SALÃO
DA PRODUÇÃO ANIMAL
ENCRUZILHADA EUROPÉIA (SPACE)
DISCURSO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA
FRANCESA, NICOLAS SARKOZY
Rennes, 11 de setembro de 2007
Senhor
Presidente,
Senhor Ministro,
Senhoras e Senhores Parlamentares,
Senhoras e Senhores,
É
uma sincera alegria para mim reencontrá-los
por ocasião desta vigésima-primeira
inauguração do SPACE,
ao qual já vim em companhia
de Michel Barnier, cujo engajamento
na defesa dos interesses da agricultura
junto à Comissão e aos
nossos parceiros europeus quero saudar.
Ao
responder ao seu convite, eu quis
dizer a todos os nossos concidadãos
que a França precisa de seus
agricultores e de suas empresas agroalimentares.
Quero portanto agradecer-lhes pelo
trabalho que realizam a cada dia a
serviço da economia de nosso
país, que contribui fortemente
para o equilíbrio de nossos
territórios.
A
França deve ter orgulho de
seus agricultores e de seus campos.
Os territórios rurais, vítimas
durante muito tempo do êxodo
rural, têm hoje aumentada a
sua população. A agricultura
francesa, por sua vez, operou uma
revolução sem precedentes
depois da segunda guerra mundial,
evoluindo no espaço de cinqüenta
anos mais do que em vários
séculos e alçando-se
ao primeiro lugar europeu e ao segundo
lugar mundial.
A
agricultura não é uma
nostalgia, a agricultura não
é apenas uma tradição.
A agricultura não é
o passado, a agricultura está
no cerne dos desafios do planeta deste
século: o desafio da alimentação,
o desafio do meio ambiente e o desafio
da energia. Eis aí três
desafios nos quais a agricultura está
no cerne, eis aí três
razões para termos esperança
no futuro da agricultura.
A
minha convicção é
a de que a França é
um dos países mais bem situados
no mundo para enfrentar esses desafios.
De quê precisamos? De uma nova
ambição para a agricultura
na França e na Europa.
Quero
construir uma agricultura de primeiro
plano na França e na Europa.
Por razões de independência
e segurança alimentares: o
abastecimento dos europeus não
pode depender de países estrangeiros,
no mais das vezes expostos a crises
sanitárias ou imprevistos climáticos
sobre os quais não temos o
menor controle.
Em
seguida, por razões econômicas:
porque, com 39,3 bilhões de
euros de exportações,
1,6 milhões de empregos, uma
balança comercial que ultrapassará
os 9 bilhões de euros este
ano, não vamos deixar abandonado
um setor econômico, pois a agricultura
é um setor econômico
que nos propicia um superávit
comercial, quando temos tantos outros
setores que nos criam déficits
comerciais. Seria realmente uma estranha
idéia a de darmos as costas
a um setor que nos permite exportar.
A agricultura, a pesca, a indústria
agroalimentar de nosso país
são pilares essenciais de nossa
economia, são setores que criam
riquezas. Eles constituem um trunfo
vital para nosso crescimento econômico.
Depois,
por razões de equilíbrio
de territórios. Nossa agricultura
é a base do equilíbrio
e da vitalidade do mundo rural. Um
mundo rural onde não se produza
mais - digo isso da forma como acredito
e penso – é um mundo
condenado. O turismo é formidável.
Mas não há turismo nas
regiões em que não haja
mais produção e atividade
econômica. Não é
o turismo ou a produção.
É a produção
e o turismo. Sem produção
não há mais nada.
Enfim,
por razões de meio ambiente:
a urgência da luta contra o
aquecimento climático exige
que façamos progressos rapidamente
no uso das energias renováveis.
Ora, nossa agricultura pode contribuir
para isso de três maneiras:
- Em primeiro lugar, com os biocombustíveis.
- Em seguida, com a exploração
da biomassa.
- Por fim, com a química: o
papel oriundo do cânhamo, o
plástico produzido com a fécula
da batata, os solventes com o girassol.
Nosso
país possui trunfos para se
destacar nessas disciplinas que devem
conciliar a potência agrícola,
a potência industrial e a potência
científica. Para isso, desejo
– e não mudei de idéia
desde a campanha eleitoral - que nossos
agricultores possam viver dos preços
de seus produtos, em lugar de subvenções
que lhes sejam concedidas.
(...)
Quero
preparar, por ocasião da presidência
francesa da União Européia,
um novo quadro político para
nossa agricultura na Europa, baseado
em princípios fundamentais.
A Política Agrícola
Comum deve corresponder a quatro objetivos:
- Assegurar a independência
e a segurança alimentar da
Europa. Objetivo estratégico
essencial. Não temos por quê
nos desculpar por querermos alimentar
os europeus de forma independente
e sadia.
- contribuir para o equilíbrio
alimentar mundial
- preservar o equilíbrio de
nossos territórios rurais
- participar da luta contra as mudanças
climáticas e a melhora do meio
ambiente.
Estes são os princípios
fundamentais.
A
Política Agrícola Comum
– devo assumir as minhas responsabilidades
– deve ser estabelecida segundo
um princípio indiscutível
de preferência comunitária,
que compreenda objetivos renovados,
instrumentos e um orçamento
ambicioso para atingirmos esses objetivos.
Que ninguém se engane: serei
intransigente sobre essa questão
nas próximas discussões
a respeito do orçamento comunitário.
A preferência comunitária
não é um palavrão.
Aliás, se não dermos
preferência à Europa,
pergunto-me por que então ela
foi criada? Devo acrescentar que,
com o Tratado Simplificado, contribuí
suficientemente para o relançamento,
de forma a não ter que me desculpar
por defender a independência
alimentar dessa mesma Europa.
-
Primeiramente, é preciso que
nossos agricultores possam viver dos
preços de seus produtos, de
sua produção e de seu
trabalho, por meio de uma verdadeira
política comunitária
de estabilização dos
mercados. Nosso ambiente está
evoluindo. Precisamos dar aos empresários
que são os Senhores os meios
para se precaverem contra as desastrosas
conseqüências dos riscos
climáticos e sanitários.
Para tanto, peço à Comissão
Européia que instaure sem demora
um dispositivo eficiente de gestão
dos riscos e imprevistos. Paralelamente,
pedi a Michel Barnier que definisse
com Christine Lagarde, antes do final
do ano, as condições
para uma aplicação dos
mecanismos de gestão dos riscos
a todos os nossos produtores agrícolas,
a partir da experiência do seguro
sobre a colheita. Dentro do mesmo
espírito, desejo que se crie
um fundo de intervenção
sanitária que permita, por
exemplo, responder às nossas
preocupações em matéria
de febre catarral ovina.
Viver
dos preços e da produção
também é organizar-se
melhor. Desejo reforçar a organização
comercial da oferta, em particular
no setor ovino, no setor das frutas
e dos legumes e do vinho, e assegurar
o desenvolvimento das interprofissões.
Desejo reforçar o tecido das
indústrias agroalimentares
permitindo-lhes adquirir participações
por intermédio de fundos. Para
tanto, peço a Michel Barnier
que tome a iniciativa de redigir um
memorando que encaminharemos antes
do fim do ano à Comissão
Européia, para ser adaptado
e para adaptar o direito da concorrência
dentro de um espírito de responsabilidade
das organizações comerciais
e no interesse dos consumidores.
Viver
dos preços significa também
que todos devem entrar no jogo da
concorrência. Falam-nos hoje
de aumento de determinados preços
alimentares para consumo, enquanto
que faz mais de dez anos que os preços
para a produção diminuíram.
É inadmissível que,
em aproximadamente 40 anos, os preços
agrícolas tenham se dividido
por dois e os de nossos alimentos
tenham baixado apenas 14%. A lei da
valorização ficou esquecida
em algum lugar! A resposta é
que isso é inadmissível
e que o Estado irá intervir.
Foi
por esta razão que, no contexto
da reforma da lei Galland, que pedi
ao governo para empreender, um quadro
específico será reservado
aos produtos agrícolas, para
que os agricultores possam se beneficiar
de uma justa remuneração.
Não existe contradição
entre uma valorização
correta dos produtos e uma queda geral
dos produtos de grandes marcas. (...)
Espero que a Política Agrícola
Comum contribua também para
reforçar a inovação
e a pesquisa na área agroalimentar.
-
Em segundo lugar, é preciso
defender uma agricultura que participe
do desenvolvimento sustentável
de nosso país e assegure a
qualidade sanitária de nossos
produtos por meio de uma verdadeira
política de alimentação.
Em matéria alimentar, os franceses
estão cada vez mais exigentes
a respeito da qualidade nutricional
dos produtos e sua segurança
sanitária. Tomaremos uma iniciativa
comunitária para reforçar
os controles nas fronteiras da União
Européia a fim de nos assegurarmos
de que os produtos agrícolas
e agroalimentares importados estejam
no mesmo nível dos produzidos
na Europa. Eu não compreendo
isso. Não se pode impor regras
aos nossos produtores e, ao mesmo
tempo, permitir a entrada na Europa
de produtos vindos de países
onde não haja rastreabilidade
e respeito mínimo às
regras alimentares. A concorrência
deve ser a mesma para todos. Se nossos
produtores e nossos criadores devem
respeitar uma regulamentação
para garantir a segurança alimentar,
peço que as importações
na Europa sejam submetidas às
mesmas regras. Se os produtos não
estiverem no mesmo nível, não
podem ser aceitos no mercado europeu.
A
qualidade do meio ambiente é
a preocupação cotidiana
dos agricultores. Com o Grenelle do
Meio Ambiente, desejo ir ao fundo
dos debates sem tabu. Nessa área,
são múltiplos os trabalhos
a serem realizados e eles nos oferecem
alavancas para agir antes do fim do
ano e confirmar o movimento iniciado
pelos próprios agricultores
em direção a uma agricultura
sustentável.
É
indispensável definirmos um
novo plano de redução
da utilização dos adubos
e pesticidas, a fim de preservarmos
a saúde de seus usuários.
Eu gostaria aliás de dizer
a toda a comunidade internacional
que os agricultores são as
primeiras vítimas e não
os primeiros culpados.
Desejo,
por outro lado, desenvolver um verdadeiro
plano de valorização
da biomassa que encaminhe os produtores
agrícolas para uma maior autonomia
energética.
Por
fim, a pesquisa pública em
biotecnologia constitui um elemento
essencial do desenvolvimento de nossa
agricultura. Em matéria farmacêutica,
por exemplo, um medicamento a cada
seis é oriundo da engenharia
genética e 60% dos novos medicamentos
utilizam a biotecnologia. É
preciso reforçar a pesquisa
nas áreas da alimentação,
da química verde e da biotecnologia.
Por
fim, a França lutará
na Europa para que uma verdadeira
política de coesão territorial
seja colocada em prática. Desejo
reforçar o apoio que é
dado ao desenvolvimento dos territórios,
(...). Quero reforçar as bacias
de produções ameaçadas
e as zonas de deficiências naturais
através de uma verdadeira iniciativa
de desenvolvimento territorial.
Precisamos
perseguir a política de ajuda
à criação de
empresas agrícolas, pois trata-se
verdadeiramente de empresas. Ocorre
que elas são agrícolas,
mas são em primeiro lugar empresas:
de formação, pela excelência
que é o ensino agrícola,
e de instalação dos
jovens, coisa que convém perseguirmos
com vigor, Senhor Presidente. Porque,
de que serviria dizer que a agricultura
tem futuro, se os jovens não
têm mais como se instalar? Precisamos
de jovens agricultores em massa, todo
ano, para garantir o futuro de nossa
agricultura. Tudo isso permite-me
dizer que o fato de um agricultor
a cada dois, que parte para a aposentadoria,
não ser substituído
é incompatível com uma
demanda mundial de produtos agrícolas
que só irá aumentar
e à qual a França deve
estar em condições de
responder.
Esse
quadro político servirá
de base para as próximas discussões
sobre o futuro da Política
Agrícola Comum. A revisão
geral das políticas públicas
nos permitirá, a partir de
2008, modernizar nossas estruturas
e melhorar os serviços prestados
aos agricultores.
A
França irá portanto
tomar rapidamente a iniciativa no
cenário internacional para
defender esse novo quadro. As condições
estão reunidas: a França
recuperou seu lugar na Europa. O tratado
simplificado sobre o qual colocamo-nos
em acordo em 23 de junho passado demonstra
a renovação do espírito
europeu, a renovação
de uma vontade européia comum,
uma vontade mais forte do que os egoísmos
nacionais, mais forte do que as suscetibilidades
nacionais. Essa vontade, é
claro, é necessária
para empreendermos uma verdadeira
discussão sobre o futuro da
Política Agrícola Comum.
(...)
Desejo
que a França abra, já
no início da presidência
francesa da União Européia,
ou seja, no segundo semestre de 2008,
uma discussão sobre os princípios
fundadores da Política Agrícola
Comum de 2013, por ocasião
de um grande debate de orientação
a respeito do futuro das políticas
comunitárias e de seus financiamentos.
Será
preciso preparar esse trabalho, Michel,
no âmbito da reunião
da agricultura com as organizações
profissionais agrícolas.
Em
segundo lugar, as negociações
no seio da OMC devem ser retomadas
sobre bases saudáveis e objetivos
claros. Vou me opor firmemente a qualquer
acordo que não sirva aos interesses
de nosso país, porque isto
faz parte do mandato que recebi.
Digo
claramente: se a Europa renunciar
a defender sua agricultura de produção,
sua alimentação, se
a Europa renunciar a proteger a qualidade
sanitária e ambiental enquanto
todas as outras regiões do
mundo defendem-se e protegem-se; se
a Europa renunciar a agir e contentar-se
em sofrer as conseqüências
quando a câmara dos representantes
americanos votar a continuidade dos
mecanismos atuais de apoio, então
de quê servirá construirmos
uma política agrícola?
Não serei o homem do abandono.
Que as coisas fiquem claras. Acredito
na globalização. Acredito
na concorrência. Acredito na
economia de mercado. Mas peço
reciprocidade e o fim da ingenuidade.
O
estado das negociações
deve levar-nos a empreender uma profunda
reflexão sobre o futuro da
negociação no âmbito
da União Européia, mas
sem dúvida também na
OMC, pois é difícil
continuar como se nada fosse. Estamos
nos distanciando cada vez mais de
nossos objetivos iniciais nessa rodada.
Não vou falar por meias palavras.
Os países emergentes acham
que possuem apenas direitos e nenhum
dever no sistema comercial multilateral.
Ora, o sucesso da rodada depende primeiramente
deles.
Após
sete anos de negociações,
convém, talvez, refletirmos
a respeito da melhor maneira de sairmos
da atual lógica de negociação,
a fim de reintroduzirmos temas importantes
para a União, como as regras
relativas à defesa comercial,
o investimento e a supressão
dos obstáculos não-tarifários.
Digo
as coisas da maneira mais clara: nessa
negociação internacional,
a França exige reciprocidade,
a França exige equilíbrio,
a França exige preferência
comunitária. Eu o disse a um
homem por quem tenho amizade e admiração,
José Manuel Barroso, e disse
a um certo número de nossos
parceiros: Índia, Brasil, China
e Argentina. A Europa não dará
mais provas de ingenuidade. Eu falo
como penso. Grandes nações
estão emergindo e elas querem
os direitos das grandes nações,
mas devem aceitar os deveres das grandes
nações. Não se
pode ter os direitos das grandes nações
sem os deveres.
Penso
que não podemos mais continuar
impondo às nossas empresas
agrícolas o dumping ambiental,
o dumping social, o dumping fiscal
e, agora, o dumping monetário.
(...)
A
França possui um laço
carnal com sua agricultura, com sua
terra. A palavra “terra”
possui um significado e eu fui eleito
para defender a identidade nacional
francesa. E nessa identidade nacional
francesa há a relação
dos franceses com a terra, com seus
ancestrais, com seus avós.
Todas as famílias da França
possuem avós que, a um dado
momento, trabalharam a terra. A agricultura
desenhou nossas paisagens. A agricultura
deu a nossa pátria uma parte
de sua alma. É com essas convicções
em mente que iremos trabalhar juntos
pelo futuro.
Podem
acreditar que sempre direi a minha
parcela de verdade. Acredito em nosso
futuro. Eu os defenderei, mas pedirei
também que deixem de lado as
pusilanimidades e hábitos que
afetaram a modernidade da agricultura
francesa. Serei para os Senhores um
parceiro exigente, porém leal.
Não lhes mentirei. Não
os trairei por uma simples razão:
não tenho a intenção
de decepcioná-los. Muito obrigado.