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ARTIGO
DO MINISTRO FRANCÊS DAS RELAÇÕES
EXTERIORES E EUROPÉIAS,
BERNARD KOUCHNER,
DO SECRETÁRIO DE ESTADO FRANCÊS
PARA AS RELAÇÕES EXTERIORES,
JEAN-PIERRE JOUYET,
DA SECRETÁRIA DE ESTADO FRANCESA
PARA OS DIREITOS HUMANOS,
RAMA YADE,
E DO SECRETÁRIO DE ESTADO PARA
A COOPERAÇÃO E A FRANCOFONIA,
ALAIN JOYANDET
Paris,
11 de abril de 2008
"Encaremos os distúrbios
e a fome"
A
segurança alimentar é,
hoje, um desafio mundial de emergência
para os países mais pobres. Para
os 400 milhões de pessoas cuja
renda mal permite sobreviver, a escalada
dos preços tem a potência
de uma catástrofe natural. Após
várias capitais africanas e Porto
Príncipe, onde os preços
dos gêneros alimentícios
aumentaram em torno de 100% em dezoito
meses, os distúrbios ligados
à fome poderiam atingir rapidamente
cerca de trinta países. Reunidos
no final de março, os ministros
da Economia e das Finanças dos
países africanos fizeram soar
o alarme denunciando “uma ameaça
significativa para o crescimento, a
paz e a segurança na África”.
Juntamente com Michel Barnier [Ministro
da Agricultura e da Pesca], nós
avaliamos a situação e
decidimos agir diante dessas crises
que vemos se aproximarem e que não
serão apenas humanitárias.
Atingindo populações urbanas
em países onde a juventude não
tem mais esperança e freqüentemente
reina a corrupção, essas
crises serão também sociais
e políticas e constituem questões
de segurança fundamentais.
Nós
conhecemos as suas causas: o aquecimento
climático, em primeiro lugar,
que provoca a desertificação
e o empobrecimento dos solos. Estoques
alimentares no mais baixo nível;
uma demanda crescente nos países
onde o crescimento é rápido,
especialmente na China; uma pressão
maior sobre as terras; um “efeito
dos biocombustíveis” consumindo
áreas cada vez mais extensas.
E depois, como sempre, as colheitas
ruins, com os preços dos cereais
afetando os da carne e do leite. Por
fim, uma certa liberalização
do comércio, que leva à
miséria os pequenos produtores,
submetidos à concorrência
desleal das importações
a preços baixos... sem esquecermos,
é claro, a ascensão dos
preços do petróleo.
Em
nome de sua vocação universal,
em nome da preservação
dos equilíbrios político
e migratório, a França,
como principal produtor europeu, não
pode aceitar que se morra de fome no
século XXI. Se não agirmos
hoje, sofreremos amanhã. A emergência
é, em primeiro lugar, respondermos
ao apelo do Programa Sanitário
Mundial (PAM), que pede 500 milhões
de euros suplementares. Lembremo-nos
de que toda a nossa ajuda alimentar,
inclusive a nossa contribuição
para o PAM, soma hoje 32 milhões...
Além das quantias a serem levantadas,
devemos privilegiar as ajudas pontuais,
incentivar a produção
e apoiar a reconstituição
dos estoques alimentares. Para isso,
devemos apoiar as ONGs, sua perícia,
seu conhecimento do terreno. Devemos
também coordenar melhor a ação
da França. Decidimos proceder
à instalação imediata
de um grupo de trabalho de alto nível
associando os ministérios da
Agricultura e das Relações
Exteriores. Juntam-se a eles os ministérios
encarregados da Ecologia e da Economia,
assim como os institutos de pesquisa.
E devemos tomar a iniciativa de dar
uma resposta européia mobilizando
os financiamentos de emergência
da União.
Além
da emergência, precisamos estimular
reformas estruturais de três ordens.
Em primeiro lugar, uma maior coordenação
em campo entre as principais agências
ou fundos internacionais competentes.
Em seguida, uma conferência mundial
sobre a segurança alimentar nos
países mais frágeis, preparada
com base em um diagnóstico compartilhado,
estabelecido pelos melhores especialistas
do Sul e do Norte. Por fim, a título
nacional, uma estratégia de ajuda
pública para o desenvolvimento
que substitua o objetivo de segurança
alimentar no centro de sua ação.
Porque, por trás dessas crises,
há uma escolha política.
Há anos, as grandes potências
e as organizações internacionais
abandonaram o setor no entanto vital
do desenvolvimento agrícola.
Já é mais do que tempo
de repararmos essas lacunas. Seria necessário
lembrar que, na África Subsaariana,
a agricultura continua ocupando dois
terços da população
ativa?
A
“revolução verde”
pressupõe hoje uma mudança
de escala. A mobilização
deve ser total, em todas as frentes:
pesquisa agronômica, formação
profissional, controle da água,
subvenções para a compra
de sementes... O objetivo deve ser,
a longo prazo, que esses países
sejam dotados de verdadeiras políticas
agrícolas. A perícia francesa
no assunto, reconhecida no mundo inteiro,
deve nos permitir estar na liderança
da luta pela segurança alimentar.
E a Europa, com sua agricultura bem-sucedida
e sua política comum deve desempenhar
plenamente seu papel de fornecedor e
regulador dos mercados mundiais de alimentos,
tema que estará na ordem do dia
da Presidência Francesa da União
Européia. O encarecimento dos
víveres constitui, paradoxalmente,
uma oportunidade para relançarmos
os investimentos no setor agrícola.
A comunidade internacional deve aproveitar
esta oportunidade e tentar, de uma vez
por todas, recolocar a globalização
no lugar...
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