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Política Internacional
e Diplomacia |
SEMINÁRIO
GOVERNAMENTAL DE PREPARAÇÃO
PARA A PRESIDÊNCIA FRANCESA DA
UNIÃO EUROPÉIA
ENTREVISTA
COLETIVA DE IMPRENSA DO PRIMEIRO-MINISTRO
FRANCÊS, FRANÇOIS FILLON,
DO MINISTRO FRANCÊS DAS RELAÇÕES
EXTERIORES E EUROPÉIAS, BERNARD
KOUCHNER
E DO SECRETÁRIO DE ESTADO FRANCÊS
PARA OS ASSUNTOS EUROPEUS, JEAN-PIERRE
JOUYET
-
TRECHOS -
Rambouillet, 17 de novembro
de 2007
Fillon: Acabamos de realizar o primeiro
seminário governamental de preparação
para a Presidência Francesa da
União Européia. Digo o
primeiro porque haverá outros.
Esse seminário foi dedicado especialmente
ao método de preparação
da Presidência Francesa. Nós
debatemos também a respeito das
prioridades da Presidência, depois
ouvimos a Presidência Alemã
e a Presidência Portuguesa sobre
as suas experiências.
Essa Presidência
Francesa é evidentemente muito
importante e sente-se que está
sendo esperada. Ela é importante
porque a França, depois de ter
contribuído amplamente para colocar
a Europa numa situação
de crise, contribuiu para a saída
dessa crise graças à negociação
do Tratado Simplificado. Todos esperam
ver hoje como ela irá implementar
ou participar da implementação
desse tratado, como irá se inscrever
nas prioridades da agenda européia,
como irá conduzir suas próprias
prioridades nessa agenda e como irá
dar continuidade a duas presidências
muito bem-sucedidas, como a Presidência
Alemã e a Presidência Portuguesa.
Obter sucesso na Presidência é,
em primeiro lugar, prepará-la
agora, o que, aliás, nos disseram
em uníssono os Srs. Steinmeier
e Amado.
O comissário
Jacques Barrot e o deputado europeu
Alain Lamassoure deram-nos todos os
conselhos necessários a esse
respeito. O Ministro das Relações
Exteriores alemão apresentou
a experiência da Presidência
Alemã e o Sr. Amado apresentou
o desenvolvimento da atual Presidência
Portuguesa. É muito importante
que ministros europeus participem da
preparação de nossa Presidência.
Aliás, estamos recebendo para
o almoço que será realizado
após esta entrevista Dimitri
Rupel, Ministro das Relações
Exteriores esloveno (os eslovenos estão
assumindo a Presidência a partir
do mês de janeiro), o Vice-Primeiro-Ministro
tcheco e a Srª Mamlmström,
Ministra sueca das Relações
Exteriores.
Evidentemente, falamos
das questões de fundo e das prioridades
da Presidência Francesa, que os
Senhores conhecem: a energia, o meio
ambiente, o clima, as migrações,
a defesa européia, talvez mais
amplamente a política de segurança
externa e interna, a preparação
da implementação do Tratado
a partir do início de 2009, portanto
um dossiê comum às Presidências
eslovena e francesa, conforme o desejo
do Presidente da República [Nicolas
Sarkozy], evocado especialmente no discurso
que pronunciou em Rennes, de lançar
durante a Presidência Francesa
os primeiros debates sobre o futuro
das políticas após 2013
e, em particular, sobre o futuro da
Política Agrícola Comum.
Essas grandes prioridades, ao mesmo
tempo que outros temas essenciais que
permanecem ao longo das presidências
sucessivas, como a competitividade e
o crescimento na Europa, devem chegar
a resultados concretos durante a Presidência
Francesa. É por esta razão
que temos o dever de dialogar já
a partir de hoje com outros países-membros,
com o Parlamento Europeu, que agora
é um parceiro essencial da Presidência,
daí a importância do discurso
que o Presidente da República
pronunciou na terça-feira passada,
juntamente com a Comissão, naturalmente.
Foi por todas essas razões que
quisemos associar a este seminário
um comissário, um parlamentar
europeu e ministros europeus que representem
as presidências precedentes e
seguintes.
Estamos, portanto,
trabalhando. Daremos prosseguimento
ao trabalho de definição
dos objetivos precisos da Presidência
Francesa, iniciaremos um trabalho de
sensibilização dos territórios
para associar as coletividades locais
à Presidência Francesa
e, em seguida, reuniremos novamente
o governo nessa formação
de modo regular para que cada membro
do governo esteja inteiramente associado
à implementação
da Presidência Francesa. Vou dar
a palavra agora aos Srs. Kouchner e
Jouyet, que serão os artesãos
do sucesso dessa Presidência.
Kouchner: Tudo isso
é realmente necessário.
Nós sentimos uma necessidade
de escutar os outros, os dois presidentes,
as presidências bem-sucedidas
que foram a alemã e a portuguesa.
Nada substitui a experiência.
Sentimos bem que, mesmo tendo preparado
tudo da melhor forma possível
com os parceiros, a Comissão,
o Conselho, todos os parceiros nacionais,
com a população, com os
eleitos, com as regiões, nos
encontraremos diante das crises sucessivas
relatadas com muita humanidade e vivacidade
por nossos amigos. O número de
crises internacionais que demonstram
a necessidade de uma Europa estável
existe às dezenas por presidência.
Será difícil, será
um trabalho árduo e acho que
aqueles que passaram por isso irão
escrever, cada um, um bom número
de livros interessantes. Haverá
200 reuniões, mais as reuniões
de surpresa, mais o que se manifestará
sem que saibamos: reuniões internacionais,
reuniões de conselho, etc. Trata-se
de um esforço muito importante
e desejamos que a Presidência
Francesa seja um sucesso. Uma última
observação: precisamos
inventar nossa própria motivação,
eu diria até quase a nossa própria
crise, porque os alemães e os
portugueses souberam superar a “pane”
européia, depois o Tratado Simplificado
que foi preciso propor, explicar e impor
no que se refere aos alemães
e, em seguida, a conferência intergovernamental,
que conseguiu redigir a partir desse
tratado discutido à noite em
Bruxelas, o que representou um sucesso
extraordinário dos portugueses.
Nós, juntamente com nossos amigos
eslovenos - porque não podemos
nos esquecer de que há uma Presidência
Eslovena que começa em 1º
de janeiro, mas que é acompanhada
da Presidência Francesa - sob
o ponto de vista das relações
e dos contatos internacionais, estamos
trabalhando a partir de 1º de janeiro
com 110 embaixadores franceses que representarão
as duas presidências, a primeira
(6 meses) eslovena e depois a francesa.
Somos praticamente obrigados a nos lançar
a partir de 1º de janeiro. O essencial
será impormos um interesse e
não nossos temas.
Nossa ambição
será despertar novamente o interesse
e fazer com que os franceses, as regiões,
as cidades nas quais teremos a oportunidade
de apresentar seja reuniões temáticas,
ministério por ministério,
seja – e isto é ainda mais
ambicioso – propor-lhes que sua
vida cotidiana leve em conta o que a
Europa proporcionou. O Primeiro-Ministro
insistiu bem nesse aspecto: é
preciso que este seja um impulso popular,
um interesse popular.
Jouyet: O que posso
dizer a respeito é que este foi
um seminário de sensibilização,
mas também de mobilização,
o que era importante e necessário,
como deixou bem claro o Primeiro-Ministro
a todo o governo. O segundo ponto, efetivamente,
é a importância do diálogo
e da escuta em nível europeu
com as instituições. Também
nesse aspecto trata-se de uma espécie
de ruptura com relação
às práticas anteriores
da França. Isso foi muito fortemente
destacado com relação
à Comissão, o Parlamento
Europeu, o Conselho, mas também
nossos parceiros. É por essa
razão que o Presidente da República
e o Primeiro-Ministro irão visitar
todos os nossos parceiros antes da Presidência
Francesa. Este é um elemento
essencial. É também por
essa razão que Bernard Kouchner
e eu dividiremos as visitas a esses
parceiros, que receberemos, aliás,
regularmente, e que todos os colegas
do governo devem tomar essa mesma iniciativa
de explicação e escuta
junto a esses parceiros. Por fim, o
último ponto: é importante
que essa presidência seja uma
presidência cidadã, ou
seja, como afirmou Bernard Kouchner,
que nossos concidadãos estejam
envolvidos na Presidência, mas
também em sua preparação.
Para tanto, organizaremos um certo número
de convenções em nível
regional, antes da Presidência
Francesa e durante essa Presidência
Francesa, para que haja um diálogo
entre cidadãos, os representantes
políticos locais, que terão
um papel importante nesse contexto,
as empresas, os parceiros sociais e
os representantes europeus, para que
haja esse diálogo e esse retorno
da Europa à França. Pois
trata-se do primeiro grande encontro
desde o fracasso do referendo em 2005
entre a França e a Europa.
(...)
Pergunta: Eu gostaria
de perguntar duas coisas: como irá
se articular o debate sobre a ratificação
do Tratado com essa presidência?
Os Senhores já têm um calendário
para o início do ano. Esse debate
vai interferir efetivamente na preparação
da campanha, as duas coisas serão
conduzidas de frente? Em segundo lugar,
os desacordos existentes em matéria
orçamentária sobre o BCE,
especialmente com a Alemanha e outros
e, algumas vezes, com Bruxelas, não
vão terminar por causar problemas
também para a Presidência
Francesa?
Resposta – Fillon:
(...) Sobre o calendário, é
muito simples: a partir de 14 de dezembro
iniciamos o processo de ratificação
por via parlamentar. Ele vai se desenrolar
durante todo o mês de janeiro
e o início do mês de fevereiro,
para resultar numa ratificação
definitiva no início de fevereiro.
O calendário está estabelecido,
a regra do jogo é conhecida.
Esperamos apenas a decisão formal
do dia 13 para lançar o processo.
Vai haver efetivamente, em paralelo,
os debates do Parlamento e a preparação
da Presidência Francesa.
Jouyet: Sobre o segundo
ponto, como lembrou o Primeiro-Ministro
esta manhã, devemos ser exemplares
tanto a respeito do conjunto de nossos
compromissos, o que vale na área
a que se referiu, mas também
em outras áreas: a transposição
das diretivas, a redução
dos contenciosos, isso também
foi dito esta manhã. Quanto ao
resto, nós teremos a Presidência
Francesa para implementar novas disposições
do Tratado. O Primeiro-Ministro falou
particularmente de uma maior formalização
do Eurogrupo e, nesse contexto, de se
dar efetivamente uma atenção
maior a tudo o que é coordenação
das políticas econômicas,
os diálogos com o Banco Central
Europeu. Quanto a este último
ponto, como se viu... a última
declaração do Eurogrupo
mostra que o Banco Central Europeu também
está consciente dos movimentos
desordenados e brutais que podem existir
no mercado de câmbio e que continuam
preocupando.
P.: Senhor Primeiro-Ministro,
o Senhor mencionou algumas prioridades.
O Senhor poderia falar um pouco mais
sobre energia, imigração
e defesa?
R. – Fillon:
Sobre a energia existem dois temas:
o da organização do mercado
da energia no interior da União
Européia que, como se sabe, tem
suscitado debates a respeito de se separar
as redes e a produção.
Trata-se de um debate que irá
avançar durante a Presidência
Eslovena e, talvez, durante a Presidência
Francesa. Para nós, há
um segundo debate relativo à
energia sobre a segurança dos
abastecimentos energéticos da
Europa. A posição que
a França defende hoje é
a de que a prioridade é a segurança
dos abastecimentos, ao invés
da separação das redes
e da produção. Isso não
significa que essa separação
das redes e da produção
não possa ser examinada futuramente.
Mas nós dizemos hoje que o essencial
para a Europa é ter uma visão
clara de seus abastecimentos energéticos
e garantirmos a segurança desses
abastecimentos. Quanto à questão
da imigração, o tema é
simples: a Europa vem sendo submetida
a ondas de imigração cada
vez maiores. Muitos países que
antes não tinham imigração
e não tinham portanto preocupação
nessa área, hoje passaram a ter
e a opinião pública está
extremamente preocupada com essa questão.
Nós estabelecemos regras de livre
circulação, pelo menos
numa parte do território da União
Européia, no espaço de
Schengen. A partir do momento em que
existe uma livre circulação
no espaço de Schengen, deve haver
regras comuns, como por exemplo regras
comuns para a concessão de vistos,
regras comuns para a instauração
do direito de asilo, regras comuns sobre
a questão da regularização
ou ao menos uma informação
comum sobre a questão da regularização
dos sem-documentos. Quando os sem-documentos
forem regularizados na Espanha, eles
poderão em seguida deslocar-se
livremente no espaço de Schengen,
visitar outros países da União.
O mínimo necessário é
que haja uma informação
mútua e uma coordenação
das políticas nessa área.
Sabemos bem que existem países
europeus mais ou menos envolvidos com
essas questões e que não
têm a mesma sensibilidade a respeito
desses assuntos. O que queremos tentar
fazer durante a Presidência Francesa
da União Européia é
conseguirmos ao menos fazer com que
haja uma carta comum que permita avançarmos
progressivamente em direção
a uma harmonização das
legislações nos diferentes
países. A respeito da defesa,
a problemática é simples:
vemos todos os dias que a Europa é
chamada a participar da resolução
de crises no mundo e ninguém
pode considerar hoje que a Europa não
tenha seu lugar na resolução
das crises internacionais. É
preciso que a Europa tenha uma política
de segurança comum e instrumentos
capazes de garantir essa segurança.
Esse debate é difícil
e eu não digo absolutamente que
estaremos em condições
de resolver isso durante a Presidência
Francesa, mas que gostaríamos
de fazer com que isso avance. O Presidente
da República, em particular,
por ocasião de sua viagem aos
Estados Unidos, mostrou que a França
podia abrir-se para a política
transatlântica, desde que houvesse
ao mesmo tempo progressos na política
de defesa européia. No fundo,
trata-se, com relação
à situação passada,
de não mais colocar em oposição
a relação transatlântica
e a autonomia de que a Europa deverá
dotar-se em matéria de defesa,
mas, ao contrário, conduzir as
duas políticas conjuntamente.
Digo claramente, aliás, que só
poderemos avançar se conduzirmos
as duas políticas conjuntamente.
Não haverá progresso a
respeito da relação transatlântica
se não houver progressos, ao
mesmo tempo, a respeito da uma grande
autonomia da Europa em matéria
de segurança. Estes são
os princípios que tentaremos
defender durante a Presidência
Francesa, sabendo que se trata de um
tema muito difícil, mas sobre
o qual talvez possamos avançar,
porque a situação tanto
geopolítica, quanto no interior
de nossos próprios países
parece-nos propícia a avanços
nessa área.
P.: Tradicionalmente,
a Presidência da França
gera uma expectativa com relação
aos temas sociais. Será que durante
essa presidência que já
se anuncia serão avançadas
algumas prioridades a respeito dessas
questões? Porque até o
momento não vemos nada.
R. – Jouyet:
Os Senhores não estão
olhando bem. O que será colocado
em destaque diz respeito justamente
às novas realidades sociais,
ou seja, tudo o que diga respeito à
“flexsegurança” também
será visto durante a Presidência
Francesa. Em segundo lugar, existe uma
agenda social inserida no quadro do
programa legislativo da Comissão
e nós trabalharemos com base
nessa agenda social. Nós faremos
com que o diálogo social entre
os diferentes parceiros possa se intensificar
em nível europeu. Além
disso, favoreceremos tudo o que for
relativo à forma de se tratar
a questão da mobilidade: mobilidade
dos assalariados no seio da União
Européia, que está cada
vez mais integrada, e também,
com relação aos mais jovens,
fazendo com que particularmente as iniciativas
do programa ERASMUS sejam o mais amplas
possível, seja qual for o nível
de qualificação, de diploma
universitário ou escolar dos
jovens e que isso torne-se verdadeiramente
um direito. Estas serão as três
principais orientações,
nesse estágio, que poderão
ser desenvolvidas durante a Presidência
Francesa.
P.: Senhor Primeiro-Ministro,
como os Senhores vêem as coisas
se o referendo irlandês disser
não ao futuro Tratado?
R.- Kouchner:
Seria lamentável. Ouçam,
não vamos vender a pele do urso
antes de tê-lo morto. Existe um
Tratado que parece ter sido aceito por
todos em Lisboa, pelo menos em nível
teórico, que será chamado,
aliás, de Tratado de Lisboa.
Alguns países querem ratificá-lo...
sob a forma de referendo, ou após
um debate parlamentar e uma votação.
Estaremos na Presidência da União
Européia durante 6 meses (e talvez
pela última vez, aliás).
O investimento político não
é proibido e nós faremos
tudo para que cada um dos países
possa contar com os outros para fazer
com seja aceito o que foi, de certa
forma, uma bóia lançada
à Europa. Não sou pessimista
quanto a isso, acho que existem muitas
chances para que o conjunto dos 27 países
aceite esse Tratado de Lisboa.
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