ENTREVISTA
DO SECRETÁRIO DE ESTADO FRANCÊS
ENCARREGADO DOS ASSUNTOS EUROPEUS,
JEAN-PIERRE JOUYET,
PARA “FRANCE-INFO”
Paris, 20 de outubro de 2007
Pergunta: Há
dois anos a Europa vem passando por
uma crise. Será que ela está
salva, Jean-Pierre Jouyet?
Resposta:
A Europa, na verdade, vinha
enfrentando uma pane institucional
desde Maastricht, ou seja, fazia quinze
anos que se procurava ter instituições
eficientes e adequadas a uma Europa
de vinte e sete membros. Tateamos
em Amsterdã e em Nice, fora
da Convenção. Foi preciso
que surgisse essa idéia desenvolvida
pelo Presidente da República
[Nicolas Sarkozy] do Tratado Simplificado,
para chegarmos a um quadro estável
para uma União ampliada. Acho
que, realmente, temos agora um quadro
duradouro e estável para funcionar
em número de vinte e sete,
isso é o mais importante.
P.:
Falemos concretamente, para aqueles
que nos ouvem: que medida, que inovação
importante o Senhor veria aí
para os europeus e os franceses?
R.:
O mais importante é
a extensão das decisões
à maioria absoluta. É
o fato de que, nas áreas que
dizem respeito a nossa vida concreta,
seja na luta contra o terrorismo,
seja na segurança civil - vimos
no último verão os incêndios
na Grécia e ainda pode haver
inundações -, seja na
política da energia, que vemos
hoje o quanto é importante,
com os preços do petróleo
elevados, ou seja, em áreas
novíssimas os Senhores poderão
decidir por maioria absoluta e não
mais por unanimidade. Trata-se de
um funcionamento muito mais eficaz
da União Européia para
promover políticas que são
mais concretas.
P.:
Lembre-nos como é a maioria
absoluta, nem todo mundo sabe.
R.:
A maioria absoluta permite
a uma maioria de países-membros,
de acordo com o número de votos
e da população, tomar
as decisões e agir nas áreas
que indiquei, sem que todo mundo tenha
que estar de acordo. Este é
o principal avanço, mas há
outros. Há o fato de que será
possível termos um presidente
do Conselho estável a partir,
esperamos, de 1º de janeiro de
2009.Teremos um ministro das Relações
Exteriores Europeu, que será
chamado de alto representante para
as Relações Exteriores.
Podemos ver que existe um certo número
de avanços no que se refere
à tomada de decisões,
à representação
da Europa no cenário internacional
e à permanência das decisões.
O Parlamento Europeu e os Parlamentos
nacionais também possuirão
mais poderes, o que faz com que a
Europa torne-se mais democrática.
P.:
O Senhor lamenta de vez em quando
a perda da Constituição
de 2005?
R.:
Eu votei “sim”
em 2005, em favor da Constituição.
Mas era preciso encontrar soluções
que permitissem à Europa funcionar
melhor e o essencial está salvo.
Nós temos – aposto nisso
– um quadro verdadeiramente
duradouro e estável para que
a Europa funcione no futuro.
P.:
Mas, há dois anos os franceses
rejeitaram o Tratado Constitucional.
Lembro-me da amplitude da polêmica.
Desta vez não haverá
referendo, como confirmou o Presidente
da República. O Parlamento
é que irá ratificar
o tratado. Será que o governo,
será que o Estado tem medo
de um referendo, Jean-Pierre Jouyet?
R.:
Não, não é esse
o problema. O Presidente da República,
durante sua campanha eleitoral –
e ele foi eleito com 53% dos votos
– disse que haveria uma ratificação
parlamentar. Isso teve um grande peso
no acordo com nossos parceiros. O
fato de um país que havia bloqueado
com seus votos, juntamente com os
Países Baixos, os avanços
no âmbito europeu, decidir ratificar
por via parlamentar tranqüilizou
nossos parceiros.
P.:
Mas o Senhor sabe que, na França,
os partidários do “não”
vêem nisso não só
um medo do “não”,
mas também um medo do povo
e de sua decisão, como a que
foi manifestada em 2005.
R.:
Eu acredito na democracia representativa.
Existe um Parlamento que foi eleito,
existem mais de vinte e três
países entre vinte e sete que
irão escolher o modo de ratificação
parlamentar. Vejo que há debates
aqui e ali. Vamos aguardar que as
principais formações
políticas se pronunciem a respeito
desse tratado. Cada um assumirá
as suas responsabilidades. Este é
um passo adiante para a Europa, que
terá um modo de funcionamento
mais eficaz, mais democrático,
mais próximo dos cidadãos.
Depois, cada um assumirá as
suas responsabilidades.
P.:
A partir de 1º de julho, a França
irá presidir a União
Européia. Qual é a prioridade
francesa?
R.:
Existem três prioridades francesas.
Existe a energia e a luta contra o
aquecimento climático, a administração
dos movimentos demográficos,
das migrações, o que
é um grande desafio para a
Europa e também, é claro,
a construção de uma
Europa da defesa.
P.:
A Europa também é o
euro, que continua forte em relação
ao dólar. O euro vale 1,43
dólares aproximadamente. Esse
nível, tal qual está
atualmente, preocupa o Senhor?
R.:
Existem vantagens nessa situação,
particularmente no que diz respeito
ao preço da fatura do petróleo.
Devo lembrar que o barril está
custando mais de 90 dólares
e, portanto, o fato de termos um euro
sólido é, nesta situação,
uma vantagem. Agora, o verdadeiro
problema é que havia outras
moedas subvalorizadas, um certo número
de moedas administradas, como a moeda
chinesa, que está verdadeiramente
subavaliada em relação
à evolução da
economia chinesa.
P.:
A moeda chinesa foi explicitamente
mencionada pelos países do
G-7, os países mais industrializados
reunidos em Washington nas últimas
horas. Em compensação,
em seu relatório não
havia uma só palavra sobre
a moeda americana. E a fraqueza do
dólar vem sendo regularmente
atacada, criticada pelo Presidente
Sarkozy. Quer dizer, não se
consegue chegar a um consenso quanto
a uma crítica da atitude financeira
dos Estados Unidos. Não existe
uma voz européia a esse respeito,
Jean-Pierre Jouyet?
R.:
Não quero ser excessivamente
técnico, mas o Senhor fala
de situações diferentes.
Existe uma economia que está
realmente superaquecida. Trata-se
da economia chinesa, que possui uma
moeda administrada, o yuan, e a fraqueza
do yuan é salientada pela Europa
e pelos Estados Unidos há muito
tempo. E existe a situação
americana, onde temos os desequilíbrios
americanos que são apontados
pelo G-7 e que, a meu ver, deveriam
ser apontados também pelo FMI,
que irá se reunir em Washington,
pois esses desequilíbrios também
estão na origem de tensões
monetárias em âmbito
internacional.
P.:
O Senhor espera que eles o digam explicitamente
e que digam aos Estados Unidos que
sejam mais compreensivos com seus
parceiros comerciais?
R.:
Acho que eles devem pedir aos Estados
Unidos que corrijam seus desequilíbrios.
Isso me pareceria perfeitamente lógico.