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Política Internacional e Diplomacia

VOTOS DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA FRANCESA,
NICOLAS SARKOZY, AO CORPO DIPLOMÁTICO PARA O ANO DE 2008

Paris, 18 de janeiro de 2008


Senhor Primeiro-Ministro,
Senhor Ministro das Relações Exteriores e Européias,
Senhoras e Senhores Ministros,
Senhoras e Senhores Embaixadores,

Dou-lhes as boas-vindas. Dirijo meus mais sinceros votos aos Senhores e a todos os seus familiares e peço-lhes que transmitam aos seus Chefes de Estado os desejos que formulo em sua intenção e na de seus países, que os Senhores tão bem representam na França.


Senhor Núncio,

Agradeço por suas palavras e peço-lhe que transmita a Sua Santidade o Papa Bento XVI, que teremos a honra de receber na França este ano, a expressão de minha sincera gratidão pela acolhida tão calorosa que me proporcionou há um mês no Vaticano.

Senhoras e Senhores Embaixadores,

Ao recebê-los esta tarde, não desejo voltar a fazer uma análise detalhada da situação do mundo e a descrição do papel da França que eu havia apresentado em 27 de agosto aos embaixadores franceses: os Senhores conhecem o texto; ele continua sendo atual. Considero de utilidade dizer-lhes hoje quais são as convicções e as reflexões que subentendem a ação internacional da França e apresentar aos Senhores as prioridades desta ação em 2008.

No fundo, uma convicção inspirou toda a minha vida política e me anima desde que os franceses confiaram-me o primeiro cargo do Estado: não fui eleito para me inclinar diante das fatalidades. Além disso, não creio em fatalidade. Fui eleito para criar oportunidades, para mudar a França através de um processo contínuo de profundas reformas. Fui eleito com a convicção de que a França possuía um papel importante, talvez até insubstituível, no cenário internacional. Fui eleito com a vontade, a mais completa determinação de agir, de conduzir uma política externa coerente, ambiciosa e eficaz.

A segunda convicção é a de que o ponto de partida dessa política externa deve ser uma análise lúcida, realista da posição que a França ocupa no mundo de hoje. Ora, se é relativamente fácil avaliar o que representa a França, é bem difícil definir o mundo deste início de século XXI e mais difícil ainda prever o que será dele nas próximas décadas.

Dois desafios contribuirão para estruturar a sociedade internacional do século XXI, talvez mais profundamente do que fizeram as ideologias no século XX.

O primeiro desafio é o da mudança climática, que ameaça o próprio futuro de nosso planeta e de toda a humanidade, que coloca a questão da gestão de recursos energéticos tornados raros e, portanto, caros, e mais difícil ainda, a de nossa capacidade para inventarmos, juntos, um novo modo de crescimento.

O segundo desafio é o das condições da volta da questão religiosa à maior parte de nossas sociedades. Trata-se de uma realidade que apenas os sectários não percebem. Trata-se de uma realidade incontornável que havia sido prevista por Malraux, em sua época. Em meu discurso de Saint-Jean de Latran, discurso pelo qual tenho muito apreço, Monsenhor, eu precisei a minha concepção de uma laicidade na qual o lugar da religião seria definido em termos mais positivos. Diante do Conselho Consultivo da Arábia Saudita, em Riad, nesta semana, fiz eco às palavras plenas de sabedoria do Rei Abdallah e defendi uma concepção aberta, tolerante da religião. Alguns grupos querem impor sua visão fundamentalista, hegemônica e intolerante. A forma mais extrema é a das redes terroristas globais, como a Al Qaeda, que sonham com uma confrontação entre o Islã e o Ocidente, para melhor ditarem sua lei a povos que, no entanto, só pedem para viver sua fé em paz.

O mundo, estou convencido disso, pode enfrentar esses dois desafios, mas com uma condição: encontrar o caminho da unidade. Aí está a grande questão: como chegar a essa unidade indispensável para enfrentar o desafio da mudança climática e o do lugar de uma religião tolerante no mundo? Como fazer para conseguir isso? E, acima de tudo, seremos capazes de fazê-lo?

Nós saímos das certezas simples do mundo bipolar, estável mas injusto, que nos impôs sua lei de 1945 a 1990. Alguns países pagaram caro, em termos de sofrimento, por esse mundo estável. Aliás, para mim, a estabilidade não é um objetivo de política externa. Eu desconfio disso. Em nome da estabilidade, aceitou-se o muro de Berlim; em nome da estabilidade, nada se diz de Yalta; em nome da estabilidade, considera-se que alguns povos têm direito à liberdade e outros só têm direito à ditadura. A estabilidade não é um objetivo, se essa estabilidade levar à perenidade de um sistema injusto. Mas nós não estamos mais no mundo unipolar que se esboçava entre 1991 e 2001. Palavras que soavam bem há apenas alguns anos, como “hiperpotência”, não são mais correntes hoje. Nem mesmo são mais empregadas. Nós entramos, sem dúvida pelas próximas três ou quatro décadas, em uma era de potência relativa. O crescimento econômico e político da China, da Índia e do Brasil, e o retorno da Rússia criam as condições objetivas para um novo concerto das grandes potências, de um mundo multipolar do qual a União Européia poderá tornar-se progressivamente um dos pólos mais ativos, se ela apenas tiver essa determinação.

Entre essas grandes potências do século XXI, resta ainda a inventar relações, inventar instituições que lhes possibilitem agir de modo eficaz pelo bem comum da Humanidade. As noções de inimigo ou adversário não são mais correntes entre elas. Toda a questão reside em se saber se é possível fazer com que prevaleçam acima das idéias de concorrência e rivalidade, a de parceria responsável. Toda a questão é saber se seremos capazes de construir para o século XXI uma nova ordem, mais adequada ao nosso mundo globalizado e aos desafios a serem enfrentados, onde todos os Estados, todos, grandes e pequenos, tenham o sentimento de que seus interesses são levados em conta eqüitativamente.

A essas questões fundamentais, eu desejo, juntamente com Bernard Kouchner [Ministro das Relações Exteriores e Européias], dar, em nome da França, respostas que marquem uma certa ruptura, eu o assumo, e que estejam inscritas em uma visão a meu ver coerente do papel da França.

Eu quis primeiramente situar a França, franca e claramente - e esta é a primeira ruptura – no seio da família ocidental. Em um mundo que perdeu as referências, onde a confusão tende a reinar precisamente porque empreendemos uma transição rumo a uma ordem que ainda está por ser inventada, parece-me ser essencial afirmar com clareza onde situa-se a França e quais são os valores que, para ela, são essenciais.

Esse reposicionamento não significa absolutamente um abandono ou um atentado a nossa independência ou a nossa liberdade de expressão e ação. Eu afirmei com veemência perante o Congresso dos Estados Unidos: a França é “um amigo dos Estados Unidos da América, um amigo bem apoiado nos pés, um aliado independente, um parceiro livre”. Ao situar-se claramente na família ocidental, a França – e era esse o meu objetivo – aumenta a sua credibilidade, a sua margem de ação, a sua capacidade de influência tanto no interior, quanto no exterior de sua família. Aliás, como se pode esperar ter influência em sua família se, ao mesmo tempo, não se tem mais aí o seu lugar, ou se os membros dessa família política não lhe depositam confiança? A capacidade de influência da França sobre a sua família ocidental está relacionada à clareza de seu engajamento e de suas escolhas.

Nossa prioridade absoluta no interior da família ocidental é a construção da União Européia. Graças ao Tratado Simplificado, após dez anos de um debate paralisante a respeito de suas instituições, a Europa encontra-se finalmente mais uma vez em marcha e a França retomou seu lugar no coração da União. Já era tempo e, em um novo posicionamento, a França assumiu seu lugar: além do entendimento franco-alemão, que é, mais do que nunca, essencial, eu quis logo de início estabelecer relações de trabalho estreitas e confiantes com a Comissão e com o Parlamento Europeu. Eu quis que a França estivesse à escuta e ao lado dos novos países-membros da Europa Central, que têm muito a nos oferecer e não sou daqueles que pensam que têm menos a dizer porque são os últimos a chegar à família. Ou se está na família, ou não se está. Se fazemos parte da família, temos o mesmo direito à palavra que os outros. Eu quis estreitar nossos laços, aliás, com nossos parceiros mediterrâneos.

Mas, todos sabem que a ambição francesa de ver emergir a União Européia como um ator global do século XXI suscitava desconfianças, especialmente na área da defesa. A França não estaria querendo enfraquecer e até destruir a Aliança Atlântica? A essa suspeita, eu quis dar uma resposta clara e o fiz perante o Congresso nos Estados Unidos. Diante da amplitude das ameaças e das crises, o desenvolvimento de uma Europa da defesa eficaz é uma necessidade estratégica. Esta é, portanto a minha prioridade para os próximos anos. Opor-se à Aliança Atlântica não tem o menor sentido. A Europa da defesa e a ancoragem atlântica são duas partes de uma mesma política de defesa e segurança.

É dentro desse contexto que a França pretende renovar sua relação com a OTAN. Precisamos agora pôr mãos à obra e a França fará propostas ao mesmo tempo pragmáticas e ambiciosas, com uma dupla perspectiva: a Presidência Francesa da União e a Reunião de Cúpula do 60º Aniversário da Aliança.

No exterior da família ocidental, em seguida, nosso reposicionamento, ao que me parece, reforçou nossa credibilidade e o peso de nossa mensagem. Foi o que ocorreu em Pequim, quando expus nossos pontos de vista sobre a necessidade de um reequilíbrio das relações entre as principais moedas, depois de ter falado a respeito anteriormente com os Estados Unidos, sendo imediatamente seguido, na China, pelos presidentes do Banco Central Europeu e do Eurogrupo e, depois, pelo da Comissão. Foi o que ocorreu quando, depois de ter consultado especialmente o Egito e a Arábia Saudita, e com os encorajamentos dos principais dirigentes envolvidos, decidi dar início a um diálogo a respeito do Líbano com o presidente sírio.

E isso me levou à segunda inovação que desejei introduzir em nossa política externa: espero que possamos conduzir uma diplomacia da reconciliação.

Nesse período de potência relativa marcado por uma contestação crescente da legitimidade das intervenções externas e um agravamento paralelo das divisões religiosas, étnicas e sociais, a França deve dialogar com todo o mundo. Ela deve procurar, com obstinação e pragmatismo, reduzir os fatores de tensão e progredir em direção a soluções de paz adequadas aos princípios que nos inspiram.

Este é o sentido do diálogo que reatamos, na África, com os presidentes de Ruanda, do Sudão e da Costa do Marfim. Este é o sentido da acolhida que proporcionei ao Presidente Chavez ou o coronel Kadhafi. Se não levássemos em conta gestos realizados pelo dirigente líbio ao renunciar às armas de destruição em massa sob controle internacional, ao renunciar ao terrorismo com indenização às vítimas, libertando as enfermeiras búlgara, que mensagem enviaríamos aos dirigentes da Coréia do Norte ou do Irã, quando buscamos convencê-los a pôr um fim à proliferação [de armas]? Isto significa ter um mínimo de coerência e coragem.

Mas devemos ser claros: essa diplomacia da reconciliação não é absolutamente uma diplomacia da complacência. Por estarmos francamente no coração de nossa família ocidental, é portanto com base em nossos valores e nossos princípios que conduzimos esses diálogos, fundados na clareza, na transparência e na firmeza. Foi com esse espírito que tomei a iniciativa em favor das enfermeiras búlgaras ou dos reféns da Colômbia, em particular de Ingrid Betancourt, que deve voltar para casa sem demora. Foi com esse espírito que me pronunciei em Pequim contra a pena de morte e pela liberdade de imprensa, ou em Moscou, pelo respeito aos direitos das minorias étnicas ou sociais. E quando as orientações autorizados de um diálogo não são respeitadas, ou quando esse diálogo não obtém os resultados esperados, cabe-me, com toda a clareza, agir em conseqüência disso. Foi o que fiz a propósito da Síria e do Líbano, que tem o direito a sua independência, ponto sobre o qual a França jamais transigirá e jamais renunciará.

A terceira inovação de nossa política externa diz respeito à noção, que me é muito cara, de diversidade, com seu corolário: a reciprocidade. Dediquei a isso a parte essencial de meu discurso em Constantine, na Argélia. Na Europa, Senhoras e Senhores, mais do que em qualquer outro lugar, nós vivemos, com o holocausto, o horror absoluto ao qual leva a negação do Outro, de sua diferença, seja ela étnica, religiosa ou cultural. A mesma negação do Outro levou ao genocídio de Ruanda.

Hoje, é no campo religioso, com o crescimento dos fundamentalismos, que vemos surgir a tentação da exclusão, do encarceramento e da negação do outro.

Tanto quanto o combate pela democracia, quero dizer que o combate pela diversidade, pela abertura, pela tolerância, pela aceitação do outro em sua diferença, parece-me ser fundamental. Ele é, de certa maneira, a condição prévia para a extensão das liberdades e o enraizamento da democracia. Aliás, não vejo como se pode pensar em enraizamento da democracia quando se começa por não aceitar a diferença.

Que fique bem claro: eu sou favorável ao desenvolvimento das religiões, assim como ao direito de cada um de não seguir nenhuma, ou de mudar. Esta é a minha concepção da laicidade. E foi nesse sentido que, na qualidade de ministro do Interior durante quatro anos, autorizei a abertura de um número sem precedentes de mesquitas na França, pois o Islã agora é a nossa segunda religião e deve-se dar a possibilidade a todos os que desejarem viver sua fé com dignidade e tolerância. Mais do que nenhum outro, contribuí para o surgimento de um Islã da França. E é exatamente por esta razão que defendo com a mesma convicção que, em terras do Islã, seja possível praticar sua religião, seja ela qual for, com dignidade e tolerância.

Como poderiam, aqueles que reivindicam a abertura de mesquitas na França, recusar a abertura de igrejas por toda parte onde esta seria justificada? A diversidade não é boa em nossa casa e é má nas dos outros. A diversidade está por toda parte. E, naturalmente, se a França quiser ser ouvida, que ela dê o exemplo e esteja pronta a fazê-lo. Mas a diversidade e a reciprocidade caminham juntas.

E, aliás, no fundo, o que está em questão no Líbano não é justamente a sobrevivência, como Estado soberano e independente, de um povo que, através da história, ofereceu ao mundo o mais belo exemplo de coabitação harmoniosa, com tolerância e respeito, entre as grandes religiões monoteístas? Se é o país que se quer fazer morrer, a França estará do lado desse país para ajudá-lo a viver. Porque o que está em jogo no Líbano vai mais além ainda do que apenas o Líbano.

A última inovação de nossa política externa diz respeito à construção de uma ordem mundial adequada ao surgimento de novas potências e capaz de tratar de modo eficaz os desafios do século XXI. Nas Nações Unidas, desejo um relançamento enérgico das reformas, a começar pela do Conselho de Segurança, que deve ser ampliado, como todos sabem, nas duas categorias de membros. E tudo deve ser feito para que o processo de Bali, único quadro legítimo para se tomarem decisões e concluir-se um acordo, resulte, em dezembro de 2009, na assinatura de um tratado à altura do colossal desafio ao qual toda a Humanidade está confrontada com o aquecimento climático.

A reforma do Fundo Monetário Internacional não é menos necessária e estou feliz que um francês tenha sido levado à sua direção para conduzir essa mudança indispensável; para refletir melhor na instituição o peso econômico das principais potências, especialmente das grandes economias emergentes; para tratar, por fim, espero, com outras instituições competentes, de temas fundamentais, como o da renda, Senhor Presidente Abdou Diouf, essa renda que coloquei no centro de minha primeira intervenção perante a Assembléia Geral das Nações Unidas, em setembro passado. As monarquias petrolíferas felizmente tomaram a iniciativa de criar um fundo para ajudar os países mais pobres a saldar a fatura energética e desejo que os grandes grupos de petróleo e de minas, que se beneficiam de lucros que se assemelham a uma renda, alimentem, por sua vez, um fundo semelhante. O objetivo não é nos dar prazer, é simplesmente refletir. Se, amanhã, países se revoltarem porque a pobreza e a injustiça se lhes tornarem insuportáveis, esses mesmos países que hoje têm lucros consideráveis serão os primeiros a ver as fontes de lucro destruídas. Não é proibido refletir neste início de século XXI a respeito do que é uma ordem mundial, política e econômica, razoável.

E eu o afirmo com a mesma veemência: o G-8 também deverá mudar. Ele continua sendo um instrumento incomparável de diálogo informal e impulsão. Mas, quem não vê que esse G-8 deve ser ampliado à China, à Índia, ao Brasil, ao México e à África do Sul, que, aliás, reuniram-se formando o G-5? Concordamos, mas progressivamente. Façamos em três vezes o que poderia ser feito em uma só vez, já que se deve ser paciente. E quem não percebe que a paciência justifica tantos dramas pelo mundo, quando já é mais do que hora de agir? É preciso tempo, é o que se diz. Mas eu espero que, já na próxima reunião de cúpula, no início de julho, no Japão, possamos dar um passo significativo nessa direção.

Estou convencido de que, ao manifestar essa posição, a França expressa uma posição de bom senso. Como falar das questões do mundo ignorando nada menos do que dois bilhões e meio de habitantes do mundo? Podemos refletir: a França não está nas mãos de qualquer país quando se faz de advogada da China, da Índia, do Brasil, do México e da África do Sul. Mas, francamente, ir falar das grandes questões do mundo sem ter à mesa um único país africano, sem ter à mesa um único país da América do Sul? Se refletirmos um pouquinho, veremos que, ao ignorarmos a Índia e a China, devemos nos dizer que é incivelmente divertido que as coisas funcionem apesar de tudo. Eu disse isso assim, de maneira franca, porque é o que penso profundamente.

Senhoras e Senhores Embaixadores,

Dentro desse contexto, quais devem ser as prioridades da ação internacional da França em 2008?

Em primeiro lugar, a União Européia, com, após a de nossos amigos eslovenos, a Presidência Francesa no segundo semestre, e quero saudar aqui, Caro Jean-Pierre Jouyet [Secretário de Estado para os Assuntos Europeus], a Presidência de nossos amigos eslovenos. Além da preparação da implementação do Tratado Simplificado e dos trabalhos referentes à defesa, com Bernard Kouchner e Jean-Pierre Jouyet, desejamos que a Europa faça progressos nas áreas que preocupam os europeus. E se, agora, a Europa se colocasse a serviço dos povos da Europa?

O clima, em relação ao qual a União deverá esclarecer a maneira como pretende enunciar os compromissos dos 27 países-membros para garantir o sucesso da negociação de Bali. Com o “Grenelle” do meio ambiente, a França engajou-se na invenção de um novo modelo de crescimento; esta é uma iniciativa semelhante à que deveríamos adotar em nível europeu. Aliás, qual seria o peso da palavra da França se ela dissesse aos outros, especialmente a nossos amigos americanos: façam o que somos capazes de fazer? Queremos fazê-lo estabelecendo regras mais severas para nós do que para os outros, para levá-los a nos acompanhar, porque – não repitam isso – nós habitamos o mesmo planeta, e o aumento do nível dos oceanos levará todos nós, se não tomarmos cuidado.

A energia será uma outra prioridade, para garantir mais a nossa solidariedade através da interconexão crescente das redes e nossa independência desenvolvendo sistematicamente a diversificação de nossas produções, assim como a de nossos fornecedores.

A imigração não é uma palavra grosseira, com a aprovação pelos 27 [países-membros da U.E.] de um “pacto europeu” que defina grandes princípios, estabeleça objetivos, como um regime europeu de asilo e implemente ações comuns.

Por fim, a agricultura, para a qual estamos buscando, ainda este ano, um acordo sobre os princípios que permitam uma verdadeira “refundação” da PAC [Política Agrícola Comum] do pós-2013.

A União deverá também assumir mais as suas responsabilidades internacionais, do Chade com o envio da força européia em fevereiro, aos Bálcãs, com a delicada gestão da transição no Kosovo. Porque o statu quo na região não é mais viável e porque todas as vias de negociação foram exploradas, sem a menor sombra de sucesso. A União deverá implementar, em unidade e com firmeza, a única solução aplicável: a que está sobre a mesa. Mas ela também terá que oferecer aos países da região, especialmente na Sérvia, perspectivas credíveis de aproximação e integração na família européia. Eles são europeus e é preciso agir em conformidade com isso.

2008 também será o ano do lançamento de um grande projeto de civilização: a União pelo Mediterrâneo, a fim de tornarmos vivos, entre os povos dessa região, o diálogo e a cooperação, com base em projetos concretos. A reunião de cúpula proposta em Paris, nos dias 13 e 14 de julho, com a presença de todos os membros da União, possibilitará a abertura dos primeiros trabalhos concretos.

Essa grande ambição será facilitada se, como foi previsto em Annapolis, 2008 tornar-se o ano da criação do Estado Palestino, ao lado do Estado de Israel.

Digo 2008 porque não vejo, também nesse aspecto, por que esperar. Mais de um século de sofrimentos, de todos os lados, não seriam suficientes para decidirmos, enfim, passar à ação? Não subestimo as dificuldades, mas será que se acredita que, em dez anos, as dificuldades serão menores? Elas serão piores. E o sucesso estrondoso da conferência de doadores, de Paris, demonstrou a expectativa e o engajamento de toda a comunidade internacional. Irei ao Oriente Médio na primavera para afirmar com veemência nosso apoio aos dois principais negociadores: o Primeiro-Ministro Ehud Olmert e o Presidente Mahmoud Abbas, com uma mensagem simples: a paz é possível! Seus dois povos esperam por isso! Portanto, assumam todos os riscos a serviço da paz! É, sem dúvida, mais positivo assumir todos os riscos a serviço da paz, do que acumulá-los a serviço da guerra. Também é agora que se deve fazer com que o Líbano saia de uma crise que não chega ao fim, e essa crise não tem fim – darei os nomes aos bois – porque é alimentada do exterior. A Liga Árabe aprovou por unanimidade um plano de resolução que vem inteiramente ao encontro das idéias apresentadas pela França. É preciso, com base nisso, que cada um assuma suas responsabilidades, tanto no interior quanto no exterior do país, e que a comunidade internacional julgue cada ator por seus atos. A França permanecerá engajada ao lado dos libaneses, de todos os libaneses.

A respeito do Irã e seu programa nuclear, os Senhores conhecem a posição da França. Nada do que ocorreu desde então leva-me a modificar meu julgamento e, portanto, a abordagem da França. Essa abordagem é feita de firmeza, pois as sanções são necessárias para convencer os dirigentes iranianos a voltar à mesa de negociações e, ao mesmo tempo, de diálogo, empreendido em meu nível, pois nosso objetivo não é absolutamente a mudança de regime, mas, ao contrário, a inserção do Irã, em sua região, em ator positivo, desde que respeite a lei internacional. Isto é de seu interesse, assim como é de seu interesse acalmar hoje as tensões entre sunitas e chiitas, do Iraque ao Líbano, ou evitar amanhã uma nova “talibanização” do Afeganistão, que não precisa verdadeiramente disso.

Evoquei há alguns instantes nosso mundo em transição, no qual dois grandes desafios, o do clima e o do extremismo religioso, poderiam bem encarregar-se de estruturar a sociedade internacional em torno do confronto. É isto que pode vir a acontecer se os países envolvidos, por cálculo ou por miopia, não conseguirem tratar em unidade o desafio da Al Qaeda. Estou convencido de que os desdobramentos no Paquistão ou no Afeganistão, as ameaças globais que isso traz, pedem um diálogo entre todas, reafirmo, todas as potências que possam ter um peso no bom curso das coisas. Nós precisamos de todo o mundo.

Em comum acordo com o Presidente Karzai, a França sediará a próxima conferência de apoio ao Afeganistão e reforçará, nessa ocasião, seu compromisso. Agradeço a Bernard Kouchner por essa iniciativa. A França tomará essa iniciativa ao lado do Paquistão, gravemente desestabilizado após o monstruoso assassinato de Benazir Bhutto e receberei o presidente Musharraf em Paris dentro de alguns dias.

Existe, por fim, um continente que ocupa um lugar à parte no coração dos franceses: a África. Mais do que qualquer outro país europeu, a França está muito próxima a ela. Talvez seja essa mesma proximidade que nos torne difícil uma constatação simples: a África mudou e a relação da França com a África também deve mudar. É claro que a França permanecerá como a mais determinada advogada da África na Europa e nas grandes instituições internacionais. A França lutará para que sejam duradouros os progressos da paz, dos direitos humanos, do crescimento econômico indissociáveis dos Objetivos do Milênio. Mas, localmente, desejo uma ação mais próxima à sociedade civil, deliberadamente voltada para a juventude, preocupada em atender às suas expectativas. Espero de nossos embaixadores propostas precisas com relação a isso e Jean-Marie Bockel [Secretário de Estado para a Cooperação e a Francofonia] fará a sua síntese.

Desejo também implementar essa diplomacia da reconciliação que me é tão cara em relação a Angola, aonde me dirigirei em breve, para selar, juntamente com o Presidente Santos, os reencontros franco-angolanos; com Ruanda, com a esperança de que 2008 seja o ano do restabelecimento de nossas relações; no Sudão e no Chade, onde, juntamente com Bernard Kouchner, estamos trabalhando sem descanso pela solução duradoura da crise. Existe bastante pobreza nessa região do mundo para que o Chade e o Sudão decidam coexistir pacificamente; na Costa do Marfim, onde a realização de eleições livres e garantidas pela ONU abriria o caminho para uma normalização que todos desejam.

2008, enfim, será um ano de grande incerteza no que se refere à evolução da economia mundial, com os efeitos acumulados da crise das “subprimes” e do aumento dos preços das matérias-primas, especialmente energéticas. Esta é, para mim, uma razão suplementar para acelerarmos as reformas, tanto na França quanto no âmbito internacional, para provocar o retorno da confiança e do crescimento. É nisso que nos empenhamos, François Fillon [Primeiro-Ministro] e eu. Vejo nos riscos econômicos internacionais uma necessidade a mais de reformarmos rapidamente a França. E não uma necessidade a menos. Não estamos reformando porque existe crescimento, ou porque é fácil. Reformamos justamente porque existem dificuldades. E, portanto, quanto mais dificuldades existirem, mais reformas implementaremos, mais será preciso modernizarmos nosso país.

No espaço de uma geração, nós assistimos finalmente a um reequilíbrio sem precedentes da repartição da riqueza mundial, com a transferência acelerada das indústrias e depois das reservas financeiras para países emergentes. As fragilidades atuais contribuem para a integração global da economia, dentro de um movimento que, peço-lhes que observem, é exatamente o oposto do que conhecemos há dez anos, por ocasião da crise financeira asiática: hoje, são a Ásia e o Golfo que vêm em socorro do Ocidente. Mas a lição é a mesma: a interdependência de nossas economias é tal que nenhum país pode mais agir sem levar plenamente em conta o efeito de suas iniciativas sobre a economia-mundo. Chegou a hora para os principais atores, antigos e novos, de um diálogo estreito, talvez discreto, para tratar seriamente as duas grandes fraquezas do sistema internacional atual: a primeira é a relação entre as principais moedas, cujo desequilíbrio persistente é perigoso para todos. Não se trata de uma obsessão, mas, aí também, de uma questão de reflexão e bom senso e, como dizem nossos amigos chineses, de desenvolvimento harmonioso. Desejo que esse desenvolvimento harmonioso seja aplicado às relações entre as grandes moedas do mundo, que precisam muito disso. E, por fim, a segunda fraqueza de nosso sistema: a ausência de transparência e de regras suficientemente rígidas para os fundos e produtos financeiros que podem ser, em caso de acidente, uma grave ameaça para todo o mundo. O mundo não tem que pagar pelas conseqüências de algumas centenas de especuladores que fizeram seja lá o que for. E nós não temos que colocar o crescimento do mundo em risco porque, em um determinado momento, foram feitos empréstimos a especuladores, ao invés de fazê-lo a empreendedores.

Com outros, a França tomará a iniciativa a respeito desses temas já nas próximas semanas. Irei, aliás, a Londres em 29 de janeiro, tendo essa preocupação em mente.

Como os Senhores podem ver, Senhoras e Senhores Embaixadores, decididamente, a fatalidade não faz parte da política francesa! Contem portanto com a França, em 2008 e até mesmo depois, para contribuir, com todas as suas forças, para as mudanças necessárias para que a transição atual resulte em uma ordem mundial mais justa, mais próspera, mais pacífica.

Quero concluir agradecendo à equipe das Relações Exteriores que, em torno de Bernard Kouchner, Jean-Pierre Jouyet, Jean-Marie Bockel e Rama Yade [Secretária de Estado para as Relações Exteriores e os Direitos Humanos] faz um trabalho que o Primeiro-Ministro e eu consideramos totalmente pertinente, a serviço de uma política internacional à qual a França, como os Senhores puderam compreender, não estava disposta a renunciar a atribuir uma dimensão universal. Muito obrigado. Um bom ano a todos.

 


 
 

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