CONFERÊNCIA
EUROPÉIA SOBRE ENERGIA E CLIMA
DISCURSO
DO SECRETÁRIO DE ESTADO FRANCÊS
PARA OS ASSUNTOS EUROPEUS, JEAN-PIERRE
JOUYET
Paris, 28
de março de 2008
Estou feliz
por me encontrar com meus amigos,
aqueles com quem trabalhei na Comissão
Européia. Sei que seus debates
foram extremamente ricos e que esta
conferência foi um grande sucesso.
É raro haver um colóquio
tão “europeizado”,
em todos os sentidos do termo, já
que, nesta sala, nós vamos
do Atlântico ao Ural. Estou
muito feliz pelo fato de a Confrontação
ter conseguido reunir um painel como
este ao longo de dois dias.
Os
Srs. me convidaram a falar a respeito
da Reunião de Cúpula
de Londres, pois estou voltando e
lá. O mais importante é
compreendermos que, no âmbito
de uma Europa em número de
27, é essencial irmos além
do necessário equilíbrio
entre a França e a Alemanha
e nos apoiarmos também em um
entendimento entre a França
e o Reino Unido. Do contrário,
não se pode avançar
a respeito de qualquer assunto. É
necessário igualmente levarmos
em conta o fato de que, em uma Europa
de 27 membros, os parceiros desenvolvem-se
em várias direções.
Os
Srs. são a perfeita ilustração
disso. Nossos vínculos com
o Reino Unido são extremamente
estreitos nos setores econômico,
industrial, energético e ainda
da segurança e da defesa. Os
britânicos e os franceses representam
dois terços dos investimentos
na defesa européia. É
preciso lembrar isso. Você não
pode deixar de fortalecer o diálogo
com um parceiro que possui as mesmas
responsabilidades que você em
matéria de segurança
e defesa em todo o continente europeu.
Estas são mensagens fortes
que foram enviadas de Londres. A cooperação
franco-alemã, embora seja necessária,
não é exclusiva. Nossos
amigos alemães compreendem
isso muito bem. Houve encontros muito
ricos entre a Srª Merkel e o
Sr. Brown.
De
forma mais específica, na área
que lhes interessa, nós evocamos
as cooperações existentes
no setor energético. Examinamos
com os ingleses as estratégias
que desejam colocar em prática
para enfrentar a redução
de sua capacidade no Mar do Norte
e diversificar suas fontes de abastecimento.
Constatamos numerosas convergências
em matéria de energia nuclear
civil, fato pelo qual nos regozijamos.
Existe
igualmente um reforço da cooperação
sobre a maneira como a regulação
econômica internacional deve
ser pensada hoje. É preciso
fortalecer o diálogo multilateral.
É preciso que temas como o
da energia sejam tratados, evidentemente,
no âmbito europeu. Mas a energia
também é uma questão
de regulação econômica
internacional. Devemos portanto dispor,
nessa área, de instâncias
e órgãos multilaterais
reforçados e ampliados. Sob
esse ponto de vista, estamos em sintonia
com nossos amigos britânicos
para que, no âmbito de um mundo
cada vez mais interdependente e onde
surgem novos riscos, a Europa seja
pensada como um ator global. O fato
de fortalecermos uma política
energética européia
é um componente determinante
de uma Europa que se pretende um ator
global. Eis o que se pode extrair
como breve conclusão desta
Cúpula no setor que é
objeto de seus trabalhos hoje.
Eu
gostaria justamente de voltar a falar
de seus trabalhos. Em primeiro lugar,
é importante avaliarmos a inovação
e o salto qualitativo que representa
a definição progressiva
de uma política de energia
em escala européia. Durante
anos, o debate em torno da idéia
de uma política européia
de energia persistiu. A idéia
era recusada principalmente porque
a composição do “buquê”
energético dependia, em primeiro
lugar, de uma escolha de política
nacional. Encontramos o eco dessa
desconfiança no Tratado de
Maastricht, que exige a aprovação
por unanimidade das medidas que afetem
sensivelmente a escolha de um país
entre diferentes fontes de energia
e a estrutura geral de sua abastecimento
energético. Com essa regra
da unanimidade, a política
energética foi apreendida primeiramente
através do prisma das redes
trans-européias ou do mercado
interno. Foi essa a lógica
que presidiu as diretivas sobre o
mercado da eletricidade, primeiramente
em 1996, depois em 2003, e as do mercado
de gás em 1998 e 2003. Creio
que essa abordagem era a correta,
já que essas diretivas e o
desenvolvimento das redes trans-européias
possibilitaram o aprofundamento do
mercado interno.
Isso
foi prolongado, paradoxalmente, em
um período durante o qual a
Europa não se encontrava no
melhor de sua forma, o que veio em
seguida aos “nãos”
francês e holandês ao
projeto de constituição.
Mas os primeiros sinais de um forte
aumento dos preços das matérias-primas
surgiram no mesmo período.
Houve portanto uma retomada das iniciativas
na Cúpula informal de Hampton
Court, em outubro de 2005. Houve em
seguida um memorando francês
e, depois, um Livro Verde da Comissão
[Européia], em 2006.
Nós
assistimos a uma conscientização
do fato de que o setor energético
não poderia se limitar a uma
justaposição de políticas
nacionais. A energia não era
um elemento puramente econômico,
mas tornava-se um elemento determinante
da afirmação da Europa,
de sua independência, de sua
soberania e um dos elementos-chaves
do domínio sobre seu destino.
O encarecimento dos preços
do petróleo e do gás,
que existe desde o início da
década e que está amplificado
há alguns meses, as ameaças
crescentes sobre a segurança
do abastecimento energético
e os imperativos da luta contra a
mudança climática levaram
nossos parceiros a evoluir e se conscientizarem
da necessidade de uma resposta coletiva
a esses novos desafios.
É
verdade que o imperativo energético
está no centro das questões
envolvendo confrontações
e cooperações ao longo
do século XXI. Esta é
hoje, sem dúvida, a questão
maior, juntamente com a água
e a luta contra o aquecimento climático.
Os países europeus, sejam quais
forem suas escolhas nacionais, as
relações que têm
com um ou outro país produtor,
têm os mesmos objetivos em matéria
de política européia
de energia: a segurança do
abastecimento, a competitividade das
economias européias, a disponibilidade
de uma energia competitiva, a viabilidade
ambiental e a luta contra o aquecimento
climático.
A
energia, portanto, é agora
um tema de interesse comum, onde a
maior parte das decisões no
âmbito do Tratado de Lisboa
é tomada por maioria absoluta.
O Tratado reflete diretamente essa
nova realidade ao mencionar explicitamente,
pela primeira vez, a solidariedade
entre os países-membros na
área energética. Este
é um ponto fundamental, especialmente
para aqueles que aderiram recentemente.
O Tratado reforça igualmente
os poderes da União, se necessário
por meio de medidas obrigatórias,
para desenvolver novas interconexões,
para assegurar essa segurança
e fortalecer o mercado interno da
energia. Considero isto um importante
progresso.
Devemos
todos esses progressos, evidentemente,
à Comissão Européia,
que apresentou aos países-membros
propostas muitas vezes classificadas,
com razão, de históricas.
Devêmo-las também à
firme determinação da
Presidência Alemã, no
primeiro semestre de 2007, e ao empenho
pessoal de Angela Merkel nesse debate,
que permitiu a aprovação
do plano de ação sobre
a energia e o clima na reunião
do Conselho Europeu de março
de 2007. O aprofundamento da política
energética européia,
no âmbito do pacote apresentado
pela Comissão, é uma
das três grandes prioridades
da próxima Presidência
Francesa da União Européia.
Queremos inscrevê-la plenamente
no prolongamento dos esforços
empreendidos nas presidências
precedentes. O que isso significa?
Temos que facilitar a conclusão
dos acordos políticos sobre
o pacote e sobre os objetivos estabelecidos
durante a Presidência Alemã
por ocasião da reunião
do Conselho de março de 2007.
O terceiro pacote sobre o mercado
interno de energia foi apresentado
em setembro e abundantemente discutido
desde então. Observo que temos
aí um novo exemplo da cooperação
franco-alemã, já que
ambos os países, juntamente
com seis outros parceiros, apresentaram
juntos, há algumas semanas,
uma opção alternativa
para a separação patrimonial
proposta pela Comissão. Essa
proposta deverá nos permitir
sair do impasse e esperamos um apoio
do Conselho e do Parlamento Europeu
para encerrar esses debates antes
do início da Presidência
Francesa.
Desejamos
que, no contexto do pacote apresentado
pela Comissão, os objetivos
sejam obrigatórios e não
só indicativos. Do contrário,
a exemplar atitude seguida pela Europa
na preparação do pós-Kyoto
e da conferência de Copenhague
de 2009 seria reduzida a nada. Desejamos
que nossa presidência esteja
“colada” o máximo
possível a esse pacote. Não
desejamos que ele seja desmembrado,
pois não estaríamos
então em condições
de enfrentar os desafios que nos aguardam.
Desejamos que os objetivos das energias
renováveis e de seqüestro
de carbono sejam atingidos. Não
vou entrar aqui nos detalhes das propostas.
O que quero salientar de maneira clara
é que seremos extremamente
vigilantes quanto à manutenção
da competitividade industrial da Europa.
Sobre
esse ponto, todos os nossos parceiros
concordam em dizer que é importante
evitarmos que a luta contra o aquecimento
climático traduza-se em uma
perda de competitividade das empresas
européias face a outras, que
não respeitem as mesmas normas.
Várias soluções
estão sendo cogitadas: emissões
gratuitas, incentivos fiscais ou mecanismos
de acerto nas fronteiras. Devemos
olhar essas diferentes opções
de maneira objetiva, porque, se não
dispusermos de dispositivos adequados,
os grupos industriais dos setores
químico, de cimento, vidros
ou petróleo não deixarão
de se instalar em outras regiões,
muito menos exigentes com relação
ao respeito aos objetivos de Kyoto
e do pós-Kyoto. Estamos procurando
manter-nos dentro de uma lógica
do “ganhador-ganhador”.
Sobre esses aspectos, os Srs. podem
estar certos de que a próxima
Presidência Francesa do Conselho
da União Européia será
particularmente vigilante, respeitando
ao mesmo tempo os equilíbrios
do pacote apresentado pela Comissão
Européia.
É
bastante evidente que essas propostas
irão exigir grandes esforços,
inclusive por parte da França.
Mas, na Presidência, nós
servimos ao interesse geral europeu.
Haverá negociações
difíceis e teremos que encontrar
soluções que conjuguem
eqüidade e eficiência.
Nesse aspecto, o mais urgente é
sabermos como iremos abordar as questões
especificamente energéticas.
Durante a Presidência Francesa,
colocaremos as questões relativas
à segurança e à
diversificação das fontes
de abastecimento de maneira totalmente
objetiva. Colocar os termos de um
debate não significa dizer
que tudo estará resolvido ao
final da Presidência Francesa.
Nós não temos essa ambição,
mas dizemos simplesmente que um certo
número de questões indispensáveis
devem ser abordadas.
O
que significa hoje a segurança
de abastecimento? Como garantir isso?
Como fazer com que haja uma solidariedade
efetiva? O que se faz em matéria
de estocagem das fontes de energia?
O que se faz em termos de negociações
com os principais produtores de energia?
Quais são as formas de contrato
que devemos privilegiar? Qual é
o equilíbrio ideal entre a
concorrência e os contratos
a longo prazo que, sejam quais forem
as fontes de energia, caracterizam
esse mercado? Como essas especificidades
irão ser levadas em conta?
Devemos também colocar a questão
da diversificação das
fontes. Devemos respeitar as principais
tradições nacionais.
Sabemos que a questão nuclear
não obtém consenso no
âmbito europeu. Em compensação,
o que é consenso é a
necessidade de promovermos um nível
mais alto de segurança nuclear.
Se houver um acidente, é bem
evidente que não será
nacional. Tranqüilizo portanto
todos os países-membros de
que temos interesse em desenvolvermos
juntos tecnologias de segurança,
em convergirmos para padrões
comuns e resolvermos os problemas
das licenças desenvolvendo
uma abordagem comum.
Mas,
se me abstraio da Presidência
Francesa e volto-me para o que é
o sentimento de um cidadão
francês e um responsável
político, está claro
que, no novo tratado, temos agora
a possibilidade de desenvolver cooperações
reforçadas e estruturadas,
o que é uma sorte. Assim, não
se poderá impedir aqueles que
quiserem avançar nessa área,
de utilizar os meios jurídicos
que estarão à sua disposição.
Eis
o que eu desejava lhes dizer, separando
o que são nossas responsabilidades
como Presidência do que são
as orientações francesas
em matéria de política
energética. Estejam certos
de que estaremos lá como Presidência
para servir ao interesse europeu.
E, algumas vezes, interesses franceses
e europeus encontram-se, contrariamente
ao que uma parte da imprensa gosta
de dizer.
Para
concluir, eu gostaria e compartilhar
com os Srs. uma reflexão: o
fato de que a energia tornou-se uma
questão geoestratégica
importante. Uma grande parte das reservas
de hidrocarbonetos encontra-se em
regiões vulneráveis
e nos países que têm
que enfrentar importantes problemas
sociais, econômicos e demográficos.
Devemos portanto enfrentar uma certa
instabilidade. Essa evolução
pode, por sua vez, gerar uma maior
insegurança, tanto no abastecimento
quanto numa concorrência que
nascesse para apropriar-se das diferentes
fontes energéticas. Peço-lhes
que observem os trabalhos muito interessantes
que Javier Solana desenvolveu. Se
a comunidade internacional não
conseguir responder a essas ameaças,
à desordem energética
internacional, a concorrência
e as rivalidades surgirão para
garantir melhores condições
de abastecimento energético.
Trata-se de riscos geoestratégicos
importantes que não poderíamos
correr. Se não nos organizarmos
em âmbitos internacional e europeu,
esses riscos podem vir a colocar em
perigo o próprio sistema multilateral.
Foi
por isso que, com base no relatório
feito pelo Sr. Solana e conscientes
dessas ameaças, pedimos a alguém
que todos os Srs. conhecem e que é
extremamente respeitado, o Sr. Claude
Mandil, que realizasse trabalhos sobre
a segurança de abastecimento,
trabalhos esses que nos permitirão
alimentar o debate na França,
mas também a reflexão
européia. Acho que tudo o que
os Srs. nos mostraram ao longo destes
dois dias nos estimula a sermos ofensivos,
a não permanecermos inativos
e a fazermos com que a União
seja mais dinâmica e organizada
sobre essas questões. Disso
depende, simplesmente, a credibilidade
da iniciativa com vistas a fazer da
União Européia um ator
global em nível internacional.
Muito
obrigado.