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Política Internacional
e Diplomacia |
VOTOS
DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA FRANCESA,
NICOLAS SARKOZY, AO CORPO DIPLOMÁTICO
PARA O ANO DE 2008
Paris, 18 de janeiro
de 2008
Senhor Primeiro-Ministro,
Senhor Ministro das Relações
Exteriores e Européias,
Senhoras e Senhores Ministros,
Senhoras e Senhores Embaixadores,
Dou-lhes
as boas-vindas. Dirijo meus mais sinceros
votos aos Senhores e a todos os seus
familiares e peço-lhes que transmitam
aos seus Chefes de Estado os desejos
que formulo em sua intenção
e na de seus países, que os Senhores
tão bem representam na França.
Senhor Núncio,
Agradeço
por suas palavras e peço-lhe
que transmita a Sua Santidade o Papa
Bento XVI, que teremos a honra de receber
na França este ano, a expressão
de minha sincera gratidão pela
acolhida tão calorosa que me
proporcionou há um mês
no Vaticano.
Senhoras
e Senhores Embaixadores,
Ao
recebê-los esta tarde, não
desejo voltar a fazer uma análise
detalhada da situação
do mundo e a descrição
do papel da França que eu havia
apresentado em 27 de agosto aos embaixadores
franceses: os Senhores conhecem o texto;
ele continua sendo atual. Considero
de utilidade dizer-lhes hoje quais são
as convicções e as reflexões
que subentendem a ação
internacional da França e apresentar
aos Senhores as prioridades desta ação
em 2008.
No
fundo, uma convicção inspirou
toda a minha vida política e
me anima desde que os franceses confiaram-me
o primeiro cargo do Estado: não
fui eleito para me inclinar diante das
fatalidades. Além disso, não
creio em fatalidade. Fui eleito para
criar oportunidades, para mudar a França
através de um processo contínuo
de profundas reformas. Fui eleito com
a convicção de que a França
possuía um papel importante,
talvez até insubstituível,
no cenário internacional. Fui
eleito com a vontade, a mais completa
determinação de agir,
de conduzir uma política externa
coerente, ambiciosa e eficaz.
A
segunda convicção é
a de que o ponto de partida dessa política
externa deve ser uma análise
lúcida, realista da posição
que a França ocupa no mundo de
hoje. Ora, se é relativamente
fácil avaliar o que representa
a França, é bem difícil
definir o mundo deste início
de século XXI e mais difícil
ainda prever o que será dele
nas próximas décadas.
Dois
desafios contribuirão para estruturar
a sociedade internacional do século
XXI, talvez mais profundamente do que
fizeram as ideologias no século
XX.
O
primeiro desafio é o da mudança
climática, que ameaça
o próprio futuro de nosso planeta
e de toda a humanidade, que coloca a
questão da gestão de recursos
energéticos tornados raros e,
portanto, caros, e mais difícil
ainda, a de nossa capacidade para inventarmos,
juntos, um novo modo de crescimento.
O
segundo desafio é o das condições
da volta da questão religiosa
à maior parte de nossas sociedades.
Trata-se de uma realidade que apenas
os sectários não percebem.
Trata-se de uma realidade incontornável
que havia sido prevista por Malraux,
em sua época. Em meu discurso
de Saint-Jean de Latran, discurso pelo
qual tenho muito apreço, Monsenhor,
eu precisei a minha concepção
de uma laicidade na qual o lugar da
religião seria definido em termos
mais positivos. Diante do Conselho Consultivo
da Arábia Saudita, em Riad, nesta
semana, fiz eco às palavras plenas
de sabedoria do Rei Abdallah e defendi
uma concepção aberta,
tolerante da religião. Alguns
grupos querem impor sua visão
fundamentalista, hegemônica e
intolerante. A forma mais extrema é
a das redes terroristas globais, como
a Al Qaeda, que sonham com uma confrontação
entre o Islã e o Ocidente, para
melhor ditarem sua lei a povos que,
no entanto, só pedem para viver
sua fé em paz.
O
mundo, estou convencido disso, pode
enfrentar esses dois desafios, mas com
uma condição: encontrar
o caminho da unidade. Aí está
a grande questão: como chegar
a essa unidade indispensável
para enfrentar o desafio da mudança
climática e o do lugar de uma
religião tolerante no mundo?
Como fazer para conseguir isso? E, acima
de tudo, seremos capazes de fazê-lo?
Nós
saímos das certezas simples do
mundo bipolar, estável mas injusto,
que nos impôs sua lei de 1945
a 1990. Alguns países pagaram
caro, em termos de sofrimento, por esse
mundo estável. Aliás,
para mim, a estabilidade não
é um objetivo de política
externa. Eu desconfio disso. Em nome
da estabilidade, aceitou-se o muro de
Berlim; em nome da estabilidade, nada
se diz de Yalta; em nome da estabilidade,
considera-se que alguns povos têm
direito à liberdade e outros
só têm direito à
ditadura. A estabilidade não
é um objetivo, se essa estabilidade
levar à perenidade de um sistema
injusto. Mas nós não estamos
mais no mundo unipolar que se esboçava
entre 1991 e 2001. Palavras que soavam
bem há apenas alguns anos, como
“hiperpotência”, não
são mais correntes hoje. Nem
mesmo são mais empregadas. Nós
entramos, sem dúvida pelas próximas
três ou quatro décadas,
em uma era de potência relativa.
O crescimento econômico e político
da China, da Índia e do Brasil,
e o retorno da Rússia criam as
condições objetivas para
um novo concerto das grandes potências,
de um mundo multipolar do qual a União
Européia poderá tornar-se
progressivamente um dos pólos
mais ativos, se ela apenas tiver essa
determinação.
Entre
essas grandes potências do século
XXI, resta ainda a inventar relações,
inventar instituições
que lhes possibilitem agir de modo eficaz
pelo bem comum da Humanidade. As noções
de inimigo ou adversário não
são mais correntes entre elas.
Toda a questão reside em se saber
se é possível fazer com
que prevaleçam acima das idéias
de concorrência e rivalidade,
a de parceria responsável. Toda
a questão é saber se seremos
capazes de construir para o século
XXI uma nova ordem, mais adequada ao
nosso mundo globalizado e aos desafios
a serem enfrentados, onde todos os Estados,
todos, grandes e pequenos, tenham o
sentimento de que seus interesses são
levados em conta eqüitativamente.
A
essas questões fundamentais,
eu desejo, juntamente com Bernard Kouchner
[Ministro das Relações
Exteriores e Européias], dar,
em nome da França, respostas
que marquem uma certa ruptura, eu o
assumo, e que estejam inscritas em uma
visão a meu ver coerente do papel
da França.
Eu
quis primeiramente situar a França,
franca e claramente - e esta é
a primeira ruptura – no seio da
família ocidental. Em um mundo
que perdeu as referências, onde
a confusão tende a reinar precisamente
porque empreendemos uma transição
rumo a uma ordem que ainda está
por ser inventada, parece-me ser essencial
afirmar com clareza onde situa-se a
França e quais são os
valores que, para ela, são essenciais.
Esse
reposicionamento não significa
absolutamente um abandono ou um atentado
a nossa independência ou a nossa
liberdade de expressão e ação.
Eu afirmei com veemência perante
o Congresso dos Estados Unidos: a França
é “um amigo dos Estados
Unidos da América, um amigo bem
apoiado nos pés, um aliado independente,
um parceiro livre”. Ao situar-se
claramente na família ocidental,
a França – e era esse o
meu objetivo – aumenta a sua credibilidade,
a sua margem de ação,
a sua capacidade de influência
tanto no interior, quanto no exterior
de sua família. Aliás,
como se pode esperar ter influência
em sua família se, ao mesmo tempo,
não se tem mais aí o seu
lugar, ou se os membros dessa família
política não lhe depositam
confiança? A capacidade de influência
da França sobre a sua família
ocidental está relacionada à
clareza de seu engajamento e de suas
escolhas.
Nossa
prioridade absoluta no interior da família
ocidental é a construção
da União Européia. Graças
ao Tratado Simplificado, após
dez anos de um debate paralisante a
respeito de suas instituições,
a Europa encontra-se finalmente mais
uma vez em marcha e a França
retomou seu lugar no coração
da União. Já era tempo
e, em um novo posicionamento, a França
assumiu seu lugar: além do entendimento
franco-alemão, que é,
mais do que nunca, essencial, eu quis
logo de início estabelecer relações
de trabalho estreitas e confiantes com
a Comissão e com o Parlamento
Europeu. Eu quis que a França
estivesse à escuta e ao lado
dos novos países-membros da Europa
Central, que têm muito a nos oferecer
e não sou daqueles que pensam
que têm menos a dizer porque são
os últimos a chegar à
família. Ou se está na
família, ou não se está.
Se fazemos parte da família,
temos o mesmo direito à palavra
que os outros. Eu quis estreitar nossos
laços, aliás, com nossos
parceiros mediterrâneos.
Mas,
todos sabem que a ambição
francesa de ver emergir a União
Européia como um ator global
do século XXI suscitava desconfianças,
especialmente na área da defesa.
A França não estaria querendo
enfraquecer e até destruir a
Aliança Atlântica? A essa
suspeita, eu quis dar uma resposta clara
e o fiz perante o Congresso nos Estados
Unidos. Diante da amplitude das ameaças
e das crises, o desenvolvimento de uma
Europa da defesa eficaz é uma
necessidade estratégica. Esta
é, portanto a minha prioridade
para os próximos anos. Opor-se
à Aliança Atlântica
não tem o menor sentido. A Europa
da defesa e a ancoragem atlântica
são duas partes de uma mesma
política de defesa e segurança.
É
dentro desse contexto que a França
pretende renovar sua relação
com a OTAN. Precisamos agora pôr
mãos à obra e a França
fará propostas ao mesmo tempo
pragmáticas e ambiciosas, com
uma dupla perspectiva: a Presidência
Francesa da União e a Reunião
de Cúpula do 60º Aniversário
da Aliança.
No
exterior da família ocidental,
em seguida, nosso reposicionamento,
ao que me parece, reforçou nossa
credibilidade e o peso de nossa mensagem.
Foi o que ocorreu em Pequim, quando
expus nossos pontos de vista sobre a
necessidade de um reequilíbrio
das relações entre as
principais moedas, depois de ter falado
a respeito anteriormente com os Estados
Unidos, sendo imediatamente seguido,
na China, pelos presidentes do Banco
Central Europeu e do Eurogrupo e, depois,
pelo da Comissão. Foi o que ocorreu
quando, depois de ter consultado especialmente
o Egito e a Arábia Saudita, e
com os encorajamentos dos principais
dirigentes envolvidos, decidi dar início
a um diálogo a respeito do Líbano
com o presidente sírio.
E
isso me levou à segunda inovação
que desejei introduzir em nossa política
externa: espero que possamos conduzir
uma diplomacia da reconciliação.
Nesse
período de potência relativa
marcado por uma contestação
crescente da legitimidade das intervenções
externas e um agravamento paralelo das
divisões religiosas, étnicas
e sociais, a França deve dialogar
com todo o mundo. Ela deve procurar,
com obstinação e pragmatismo,
reduzir os fatores de tensão
e progredir em direção
a soluções de paz adequadas
aos princípios que nos inspiram.
Este
é o sentido do diálogo
que reatamos, na África, com
os presidentes de Ruanda, do Sudão
e da Costa do Marfim. Este é
o sentido da acolhida que proporcionei
ao Presidente Chavez ou o coronel Kadhafi.
Se não levássemos em conta
gestos realizados pelo dirigente líbio
ao renunciar às armas de destruição
em massa sob controle internacional,
ao renunciar ao terrorismo com indenização
às vítimas, libertando
as enfermeiras búlgara, que mensagem
enviaríamos aos dirigentes da
Coréia do Norte ou do Irã,
quando buscamos convencê-los a
pôr um fim à proliferação
[de armas]? Isto significa ter um mínimo
de coerência e coragem.
Mas
devemos ser claros: essa diplomacia
da reconciliação não
é absolutamente uma diplomacia
da complacência. Por estarmos
francamente no coração
de nossa família ocidental, é
portanto com base em nossos valores
e nossos princípios que conduzimos
esses diálogos, fundados na clareza,
na transparência e na firmeza.
Foi com esse espírito que tomei
a iniciativa em favor das enfermeiras
búlgaras ou dos reféns
da Colômbia, em particular de
Ingrid Betancourt, que deve voltar para
casa sem demora. Foi com esse espírito
que me pronunciei em Pequim contra a
pena de morte e pela liberdade de imprensa,
ou em Moscou, pelo respeito aos direitos
das minorias étnicas ou sociais.
E quando as orientações
autorizados de um diálogo não
são respeitadas, ou quando esse
diálogo não obtém
os resultados esperados, cabe-me, com
toda a clareza, agir em conseqüência
disso. Foi o que fiz a propósito
da Síria e do Líbano,
que tem o direito a sua independência,
ponto sobre o qual a França jamais
transigirá e jamais renunciará.
A
terceira inovação de nossa
política externa diz respeito
à noção, que me
é muito cara, de diversidade,
com seu corolário: a reciprocidade.
Dediquei a isso a parte essencial de
meu discurso em Constantine, na Argélia.
Na Europa, Senhoras e Senhores, mais
do que em qualquer outro lugar, nós
vivemos, com o holocausto, o horror
absoluto ao qual leva a negação
do Outro, de sua diferença, seja
ela étnica, religiosa ou cultural.
A mesma negação do Outro
levou ao genocídio de Ruanda.
Hoje,
é no campo religioso, com o crescimento
dos fundamentalismos, que vemos surgir
a tentação da exclusão,
do encarceramento e da negação
do outro.
Tanto
quanto o combate pela democracia, quero
dizer que o combate pela diversidade,
pela abertura, pela tolerância,
pela aceitação do outro
em sua diferença, parece-me ser
fundamental. Ele é, de certa
maneira, a condição prévia
para a extensão das liberdades
e o enraizamento da democracia. Aliás,
não vejo como se pode pensar
em enraizamento da democracia quando
se começa por não aceitar
a diferença.
Que
fique bem claro: eu sou favorável
ao desenvolvimento das religiões,
assim como ao direito de cada um de
não seguir nenhuma, ou de mudar.
Esta é a minha concepção
da laicidade. E foi nesse sentido que,
na qualidade de ministro do Interior
durante quatro anos, autorizei a abertura
de um número sem precedentes
de mesquitas na França, pois
o Islã agora é a nossa
segunda religião e deve-se dar
a possibilidade a todos os que desejarem
viver sua fé com dignidade e
tolerância. Mais do que nenhum
outro, contribuí para o surgimento
de um Islã da França.
E é exatamente por esta razão
que defendo com a mesma convicção
que, em terras do Islã, seja
possível praticar sua religião,
seja ela qual for, com dignidade e tolerância.
Como
poderiam, aqueles que reivindicam a
abertura de mesquitas na França,
recusar a abertura de igrejas por toda
parte onde esta seria justificada? A
diversidade não é boa
em nossa casa e é má nas
dos outros. A diversidade está
por toda parte. E, naturalmente, se
a França quiser ser ouvida, que
ela dê o exemplo e esteja pronta
a fazê-lo. Mas a diversidade e
a reciprocidade caminham juntas.
E,
aliás, no fundo, o que está
em questão no Líbano não
é justamente a sobrevivência,
como Estado soberano e independente,
de um povo que, através da história,
ofereceu ao mundo o mais belo exemplo
de coabitação harmoniosa,
com tolerância e respeito, entre
as grandes religiões monoteístas?
Se é o país que se quer
fazer morrer, a França estará
do lado desse país para ajudá-lo
a viver. Porque o que está em
jogo no Líbano vai mais além
ainda do que apenas o Líbano.
A
última inovação
de nossa política externa diz
respeito à construção
de uma ordem mundial adequada ao surgimento
de novas potências e capaz de
tratar de modo eficaz os desafios do
século XXI. Nas Nações
Unidas, desejo um relançamento
enérgico das reformas, a começar
pela do Conselho de Segurança,
que deve ser ampliado, como todos sabem,
nas duas categorias de membros. E tudo
deve ser feito para que o processo de
Bali, único quadro legítimo
para se tomarem decisões e concluir-se
um acordo, resulte, em dezembro de 2009,
na assinatura de um tratado à
altura do colossal desafio ao qual toda
a Humanidade está confrontada
com o aquecimento climático.
A
reforma do Fundo Monetário Internacional
não é menos necessária
e estou feliz que um francês tenha
sido levado à sua direção
para conduzir essa mudança indispensável;
para refletir melhor na instituição
o peso econômico das principais
potências, especialmente das grandes
economias emergentes; para tratar, por
fim, espero, com outras instituições
competentes, de temas fundamentais,
como o da renda, Senhor Presidente Abdou
Diouf, essa renda que coloquei no centro
de minha primeira intervenção
perante a Assembléia Geral das
Nações Unidas, em setembro
passado. As monarquias petrolíferas
felizmente tomaram a iniciativa de criar
um fundo para ajudar os países
mais pobres a saldar a fatura energética
e desejo que os grandes grupos de petróleo
e de minas, que se beneficiam de lucros
que se assemelham a uma renda, alimentem,
por sua vez, um fundo semelhante. O
objetivo não é nos dar
prazer, é simplesmente refletir.
Se, amanhã, países se
revoltarem porque a pobreza e a injustiça
se lhes tornarem insuportáveis,
esses mesmos países que hoje
têm lucros consideráveis
serão os primeiros a ver as fontes
de lucro destruídas. Não
é proibido refletir neste início
de século XXI a respeito do que
é uma ordem mundial, política
e econômica, razoável.
E
eu o afirmo com a mesma veemência:
o G-8 também deverá mudar.
Ele continua sendo um instrumento incomparável
de diálogo informal e impulsão.
Mas, quem não vê que esse
G-8 deve ser ampliado à China,
à Índia, ao Brasil, ao
México e à África
do Sul, que, aliás, reuniram-se
formando o G-5? Concordamos, mas progressivamente.
Façamos em três vezes o
que poderia ser feito em uma só
vez, já que se deve ser paciente.
E quem não percebe que a paciência
justifica tantos dramas pelo mundo,
quando já é mais do que
hora de agir? É preciso tempo,
é o que se diz. Mas eu espero
que, já na próxima reunião
de cúpula, no início de
julho, no Japão, possamos dar
um passo significativo nessa direção.
Estou
convencido de que, ao manifestar essa
posição, a França
expressa uma posição de
bom senso. Como falar das questões
do mundo ignorando nada menos do que
dois bilhões e meio de habitantes
do mundo? Podemos refletir: a França
não está nas mãos
de qualquer país quando se faz
de advogada da China, da Índia,
do Brasil, do México e da África
do Sul. Mas, francamente, ir falar das
grandes questões do mundo sem
ter à mesa um único país
africano, sem ter à mesa um único
país da América do Sul?
Se refletirmos um pouquinho, veremos
que, ao ignorarmos a Índia e
a China, devemos nos dizer que é
incivelmente divertido que as coisas
funcionem apesar de tudo. Eu disse isso
assim, de maneira franca, porque é
o que penso profundamente.
Senhoras
e Senhores Embaixadores,
Dentro
desse contexto, quais devem ser as prioridades
da ação internacional
da França em 2008?
Em
primeiro lugar, a União Européia,
com, após a de nossos amigos
eslovenos, a Presidência Francesa
no segundo semestre, e quero saudar
aqui, Caro Jean-Pierre Jouyet [Secretário
de Estado para os Assuntos Europeus],
a Presidência de nossos amigos
eslovenos. Além da preparação
da implementação do Tratado
Simplificado e dos trabalhos referentes
à defesa, com Bernard Kouchner
e Jean-Pierre Jouyet, desejamos que
a Europa faça progressos nas
áreas que preocupam os europeus.
E se, agora, a Europa se colocasse a
serviço dos povos da Europa?
O
clima, em relação ao qual
a União deverá esclarecer
a maneira como pretende enunciar os
compromissos dos 27 países-membros
para garantir o sucesso da negociação
de Bali. Com o “Grenelle”
do meio ambiente, a França engajou-se
na invenção de um novo
modelo de crescimento; esta é
uma iniciativa semelhante à que
deveríamos adotar em nível
europeu. Aliás, qual seria o
peso da palavra da França se
ela dissesse aos outros, especialmente
a nossos amigos americanos: façam
o que somos capazes de fazer? Queremos
fazê-lo estabelecendo regras mais
severas para nós do que para
os outros, para levá-los a nos
acompanhar, porque – não
repitam isso – nós habitamos
o mesmo planeta, e o aumento do nível
dos oceanos levará todos nós,
se não tomarmos cuidado.
A
energia será uma outra prioridade,
para garantir mais a nossa solidariedade
através da interconexão
crescente das redes e nossa independência
desenvolvendo sistematicamente a diversificação
de nossas produções, assim
como a de nossos fornecedores.
A
imigração não é
uma palavra grosseira, com a aprovação
pelos 27 [países-membros da U.E.]
de um “pacto europeu” que
defina grandes princípios, estabeleça
objetivos, como um regime europeu de
asilo e implemente ações
comuns.
Por
fim, a agricultura, para a qual estamos
buscando, ainda este ano, um acordo
sobre os princípios que permitam
uma verdadeira “refundação”
da PAC [Política Agrícola
Comum] do pós-2013.
A
União deverá também
assumir mais as suas responsabilidades
internacionais, do Chade com o envio
da força européia em fevereiro,
aos Bálcãs, com a delicada
gestão da transição
no Kosovo. Porque o statu quo na região
não é mais viável
e porque todas as vias de negociação
foram exploradas, sem a menor sombra
de sucesso. A União deverá
implementar, em unidade e com firmeza,
a única solução
aplicável: a que está
sobre a mesa. Mas ela também
terá que oferecer aos países
da região, especialmente na Sérvia,
perspectivas credíveis de aproximação
e integração na família
européia. Eles são europeus
e é preciso agir em conformidade
com isso.
2008
também será o ano do lançamento
de um grande projeto de civilização:
a União pelo Mediterrâneo,
a fim de tornarmos vivos, entre os povos
dessa região, o diálogo
e a cooperação, com base
em projetos concretos. A reunião
de cúpula proposta em Paris,
nos dias 13 e 14 de julho, com a presença
de todos os membros da União,
possibilitará a abertura dos
primeiros trabalhos concretos.
Essa
grande ambição será
facilitada se, como foi previsto em
Annapolis, 2008 tornar-se o ano da criação
do Estado Palestino, ao lado do Estado
de Israel.
Digo
2008 porque não vejo, também
nesse aspecto, por que esperar. Mais
de um século de sofrimentos,
de todos os lados, não seriam
suficientes para decidirmos, enfim,
passar à ação?
Não subestimo as dificuldades,
mas será que se acredita que,
em dez anos, as dificuldades serão
menores? Elas serão piores. E
o sucesso estrondoso da conferência
de doadores, de Paris, demonstrou a
expectativa e o engajamento de toda
a comunidade internacional. Irei ao
Oriente Médio na primavera para
afirmar com veemência nosso apoio
aos dois principais negociadores: o
Primeiro-Ministro Ehud Olmert e o Presidente
Mahmoud Abbas, com uma mensagem simples:
a paz é possível! Seus
dois povos esperam por isso! Portanto,
assumam todos os riscos a serviço
da paz! É, sem dúvida,
mais positivo assumir todos os riscos
a serviço da paz, do que acumulá-los
a serviço da guerra. Também
é agora que se deve fazer com
que o Líbano saia de uma crise
que não chega ao fim, e essa
crise não tem fim – darei
os nomes aos bois – porque é
alimentada do exterior. A Liga Árabe
aprovou por unanimidade um plano de
resolução que vem inteiramente
ao encontro das idéias apresentadas
pela França. É preciso,
com base nisso, que cada um assuma suas
responsabilidades, tanto no interior
quanto no exterior do país, e
que a comunidade internacional julgue
cada ator por seus atos. A França
permanecerá engajada ao lado
dos libaneses, de todos os libaneses.
A
respeito do Irã e seu programa
nuclear, os Senhores conhecem a posição
da França. Nada do que ocorreu
desde então leva-me a modificar
meu julgamento e, portanto, a abordagem
da França. Essa abordagem é
feita de firmeza, pois as sanções
são necessárias para convencer
os dirigentes iranianos a voltar à
mesa de negociações e,
ao mesmo tempo, de diálogo, empreendido
em meu nível, pois nosso objetivo
não é absolutamente a
mudança de regime, mas, ao contrário,
a inserção do Irã,
em sua região, em ator positivo,
desde que respeite a lei internacional.
Isto é de seu interesse, assim
como é de seu interesse acalmar
hoje as tensões entre sunitas
e chiitas, do Iraque ao Líbano,
ou evitar amanhã uma nova “talibanização”
do Afeganistão, que não
precisa verdadeiramente disso.
Evoquei
há alguns instantes nosso mundo
em transição, no qual
dois grandes desafios, o do clima e
o do extremismo religioso, poderiam
bem encarregar-se de estruturar a sociedade
internacional em torno do confronto.
É isto que pode vir a acontecer
se os países envolvidos, por
cálculo ou por miopia, não
conseguirem tratar em unidade o desafio
da Al Qaeda. Estou convencido de que
os desdobramentos no Paquistão
ou no Afeganistão, as ameaças
globais que isso traz, pedem um diálogo
entre todas, reafirmo, todas as potências
que possam ter um peso no bom curso
das coisas. Nós precisamos de
todo o mundo.
Em
comum acordo com o Presidente Karzai,
a França sediará a próxima
conferência de apoio ao Afeganistão
e reforçará, nessa ocasião,
seu compromisso. Agradeço a Bernard
Kouchner por essa iniciativa. A França
tomará essa iniciativa ao lado
do Paquistão, gravemente desestabilizado
após o monstruoso assassinato
de Benazir Bhutto e receberei o presidente
Musharraf em Paris dentro de alguns
dias.
Existe,
por fim, um continente que ocupa um
lugar à parte no coração
dos franceses: a África. Mais
do que qualquer outro país europeu,
a França está muito próxima
a ela. Talvez seja essa mesma proximidade
que nos torne difícil uma constatação
simples: a África mudou e a relação
da França com a África
também deve mudar. É claro
que a França permanecerá
como a mais determinada advogada da
África na Europa e nas grandes
instituições internacionais.
A França lutará para que
sejam duradouros os progressos da paz,
dos direitos humanos, do crescimento
econômico indissociáveis
dos Objetivos do Milênio. Mas,
localmente, desejo uma ação
mais próxima à sociedade
civil, deliberadamente voltada para
a juventude, preocupada em atender às
suas expectativas. Espero de nossos
embaixadores propostas precisas com
relação a isso e Jean-Marie
Bockel [Secretário de Estado
para a Cooperação e a
Francofonia] fará a sua síntese.
Desejo
também implementar essa diplomacia
da reconciliação que me
é tão cara em relação
a Angola, aonde me dirigirei em breve,
para selar, juntamente com o Presidente
Santos, os reencontros franco-angolanos;
com Ruanda, com a esperança de
que 2008 seja o ano do restabelecimento
de nossas relações; no
Sudão e no Chade, onde, juntamente
com Bernard Kouchner, estamos trabalhando
sem descanso pela solução
duradoura da crise. Existe bastante
pobreza nessa região do mundo
para que o Chade e o Sudão decidam
coexistir pacificamente; na Costa do
Marfim, onde a realização
de eleições livres e garantidas
pela ONU abriria o caminho para uma
normalização que todos
desejam.
2008,
enfim, será um ano de grande
incerteza no que se refere à
evolução da economia mundial,
com os efeitos acumulados da crise das
“subprimes” e do aumento
dos preços das matérias-primas,
especialmente energéticas. Esta
é, para mim, uma razão
suplementar para acelerarmos as reformas,
tanto na França quanto no âmbito
internacional, para provocar o retorno
da confiança e do crescimento.
É nisso que nos empenhamos, François
Fillon [Primeiro-Ministro] e eu. Vejo
nos riscos econômicos internacionais
uma necessidade a mais de reformarmos
rapidamente a França. E não
uma necessidade a menos. Não
estamos reformando porque existe crescimento,
ou porque é fácil. Reformamos
justamente porque existem dificuldades.
E, portanto, quanto mais dificuldades
existirem, mais reformas implementaremos,
mais será preciso modernizarmos
nosso país.
No
espaço de uma geração,
nós assistimos finalmente a um
reequilíbrio sem precedentes
da repartição da riqueza
mundial, com a transferência acelerada
das indústrias e depois das reservas
financeiras para países emergentes.
As fragilidades atuais contribuem para
a integração global da
economia, dentro de um movimento que,
peço-lhes que observem, é
exatamente o oposto do que conhecemos
há dez anos, por ocasião
da crise financeira asiática:
hoje, são a Ásia e o Golfo
que vêm em socorro do Ocidente.
Mas a lição é a
mesma: a interdependência de nossas
economias é tal que nenhum país
pode mais agir sem levar plenamente
em conta o efeito de suas iniciativas
sobre a economia-mundo. Chegou a hora
para os principais atores, antigos e
novos, de um diálogo estreito,
talvez discreto, para tratar seriamente
as duas grandes fraquezas do sistema
internacional atual: a primeira é
a relação entre as principais
moedas, cujo desequilíbrio persistente
é perigoso para todos. Não
se trata de uma obsessão, mas,
aí também, de uma questão
de reflexão e bom senso e, como
dizem nossos amigos chineses, de desenvolvimento
harmonioso. Desejo que esse desenvolvimento
harmonioso seja aplicado às relações
entre as grandes moedas do mundo, que
precisam muito disso. E, por fim, a
segunda fraqueza de nosso sistema: a
ausência de transparência
e de regras suficientemente rígidas
para os fundos e produtos financeiros
que podem ser, em caso de acidente,
uma grave ameaça para todo o
mundo. O mundo não tem que pagar
pelas conseqüências de algumas
centenas de especuladores que fizeram
seja lá o que for. E nós
não temos que colocar o crescimento
do mundo em risco porque, em um determinado
momento, foram feitos empréstimos
a especuladores, ao invés de
fazê-lo a empreendedores.
Com
outros, a França tomará
a iniciativa a respeito desses temas
já nas próximas semanas.
Irei, aliás, a Londres em 29
de janeiro, tendo essa preocupação
em mente.
Como
os Senhores podem ver, Senhoras e Senhores
Embaixadores, decididamente, a fatalidade
não faz parte da política
francesa! Contem portanto com a França,
em 2008 e até mesmo depois, para
contribuir, com todas as suas forças,
para as mudanças necessárias
para que a transição atual
resulte em uma ordem mundial mais justa,
mais próspera, mais pacífica.
Quero
concluir agradecendo à equipe
das Relações Exteriores
que, em torno de Bernard Kouchner, Jean-Pierre
Jouyet, Jean-Marie Bockel e Rama Yade
[Secretária de Estado para as
Relações Exteriores e
os Direitos Humanos] faz um trabalho
que o Primeiro-Ministro e eu consideramos
totalmente pertinente, a serviço
de uma política internacional
à qual a França, como
os Senhores puderam compreender, não
estava disposta a renunciar a atribuir
uma dimensão universal. Muito
obrigado. Um bom ano a todos.
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