FÓRUM
DE PARIS DEDICADO À UNIÃO
PELO MEDITERRÂNEO
DISCURSO
DO SECRETÁRIO DE ESTADO FRANCÊS
PARA AS RELAÇÕES EUROPÉIAS,
JEAN-PIERRE JOUYET,
POR OCASIÃO DA SESSÃO
DE ENCERRAMENTO
Paris, 30
de março de 2008
“Uma União pelo Mediterrâneo
para fazer o quê e como?”
Senhoras
e Senhores,
Bernard
Kouchner, que havia desejado sinceramente
estar entre os Srs. para o encerramento
deste fórum, infelizmente encontra-se
impedido de comparecer por razões
imperativas. Transmito-lhes portanto
o seu pedido de desculpas, mas fico
feliz por poder apresentar perante
os Srs. nossa ambição
comum para o Mediterrâneo.
Eu
gostaria primeiramente de agradecer
aos organizadores, especialmente a
Albert Mallet e Elie Barnavi, por
terem colocado a União pelo
Mediterrâneo em destaque nesta
conferência, a apenas cem dias
da Presidência Francesa da União
Européia. Essa escolha oferece-me
a oportunidade de colocar em evidência
o fato de que a nossa próxima
Presidência trará em
si uma nova ambição
da Europa para o Mediterrâneo
e será marcada por um novo
tipo de relações entre
os países que o margeiam.
É
verdade que são numerosos os
desafios a serem enfrentados, em primeiro
lugar o conflito entre Israel e a
Palestina. O envolvimento da França,
o envolvimento pessoal do Presidente
da República [Nicolas Sarkozy]
e o de Bernard Kouchner [Ministro
das Relações Exteriores],
respondem aos imperiosos deveres que
tornam a perseverança necessária
e a esperança indispensável.
Não
menos imperiosa é a implementação
do Tratado de Lisboa, que possibilita
o relançamento do processo
de aprofundamento de nossa União
Européia, do qual nossos parceiros
mediterrâneos também
devem tirar proveito.
Então,
por que engajar-se em um novo desafio?
Eu
gostaria primeiramente de abordar
com os Srs. quatro questões:
-
Em primeiro lugar, por que a União
Mediterrânea?
- Em seguida, que União pelo
Mediterrâneo?
- Que valor agregado dessa União
pelo Mediterrâneo?
- Por fim, que projetos concretos
para lançar a União
pelo Mediterrâneo?
Dentro
dessa ambição, a França
tem um papel reconhecido, pois esse
projeto não é de direita
ou de esquerda; ele não é
monopólio de qualquer partido;
não existe União pelo
Mediterrâneo de direita ou de
esquerda. Digo perante os Srs.: em
cada país, precisaremos de
todo mundo!
O
Presidente da República pronunciou
seu discurso de Tânger em 23
de outubro de 2007 e, juntamente com
José Luis Zapatero e Romano
Prodi, lançou o apelo de Roma,
em 20 de dezembro passado.
Por
que a União pelo Mediterrâneo?
Eu
vi, nos países das margens
Sul e Leste do Mediterrâneo,
com os quais possuímos tantas
relações não
só convencionais, mas também
afetivas, levantar-se uma onda de
esperança, manifestar-se um
grande interesse. Em cada um dos países
do Mediterrâneo – e fui
a muitos deles, pois, como Secretário
de Estado encarregado das Relações
Exteriores, vou aos países
do Sul tão naturalmente como
visito nossos parceiros da União
Européia – fiquei surpreso
com a vontade de cada um de participar
dessa aventura desde o início.
Não existe um só país-membro
da União Européia que
não tenha manifestado seu interesse.
Graças
à União Européia,
que atenuou as fronteiras entre seus
países, e graças ao
Processo de Barcelona, todos os países-membros
da União Européia também
são, de certa maneira, países
mediterrâneos. Os finlandeses
me disseram: “desde 1995, nós
também somos mediterrâneos”.
O Presidente da República concluiu
com muita propriedade, após
a reunião do Conselho Europeu
de 13 de março: “Essa
idéia de União do Mediterrâneo
é, hoje, uma idéia de
toda a Europa e isso é muito
bom”. No Sul e no Leste, todos
vêem na União pelo Mediterrâneo
uma oportunidade de recobrar a esperança
do Processo de Barcelona. Estive em
Israel e na Palestina na semana passada.
Ninguém espera da União
pelo Mediterrâneo que traga
uma solução para o conflito
israelense-palestino: todos querem
que a União pelo Mediterrâneo
seja justamente preservada desse conflito
para permitir a cada um começar
a trabalhar a respeito de projetos
concretos que possam criar solidariedades
de fato.
Que
União pelo Mediterrâneo?
A
União pelo Mediterrâneo
será, em primeiro lugar, uma
união de iguais. Nossos parceiros
do Sul são, acima de tudo,
sensíveis à capacidade
que lhes é oferecida de participar
da elaboração de projetos
a serem colocados em prática
e não mais apenas receber as
propostas da União Européia.
A co-presidência, a secretaria
comum, sobre a qual iremos discutir
com eles, demonstram essa abordagem.
O Presidente havia anunciado em Tânger
que “Audácia e coragem
é dizer aos países banhados
pelo Mediterrâneo que eles não
formam dois blocos que se encontram
face a face de um lado e do outro
do mar, mas que, todos juntos, eles
constituem uma comunidade de destino
na qual cada um tem a sua parcela
e que todos os povos do Mediterrâneo
são iguais em dignidade, direitos
e deveres.”
Em
seguida, ela é uma união
de projetos. Com disse o Presidente
da República, nossa iniciativa
assemelha-se à dos pais fundadores
da Europa. É desenvolvendo
projetos concretos que se reforçará
a cooperação entre a
Europa e os países do sul do
Mediterrâneo e sobretudo entre
os próprios países do
Sul.
Por
outro lado, a idéia de começar
por projetos vem ao encontro, como
disseram, das necessidades dos povos
e suas preocupações
mais urgentes:
-
Como garantir o acesso à água
que falta a uma população
cada vez mais numerosa?
- Como salvar nosso mar comum pois,
advertidos pelo exemplo do Mar do
Aral e do Mar Cáspio, nós
sabemos que os mares podem morrer?
- Como lutar juntos contra os incêndios
florestais, os tremores de terra e
as inundações?
- Como criar empregos dos quais os
jovens precisarão, como resolver
melhor as questões de saúde
pública, responder aos flagelos
aos quais somos confrontados coletivamente,
que não conhecem fronteiras
e que ignoram as pretensas barreiras
do “choque de civilizações”?
A
União pelo Mediterrâneo
é uma emergência para
proporcionar um quadro de trabalho
e um método prático
para as soluções compartilhadas.
A
União Européia engajou-se
inteiramente nesse projeto. Nós
discutimos com nossos parceiros da
União Européia, particularmente
a Alemanha, que nos havia apresentado,
com a sinceridade que permite a estreiteza
de nossas relações,
um certo número de preocupações
– mas também recomendações.
Essas trocas levaram finalmente à
aprovação, por unanimidade,
pelo Conselho Europeu de 13 e 14 de
março, do projeto de União
pelo Mediterrâneo.
Esse
trabalho no seio da União Européia
era indispensável para eliminarmos
os mal-entendidos e conseguirmos o
apoio de todos os nossos parceiros.
Nossos amigos alemães e o Conselho
Europeu, aprovaram finalmente uma
iniciativa que apresenta uma nova
ambição. Tanto na política
de vizinhança, quanto no Processo
de Barcelona, que renova sua dinâmica
e seu alcance, oferecendo à
cooperação no Mediterrâneo
um diálogo baseado no respeito
à igualdade de cada um.
Como
esse apoio agora está garantido,
podemos preparar nas melhores condições
possíveis a reunião
de cúpula de Paris de 13 de
julho: a primeira reunião de
cúpula da União pelo
Mediterrâneo será a primeira
da Presidência Francesa da União
Européia. Essa reunião
compreenderá todos os países
que margeiam o Mediterrâneo
e os países europeus, ou seja,
um total de quarenta participantes.
Contrariamente
a determinados comentários
ouvidos aqui e ali, a ambição
do projeto continua sendo tão
forte quanto antes. Ela não
está absolutamente minorada.
Como seria possível, aliás,
pretender que um projeto que incluísse
inicialmente apenas alguns países
europeus fosse agora minorado por
ter recebido o apoio de toda a União
Européia?
A
Europa está cumprido aqui a
sua missão, ela que, segundo
Paul Valéry, “costeia
um ilustre mar cujo papel, eu deveria
dizer função, foi maravilhosamente
eficaz na elaboração
desse espírito europeu que
nos ocupa”. Fernand Braudel,
o pensador do Mediterrâneo,
também pensou a Europa, a partir
da qual convida, em sua Gramática
das Civilizações, a
fazermos uma leitura global do mundo
atual. Bela antecipação
da globalização que
vivemos e à qual a Europa,
assim como a União pelo Mediterrâneo,
pretende conceder uma visão
humana.
Pois
esta é realmente a ambição
do texto aprovado pelo último
Conselho Europeu, que reúne
as duas expressões: “o
Processo de Barcelona; a União
pelo Mediterrâneo”. Trata-se
de mostrar que um concerto de propostas
compartilhadas, de geometria variável,
poderá reduzir as diferenças
de desenvolvimento, aproximará
os povos e fará com que os
governos dialoguem mais.
Volto
a esses dois pontos que associam-se
agora no título, “União
pelo Mediterrâneo” e “Processo
de Barcelona”: eles salientam
que a União pelo Mediterrâneo
é doravante um prolongamento
do Processo de Barcelona. A União
pelo Mediterrâneo assume realmente
o papel do Processo de Barcelona:
o Processo de Barcelona não
foi substituído, mas “realçado”,
ou seja, elevado a um nível
mais superior, tanto em seu conteúdo
quando em seu funcionamento.
Que
valor agregado obtermos na União
pelo Mediterrâneo?
Essa
transformação constitui
o aumento da valorização,
o valor agregado, do projeto de União
pelo Mediterrâneo. Ela aparece
de forma muito clara em nossas propostas:
- um forte e novo impulso político
no mais alto nível, com a reunião
de cúpula de 13 de julho, para
a qual serão convidados os
chefes de Estado ou de Governo de
todos os países banhados pelo
Mediterrâneo e dos países
da União Européia, e
que abre o caminho para a realização
de reuniões de cúpula
da União pelo Mediterrâneo
a cada dois anos;
- uma verdadeira parceria, graças
a um funcionamento paritário,
em “pé de igualdade”
entre seus membros. É o respeito
a esse compromisso que nos leva a
propor uma co-presidência por
um país da margem Norte e um
da margem Sul;
- segundo esse mesmo princípio,
a criação de uma secretaria
permanente composta de aproximadamente
vinte pessoas vindas dos países
do Norte e do Sul, assim como da Comissão,
sobre uma base paritária, e
encarregada do acompanhamento dos
projetos que faltavam ao Processo
de Barcelona;
- o recurso a novas fontes de financiamento,
pois nunca foi nossa intenção
contentar-nos com o orçamento
da União Européia: as
instituições financeiras
européias, que contribuíram
para a recuperação econômica
da Europa Central e Oriental após
a queda do muro de Berlim, estão
prontas a investir no Mediterrâneo,
da mesma forma que o setor privado,
que quer apoiar nossa iniciativa e
dar ao Mediterrâneo o lugar
que lhe cabe em nossos intercâmbios
e investimentos.
- por fim, o indispensável
envolvimento das coletividades locais
e regionais, primeiros atores da cooperação
em torno do Mediterrâneo, que
se reunirão em Marselha nos
dias 22 e 23 de junho próximos,
com o apoio da prefeitura de Marselha
e da administração da
Região Provence-Alpes-Côtes
d’Azur.
No
que se refere à proposta de
uma co-presidência por dois
anos da União pelo Mediterrâneo,
esta suscitará sem dúvida
reticências e dificuldades,
mas parece-nos essencial para encarnar
a dimensão de parceria que
todos desejamos dar ao processo. Estamos
trabalhando a respeito de todos esses
aspectos em estreito diálogo
com todos os nossos parceiros, particularmente
do Sul do Mediterrâneo
Após
Israel e a Palestina, irei pessoalmente
à Croácia, país
candidato à adesão à
União Européia, que
ainda não é membro do
Processo de Barcelona, mas que encontrará
pela primeira vez, graças à
União pelo Mediterrâneo,
uma oportunidade para expressar sua
rica identidade mediterrânea,
como a Bósnia Herzegóvina,
Montenegro e a Albânia.
Irei
em seguida a Chipre, onde está
renascendo a esperança de ver
fechada uma das mais dolorosas cicatrizes
que por muito tempo persistiram em
um dos berços da civilização
mediterrânea.
Depois,
irei à Turquia, onde lembrarei
que nunca se cogitou instrumentalizar
o Mediterrâneo para cortar as
ambições européias
da Turquia. Estamos prontos a discutir
a relação da União
Européia com a Turquia. Mas
isso se fará, aliás,
apenas dentro do contexto da União
pelo Mediterrâneo, na qual a
Turquia terá plenamente seu
lugar. Isto aplica-se, aliás,
a todos os países mediterrâneos:
a participação na União
pelo Mediterrâneo não
tem influência nas relações
de cada um com a União Européia:
continuaremos trabalhando a respeito
do “status avançado”
do Marrocos, assim como esperamos
avançar a respeito do “realçamento”
da relação União
Européia/Israel, para acompanhar
uma sinergia positiva que leve à
criação de um verdadeiro
Estado Palestino.
Que
projetos para lançar a União
pelo Mediterrâneo?
Nós
temos um diálogo estreito entre
europeus; temos um diálogo
estreito também com todos os
parceiros da margem sul sobre os projetos
que a União pelo Mediterrâneo
deverá lançar a partir
da reunião de cúpula
de 13 de julho.
Os
primeiros projetos aos quais nos dedicaremos,
europeus e mediterrâneos, versarão
sobre o meio ambiente que, por causa
dos dejetos urbanos, das águas
usadas e das emissões industriais,
ameaça as margens e as espécies
marinhas. Se for necessário
“fazer do Mediterrâneo
o mar fechado mais limpo do mundo”,
é tanto pela beleza de suas
paisagens, quanto pela qualidade de
vida nas cidades banhadas por ele,
para que as atividades ligadas à
pesca não fiquem definitivamente
comprometidas e para evitar, com a
ajuda do aquecimento do planeta, o
surgimento de novas patologias médicas.
Todos os países estão
de acordo com a necessária
diversificação de suas
fontes de energia e a redução
das emissões de gases de efeito
estufa. Um verdadeiro plano solar
mediterrâneo, que interessa
a um grande número de grandes
empresas européias, será
bem-vindo.
Desenvolver
os intercâmbios e o surgimento
de novas empresas são os objetivos
do projeto de auto-estradas marítimas,
que poderiam complementar progressivamente
o já saturado transporte de
mercadorias por rodovias, como propõe
particularmente o Egito.
De
forma mais geral, as pequenas e médias
empresas deveriam contar com um fundo
de garantia e um fundo de fundos próprios
constituídos pelo aporte das
instituições financeiras
bilaterais e multilaterais, com a
abertura do setor privado, como propõem
especialmente a Espanha e a Itália.
Um fundo mediterrâneo de co-desenvolvimento
das infra-estruturas, que será
articulado com a nova facilidade de
investimento na vizinhança
instaurada no seio da União
Européia, poderia favorecer
os co-financiamentos.
A
criação de um mecanismo
eficaz de proteção civil,
complementar ao sistema europeu já
existente. Por outro lado, parece-nos
essencial para materializar a solidariedade
diante dos riscos naturais entre os
países do circuito mediterrâneo.
Daremos
sem dúvida ênfase à
formação dos jovens
para que as profissões ligadas
às novas empresas, comerciais
e industriais, sejam exercidas por
jovens profissionais, competentes.
Uma cooperação regional
maior, à qual o patronato e
os sindicatos mediterrâneos
darão a sua contribuição,
permitirá que as atividades
que estimulem o desenvolvimento sustentável
tornem-se, para jovens que hoje não
recebem formação qualificadora,
o caminho para um futuro de sucesso
em seus países de origem, estimulando
ao mesmo tempo a criação
de empregos. Por toda parte, existem
profissões a serem inventadas,
inclusive no setor motor da pesquisa,
onde é preciso que a Europa
e o Mediterrâneo, ricos em talentos,
recobrem o poder de atratividade.
O espaço científico
mediterrâneo, ao qual a Academia
de Ciências irá dar o
pontapé inicial, será
um elemento essencial dessa perspectiva.
Muitos
projetos poderiam ser ainda citados.
Mas, como deseja Bernard Kouchner,
não se deve ir rápido
demais, nem ver grande demais, se
se quiser que cada projeto encontre
seus próprios recursos e as
condições para sua implementação
efetiva.
Para
concluir, seremos certamente prudentes,
mas resolutos: vamos nos comprometer,
sob a autoridade do Presidente da
República, a criar uma “união
de projetos” para um “projeto
de união”. Tenho pressa
de assistir, em 13 de julho, ao surgimento,
à criação dessa
União pelo Mediterrâneo,
que será, sem sombra de dúvida,
um fator de desenvolvimento e, portanto,
de paz e estabilidade; estabilidade,
paz e desenvolvimento tão aguardados
por todos os povos do Mediterrâneo.
Ouvimos por toda parte projetos, iniciativas
espontâneas que darão
vida e alimentarão esse grande
objetivo. Estamos persuadidos de que
essa alavanca fará com que
o Mediterrâneo torne-se o que
jamais deveria ter deixado de ser:
o mar da união.
Muito
obrigado.