ENTREVISTA
DO SECRETÁRIO DE ESTADO FRANCÊS
ENCARREGADO DOS ASSUNTOS EUROPEUS,
JEAN-PIERRE JOUYET, PARA O JORNAL
“LA CROIX”
Paris, 4 de outubro de 2007
Pergunta: Portugal,
que assume a presidência da
União Européia, afirmou
na terça-feira que as negociações
no âmbito dos peritos jurídicos
sobre o tratado de reforma, cujo conteúdo
havia sido definido em junho passado
pelos chefes de Estado e de Governo,
estavam concluídas. Quais são
as etapas que ainda falta vencer?
Resposta:
O texto vai ser agora examinado pelos
ministros das Relações
Exteriores dos vinte e sete países
e depois pelos chefes de Estado e
de Governo na reunião de cúpula
de Lisboa, nos dias 18 e 19 de outubro.
Deveremos chegar então a um
acordo definitivo. O tratado será
aberto em seguida para ratificação.
A França deseja proceder a
essa ratificação por
via parlamentar, já no primeiro
trimestre de 2008.
P.:
Em que pé se encontra a formação
do Conselho dos Sábios pedido
por Nicolas Sarkozy, que deseja que
essa instância reflita a respeito
do futuro da União?
R.:
Cabe à presidência portuguesa
fazer propostas sobre a sua composição
e sobre as grandes linhas de seu mandato.
Para
nós, este seria um comitê
de prospecção, que faria
uma avaliação com vistas
aos próximos 20 ou 30 anos
sobre os valores da Europa, seu lugar
no comércio internacional,
suas relações com os
grandes parceiros do mundo, sua configuração
em relação ao Mar Mediterrâneo
e à Ásia Central. Não
se trataria de um comitê de
reformas institucionais. Ele entregaria
suas conclusões após
as eleições européias
de 2009.
P.:
Nicolas Sarkozy aceitou deixar que
prosseguissem as negociações
de adesão com a Turquia, desde
que esse conselho de sábios
seja criado. E se ele não for
criado?
R.:
A França reexaminará
então a sua posição
a respeito da Turquia. Até
o momento, Nicolas Sarkozy não
quis bloquear esse processo, enquanto
as negociações forem
compatíveis com a hipótese
de instauração de uma
relação privilegiada
entre a União Européia
e a Turquia.
P.:
No mês passado, Nicolas Sarkozy
disse que a França estaria
pronta a voltar às estruturas
integradas da OTAN, desde que seja
dada uma boa colocação
aos seus oficiais generais e que os
Estados Unidos aceitem o reforço
da Europa da Defesa. Por que essa
proposta?
R.:
A política européia
de defesa e a OTAN já estão
imbricadas. O que a França
deseja é que Washington reconheça
a necessidade de um pilar de defesa
européia. Os Estados Unidos
não podem fazer tudo e eles
não sabem fazer tudo –
alias, nós também não!
É preciso que eles aceitem
que a União Européia
tenha a sua própria capacidade
de planejamento e de condução
das operações, com recursos
suficientes. Seria interessante que
o esclarecimento fosse feito antes
do início da presidência
francesa da União em 1º
de julho de 2008. Um acordo político
bastaria. É claro que todas
essas negociações se
dão em nível de Presidência
da República.
P.:
Durante o segundo semestre de 2008,
a França assumirá portanto
a presidência da União.
Ela terá a possibilidade de
iniciar a reforma da Política
Agrícola Comum, bem como a
reflexão a respeito das futuras
políticas da União,
após 2013. Qual será
o objetivo de Paris?
R.:
Nicolas Sarkozy afirmou que
desejava que a França tivesse
uma atitude ofensiva, e não
defensiva, a respeito desses dossiês.
A Alemanha e a França serão
os dois maiores contribuintes líquidos
das finanças da União
em 2013. Nossos países têm
portanto interesse em uma boa evolução
das políticas comuns, das economias
possíveis, dos novos empregos
dos recursos.
O
Presidente da República insistiu
na necessidade de se construir uma
Política Agrícola comum
de primeiro plano. A presidência
francesa pode ser a oportunidade para
lançarmos essa ambiciosa reflexão
sobre a refundação da
PAC depois de 2013, como parte do
exercício geral de reexame
das políticas européias
e de seu financiamento, que deve ser
realizado, segundo as conclusões
do Conselho Europeu de 2005, a partir
de 2008-2009.
P.:
Será que a França poderá
assumir de forma conveniente seu papel
de Presidência da União
se não for irrepreensível
no respeito ao pacto de estabilidade
e no equilíbrio orçamentário?
R.:
O Presidente da República e
o Primeiro-Ministro lembraram que
a França respeitará
seus compromissos orçamentários
europeus. A redução
do peso da dívida é
uma necessidade absoluta e nossos
parceiros esperam de nós que
respeitemos as regras do jogo que
estabelecemos coletivamente para nós.
Esta é uma condição
para garantirmos nossa influência
na Europa.
As
regras do pacto de estabilidade e
do crescimento prevêem que,
mantendo-se dentro do objetivo de
equilíbrio das finanças
públicas e a médio prazo,
os países-membros podem dispor
de margens de manobra na condução
do saneamento orçamentário
quando forem realizadas reformas estruturais
fundamentais.
Esta
é a ambição das
diferentes frentes de trabalho lançadas
com o objetivo de colocar a França
dentro dos padrões europeus
e internacionais. Acho que nossos
parceiros europeus compreenderam nossa
atitude.
P.:
O Senhor possui a fibra européia.
O Senhor diria que Nicolas Sarkozy
também tem?
R.:
Durante
a sua carreira, Nicolas Sarkozy nunca
votou contra um grande texto europeu
e empreendeu uma campanha pelas eleições
européias. Ele quer colocar
a França no coração
da Europa e empenhou nisso muita energia
durante os três primeiros meses
de sua presidência. Ele gosta
de ir visitar os outros dirigentes
europeus, especialmente os da Europa
Central e Oriental, onde quer restaurar
a imagem da França. Pode-se
dizer que ele possui a cultura européia.