DISCURSO
DO SECRETÁRIO DE ESTADO FRANCÊS
ENCARREGADO DOS ASSUNTOS EUROPEUS,
JEAN-PIERRE JOUYET,
PERANTE A ASSEMBLÉIA DOS FRANCESES
DO EXTERIOR
Paris, 6 de março de 2008
Senhora Presidente,
Senhoras e Senhores Conselheiros,
Senhor Diretor,
Senhor Secretário-Geral,
Senhoras e Senhores,
É
para mim uma grande honra vir como
convidado hoje perante a Assembléia
dos Franceses do Exterior. Os Srs.
são mais de 2 milhões
a representar a França, a Europa,
no mundo inteiro. Os Srs. são
transmissores da voz da França
e atores da irradiação
internacional de seu país.
Foi por isso que eu desejei evocar
perante os Srs. as grandes linhas
de nossa futura Presidência
do Conselho da União Européia,
pois sei que serão mensageiros
de nossas ambições,
de nossas expectativas e de nossos
projetos.
Hoje,
nós ajudamos da melhor forma
que podemos a Presidência Eslovena,
que exerce de forma plena essa responsabilidade,
em circunstâncias que não
são fáceis por várias
razões.
Em
primeiro lugar, a Presidência
Eslovena enfrenta a situação
que os Srs. conhecem nos Bálcãs.
Nós temos a oportunidade de
ter uma Presidência que possui
essa sensibilidade regional, o que
permite, nesse ambiente difícil,
que as coisas se passem o menos mal
possível. A Presidência
Eslovena também permite à
Europa permanecer unida. Embora os
processos de reconhecimento sejam
nacionais, existe uma vontade comum
de geri-los da melhor forma possível
e, sobretudo, garantir a presença
da força de estabilização
no Kosovo. Essa vontade comum deve
garantir o respeito aos direitos das
minorias – entre as quais a
minoria sérvia – e que
se trabalhe a reconciliação.
Devemos tranqüilizar nossos amigos
sérvios quanto a sua perspectiva
européia. É preciso
agora que eles voltem os olhos para
o futuro. Levando-se em conta laços
históricos que possuímos
com eles, nós os ajudaremos.
Em seguida, a Presidência eslovena
está enfrentando uma situação
econômica e financeira internacional
delicada. O Conselho Europeu da próxima
semana tratará dessas questões
de estabilização financeira,
de governança econômica,
de crescimento e emprego, que estão
no centro de todas as preocupações
dos europeus. Essa realidade é
vivida por todos os europeus. Vejam,
por exemplo, o preço do barril
de petróleo, ou a situação
do euro. Ninguém está
satisfeito com isso.
Estamos
trabalhando em conjunto com a Presidência
Eslovena, particularmente a respeito
do processo de ratificação
do Tratado de Lisboa, desafio importante
deste ano de 2008, para que aconteça
da melhor forma possível. Se
esse processo tiver prosseguimento,
podemos preparar a sua implementação,
de modo a que esse novo tratado seja
aplicado a partir de 1º de janeiro
próximo.
Bernard
Kouchner e eu desejamos primeiramente
que essa Presidência seja cidadã
e européia. Cidadã,
porque exercer essa Presidência
é uma oportunidade. Ela reforça
a volta da França à
Europa e da Europa à França.
Européia, porque queremos que
essa Presidência sirva ao interesse
geral europeu, como o Presidente da
República [Nicolas Sarkozy]
fez com a proposta de Tratado Simplificado,
implementado juntamente com os Presidentes
alemão e português. Nós
achamos que esse retorno da França
à Europa e da Europa à
França serão ainda mais
marcantes na medida em que consigamos
assumir as prioridades que o Presidente
da República e o Primeiro-Ministro
desejaram para nossa Presidência.
Gestão
dos fluxos migratórios
A
primeira prioridade diz respeito à
gestão dos fluxos migratórios.
As realidades demográficas
impõem-se na Europa. São
realidades estruturais e duradouras.
Existem movimentos demográficos,
tendências que dizem respeito
à Europa, diferentes das que
são observadas em outras partes
do mundo. A Europa está confrontada,
independentemente de qualquer sensibilidade
ou cultura, a um problema de organização
e gestão dos fluxos demográficos
e migratórios. Foi por esta
razão que a França propôs
a implementação de um
pacto europeu sobre a imigração
e o asilo de modo a que esses problemas
fossem tratados dentro de um contexto
geral. Foi dado destaque, por um lado,
ao controle nas fronteiras após
a ampliação do espaço
Schengen, que é um espaço
de livre circulação,
de liberdades e direitos únicos
no mundo, mas que deve ser também
um espaço de segurança.
O controle do espaço Schengen
deve estar em conformidade com as
exigências de segurança
de nossos concidadãos, na França,
na Alemanha, assim como na Polônia,
na Bulgária e em todos os países
da Europa. Não se trata de
uma questão ideológica,
mas uma questão de gestão,
eficiência e proteção
de nossos concidadãos.
Devemos
igualmente organizar uma cooperação
ativa na luta contra a imigração
ilegal. Para isso, são necessárias
práticas comuns em matéria
de expedição de vistos.
Existem atitudes diferentes conforme
os países europeus. Trataremos
de definir padrões comuns em
matéria de expedição
de vistos para os cidadãos
de um certo número de países.
Devemos também manter uma convergência
em matéria de direito de asilo.
Esta é, certamente, a questão
mais difícil que teremos que
resolver. Hoje, as pessoas são
tratadas de forma diferente conforme
o país europeu ao qual pedem
asilo. Isto não é eqüitativo
e, em determinados casos, é
até atentatório à
concepção das liberdades
que nós temos na França
e à tradição
jurídica européia tal
qual resulta dos objetivos da União
definidos pelos tratados atuais e
no futuro Tratado de Lisboa. Esta
é uma questão difícil
porque as culturas e as sensibilidades
no que se refere ao direito de asilo
são diferentes. Tentaremos
fazer emergir uma abordagem comum
do direito de asilo.
Devemos
igualmente organizar a imigração
legal em função da situação
econômica e social da União.
Existem propostas da Comissão
nessa área que defenderemos
e devemos fazer com que essas propostas,
que são equilibradas, possam
chegar a sua realização
sob a Presidência Francesa e
que haja um procedimento único
de pedido de visto de permanência
e autorização de trabalho.
Por
fim, essa abordagem será global
na medida em que essas problemáticas
estão ligadas às do
desenvolvimento e do co-desenvolvimento.
A Europa possui uma política
de desenvolvimento muito avançada.
Ela dispõe de meios que podem
sempre ser melhorados, mas que são
suficientes diante do que fazem nossos
grandes parceiros.
A
União deve melhorar a gestão
de sua política de desenvolvimento
e simplificar determinados procedimentos
para permitir uma melhor articulação
entre as políticas européias
e nacionais. Devemos desenvolver uma
abordagem européia comum com
relação aos países
de origem. Penso na África,
no Magreb e, além de nossos
vizinhos do Mediterrâneo, os
da Ásia Central. Teremos que
encontrar um acordo dobre a diretiva
de retorno. O compromisso atual não
nos satisfaz porque não corresponde
às tradições
humanistas francesas, especialmente
no que se refere às condições
e aos prazos de retenção.
Existem práticas, no âmbito
europeu, contrárias à
nossa concepção em matéria
de defesa dos direitos e de respeito
à dignidade dos indivíduos.
Esperamos chegar a um acordo sobre
bases eqüitativas, com a ajuda
do Parlamento Europeu, até
o final da Presidência Eslovena.
Meio
ambiente e luta contra o aquecimento
climático
Nós
temos a vontade de estimular um novo
crescimento na Europa. Um crescimento
mais “sustentável”.
Devemos fazê-lo, evidentemente,
para as gerações futuras.
A Europa deve ser exemplar. Mas não
se trata apenas de uma questão
moral, devemos fazê-lo também
por razões de competitividade,
pelo fato de estarmos convencidos
de que as atividades do modelo de
desenvolvimento sustentável
estão ligadas a uma agricultura
mais ecológica, a uma indústria
que respeite mais o meio ambiente
e que o desenvolvimento de serviços
ao meio ambiente constitui uma jazida
de empregos e atividades importantes
para a economia européia. Os
que assumirem a maior dianteira hoje
nessa área serão os
mais competitivos amanhã.
É
por isso que desejamos, durante a
Presidência Francesa, chegar
a um acordo no Conselho a respeito
do pacote legislativo sobre clima
e energia conforme apresentou a Comissão
e, depois, a uma votação
pelo Parlamento. A Europa estará
assim perfilada para a conferência
de Copenhague de 2009, que é
decisiva para o futuro da convenção
sobre o clima e do Protocolo de Kyoto.
Faremos todos os esforços necessários,
mas cuidaremos de manter a competitividade
de nossas empresas exigindo de nossos
parceiros a reciprocidade nessa área.
Se houver alguma desigualdade nos
esforços entre a Europa, os
Estados Unidos, a Rússia e
os grandes países emergentes,
o custo ecológico deverá
ser integrado às negociações
econômicas com nossos parceiros.
Seremos extremamente firmes sobre
esse ponto durante a nossa presidência.
Nós dissemos isso à
Comissão.
Pretendemos
também relançar o debate
sobre a estratégia energética
européia. Os fatos da atualidade
vêm demonstrando que a problemática
energética tem se tornado cada
vez mais estratégica. Somos
dependentes em matéria de energia
fóssil e gás. Possuímos
trunfos no que diz respeito à
eletricidade nuclear. Parece-nos indispensável
colocar, no âmbito europeu,
as questões relativas à
segurança dos abastecimentos
e à diversidade das fontes.
A Europa tem que ser um ator independente
do que provavelmente será a
arma mais importante nas próximas
décadas: o controle da energia.
A
Europa deve ser competitiva e aberta
para que seu mercado funcione melhor,
mas essa abertura deve ser feita em
prol de uma Europa mais segura e mais
independente no plano energético.
Não aceitaremos soluções
de liberalização que
levem ao enfraquecimento dos produtores
europeus, ou seja, a um enfraquecimento
da independência e da soberania
da Europa nesse aspecto. Não
aceitaremos uma liberalização
que gere uma alta dos preços
da energia a curto prazo, sejam quais
forem as vantagens que nos prometam
para os próximos quinze a vinte
anos.
A
Europa da segurança e da Defesa
O
reforço da Europa da segurança
e da defesa deve permitir-lhe dispor
de instrumentos em adequação
com sua potência econômica
e comercial. Não é possível
que um espaço único
de 500 milhões de habitantes
seja desprovido a esse ponto em matéria
de defesa. Não é mais
possível que a Europa, que
pretende legitimamente ter um papel
importante na gestão das crises
na África, no Oriente Médio,
no sub-continente indiano ou na Ásia
Central, fique reduzido a “pequenos
reparos”, como acontece hoje.
Não é mais possível,
quando se tem que enfrentar crises
humanitárias como a do Darfur,
que a Europa seja reduzida a “mendigar”,
de Conselho em Conselho, um helicóptero,
um avião ou um hospital de
campanha. Precisamos sair dessa situação.
A Europa será radiosa, ela
será uma potência política
se possuir os instrumentos necessários
em termos de defesa.
Foi
por isso que desejamos, ao proceder
a aberturas em relação
à Organização
do Tratado do Atlântico Norte,
colocar em adequação
o direito e a realidade, porque existem
hoje colaborações de
fato entre a OTAN e os organismos
europeus de segurança. Mas,
sejamos claros: estamos prontos a
fazer esses avanços apenas
se eles possibilitarem o fortalecimento
de uma verdadeira política
européia de segurança
e defesa. Nós queremos revisitar
a estratégia de segurança
tal qual foi definida em 2003 para
enfrentar novos riscos, especialmente
terroristas, sanitários, biológicos
ou tecnológicos. Paralelamente
a essa redefinição,
proporemos que a Europa adquira meios
operacionais de intervenção
com um centro de planejamento em Bruxelas.
Evidentemente, tomaremos cuidado para
não colocar em perigo o processo
de ratificação do Tratado
de Lisboa, porque sabemos que em um
certo número de países,
essas questões são sensíveis.
Desejamos progredir e sair do amadorismo
existente hoje. Estamos prontos a
possuir um mercado interno e uma agência
de armamento em nível europeu
que permitam fortalecer nossas bases
industriais.
O
balanço da saúde da
Política Agrícola Comum
Como
os Srs. sabem, 2008 é um ano
crucial para a Política Agrícola
Comum, já que a Comissão
iniciou um balanço que deverá
desembocar, durante a nossa presidência,
em um certo número de decisões
de ajustes, à margem das grandes
linhas da Política Agrícola
Comum, fixadas até 2013. O
que propomos é fazermos esse
balanço e refletirmos de maneira
conjunta a respeito do que poderia
ser a Política Agrícola
Comum para além de 2013.
Por
que o fazemos? Porque consideramos
que nada seria pior do que o imobilismo.
A Comissão e o Parlamento serão
renovados e, a partir de 1º de
janeiro de 2009, entraremos em um
sistema de presidências rotativas.
Se permanecermos imobilizados, a Política
Agrícola Comum corre o risco
de ser colocada em questão.
Essa política continua sendo
a primeira política comum européia.
Com os desequilíbrios que conhecemos
hoje entre a oferta e a demanda alimentar
mundial, essa política é
estratégica, da mesma forma
que a política energética,
para a Europa de amanhã. Devemos
modernizar essa política, para
que as evoluções dos
preços de mercado sejam levadas
mais em conta. Temos que estudar os
resultados dessa política,
setor por setor, e temos também
que levar em conta os diferentes estágios
de desenvolvimento agrícola
e de competitividade dos países-membros.
Devemos modernizar para não
desarmar e para permitir à
Europa continuar sendo, da mesma forma
que outros grandes parceiros, uma
potência alimentar. Nesse aspecto
também, estamos prontos a fazer
esforços, desde que exista
reciprocidade nas transações
econômicas internacionais. Veremos
os esforços que farão
nossos parceiros americanos, os países
do grupo de CAIRNS e os outros emergentes
nessa área.
Estas
são as principais linhas do
que serão nossas prioridades
ao longo da Presidência Francesa.
Não devemos esquecer, pois
este será nosso “fio
condutor”, a ratificação
do Tratado de Lisboa. Três temas
são particularmente delicados.
O mais midiatizado é o das
nomeações para os cargos
de Presidente do Conselho Europeu,
de Alto Representante das Relações
Exteriores, ou de Presidente da Comissão.
Teremos também que preparar
a instalação de um serviço
externo comum. Queremos um serviço
operacional. Em 1º de janeiro
de 2009, a Europa deverá ter
uma identidade externa bem mais visível.
Teremos que preparar juntamente com
a Comissão e o Parlamento Europeu
a instauração progressiva
do Serviço de Ação
Externa Comum.
Teremos
que preparar a presidência estável
do Conselho Europeu, o que nos permitirá
enfim responder à pergunta
feita por Henry Kissinger há
alguns anos: “A Europa, qual
é mesmo o número de
telefone?”. As presidências
rotativas prosseguirão, porque
os países-membros devem permanecer
implicados nas responsabilidades européias
para não dar a impressão
de que tudo se passa em Bruxelas,
de forma desencarnada. Isto exige
um trabalho técnico que já
iniciamos com nossos parceiros eslovenos
e que prolongaremos juntamente com
nossos amigos checos e suecos, com
quem estamos estabelecendo um programa
de presidência de trio que será
apresentado em junho.
Por
fim, eu não gostaria de concluir
sem evocar o projeto de uma reunião
dos representantes dos cidadãos
europeus expatriados da União
Européia. Eu não deveria
falar desse projeto, pois, graças
à tenacidade da Srª Monseau-Ducarme,
ele está se tornando realidade.
Os
Srs. irão trabalhar portanto
com seus colegas europeus, em 30 de
setembro próximo, a respeito
de dois temas que escolheram perfeitamente:
o primeiro é o da proteção
aos cidadãos europeus. Todos
os que viveram recentemente os acontecimentos
no Chade sabem que não podemos
mais funcionar com esquemas de proteção
reservados apenas aos nossos concidadãos.
Precisamos ter uma dimensão
européia. Se não a possuíamos
ainda, era um erro não só
político, mas também
humano. É importante darmos
vida à cidadania européia.
Os
Srs. também escolheram trabalhar
a respeito do tema da Europa da justiça.
Nesse aspecto também, os Srs.
têm uma visão justa,
pois trata-se do cotidiano. Estamos
nos esforçando para trabalhar
em conjunto a fim de facilitar a mobilidade
dos europeus, o que implica em resolvermos
os problemas de fronteiras, direito
de família, proteção
dos indivíduos, sua igualdade
do ponto de vista da lei e do direito.
Queremos construir juntos uma nova
geração européia.
Os avanços em matéria
de direito de família, em particular
as questões relativas ao divórcio
e ao pagamento das pensões
alimentícias, ao status da
mulher e das crianças, nos
permitirão construir um novo
sentimento de solidariedade européia.
Eis
o que eu queria lhes dizer, de forma
um pouco longa, queiram me desculpar
por isso. Algumas pessoas sonham em
trabalhar no exterior, mas muitas
não ousam. Os Srs., franceses
do exterior, ousaram. Isto é
corajoso e felicito-os. Mas este é
o preço do sucesso: agora os
Srs. são os símbolos
não apenas da irradiação
da França, mas também
da Europa.