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Política Internacional e Diplomacia

ENTREVISTA COLETIVA DE IMPRENSA
DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA FRANCESA, NICOLAS SARKOZY,
E DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL,
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

- PALAVRAS DE SARKOZY –

- TRECHOS –

São Jorge do Oiapoque, 12 de fevereiro de 2008


Senhoras e Senhores,
Caro Presidente Lula,

Eu gostaria de dizer o quanto a França está feliz em acolher, como vizinho, o Presidente do Brasil. O Presidente Lula e eu tomamos um certo número de decisões importantes.

A primeira foi essa famosa ponte de que se fala há oito anos, sem que se veja a sua realização. As obras começarão neste ano, para a inauguração em 2010. O Tratado foi ratificado e foi lançada a declaração de utilidade pública para a construção dos cinco quilômetros de estrada necessários do lado francês.

Foi com o mesmo espírito que o Presidente Lula e eu desejamos desenvolver a parceria estratégica entre o Brasil e a França. Queremos concretizar essa parceria estratégica: nos planos militar, político, diplomático, educacional e ambiental. Uma delegação de alto nível irá ao Brasil para discutir a respeito do conteúdo do plano e irei ao Brasil, no final de 2008, para assinar essa parceria estratégica.

Quero dizer, por fim, que o mundo precisa que o Brasil assuma inteiramente seu lugar nas instâncias internacionais. Quero repetir, com a maior veemência, que o G-8 deve transformar-se em G-13, que nós precisamos, na próxima reunião de cúpula de Tóquio, de um momento importante de discussões que não seja no formato de G-8, mas no formato de G-13. E quero repetir que a França deseja que o Brasil seja membro do Conselho de Segurança, membro permanente do Conselho de Segurança. A respeito de todas as questões internacionais e bilaterais, o Brasil e a França estão de acordo.

Eu gostaria finalmente de agradecer ao Presidente Lula pela participação que teve nos esforços pela libertação de Ingrid Betancourt.

Pergunta: Senhor Presidente, uma pergunta a respeito da ponte que irá ligar o Brasil à Guiana francesa. Os produtos brasileiros vindos do Brasil com destino à Guiana francesa têm que ser colocados em contêineres e receber um carimbo da União Européia para poderem chegar ao outro lado. Os brasileiros que desejem ir à Guiana francesa têm que pagar mais de 200 reais para obter um visto. Não existe reciprocidade: os franceses podem simplesmente entrar com seus passaportes, sem te que pagar coisa alguma. Será que essa ponte mudará a realidade da situação na região? Será que os mais de 50.000 brasileiros que vivem como clandestinos aqui, na Guiana francesa e trabalham todos os dias terão um tratamento diferente a partir do momento em que o Brasil se aproximar da Guiana francesa graças ao mercado comum europeu e à ponte?

Resposta: As coisas devem ficar claras. Eu disse aos nossos amigos da Guiana francesa que eles deveriam se voltar para o Brasil e não apenas para a metrópole, que o desenvolvimento econômico da Guiana francesa passava pela colaboração e pela abertura com o Brasil. Esta é a primeira observação.

A segunda observação é a seguinte: juntamente com o presidente Lula – e cada um tem seus problemas – precisamos examinar um certo número de questões que, para serem resolvidas, necessitam a colaboração entre o Brasil e a França. Refiro-me ao problema da pesca, ao problema do garimpo e ao da imigração. É preciso que as coisas fiquem claras entre nós: teremos total firmeza contra o tráfico e os traficantes. A política da França é a abertura para o Brasil, para os brasileiros e a amizade com o Brasil.

Por outro lado, não acredito na perenidade de um sistema que consiste em fazer com que se pague por uma entrada, porque com um sistema dessa natureza, complica-se a vida dos que querem fazer negócios ou ver suas famílias, e se é totalmente ineficaz na luta contra os clandestinos. Portanto, a partir da ponte, vamos reforçar nossa colaboração para trabalharmos de mãos dadas, brasileiros e franceses, contra todos os traficantes. Também nesse aspecto, estamos prontos a rever todas as nossas regras, porque precisamos uns dos outros.

P.: Senhor Presidente, o Senhor falou há pouco da abertura, mas será que ela será benéfica às duas partes? A economia brasileira está em pleno desenvolvimento, desenvolvimento comercial que este departamento francês não possui. A Guiana não estaria correndo o risco de ser afogada diante desse gigante brasileiro?
A minha segunda pergunta é a respeito da questão da segurança. A colaboração será efetiva na luta contra a imigração clandestina e a criminalidade?

R.: O Senhor tem realmente os dados estratégicos na cabeça: a Guiana francesa corresponde ao território de Portugal, com 210.000 habitantes. Não é um mercado suficiente para ter um desenvolvimento econômico endógeno. O Brasil é um país cuja superfície é 40% maior que toda a Europa dos 27. Suas necessidades são imensas e seu crescimento é de 7%. Quando se tem 700 quilômetros de fronteira com um gigante como esse, trata-se de uma oportunidade, não de um risco. Não tenho a intenção de colocar a Guiana francesa numa redoma.

O Senhor acha que, no sudeste asiático, a China, que é um gigante de um bilhão e trezentos milhões de habitantes, é um problema para seus vizinhos? O Senhor acha que a Índia, que possui um bilhão de habitantes, é um problema econômico para seus vizinhos? Errado. É uma oportunidade, pois um gigante econômico atrai todos os outros países. Trata-se de uma oportunidade para a Guiana.

Como o Senhor quer que lutemos de forma eficaz contra os traficantes e o tráfico se não trabalharmos de mãos dadas com os brasileiros? É a primeira vez que dois presidentes engajam-se com firmeza na luta contra o tráfico e os traficantes. Esta é uma boa novidade. Trata-se da abertura da Guiana. Trata-se do interesse da França e do Brasil e o que vamos assinar é histórico. Trata-se da única solução para um desenvolvimento forte da Guiana.

P.: Houve progressos nas discussões na área da defesa? Além da venda de aviões de caça e de submarinos ao Brasil, a França está pronta a transferir tecnologia ao Brasil a fim de que o Brasil possa desenvolver seus equipamentos?

R.: Sim. Eu disse ao presidente brasileiro que, a respeito da questão dos submarinos, nós estávamos prontos a fazer com que um submarino Scorpène seja fabricado no Brasil. Sobre a questão dos aviões de combate, assim como dos helicópteros, estamos prontos a organizar transferências de tecnologia para que helicópteros e aviões de combate – penso especialmente no Rafale – sejam fabricados no Brasil. Mas eu lhe disse que desejávamos que essa parceria global fosse colocada sob um selo que não fosse destinado exclusivamente à entrega de material militar. Nossa ambição é maior.

Queremos agir juntos, refletir juntos, construir juntos, falar juntos. E, para ser totalmente claro, não existem tabus. O Brasil é uma grande potência democrática que reflete a respeito das condições de sua segurança e este é um direito absoluto seu. O Brasil é um amigo da França. Estamos portanto totalmente dispostos a trabalhar com o Brasil, com toda transparência, juntamente com nossos aliados e amigos. Não há qualquer dificuldade ou qualquer segredo. Os Senhores estão assistindo à vontade de dois grandes países de trabalhar e refletir juntos. A serviço de quê? A serviço da paz no mundo. Em suma, foi exatamente sobre isso que conversamos.

(...)

R.: Eu gostaria de dizer, sob esse ponto de vista, que acho inverossímil que se possa imaginar falar das grandes questões do mundo sem convidar à mesa de discussões um único país africano e um único país da América do Sul, como se os dois continentes não existissem. Peço verdadeiramente aos meus colegas para refletirem sobre isso. Digo isso porque é o que realmente penso. A América do Sul tem sua importância. A África tem sua importância. A Índia e a China têm sua importância. Esse sentimento de que haveria um diretório do mundo do qual se evacuariam dois bilhões e meio de habitantes é uma idéia que não é muito razoável. É por esta razão que continuarei militando para convencer meus amigos de que precisamos ter o Brasil, a Índia, a China, o México, a África do Sul e um país árabe a mais. É dessa forma que se pode enfrentar as grandes questões do mundo. Do contrário, isso daria o sentimento a todas as partes do mundo de que elas não têm importância. A concepção que nós temos, o Brasil e a França, é de que um ser humano vale um ser humano. Acho que isso é realmente muito importante.

(...)


 
 

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