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ENTREVISTA
DA SECRETÁRIA DE ESTADO FRANCESA
ENCARREGADA DAS RELAÇÕES
EXTERIORES E DOS DIREITOS HUMANOS,
RAMA YADE, PARA A REVISTA “PARIS
MATCH”
Paris, 19 de setembro
de 2007
Pergunta: A senhora
leu o livro de Florence Hartmann “Paz
e Castigo” e agora conhece esse
escândalo, a situação
da justiça internacional, um
Tribunal Penal Internacional infiltrado,
as receptações de provas,
os fugitivos protegidos...
Resposta:
É realmente impressionante. Descobre-se
que o Tribunal Penal Internacional estava
nas mãos das grandes potências,
prontas a utilizá-lo como um
instrumento tático. Os TPIs foram
unanimidade na comunidade internacional,
em 1993, para a ex-Iugoslávia
e no ano seguinte para Ruanda e é
espantoso ver como questões de
poder público podem se impor
à justiça. Temos aqui
o exemplo de uma forma de razão
de Estado que tem precedência
sobre a moral e a justiça.
P.:
Direitos humanos, moral, justiça
internacional: como a Senhora pretende
defender esses valores fundamentais
diante dos interesses políticos?
R.:
A justiça internacional faz parte
de minhas três prioridades, juntamente
com a liberdade de expressão
e as violências contra as mulheres
e as crianças, como as violências
de ordem sexual que elas sofrem atualmente
no Darfur ou o fenômeno das crianças-soldados.
Conciliar a “realpolitik”
e a moral, os interesses e os valores
é precisamente o objetivo de
minha missão.
P.:
Qual é a posição
da França?
R.:
O Presidente da República, que
é o chefe da diplomacia, e o
Ministro das Relações
Exteriores devem garantir a continuidade
das relações entre países.
Mas meu papel é assumir o lado
moral nas relações internacionais.
Nicolas Sarkozy criou uma Secretaria
de Estado com as palavras “Direitos
Humanos” e nada o obrigava a isso.
Ele criou essa função
para que se faça alguma coisa.
Os direitos humanos na política
internacional é o direito de
se indignar e de poder dizer “não”
de vez em quando. Mas estas são
palavras que não se deve aviltar,
ou perderão seu sentido.
P.:
Foi a Senhora que desejou esse cargo?
R.:
Não se pede para ser ministro,
isso é proposto. Nas Relações
Exteriores, pensei em primeiro lugar
na questão humanitária.
P.:
A senhora não receia, sejam quais
forem as boas intenções
de início, tornar-se, a exemplo
da justiça penal internacional,
um álibi a serviço da
realpolitik?
R.:
Durante a campanha eleitoral, temia-se
que eu fosse o álibi “minorias”,
já que sou o álibi “jovem”.
Agora você me fala de ser álibi
moral. De qualquer maneira, não
sou eu que renunciarei aos meus credos
para me proteger. Não sou do
tipo que se cala. Não tenho cargo
eleitoral a defender e, depois, só
tenho 30 anos. Faço política
porque acho possível mudar as
coisas. Esta é mesmo a única
razão pela qual o faço.
P.:
Fora as suas três grandes prioridades,
imaginamos a Senhora à espreita
de qualquer derrapagem. A Senhora representa
de certa forma um anteparo do governo.
R.:
Não fui eu que proclamei a França
como o país dos direitos humanos,
foi a França em 1789; mas, agora,
precisamos estar à altura de
nossos compromissos e defendê-los
no cenário internacional. Do
ponto de vista da luta contra a impunidade,
os direitos humanos não podem
ser apenas palavras, discursos, como
acontece muitas vezes. Nós defendemos,
por exemplo, o campo de competência
do Tribunal Internacional de Justiça,
que deve ser universal e mais independente.
Algumas vezes, precisamos agir discretamente.
Faço parte daqueles que intervieram
junto ao governador do Texas para comutar
uma pena de morte em prisão perpétua.
P.:
Mas sabotar o Tribunal Penal Internacional
para a ex-Iugoslávia por razões
de Estado, que muitas vezes são
interesses de indivíduos, não
seria o mesmo que atingir a justiça
internacional como um todo, revelá-la
como uma pura utopia?
R.:
Não acho que a impunidade seja
um conceito vazio! A justiça
penal internacional constitui um grande
projeto para a humanidade. Fazer justiça
às vítimas é primordial,
assim como divulgar a verdade sobre
os crimes. E depois, os ditadores, todos
esses dirigentes que utilizam a violência
para governar seus povos, sabem agora
que podem ter que prestar contas de
seus atos perante a justiça.
P.:
O direito de ingerência torna-se
portanto um dever?
R.:
Certamente. Não existe
mais autarcia. Todo país está
hoje submetido ao olhar da comunidade
internacional. Eu vivi até os
oito anos no Senegal e me sinto pessoalmente
uma filha da universalidade. E se os
Estados não fizerem justiça,
as ONGs, os artistas, os intelectuais
o exigirão... Em nossa sociedade
multilateral, onde todos assistem aos
mesmos veículos de comunicação,
não é mais ingerência,
mas um dever proteger as populações
civis. E a mobilização
da opinião pública é
muitas vezes mais eficaz do que a dos
Estados, tenho certeza.
P.:
Srebrenica conquistada com sangue foi
oferecida às autoridades responsáveis
por genocídios pelos acordos
de Dayton, que selavam a divisão
de um país-membro das Nações
Unidas. Com base nas revelações
contidas nesse livro, teria chegado
a hora de se repararem os erros do passado?
R.:
Em Srebrenica, algo de irreparável
aconteceu. Quanto aos acordos de Dayton,
se seu mérito foi fazer com que
o sangue parasse de correr, está
claro, por outro lado, que eles não
resultaram numa solução
política viável e que
deverão ser revistos.
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