitido
pela primeira vez para passar uma temporada
na França e que deseje nele se
estabelecer deve, obrigatoriamente,
assinar um “contrato de acolhimento
e integração” que
lhe permita receber uma formação
cívica, lingüística
e prática sobre a vida na França.
Esse contrato constitui a primeira etapa
de um percurso de integração
que exige, particularmente, que sejam
respeitados os princípios republicanos
e que se tenha o domínio da língua
francesa para se obter uma carteira
de residente válida por dez anos.
Os valores republicanos devem ser respeitados
por todos os que desejarem se instalar
de forma duradoura em nosso país.
O estrangeiro não é o
único a possuir deveres, o Estado
também tem os seus para com ele.
O acesso à moradia, à
educação, à formação
e ao trabalho deve ser facilitado para
permitir àquele que desejar integrar-se
poder fazê-lo. Nós vamos,
por exemplo, revisitar a política
da cidade, porque a segregação
urbana constitui um dos obstáculos
maiores à integração.
3.
Promover nossa identidade. A identidade
francesa é, ao mesmo tempo, a
herdeira de nossa história e
o futuro de nossa comunidade nacional.
A Constituição da 5ª
República, em seu artigo primeiro,
afirma que “a França é
uma República indivisível,
laica, democrática e social.
Ela assegura a igualdade perante a lei
de todos os cidadãos, sem distinção
de origem, raça ou religião.”
Essa noção, em permanente
evolução, contribui para
a garantia de nosso equilíbrio
nacional. Nossa identidade é,
ao mesmo tempo, uma resposta à
globalização e aos comunitarismos.
Ligar
imigração, integração
e identidade nada tem de vergonhoso.
Esconder nossa identidade àqueles
que desejem se instalar na França
seria o mesmo que renegar os valores
que forjaram a nossa história
e aceitar a idéia de que a imigração
seja ditada apenas por considerações
materiais. A promoção
de nossa identidade não revela
estritamente qualquer hostilidade para
com os imigrantes. Ela não fere
em nada a diversidade e oferece aos
estrangeiros um guia de valores republicanos
a serem respeitados. A identidade nacional
não é um conceito, é
uma bússola para os franceses
e para todas aqueles e todos aqueles
que aspiram a tornar-se cidadãos
franceses.
Essa
identidade passa antes de tudo pela
língua, que deve ser promovida
especialmente graças à
rede de Alianças Francesas já
presente em 133 países, mas que
será consideravelmente desenvolvida
e dinamizada.
4.
O co-desenvolvimento, sem o qual uma
política migratória moderna
não pode ser concebida. O desafio
do co-desenvolvimento é proporcionar
aos países do Sul e a seus cidadãos
os meios para adquirirem confiança
em si mesmos e construírem um
futuro sem a necessidade de emigrar.
Devemos
fazer com que as transferências
de recursos dos migrantes na França
para seus países de origem, dos
quais 80% são hoje empregados
no consumo corrente, sejam mais utilizados
em investimentos produtivos. Nós
vamos, por exemplo, implementar a “conta
poupança co-desenvolvimento”,
que é destinada a mobilizar a
poupança dos migrantes presentes
na França para projetos de investimento
econômico em seus países
de origem.
O
auxílio para o retorno voluntário
deve ser proposto a todos os estrangeiros
em situação irregular
que tenham sido convidados a deixar
o território. O auxílio
aos migrantes portadores de um projeto
de reinserção econômica
em seus países de origem será
favorecido e as ações
de cooperação conduzidas
pelos beneficiários da carteira
de “competências e talentos”
serão encorajadas.
O
diálogo com os países
de origem, sobretudo, será reforçado
a fim de generalizarmos os acordos de
gestão concertada dos fluxos
migratórios, a exemplo do que
Nicolas Sarkozy assinou em nome da França
com o Senegal, no outono passado.
Para
os franceses e todos aqueles que aspiram
a fazer parte de nossa comunidade nacional,
a criação de um ministério
completo para a imigração,
a integração, a identidade
nacional e o co-desenvolvimento é
uma oportunidade. Não foi por
acaso que 72% dos franceses interrogados
em uma recente pesquisa aprovaram a
sua criação: nosso país
compreende que o controle e a escolha
de nossos fluxos migratórios
em nada impedem a promoção
de uma França generosa, diversa
e aberta para o mundo.
Este
ministério, pela audácia
de sua criação e pela
coragem de sua ação, possui
uma ambição: permitir
à nossa comunidade nacional ter
uma melhor convivência.
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